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Capítulo 2 – A Tarde Que Mudou Tudo

Author: Nessa Lonzi
last update publish date: 2026-03-30 23:02:28

Larissa

Serra tinha esse dom de parecer que o tempo andava diferente.

Era algo que eu percebia mais quando estava prestes a ir embora — aquela sensação de que a cidade inteira respirava num ritmo próprio, descompassado do resto do mundo, como se aqui as horas tivessem mais textura. Mais peso. Como se cada momento deixasse uma marca mais visível.

Voltava da escola naquele fim de tarde do mesmo jeito que voltava todo dia. Com a mochila pendurada no ombro, a cabeça cheia de coisas sem importância — o que ia almoçar, uma conversa que tinha tido com uma colega, a prova de física que tinha saído melhor do que esperava.

Parei pra chutar uma bola pra um menino de uns seis anos que corria mais do que dribla. Ele gritou obrigado com voz esganiçada e voltou pro jogo sem olhar pra trás. Brinquei de roda por uns três minutos com três meninas de tranças que me puxaram pela mão antes que eu pudesse recusar. A mais velha tinha uns sete anos e levava o brinquedo mais a sério do que qualquer adulto levaria qualquer coisa.

Cumprimentei a dona Marlene que ficava na janela de tarde, sempre na janela, sempre com aquele ar de quem está esperando por algo que nunca chega, mas continua esperando mesmo assim. Me perguntou como estava a minha mãe. Disse que bem. Ela assentiu como se soubesse mais do que estava dizendo.

Cidade pequena. Todo mundo sabe de tudo. É bom e ruim ao mesmo tempo.

Quando dobrei a esquina de casa, o ritmo mudou.

Não foi uma coisa gradual. Foi imediato, como quando você está andando no escuro e pisa em falso — o seu corpo sabe antes que sua cabeça processe. O coração acelera antes que os olhos terminem de catalogar o que estão vendo.

Carros que não deveriam estar ali. Três, quatro. Gente na calçada, no portão, na varanda. Rostos conhecidos que não tinham motivo pra estar ali num fim de tarde de dia de semana. A movimentação silenciosa de pessoas que não sabem o que fazer com as mãos.

Travei no meio da rua.

Os pés deixaram de funcionar antes que minha cabeça mandasse parar. Fiquei parada no asfalto quente com a mochila no ombro e o coração batendo rápido demais, e o meu inconsciente me dizia com uma clareza brutal que eu não queria ouvir: não vai perguntar nada, porque não vai gostar da resposta.

Então Diogo apareceu.

Saiu do grupo de pessoas na calçada e veio na minha direção com aquele passo dele. Eu conhecia o passo de Diogo de cor — tinha crescido olhando pra ele. O passo calmo do dia normal, o passo apressado quando estava animado com alguma coisa, o passo pesado quando estava com problema na faculdade. E esse passo — esse eu reconheci antes de reconhecer os outros, porque era o que ele usava quando precisava me proteger de alguma coisa que eu ainda não sabia que precisava de proteção.

Veio calmo por fora. Desesperado por dentro.

Chegou até mim e me abraçou sem dizer nada.

Eu deixei. Fiquei no abraço dele com os braços ao lado do corpo por um momento — não correspondendo, não recusando, só existindo naquele estado intermediário entre saber e não querer saber. Enquanto ele não dissesse nada em voz alta, enquanto as palavras não saíssem e se tornassem reais no ar entre nós, ainda existia a chance de que eu estivesse errada.

Nunca havia estado tão certa na vida.

Depois de alguns segundos os meus braços foram ao redor dele, e nós ficamos assim na esquina de casa, enquanto as pessoas nos olhavam sem parecer que estavam olhando, do jeito que pessoas de cidade pequena fazem.

Diogo me conduziu devagar pela calçada. Não apertou minha mão — pôs o braço ao redor dos meus ombros, que é diferente, é mais parecido com suporte do que com condução. O caminho até a porta foi curto, mas pareceu mais longo. As pessoas na sala eram como ruído de fundo numa cena que só eu estava vivendo.

Procurei minha mãe.

Não estava na sala.

Diogo me guiou pelo corredor que eu conhecia de cor, até o quarto dos meus pais. A porta estava aberta, mas eu parei no vão, incapaz de entrar, como se atravessar aquele limiar fosse aceitar alguma coisa que ainda não estava pronta pra aceitar.

Minha mãe estava recostada na cabeceira da cama, com uma das mãos segurando a mão do meu pai e a outra tampando a boca num gesto silencioso de conter o que estava tentando sair. O peito do meu pai subia e descia.

Lento.

Cada vez mais lento.

Fiquei imóvel no vão da porta.

Se eu me movesse, o inevitável aconteceria. Eu sabia que era irracional — que ele não estava esperando por minha permissão, que as coisas iam acontecer como já estavam acontecendo independente de onde eu ficasse. Mas o corpo tem a sua própria lógica, e a lógica do meu corpo naquele momento era: para. Não se mexa. Enquanto você não se mover, o tempo também não se move.

Foi então que meu pai abriu os olhos.

Não foi um processo gradual. Foi de uma vez — os olhos simplesmente abriram, e ele varreu o quarto com o olhar até me encontrar parada no vão da porta. Por um momento nos olhamos, eu e ele, através do quarto cheio de luz fraca e da presença silenciosa da minha mãe.

Com um gesto quase imperceptível, pediu que todos saíssem.

Minha mãe protestou. Meu pai insistiu — sem palavras, só com o olhar. E as pessoas que estavam no quarto foram saindo uma a uma, minha mãe por último, relutante, os olhos cheios.

Diogo me ajudou a sentar na beira da cama.

Saiu. Fechou a porta.

E o quarto ficou em silêncio — aquele silêncio específico de quando você sabe que o que está prestes a ser dito vai mudar alguma coisa fundamental.

— Filha. — A voz do meu pai era um fio, mas ainda era a voz dele. Ainda tinha aquela inflexão que eu reconheceria em qualquer lugar, em qualquer condição. — Vai até o guarda-roupa. Lá no fundo, atrás das calças. Tem uma caixa de madeira.

Me levantei com cuidado, como se movimentos suaves pudessem proteger aquele momento de algum estrago. Abri o guarda-roupa, afastei as calças penduradas, e no fundo, quase invisível na escuridão da última prateleira, estava a caixa.

Pesada de um jeito que não tinha a ver com tamanho.

Voltei. Sentei ao lado dele. Ele me pediu pra abrir.

Dentro: uma foto de um bebê. Um envelope com o meu nome escrito à mão. Outras coisas que eu ainda não processava — um sapatinho, alguns objetos pequenos que minha visão recusava a focar.

— Leia com o coração aberto. — Fechou os olhos. A voz quase desapareceu. — E com a bondade que sempre esteve nele.

Peguei o envelope com os dedos que tremiam só um pouco. Abri devagar. A letra do meu pai preenchia as folhas dobradas dentro — miúda, inclinada, a caligrafia que eu conhecia desde os bilhetinhos que ele deixava na minha lancheira quando eu era pequena.

E li o que ele não teve coragem de me dizer olho no olho.

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