FAZER LOGINLarissa
A carta começava com um pedido de desculpas. Querida filha, Sei que fui covarde. Mais uma vez na minha vida fui covarde, e talvez essa seja a maior das covardias — não ter tido coragem de te dizer isso com a voz, olhando nos teus olhos, enquanto ainda tinha tempo e fôlego pra isso. Mas se você está lendo essa carta, é porque já parti pro meu descanso eterno, e pelo menos a dor de ver a sua decepção não precisarei carregar. Levantei os olhos do papel. Meu pai estava com os olhos fechados, a respiração curta e cadenciada. Mas não estava dormindo — eu sabia que não estava. Havia uma tensão nos ombros dele, uma atenção no silêncio, que me dizia que ele estava acordado e presente e esperando. Pela primeira vez na minha vida, vi vergonha no rosto do meu pai. Não a vergonha performática de quem diz "que vergonha" pra situações cotidianas. A vergonha real — a que mora fundo, que envergonha a pessoa pra dentro antes de aparecer pra fora, que muda o jeito que alguém carrega o próprio corpo. Voltei pra carta. Precisava continuar antes que perdesse a coragem. Antes de conhecer minha mãe, meu pai era outro homem. Ele deixou isso bem claro desde o começo — não como desculpa, mas como contexto. Jovem, sem família por perto, sem ninguém pra colocar rédeas. Os avós tinham morrido cedo demais, e ele tinha ficado num vácuo de responsabilidade que durou mais do que deveria. Fazia o que queria, vivia como queria, sem prestar contas a ninguém. Não me orgulho de quase nada desse período. Mas era quem eu era, e não tem como mudar o que já foi. Numa festa numa clareira perto da cidade, havia bebido mais do que nunca havia bebido na vida. Perdeu o fio, perdeu o juízo, perdeu a memória. Na manhã seguinte sabia que algo tinha acontecido pela expressão dos amigos, mas não sabia exatamente o quê. Não queria saber, o que era uma diferença importante. Dois meses depois, conheceu Laura. Minha mãe. Foi amor à primeira vista. Eu sei que parece clichê, mas foi exatamente isso. Olhei pra ela e soube. Mudei. Não de um dia pro outro, não sem esforço, mas mudei — porque tinha encontrado algo que valia a pena ser melhor pra ter. Quase um ano de namoro. Os meus avós maternos exigiram tempo pra ver se ele era de confiança. E ele querendo provar que era. E então, quando tudo parecia estar se encaixando no lugar certo… Eis que chegou na minha porta uma jovem. Tinha entre vinte e vinte e cinco anos. Trazia um bebê nos braços. Cinco meses de vida. E disse que aquela criança era minha. Parei de ler. Olhei pra cima por um segundo, pro teto do quarto, enquanto a informação se assentava. Continuei. O pânico que tomou conta do meu pai naquele momento era palpável mesmo através das palavras escritas meses ou anos depois. O que vai acontecer com Laura. Com os sogros. Com o casamento que estava sendo construído tijolo por tijolo. Com a vida que finalmente estava tomando uma forma que fazia sentido. E então veio a parte que meu pai chamou de "o pior que fiz". Em vez de ouvir. Em vez de olhar para aquele bebê. Em vez de admitir sequer a possibilidade — ele a expulsou. Disse que aquele filho podia ser de qualquer um, porque naquela festa não faltou "todo mundo com todo mundo". Disse que não queria saber. Que ela estava tentando estragar sua vida. Que fosse embora e não voltasse mais. Não olhou pro rosto da criança. Não deixou a possibilidade existir por um segundo sequer. Fui um canalha. Não tem outro nome. E vivo até hoje com isso. Só que chegar a essa conclusão depois que o estrago foi feito não serve de muita coisa. A carta continuava. Contava que anos depois a mulher tinha mandado uma caixa — a caixa que eu tinha nas mãos. Com um sapatinho vermelho, roupinhas de aniversário, fotos, lembranças das festinhas do menino que cresceu sem o pai. E uma carta dela, também guardada ali dentro, que meu pai dizia que eu deveria ler também. Tentei encontrá-la. Fui ao endereço que constava no pacote. Mas ela tinha se mudado pra outro estado. Não descobri pra qual. Perdi a chance de me redimir, mesmo que parcialmente. A carta terminava assim: Filha, esse segredo é seu agora. Você tem um irmão em algum lugar do mundo — um meio-irmão, filho de uma noite que eu mal lembro e de uma mulher que agiu com mais dignidade do que eu merecia. Não sei onde ele está. Não sei como encontrá-lo. Só sei que ele existe, que nunca tive a chance de pedir desculpas, e que isso vai comigo pro túmulo. Eu quis te poupar disso por muito tempo. Quis morrer sem te contar, deixar esse segredo comigo. Mas você merece saber. Você merece a verdade, mesmo que seja essa. Me perdoe se puder. E se não conseguir perdoar, ao menos tente não me odiar. Te amo pra sempre. Seu pai imperfeito — João Dobrei as folhas devagar. Uma vez, duas vezes. Com cuidado excessivo, como se o papel fosse mais frágil do que era, como se precisasse de mim pra se manter inteiro. Quando levantei os olhos, meu pai já não estava mais aqui. Os olhos fechados. A respiração parada. A mão na minha, que até um momento atrás tinha aquela pressão fraca mas presente de quem ainda está lutando pra continuar — agora estava quieta, afrouxada, como quando você solta alguma coisa que segurou por tempo demais. Fiquei assim por um tempo. Não sei quanto — o tempo tinha ficado sem referência. A mão do meu pai estava na minha, mas já iria começar a esfriar. Só saí do transe quando minha mãe entrou no quarto. Ouvi o som da porta, depois os passos, e então o desespero dela quebrou o silêncio de uma forma que me trouxe de volta ao mundo de um golpe só. Com movimentos que meu corpo fez no piloto automático, juntei todas as folhas, guardei tudo dentro da caixa, fechei. Abracei minha mãe com a caixa presa contra o meu peito. O segredo do meu pai tinha passado pra mim. Ia ser meu agora. Só meu.GustavoParte 3 — Um Casamento, Duas Vezes MaiorUma ideia começou a tomar forma na minha cabeça enquanto observava Gabriel ainda recebendo abraços por todos os lados.Havia algo no ar daquela tarde — todo mundo anunciando novidades, celebrando ao mesmo tempo — que me fez pensar que talvez não precisássemos separar tanta felicidade em datas diferentes.— E se a gente fizesse o casamento junto? — Sugeri, olhando de Gabriel para Larissa e depois para Mel — Eu e você, Gabriel. Larissa e Mel.Larissa arregalou os olhos, um sorriso enorme se formando antes mesmo de ela conseguir falar.— Eu amo essa ideia! — Disse, apertando minha mão com força.— Eu achei perfeita! — Confirmou Gabriel, animado, e eu já imaginava a cena. — Gustavo, seria perfeito! — Mel, era pura felicidade.Diogo e Felipe, ainda sentados conosco, trocaram um olhar cúmplice antes de erguer as próprias taças.— O amor está no ar hoje, com certeza. — Brincou Diogo, sorrindo largo. — Um brinde à felicidade de vocês dois — ou
GustavoParte 2 — Notícias Que Não Cabiam Mais no SilêncioA provocação de Pedro ainda ecoava na minha cabeça quando decidi que aquele era, sim, o momento certo, de contar o que havia decidido fazer sozinho.Larissa, ao meu lado, ainda tinha as bochechas coradas de emoção, o anel novo brilhando no dedo cada vez que a luz das velas o alcançava, e eu sabia que não conseguiria esperar mais nem um minuto para dividir aquilo com todo mundo.— Já que estamos falando nisso. — Comecei, levantando-me da cadeira, sentindo todos os olhares da mesa se voltarem para mim. — Eu preciso confessar uma coisa.Larissa me olhou, sabendo exatamente o que estava por vir. Sua felicidade transbordava de seus olhos e sorriso.— Eu já pedi a Larissa em casamento. — Anunciei, o sorriso brotando antes que eu conseguisse contê-lo. — Lá na beira do açude, há pouco.Um silêncio de surpresa tomou conta da mesa por um segundo, seguido de exclamações emocionadas de todos os lados.— E peço desculpas por ter sido só en
PedroParte 1 — A Lembrança Que a Tarde TrouxeEu sabia o que era viver aquele momento, a pouco tempo era eu e Luiza casando, confesso que para um homem, que tem na essência a dominação, não esperava ter sentido tanta emoção como senti enquanto Luiza caminhava em minha direção no altar.Sentado ali, entre os convidados do casamento de Diogo e Felipe, observando os dois trocarem votos que arrancavam lágrimas de todo mundo ao redor, senti a lembrança do meu próprio casamento subir com uma força que me pegou de surpresa.Luiza, ao meu lado, apertava minha mão a cada palavra que Diogo dizia, os olhos já marejados, e eu sabia exatamente o que estava passando pela cabeça dela — os mesmos filmes que passavam pela minha.Fechei os olhos por um instante, e o dia inteiro voltou como se tivesse acontecido ontem.Aquele dia foi inesquecível.***Estávamos todos sentados numa mesa grande — Luiza ao meu lado — o rosto radiante depois da cerimônia — quando ela ficou pálida de repente, a mão subindo
Fabrício(Música - "Beautiful Things" - Benson Boone)Parte 4 — A Margem Que Nos AproximouCaminhamos devagar pela margem do açude, as mãos ainda entrelaçadas sem que nenhum de nós comentasse sobre isso, como se qualquer palavra pudesse quebrar aquele fio invisível que havia se formado entre a gente.O céu acima de nós continuava mudando de cor, o rosa cedendo lugar a um roxo profundo que anunciava a chegada da noite, e as primeiras estrelas já começavam a espiar tímidas entre as nuvens.— Sabe — Comecei, sentindo a necessidade de preencher o silêncio, mas sem pressa nenhuma de fazê-lo — eu nunca tive muita paciência com relacionamentos. Sempre parecia mais fácil evitar do que arriscar.— Por quê? — Perguntou Carlos, os olhos fixos no caminho de terra à nossa frente.— Medo, eu acho. — Admiti, surpreso com a própria sinceridade. — De tudo ficar grande demais e me sufocar, ou por esconder ou por precisar assumir. Medo de me entregar e descobrir que não era suficiente. De repetir os mes
CarlosParte 3 — Pedras e EspinhosSentamos os dois no tronco de madeira à margem do açude, o som da água quebrando suave contra as pedras, o céu já mudando de dourado para tons mais suaves de rosa e roxo.— Você ouviu o que o juiz de paz disse durante a cerimônia? — Perguntei, ainda com aquelas palavras ecoando na minha cabeça. — Aquilo sobre o destino, sobre pedras e espinhos.Fabrício assentiu, os olhos fixos na água.— Fiquei pensando nisso o casamento inteiro. — Admitiu. — Que às vezes a gente sofre tanto por um caminho que parece errado, e só depois entende que era exatamente por ali que precisava passar.— Você acredita nisso? — Perguntei, curioso. — No destino, eu digo. Que a gente já nasce com um caminho traçado, mesmo que demore para descobrir qual é.Fabrício ficou em silêncio por um instante, os dedos brincando distraidamente com uma pedrinha que havia pegado do chão.— Acredito que a gente carrega dentro de si uma verdade que insiste em aparecer, cedo ou tarde. —
GustavoParte 2 — A Mulher da Nossa VidaOuvir Diogo falando tudo aquilo, ainda com o coração cheio da cerimônia linda que tínhamos acabado de testemunhar, me fez acreditar que aquele momento era perfeito.Sem luxo.Único e natural.Ali, em Serra — a cidade dela — às margens do açude que Diogo disse que ela amou conhecer, o lugar certo simplesmente havia aparecido diante de mim, graças a ajuda de Diogo, como havia pedido ontem em nossa conversa no mirante.Mesmo quando ele citou o réveillon — aquela noite que, por muito tempo, me trouxe ciúme e insegurança só de ouvir falar — naquele instante, estranhamente, me trouxe paz.Porque, de certa forma, aquele réveillon não foi especial só para Larissa e Diogo.Foi por causa dele que eu estava ali também.Se não fosse a gravidez de Rafael, talvez nada daquilo tivesse acontecido —talvez, eu nunca conhecesse o verdadeiro amor, talvez eu nunca tivesse conhecido Larissa, não teria Rafael como filho, nem encontrado meu lugar dentro dessa família







