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Capítulo 7 – A Carta de Rosa

Autor: Nessa Lonzi
last update Fecha de publicación: 2026-03-31 23:33:07

Larissa

A letra era redonda, inclinada pra direita, escrita com cuidado. Com tempo. De alguém que rascunhou antes, que pensou em cada frase, que quis dizer exatamente o que estava dizendo e não mais nem menos.

João,

Escrevo esta carta para que você saiba um pouco mais de nós — do nosso filho e de mim. Imagino que em algum momento você chegará a este envelope, seja por força das circunstâncias ou porque decidiu, finalmente, olhar pra essa parte da sua história. Qualquer que seja o motivo: estou escrevendo porque você merece saber, e nosso filho merece que alguém guarde essa história com cuidado.

Sentei no chão do meu quarto com as costas encostadas na beira da cama, as pernas cruzadas, a caixa aberta ao meu lado. A janela estava fechada. A casa estava quieta — minha mãe tinha finalmente conseguido dormir, depois de horas e horas acordada.

Era de madrugada.

E eu estava lendo a história de uma mulher que nunca havia ouvido falar antes daquele dia.

Rosa descreveu aquela noite na clareira com uma generosidade que me fez parar e reler o parágrafo duas vezes. Ela não escreveu com raiva. Não escreveu com amargura, embora tivesse razão suficiente pra qualquer uma das duas. Escreveu com uma espécie de honestidade tranquila que me lembrou de algo que meu pai dizia: que as pessoas mais fortes que ele conheceu eram as que não precisavam de bravatas.

Meu pai bêbado tinha sido carinhoso com ela. Tinha sussurrado coisas no ouvido, tinha ficado perto dela por horas, afastado da festa e de todo o resto, como se houvesse só os dois. Ela tinha acreditado. Tinha esperado por ele — dias, depois uma semana, depois entendido que ele não sabia o nome dela nem onde morava e que portanto não havia como chegar.

Procurei Joaquim. Seu amigo. Ele me disse que você tinha ido embora da cidade alguns dias depois da festa. Senti o chão desaparecer. É uma expressão que as pessoas usam sem pensar muito, mas naquele dia eu entendi de onde ela vem. É literalmente isso: o chão some, e você fica um momento sem saber onde pisar.

Semanas depois, ela desmaiou na porta de casa.

No hospital, o exame de gravidez voltou positivo.

Sempre reconheci que o erro foi nosso — não só seu, não só meu. Não nos protegemos. Fomos inconsequentes os dois. E foi com esse pensamento que resolvi: esse bebê vinha ao mundo. Não porque era fácil. Era muito difícil. Mas porque era a decisão certa pra mim.

A gravidez foi complicada, solitária do jeito que uma gravidez sem o pai presente é, solitária mesmo quando há pessoas por perto. Os pais dela ajudaram mas eram conservadores, julgaram, e o pai dela chegou a proibir que ela tentasse encontrar meu pai. Ela foi assim mesmo.

Em dezembro daquele ano, tive nos meus braços o ser mais perfeito que já vi. Olhei pra ele e pedi a Deus que se parecesse com você, João, para que eu nunca deixasse suas imagens escaparem da minha memória. E Deus atendeu. Nosso filho é todo você — o cabelo escuro, os olhos castanhos. Perfeito, saudável, com aquele sorriso que deve ser seu porque não é meu.

Um mês depois do parto, ela tentou de novo. Encontrou Joaquim. Joaquim lhe disse onde meu pai estava — numa cidade chamada Serra — mas também lhe disse que ele estava comprometido.

Ela foi assim mesmo.

Subi no ônibus com nosso filho nos braços e fui até Serra. Encontrar você não foi difícil — cidade pequena, todo mundo sabe de todo mundo. O difícil foi o que ouvi quando cheguei na sua porta.

Tive que parar de ler por um momento.

Coloquei a carta no colo. Olhei pro teto.

Ela tinha chegado na porta do meu pai com um bebê de cinco meses nos braços. E meu pai a havia expulsado. Não com violência física, mas com as palavras — que às vezes machucam mais. Que aquele bebe podia ser de qualquer um. Que ele não queria saber. Que ela estava tentando estragar a vida dele.

Saí de sua casa querendo te odiar. Era o sentimento mais imediato e mais fácil — o ódio. Entrei no ônibus de volta a Belo Horizonte com nosso filho no colo, chorando feito criança, sentindo que tinha sido jogada no lixo com o filho que carreguei nove meses.

Mas então veio o parágrafo que me fez chorar de vez.

Nunca falarei mal de você pra ele. Você precisa saber disso. Quando ele começar a perguntar pelo pai, eu direi que você virá um dia. Que você está ocupado mas que virá. Não pintarei nenhum monstro. Não construirei nenhum vilão. Porque ele é metade você, João, e eu não posso criar ódio por metade do filho que eu amo.

Ela tinha se casado. O marido amava o menino como se fosse filho. A vida tinha se arrumado, tinha ficado boa, com aquela bondade silenciosa que a vida às vezes tem quando a gente aguenta os momentos piores sem desistir.

E ela encerrava desejando felicidade ao meu pai.

Desejo que tenha uma família linda, que seus filhos sejam saudáveis e felizes, que a mulher que você escolheu te faça bem. Você é o pai do nosso filho, e isso é pra sempre. E apesar de tudo — de cada palavra que você disse naquele dia — algo em mim ainda acredita que você é uma boa pessoa. Que o medo falou mais alto. Que o homem que me segurou durante horas naquela festa ainda existe em algum lugar dentro de você.

Cuide-se.

Rosa

(foi como você me chamou — sua flor)

Dobrei a carta com cuidado.

Muito cuidado.

Fiquei um tempo sem me mover. Só segurando o papel dobrado no colo e olhando pro quarto escuro, com a caixa aberta ao meu lado e o sapatinho vermelho perto da minha mão — aquele sapatinho minúsculo, que tinha sido o primeiro sapato de um menino que eu nunca conheci.

Uma mulher que foi rejeitada com um filho nos braços. Que subiu num ônibus chorando. Que nunca falou mal do pai desse filho. Que desejou felicidade ao homem que não mereceu.

Essa mulher existia.

Tinha um nome. Tinha uma história. Tinha criado um filho que era, por sangue, meu irmão.

Peguei a foto de aniversário de dois anos — tema Mickey, o sorriso largo e absoluto de criança que ainda não sabe que o mundo pode decepcionar, os cabelos escuros iguais ao meu pai, os olhos castanhos que eu conhecia de cor porque eram os mesmos olhos que eu tinha olhado por toda a minha vida dentro de casa.

E chorei por tudo que poderia ter sido diferente.

Pelo pai que perdi.

Pelo irmão que nunca tive.

Pela Rosa que merecia mais.

E por mim, que teria que carregar isso sozinha por todo o tempo que levasse pra descobrir o que fazer com essa informação.

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Comentarios (2)
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Helena Darc Soares
Espero que Larissa encontre o irmão.
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Helena Darc Soares
essa carta é muito importante.essa mulher sofreu,chorou,mas agiu com dignidade.
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