FAZER LOGINLarissa
A letra era redonda, inclinada pra direita, escrita com cuidado. Com tempo. De alguém que rascunhou antes, que pensou em cada frase, que quis dizer exatamente o que estava dizendo e não mais nem menos. João, Escrevo esta carta para que você saiba um pouco mais de nós — do nosso filho e de mim. Imagino que em algum momento você chegará a este envelope, seja por força das circunstâncias ou porque decidiu, finalmente, olhar pra essa parte da sua história. Qualquer que seja o motivo: estou escrevendo porque você merece saber, e nosso filho merece que alguém guarde essa história com cuidado. Sentei no chão do meu quarto com as costas encostadas na beira da cama, as pernas cruzadas, a caixa aberta ao meu lado. A janela estava fechada. A casa estava quieta — minha mãe tinha finalmente conseguido dormir, depois de horas e horas acordada. Era de madrugada. E eu estava lendo a história de uma mulher que nunca havia ouvido falar antes daquele dia. Rosa descreveu aquela noite na clareira com uma generosidade que me fez parar e reler o parágrafo duas vezes. Ela não escreveu com raiva. Não escreveu com amargura, embora tivesse razão suficiente pra qualquer uma das duas. Escreveu com uma espécie de honestidade tranquila que me lembrou de algo que meu pai dizia: que as pessoas mais fortes que ele conheceu eram as que não precisavam de bravatas. Meu pai bêbado tinha sido carinhoso com ela. Tinha sussurrado coisas no ouvido, tinha ficado perto dela por horas, afastado da festa e de todo o resto, como se houvesse só os dois. Ela tinha acreditado. Tinha esperado por ele — dias, depois uma semana, depois entendido que ele não sabia o nome dela nem onde morava e que portanto não havia como chegar. Procurei Joaquim. Seu amigo. Ele me disse que você tinha ido embora da cidade alguns dias depois da festa. Senti o chão desaparecer. É uma expressão que as pessoas usam sem pensar muito, mas naquele dia eu entendi de onde ela vem. É literalmente isso: o chão some, e você fica um momento sem saber onde pisar. Semanas depois, ela desmaiou na porta de casa. No hospital, o exame de gravidez voltou positivo. Sempre reconheci que o erro foi nosso — não só seu, não só meu. Não nos protegemos. Fomos inconsequentes os dois. E foi com esse pensamento que resolvi: esse bebê vinha ao mundo. Não porque era fácil. Era muito difícil. Mas porque era a decisão certa pra mim. A gravidez foi complicada, solitária do jeito que uma gravidez sem o pai presente é, solitária mesmo quando há pessoas por perto. Os pais dela ajudaram mas eram conservadores, julgaram, e o pai dela chegou a proibir que ela tentasse encontrar meu pai. Ela foi assim mesmo. Em dezembro daquele ano, tive nos meus braços o ser mais perfeito que já vi. Olhei pra ele e pedi a Deus que se parecesse com você, João, para que eu nunca deixasse suas imagens escaparem da minha memória. E Deus atendeu. Nosso filho é todo você — o cabelo escuro, os olhos castanhos. Perfeito, saudável, com aquele sorriso que deve ser seu porque não é meu. Um mês depois do parto, ela tentou de novo. Encontrou Joaquim. Joaquim lhe disse onde meu pai estava — numa cidade chamada Serra — mas também lhe disse que ele estava comprometido. Ela foi assim mesmo. Subi no ônibus com nosso filho nos braços e fui até Serra. Encontrar você não foi difícil — cidade pequena, todo mundo sabe de todo mundo. O difícil foi o que ouvi quando cheguei na sua porta. Tive que parar de ler por um momento. Coloquei a carta no colo. Olhei pro teto. Ela tinha chegado na porta do meu pai com um bebê de cinco meses nos braços. E meu pai a havia expulsado. Não com violência física, mas com as palavras — que às vezes machucam mais. Que aquele bebe podia ser de qualquer um. Que ele não queria saber. Que ela estava tentando estragar a vida dele. Saí de sua casa querendo te odiar. Era o sentimento mais imediato e mais fácil — o ódio. Entrei no ônibus de volta a Belo Horizonte com nosso filho no colo, chorando feito criança, sentindo que tinha sido jogada no lixo com o filho que carreguei nove meses. Mas então veio o parágrafo que me fez chorar de vez. Nunca falarei mal de você pra ele. Você precisa saber disso. Quando ele começar a perguntar pelo pai, eu direi que você virá um dia. Que você está ocupado mas que virá. Não pintarei nenhum monstro. Não construirei nenhum vilão. Porque ele é metade você, João, e eu não posso criar ódio por metade do filho que eu amo. Ela tinha se casado. O marido amava o menino como se fosse filho. A vida tinha se arrumado, tinha ficado boa, com aquela bondade silenciosa que a vida às vezes tem quando a gente aguenta os momentos piores sem desistir. E ela encerrava desejando felicidade ao meu pai. Desejo que tenha uma família linda, que seus filhos sejam saudáveis e felizes, que a mulher que você escolheu te faça bem. Você é o pai do nosso filho, e isso é pra sempre. E apesar de tudo — de cada palavra que você disse naquele dia — algo em mim ainda acredita que você é uma boa pessoa. Que o medo falou mais alto. Que o homem que me segurou durante horas naquela festa ainda existe em algum lugar dentro de você. Cuide-se. Rosa (foi como você me chamou — sua flor) Dobrei a carta com cuidado. Muito cuidado. Fiquei um tempo sem me mover. Só segurando o papel dobrado no colo e olhando pro quarto escuro, com a caixa aberta ao meu lado e o sapatinho vermelho perto da minha mão — aquele sapatinho minúsculo, que tinha sido o primeiro sapato de um menino que eu nunca conheci. Uma mulher que foi rejeitada com um filho nos braços. Que subiu num ônibus chorando. Que nunca falou mal do pai desse filho. Que desejou felicidade ao homem que não mereceu. Essa mulher existia. Tinha um nome. Tinha uma história. Tinha criado um filho que era, por sangue, meu irmão. Peguei a foto de aniversário de dois anos — tema Mickey, o sorriso largo e absoluto de criança que ainda não sabe que o mundo pode decepcionar, os cabelos escuros iguais ao meu pai, os olhos castanhos que eu conhecia de cor porque eram os mesmos olhos que eu tinha olhado por toda a minha vida dentro de casa. E chorei por tudo que poderia ter sido diferente. Pelo pai que perdi. Pelo irmão que nunca tive. Pela Rosa que merecia mais. E por mim, que teria que carregar isso sozinha por todo o tempo que levasse pra descobrir o que fazer com essa informação.GustavoParte 3 — Um Casamento, Duas Vezes MaiorUma ideia começou a tomar forma na minha cabeça enquanto observava Gabriel ainda recebendo abraços por todos os lados.Havia algo no ar daquela tarde — todo mundo anunciando novidades, celebrando ao mesmo tempo — que me fez pensar que talvez não precisássemos separar tanta felicidade em datas diferentes.— E se a gente fizesse o casamento junto? — Sugeri, olhando de Gabriel para Larissa e depois para Mel — Eu e você, Gabriel. Larissa e Mel.Larissa arregalou os olhos, um sorriso enorme se formando antes mesmo de ela conseguir falar.— Eu amo essa ideia! — Disse, apertando minha mão com força.— Eu achei perfeita! — Confirmou Gabriel, animado, e eu já imaginava a cena. — Gustavo, seria perfeito! — Mel, era pura felicidade.Diogo e Felipe, ainda sentados conosco, trocaram um olhar cúmplice antes de erguer as próprias taças.— O amor está no ar hoje, com certeza. — Brincou Diogo, sorrindo largo. — Um brinde à felicidade de vocês dois — ou
GustavoParte 2 — Notícias Que Não Cabiam Mais no SilêncioA provocação de Pedro ainda ecoava na minha cabeça quando decidi que aquele era, sim, o momento certo, de contar o que havia decidido fazer sozinho.Larissa, ao meu lado, ainda tinha as bochechas coradas de emoção, o anel novo brilhando no dedo cada vez que a luz das velas o alcançava, e eu sabia que não conseguiria esperar mais nem um minuto para dividir aquilo com todo mundo.— Já que estamos falando nisso. — Comecei, levantando-me da cadeira, sentindo todos os olhares da mesa se voltarem para mim. — Eu preciso confessar uma coisa.Larissa me olhou, sabendo exatamente o que estava por vir. Sua felicidade transbordava de seus olhos e sorriso.— Eu já pedi a Larissa em casamento. — Anunciei, o sorriso brotando antes que eu conseguisse contê-lo. — Lá na beira do açude, há pouco.Um silêncio de surpresa tomou conta da mesa por um segundo, seguido de exclamações emocionadas de todos os lados.— E peço desculpas por ter sido só en
PedroParte 1 — A Lembrança Que a Tarde TrouxeEu sabia o que era viver aquele momento, a pouco tempo era eu e Luiza casando, confesso que para um homem, que tem na essência a dominação, não esperava ter sentido tanta emoção como senti enquanto Luiza caminhava em minha direção no altar.Sentado ali, entre os convidados do casamento de Diogo e Felipe, observando os dois trocarem votos que arrancavam lágrimas de todo mundo ao redor, senti a lembrança do meu próprio casamento subir com uma força que me pegou de surpresa.Luiza, ao meu lado, apertava minha mão a cada palavra que Diogo dizia, os olhos já marejados, e eu sabia exatamente o que estava passando pela cabeça dela — os mesmos filmes que passavam pela minha.Fechei os olhos por um instante, e o dia inteiro voltou como se tivesse acontecido ontem.Aquele dia foi inesquecível.***Estávamos todos sentados numa mesa grande — Luiza ao meu lado — o rosto radiante depois da cerimônia — quando ela ficou pálida de repente, a mão subindo
Fabrício(Música - "Beautiful Things" - Benson Boone)Parte 4 — A Margem Que Nos AproximouCaminhamos devagar pela margem do açude, as mãos ainda entrelaçadas sem que nenhum de nós comentasse sobre isso, como se qualquer palavra pudesse quebrar aquele fio invisível que havia se formado entre a gente.O céu acima de nós continuava mudando de cor, o rosa cedendo lugar a um roxo profundo que anunciava a chegada da noite, e as primeiras estrelas já começavam a espiar tímidas entre as nuvens.— Sabe — Comecei, sentindo a necessidade de preencher o silêncio, mas sem pressa nenhuma de fazê-lo — eu nunca tive muita paciência com relacionamentos. Sempre parecia mais fácil evitar do que arriscar.— Por quê? — Perguntou Carlos, os olhos fixos no caminho de terra à nossa frente.— Medo, eu acho. — Admiti, surpreso com a própria sinceridade. — De tudo ficar grande demais e me sufocar, ou por esconder ou por precisar assumir. Medo de me entregar e descobrir que não era suficiente. De repetir os mes
CarlosParte 3 — Pedras e EspinhosSentamos os dois no tronco de madeira à margem do açude, o som da água quebrando suave contra as pedras, o céu já mudando de dourado para tons mais suaves de rosa e roxo.— Você ouviu o que o juiz de paz disse durante a cerimônia? — Perguntei, ainda com aquelas palavras ecoando na minha cabeça. — Aquilo sobre o destino, sobre pedras e espinhos.Fabrício assentiu, os olhos fixos na água.— Fiquei pensando nisso o casamento inteiro. — Admitiu. — Que às vezes a gente sofre tanto por um caminho que parece errado, e só depois entende que era exatamente por ali que precisava passar.— Você acredita nisso? — Perguntei, curioso. — No destino, eu digo. Que a gente já nasce com um caminho traçado, mesmo que demore para descobrir qual é.Fabrício ficou em silêncio por um instante, os dedos brincando distraidamente com uma pedrinha que havia pegado do chão.— Acredito que a gente carrega dentro de si uma verdade que insiste em aparecer, cedo ou tarde. —
GustavoParte 2 — A Mulher da Nossa VidaOuvir Diogo falando tudo aquilo, ainda com o coração cheio da cerimônia linda que tínhamos acabado de testemunhar, me fez acreditar que aquele momento era perfeito.Sem luxo.Único e natural.Ali, em Serra — a cidade dela — às margens do açude que Diogo disse que ela amou conhecer, o lugar certo simplesmente havia aparecido diante de mim, graças a ajuda de Diogo, como havia pedido ontem em nossa conversa no mirante.Mesmo quando ele citou o réveillon — aquela noite que, por muito tempo, me trouxe ciúme e insegurança só de ouvir falar — naquele instante, estranhamente, me trouxe paz.Porque, de certa forma, aquele réveillon não foi especial só para Larissa e Diogo.Foi por causa dele que eu estava ali também.Se não fosse a gravidez de Rafael, talvez nada daquilo tivesse acontecido —talvez, eu nunca conhecesse o verdadeiro amor, talvez eu nunca tivesse conhecido Larissa, não teria Rafael como filho, nem encontrado meu lugar dentro dessa família







