INICIAR SESIÓNLarissa
Acordei com os dedos entrelaçados nas roupinhas do meu irmão. Tinha adormecido assim, no chão do quarto, sem perceber quando os olhos fecharam depois de horas de carta e foto e certidão e sapatinho vermelho. A caixa estava aberta ao meu lado. A luz da manhã entrava pela fresta da cortina e desenhava uma linha clara no carpete desbotado. Guardei tudo correndo, com movimentos que eram silenciosos mas urgentes, no ritmo de alguém que sabe que tem segundos antes que uma coisa frágil quebre. Fechei a caixa. Coloquei no fundo do armário. Fechei o armário. Respirei fundo. Abri a porta do quarto. Minha mãe estava no corredor. Tinha o rosto inchado de uma noite inteira de choro — os olhos pequenos, as bochechas levemente avermelhadas, o cabelo que ela normalmente penteava antes de sair do quarto ainda desalinhado. Mas estava de pé. Estava olhando pra mim. Isso já era mais do que eu esperava encontrar naquela manhã. A levei pra cozinha. Coloquei a água pra ferver. Fiz o café no coador de pano que ela insistia em usar mesmo com a cafeteira elétrica na prateleira. Torrei pão. Pus tudo na mesa. Ela sentou. Mexeu o pão no café sem comer. Olhava pela janela pra aquele ponto que só ela via — algum lugar no quintal pequeno, ou atrás do quintal, ou além das casas, num horizonte que existia só pra ela naquele momento. Sentei do lado dela. Não disse nada. Só fiquei ali, presente. Às vezes é o suficiente. Às vezes é tudo. ✦ ✦ ✦ Minas Gerais, 2009 Depois da morte do meu pai, tivemos que deixar nossa casa. Não imediatamente — levou alguns meses, as economias duraram um tempo, e minha mãe tentou manter tudo como estava enquanto conseguiu. Mas a casa estava no nome dos dois, e sem a renda dele, e com o aluguel que precisava ser pago todo mês, ficou insustentável mais rápido do que qualquer um de nós queria admitir. Fomos morar com os meus avós maternos. A casa deles era maior do que a nossa e menor do que o necessário pra conter tudo que precisávamos processar. Passei a dividir um quarto com a minha mãe, dormíamos em duas camas de solteiro enfileiradas num quarto de janela pequena. Não era ruim. Era só diferente. E diferente quando se está tentando reconstruir alguma coisa é mais difícil do que deveria ser. Aprendi a não pedir o que não era necessário. Maquiagem emprestada da prima que era dois anos mais nova que eu. Roupas lavadas até o tecido ficar fino. Saídas pra festas que eu evitava não porque não queria ir, mas porque precisava de roupa nova pra isso e não fazia sentido gastar com roupa nova quando havia contas mais importantes. Ficava em casa. Estudava. Estudava mais. E passei. Faculdade pública. Rio de Janeiro. Medicina não — eu não tinha o perfil científico de Diogo, não tinha aquela vocação objetiva pra cuidar de corpos. Resolvi fazer administração. A possibilidade de ir pra uma cidade que eu nunca tinha visto e depois de terminar a faculdade fazer um concurso. Meu pai havia pedido que eu fosse feliz. Havia pedido que seguisse em frente. Ia seguir. Na noite do meu aniversário de dezoito anos, Diogo apareceu. Estava passando o feriado na cidade — a faculdade dele ficava em outro estado, ele cursava medicina com uma dedicação que eu via em cada conversa que tínhamos, em cada referência que fazia, em cada vez que seus olhos ficavam um pouco mais vivos quando o assunto era pediatria. Apareceu com bolo e com aquela presença calma que ele tinha de ocupar o espaço sem pedir permissão e sem invadir. A comemoração foi simples — bolo feito pela minha mãe, refrigerante, a minha pequena família e os pais de Diogo. Poucas pessoas, mas as certas. Depois do bolo, Diogo me chamou pro quintal. Sentamos no banco de ferro debaixo da árvore — o mesmo lugar onde eu estudava desde criança, onde ele me ajudava com matemática quando eu não estava entendendo e onde a gente ficava horas ouvindo música nos fones divididos, uma metade pra cada um. O banco estava um pouco enferrujado nas beiradas. A árvore tinha crescido mais um pouco. Ficamos um tempo olhando pro céu estrelado sem dizer nada. — Sinto falta de você, Lari. — Disse ele, sem tirar os olhos das estrelas. — Eu também, Di. Morro de saudades do tempo em que ficávamos todo dia juntos. — Lá na faculdade tem colegas bons. Saio às vezes. Mas nada tem a graça que tinha aqui. — Pausa. — Quando fui embora, senti que um pedaço ficou. — Tudo que fez por mim esses anos foi muito importante. — Escolhi as palavras com cuidado, consciente de que estava escolhendo as palavras certas. — Os abraços, os estudos, os momentos difíceis. Você me ajudou a chegar até a faculdade no Rio. — Fico feliz de ser importante pra você. — A voz dele tinha aquela suavidade de quem está dizendo uma coisa e pensando em outra. — Mesmo que de formas diferentes. Ficamos quietos. Depois ele se levantou. Me deu um beijo no rosto. Disse boa noite. Foi embora com o passo pesado de quem carrega uma coisa que não está pronto pra largar. Mais tarde, minha mãe entrou no quarto e sentou na beira da minha cama. — Seu pai estaria muito orgulhoso de você. — Segurou a minha mão. — Com dezoito anos, aprovada numa faculdade pública, indo morar sozinha numa cidade grande. Ele estaria com o peito cheio. — Os olhos foram ficando cheios. — Só te peço uma coisa, filha. Se cuide. De verdade. Lá você vai estar sem mim por perto, e eu sei que você é forte, mas ser forte não significa fazer tudo sozinha o tempo todo. — Eu sei, mãe. — Cuide-se. — Apertou minha mão. — Isso é tudo que peço. O silêncio que veio depois era daqueles raros — sem desconforto, sem cobrança, sem perguntas sem resposta. Só as duas, naquele quarto pequeno com as duas camas de solteiro e a janela que dava pro quintal, no fim de uma noite que tinha começado com bolo e terminou com a clareza de que eu estava prestes a começar uma vida que ainda não sabia como seria. Adormeci pensando no Rio de Janeiro. Em como uma cidade que eu nunca tinha visto poderia mudar tudo.LarissaParte 3 — Café da Manhã e PromessasAcordei com o sol entrando forte pela janela, o som das ondas quebrando lá fora criando a trilha sonora mais gostosa que eu já tinha ouvido em uma manhã.— Bom dia, esposa. — Sussurrou Gustavo, a voz ainda rouca de sono, os lábios beijando meu ombro nu.— Bom dia. — Respondi, virando-me nos braços dele, o sorriso brotando automático ao ver o rosto dele tão perto do meu, o cabelo bagunçado de um jeito que eu achava irresistível. —— Dormiu bem? — Perguntou, afastando uma mecha de cabelo do meu rosto com carinho.— Melhor que nunca. — Confirmei, esticando-me preguiçosa sob os lençóis. — Acho que nunca me senti tão descansada e tão cansada ao mesmo tempo.Ele riu, um som baixo e satisfeito, puxando-me para mais perto até nossos corpos se encaixarem completamente.— Eu te amo, sabia? — Disse, sério de repente, os olhos carregados de uma sinceridade que eu sentia até os ossos. — Cada dia mais.— Eu também te amo. — Respondi, tocando o rosto dele.
LarissaParte 2 - Cuidados e PromessasA água quente batendo na minha pele absurdamente sensível foi como um choque elétrico de vida. Aos poucos, a dormência pesada ia descendo pelo ralo.Eu tava totalmente encostada no peito do Gustavo, sentindo o compasso do coração dele bater forte e constante nas minhas costas nuas.O contraste era uma loucura. O mesmo cara que há pouco me levava ao limite da dor, do choro e do gozo, agora era o meu porto seguro absoluto.Ele pegou o sabonete líquido que tinha trazido do Brasil. O cheiro amadeirado, forte e limpo que eu amava preencheu o vapor do banheiro na hora.As mãos imensas dele, que antes me apertavam com força bruta até deixar marca, começaram a ensaboar os meus ombros com movimentos lentos e circulares.Cada toque carregava um cuidado visceral. Uma devoção calada que contrastava violentamente com a agressividade animalesca de horas atrás.Ele esfregava a espuma grossa nas marcas vermelhas dos meus braços com a ponta dos dedos, limpando
GustavoParte 1 — Trazendo Você de VoltaO silêncio do quarto gigantesco só era quebrado pelo barulho do mar Egeu chocando contra as pedras lá embaixo.Faz mais de uma hora que a respiração dela estabilizou. Pesada, rítmica e profunda, o peito subindo devagar contra o meu braço dormente.Eu não dormi nem por um segundo. Era impossível apagar o cérebro depois da descarga de adrenalina bruta que a gente dividiu naquela cama.Fiquei só vigiando o sono pesado dela, sentindo o cheiro de suor, de sexo e daquela porra da cera de baunilha que ainda marcava a pele dela.Ver a Larissa assim, completamente desmontada e entregue, era um privilégio que ela não dava pra ninguém nesse mundo.A mulher delicada e mãe zelosa, tava ali. Nua, marcada e pequena no meu abraço.O corpo dela deu um sobressalto pequeno nos lençóis, um espasmo muscular involuntário de quem tava finalmente voltando pra superfície.Os cílios longos tremeram antes dos olhos escuros abrirem devagar, piscando contra a meia-luz d
LarissaParte 5 — O Pouso SeguroO mundo ao meu redor derreteu e virou uma massa cinzenta de som abafado, peso e calor espesso. Eu já não sentia o meu próprio corpo.A dor ardida nas coxas, o calor esquisito da cera no peito, a pressão fria e implacável da faixa que prendia meus pulsos. Tudo isso se fundiu num formigamento anestesiado e absurdamente distante.Era como boiar no meio de um oceano escuro e morno, sem saber onde ficava a superfície. E a melhor parte, a parte mais intensa: eu não queria descobrir onde era a saída.Não tinha mais caos mental. Não existia ali a mãe, não tinha família, não tinha a obrigação a obrigação de ser a mulher perfeita.Só tinha a escuridão confortável, o eco das batidas aceleradas do meu próprio coração, e a sensação de estar completamente vazia. Oca.Eu flutuava no que o Gustavo chamava de subspace. O colapso sensorial absoluto. O lugar pra onde eu fugia quando entregava o controle da minha vida pra ele.O impacto daquele orgasmo duplo ainda rev
GustavoParte 4 - Empurrando Para O LimiteEu tava empurrando a Larissa pro limite. Pro lugar onde a mãe cuidadosa, a mulher atenciosa morria e sobrava só a fêmea entregue, aberta e desesperada por mim.- Gustavo, por favor, eu preciso de você, eu não aguento - ela soluçava, não de tristeza, mas daquele colapso sensorial absoluto.Joguei o flogger no chão de qualquer jeito. O som surdo da madeira batendo na pedra foi a única resposta que eu dei antes de subir nela.- Eu avisei que o tempo era meu - rosnei, me posicionando entre as pernas dela de novo, segurando os quadris dela com uma força que ia deixar marca.Não teve aviso dessa vez. Eu não tava mais testando as águas. Eu entrei de uma vez só, rasgando o caminho pra dentro dela com brutalidade pura.O grito que saiu da garganta da Larissa me arrepiou dos pés à cabeça. Foi agudo, quebrado, o som de alguém que tava sendo partida ao meio e adorando cada segundo.O choque da penetração depois da tortura sensorial foi avassalador. As
Gustavo(Música - "Outta My Head (feat. Rick Jansen & Ordell)" - OMIDO)Parte 3 — A Queda LivreA expressão no rosto da Larissa valia cada segundo daquela espera. O choque, o medo misturado com o tesão absoluto, a respiração presa na garganta seca.Ela tava ali, amarrada na cama da nossa lua de mel, tremendo enquanto me via abrir o zíper daquela maleta preta.Eu não trouxe muita coisa. A gente ia passar a maior parte do tempo turistando pelas pedras de Santorini, e eu conhecia a mulher que tinha.Mas eu sabia que a nossa primeira noite oficial precisava de uma âncora. Algo que puxasse ela da realidade pesada que ela carregava o dia todo nas costas.Puxei a vela de baixa temperatura, a cera negra contrastando com a luz amarela do abajur. O cheiro de baunilha e couro tomou o quarto no segundo que acendi o pavio.O barulho do clique do isqueiro de metal ecoou alto pra caralho no quarto silencioso.— Gustavo... — Ela chamou, a voz falhando, os olhos arregalados acompanhando a chama peq







