LOGINA cabana estava em desordem.
Papéis espalhados pelo chão. Uma cadeira caída. Uma garrafa aberta sobre a mesa. Roupas lançadas perto da cama. E Nyra. Ela estava deitada sobre o colchão, nua sob um lençol branco. Os cabelos se espalhavam pelo travesseiro. O rosto estava virado para o lado. Um homem a abraçava por trás. Pele pálida. Cabelos escuros. Um braço envolvendo a cintura dela por baixo do lençol. O cheiro de vampiro estava sobre a pele de Nyra. Nos lençóis. No lugar onde Theron havia descoberto o gosto dela. O lobo explodiu. O rugido fez as janelas tremerem. O vampiro abriu os olhos. Viu Theron. Tentou se levantar. Não teve tempo. Theron atravessou o espaço entre eles antes que o homem conseguisse afastar o lençol. Sua mão fechou-se em torno do pescoço do vampiro e o arrancou da cama. Nyra se mexeu. O vampiro tentou golpeá-lo. Theron não sentiu o impacto. Não sentia nada além de ódio. Jogou o inimigo contra a parede com força suficiente para quebrar a madeira. O vampiro caiu, mas tornou a avançar, exibindo as presas. O lobo de Theron tomou seus olhos. Ele o atingiu outra vez. Ouviu ossos se partindo. O vampiro tentou dizer alguma coisa. Theron não permitiu. Agarrou-lhe a cabeça com as duas mãos e torceu. O estalo atravessou a cabana. Ainda não foi suficiente. Tomado pela fúria do lobo, Theron puxou até separar a cabeça do corpo. Sangue escuro atingiu o chão. O corpo desabou. O silêncio que veio depois pareceu impossível. Theron permaneceu parado, respirando com dificuldade, segurando a cabeça do inimigo. Então ouviu uma voz fraca atrás de si. — Theron... Ele fechou os olhos. Aquela voz. A mesma que poucas horas antes havia dito que o amava. Theron soltou o que segurava. A cabeça do vampiro atingiu o chão. Virou-se devagar. Nyra estava acordada. Os olhos pareciam pesados. Confusos. Ela segurava o lençol contra o corpo e tentava se sentar. Olhou para Theron. Depois para o sangue. Para o corpo junto à parede. Para os soldados que começavam a entrar. — O que... Nyra levou a mão à cabeça. Theron a encarou. Queria avançar. Queria cobri-la. Queria arrancá-la daquela cama e levá-la para longe dos olhares de todos. Mas o cheiro do vampiro continuava nela. — Diga que isso não é verdade. Sua voz saiu irreconhecível. Nyra ergueu os olhos. — Theron... — Diga. Ela olhou ao redor como se não reconhecesse a cabana. — Eu não... Malrik entrou. Outros homens vieram atrás dele. O Primeiro Ancião parou diante dos papéis espalhados pelo chão. Abaixou-se e apanhou um deles. Seu rosto perdeu a cor. — Meu Alpha. Theron não desviou os olhos de Nyra. — O quê? Malrik aproximou-se e estendeu o documento. Theron pegou-o. Era um mapa da fronteira norte. Havia marcas nos postos de patrulha. Horários escritos ao lado de cada torre. Uma passagem estreita estava circulada. A mesma usada pelos vampiros naquela manhã. Theron olhou para os outros papéis. Mais mapas. Relatórios militares. Informações que pertenciam aos arquivos de Valcrest. Documentos aos quais a Casa Everhart tinha acesso por causa da posição de Garrick como comandante das forças do norte. — Não — Nyra murmurou. Theron voltou-se para ela. Nyra olhava para o papel em sua mão. — Eu nunca vi isso. Uma voz surgiu atrás dele: — Foi assim que atravessaram a fronteira. Outra respondeu: — Sabiam exatamente onde atacar. — A Luna nos traiu. — Traidora. As vozes começaram a se misturar. Nyra tentou sair da cama. O lençol prendeu-se entre suas pernas. Ela cambaleou assim que colocou os pés no chão. Theron deu meio passo em sua direção. Parou. Nyra tentou agarrar a beirada da cama, mas seus braços não sustentaram o peso do corpo. Ela caiu de joelhos. — Theron... Theron a observou no chão. A mente recusava-se a unir as duas imagens. A mulher que o beijara naquela manhã. A mulher encontrada nua com um vampiro. Malrik segurou outro documento. — Meu Alpha, essas informações não poderiam ter sido reunidas em poucas horas. Isso vinha sendo preparado a meses. — Cale-se — Theron rosnou. O ancião obedeceu. Mas os soldados continuavam olhando. Theron sentia o julgamento deles. A humilhação. Todos haviam encontrado sua Luna naquela cama. Todos sentiam o cheiro do inimigo. Todos viam as rotas entregues aos vampiros. Nyra tentou se levantar outra vez. Caiu. — Theron, olhe para mim. Ele já estava olhando. Talvez esse fosse o problema. Ainda enxergava a menina que o seguia pela floresta. A jovem que descobrira o vínculo ao lado dele. A mulher que dormira em seus braços naquela manhã. E, sobre todas elas, via aquela cena. O vampiro abraçando-a. Os documentos no chão. O sangue dos guerreiros que haviam morrido na fronteira. — Eu não fiz isso — disse Nyra. A voz dela falhou. — Não sei como ele chegou aqui. Não sei o que são esses papéis. Eu vim porque pensei que você estivesse me esperando. Theron quis acreditar. Seu lobo quis se lançar aos pés dela. Mas os sentidos de um lobo não mentiam. O cheiro estava ali. As provas estavam ali. Os mortos estavam na fronteira. — Meu Alpha — chamou um soldado. — O que devemos fazer? Theron não respondeu. Nyra estendeu a mão para ele. — Por favor. O mesmo pedido que faria no salão. O mesmo pedido que continuaria perseguindo-o depois da rejeição. Theron olhou para aquela mão. Não a segurou. As vozes recomeçaram. Traidora. A Luna nos vendeu. Profanou o vínculo. Deitou-se com o inimigo. Theron sentiu o lobo avançar novamente. Não contra Nyra. Contra todos. — Silêncio! O rugido atravessou a cabana. Os homens se calaram. Nyra continuava ajoelhada, segurando o lençol contra o corpo. Theron fechou os olhos por um breve instante. Quando os abriu, obrigou o Supremo Alpha a ocupar o lugar do homem. — Levem-na. Nyra empalideceu. — Theron... Ele virou o rosto. Não conseguiu vê-la quando os soldados se aproximaram. — Eu disse que a levem. — Não toque nela! — Theron rugiu quando um dos homens tentou agarrá-la com brutalidade. Todos pararam. O próprio Theron pareceu odiar a contradição. Ele a condenava. Mas ainda não suportava que alguém a machucasse. — Cubram-na — ordenou, com a voz mais baixa. — E levem-na para a fortaleza. Nyra foi envolvida por um manto. Quando passou por ele, tentou procurar seus olhos. Theron não permitiu. Se olhasse, talvez destruísse cada prova, matasse cada testemunha e escolhesse acreditar apenas nela. Mas era o Supremo. Valcrest havia sangrado. Seus guerreiros estavam mortos. E tudo apontava para a mulher que carregava seu coração. A lembrança se dissolveu. Theron continuava correndo pela floresta. As patas atingiam a terra com tanta força que a dor subia por suas pernas. A respiração vinha pesada. O lobo já não sabia se corria em direção à cabana ou tentava fugir dela. As árvores começaram a rarear. A clareira surgiu adiante. Theron diminuiu o ritmo. Depois parou. A cabana permanecia diante dele. Escura. Silenciosa. O mesmo telhado. As mesmas paredes. A mesma pequena janela pela qual, tantas vezes, vira Nyra sorrir para ele. Theron ficou imóvel. O lobo soltou um gemido dentro de sua mente. A transformação o atingiu de novo. Seu corpo retornou à forma humana com violência. Theron caiu sobre um dos joelhos, apoiando a mão no chão enquanto os ossos voltavam ao lugar. Permaneceu assim por alguns instantes. Nu. Coberto de terra. Respirando como se tivesse atravessado uma guerra. Talvez tivesse. Levantou-se devagar. A dor do vínculo continuava. Nyra estava em algum lugar atrás das muralhas, esperando o amanhecer para ser expulsa das terras onde nascera. Ele havia poupado sua vida. Repetiu isso para si mesmo. Era a única verdade à qual ainda conseguia se agarrar. Poupou Nyra. Poupou Garrick. Poupou Elowen. Mesmo que nenhum deles compreendesse. Mesmo que o odiassem. Mesmo que seu próprio lobo jamais o perdoasse. Theron caminhou até a porta. O cheiro dela ainda existia na madeira. Havia risos presos naquelas paredes. Beijos. Promessas. Planos para um futuro que deixara de existir. Ele segurou a maçaneta. Aquele lugar já fora o único ponto de Valcrest onde Theron não precisava ser Supremo Alpha. Ali, fora apenas um homem apaixonado por sua companheira. Agora, era o lugar onde todos haviam visto sua vergonha. Theron abriu a porta. E entrou.A margem estava alta naquele ponto.Mais de um metro acima do nível atual.Havia marcas escuras no tronco de algumas árvores, como cicatrizes deixadas por água antiga.Nada incomum em um rio que subia durante épocas de chuva.Mas algumas marcas estavam altas demais.E longe demais.Evelyn se afastou.Maura ficou perto das carroças enquanto ela caminhava sozinha para o sul.Primeira varredura.Sempre fazia uma.Mesmo quando Vlaus já mandava batedores.Gostava de conhecer o lugar com os próprios olhos.A loba permanecia silenciosa dentro dela.Há muito tempo.Mas os sentidos não tinham ido embora.Evelyn escutava movimentos pequenos.Sentia mudanças no vento.Percebia cheiros antes que outros humanos perceberiam.Uma parte do animal continuava no corpo, ainda que a criatura se recusasse a acordar.Ela seguiu pela margem.O solo mudou.Mais úmido primeiro.Depois, estranhamente seco.Evelyn parou.Agachou.Tocou a terra.Escura.Fértil.Quebrou um pequeno pedaço entre os dedos.Não era a
A primeira coisa que Evelyn sentiu ao atravessar as terras de Asterion foi alívio.Não alegria.Não esperança.Alívio.Seco, silencioso e tão imediato que quase a irritou.Ela permaneceu ao lado da carroça de Orven e Maura enquanto a longa fileira avançava pela estrada de terra, mas seus olhos se demoraram no horizonte pela primeira vez desde que haviam partido.Nenhuma montanha conhecida.Nenhuma torre de Valcrest.Nenhum símbolo.Nenhum cheiro que trouxesse de volta o domínio que aprendera a odiar.Asterion ficava longe.Muito longe.E aquilo bastava.— Está olhando como se esperasse alguém sair de trás das árvores — comentou Orven.Ele conduzia a carroça, embora Evelyn tivesse passado os últimos três dias dizendo que não confiava plenamente naquela ideia.— Eu sempre espero.— Deve ser cansativo.— É por isso que continuo viva.Orven ficou quieto.Evelyn percebeu tarde demais o peso da frase.Ele também.Nenhum dos dois tentou consertá-la.Maura apareceu entre as cortinas da carroç
Evelyn olhou para o céu.Começava a clarear muito longe, quase imperceptível.— Então pare de desperdiçar nosso tempo.Ele se virou.Assobiou.Os homens começaram a sair.Alguns arrastando os feridos.Outros sustentando companheiros.Os cavalos desapareceram entre as árvores.Ninguém do acampamento comemorou.Evelyn esperou até não ouvir mais cascos.Então:— NÃO SIGAM!Um rapaz já estava indo.Parou.— Mas eles—— Querem que a gente corra atrás.— Eles incendiaram nossas coisas!— E se nos puxarem para o campo aberto, voltamos com menos gente.O rapaz fechou a boca.Evelyn apontou.— Ajuda nos feridos.Ele obedeceu.A raiva ainda estava ali.Mas obedeceu.Vlaus aproximou-se.— Dez pontos pela prudência.Evelyn olhou para o sangue na roupa dele.— Quantos pontos perdeu por quase arrancar a cabeça daquele homem?— Nenhum.— Claro.— Sou o líder.— Péssimo argumento.Vlaus olhou para o acampamento.O humor sumiu.Fogo.Fumaça.Gente gritando nomes.Crianças chorando.O dia começava.E p
O líder soltou uma risada.— Vocês não estão em posição de negociar.— Nem você — respondeu Evelyn.Ele virou o rosto para ela.— Tem certeza?Evelyn puxou o ar.Homens à direita.Homens à esquerda.Arqueiros mais atrás.Quase trinta.Talvez mais escondidos.Ela marcou mentalmente posições.Saídas.Distância até as carroças.Até Orven.Até Maura.Até as crianças.— Tenho.O homem ficou alguns segundos encarando-a.Então ergueu uma das mãos.Evelyn viu antes.O arqueiro atrás dele puxou a corda.— ABAIXEM!A flecha passou sobre sua cabeça.Não vinha para ela.Trazia fogo.Atravessou o acampamento.Entrou numa tenda.A lona pegou imediatamente.Um grito explodiu.Depois outro.— FILHO DA PUTA! — alguém rugiu.— Água! — Evelyn gritou.A segunda flecha incendiária veio.Vlaus avançou tão rápido que se tornou um borrão.Atingiu o líder no peito.O homem voou para trás.A guerra começou.— CRIANÇAS NAS CARROÇAS! — Evelyn gritou. — IDOSOS AO NORTE! QUEM NÃO LUTA, NÃO FICA NO CENTRO!Um homem
Evelyn abriu os olhos antes do primeiro grito.Por alguns segundos, ficou imóvel.A escuridão dentro da pequena tenda era quase completa. Do lado de fora, o acampamento dormia. O vento passava baixo pelas árvores, fazendo a lona estremecer de tempos em tempos.Nada parecia errado.Mas alguma coisa estava.Evelyn não se mexeu.Escutou.O estalar distante de uma fogueira quase apagada.Uma criança tossindo em alguma tenda próxima.O resfolegar dos cavalos.Folhas.Vento.Então...Metal.Baixo.Curto.O som de alguma coisa batendo contra uma fivela.Seus olhos se estreitaram.Ela se sentou.Puxou o ar.Fumaça antiga.Terra úmida.Animais.Gente.Muita gente.E um cheiro que não pertencia ao acampamento.Couro tratado.Óleo.Cavalos desconhecidos.Evelyn já estava de pé quando ouviu o segundo ruído.Cascos.Controlados.Homens tentando se aproximar sem fazer barulho.Ela pegou as calças jogadas ao lado do catre, vestiu-as rapidamente e prendeu a adaga na cintura.Quando saiu, encontrou Vl
— Então criamos uma história melhor — respondeu.— Mentiras ruins matam.— As boas compram tempo.Um dos homens assobiou baixinho.Vlaus ignorou.— E se perguntarem por que quer a terra?Evelyn olhou para fora da tenda.A abertura permitia enxergar uma pequena parte do acampamento.Uma mulher carregando baldes.Um menino correndo.Uma carroça sendo reparada.— Porque estou cansada de fugir.A frase saiu antes que pudesse filtrá-la.Ninguém brincou.Evelyn voltou-se para os homens.— Quantas vezes mudamos no último ano?— Sete — respondeu alguém.— Oito — corrigiu outro.— Oito.Ela apontou para o chão.— Oito vezes desmontamos tudo porque alguém decidiu que nossa presença incomodava. Oito vezes crianças acordaram sem saber onde dormiriam na noite seguinte. Oito vezes os idosos tiveram que atravessar estrada porque alguém apareceu com um papel dizendo que a terra pertencia a outro homem.O tom dela não aumentou.Não precisava.— Temos gente suficiente para defender um lugar. Temos caça







