LOGINA voz clara de Caroline me provocou uma satisfação genuína.Seu inglês era quase sem sotaque, muito melhor que o meu.Havia algo curioso no tom de sua voz enquanto cantava. Parecia mais jovem, quase como a menina que eu havia conhecido tantos anos atrás.Fiquei observando-a enquanto cantava de olhos fechados, provavelmente para não se distrair ou perder o tom.Eu precisava admitir: era agradável ouvi-la.A música tinha algo envolvente, quase hipnótico, e combinava perfeitamente com a história.Para mim, a parte mais interessante de O Morro dos Ventos Uivantes sempre havia sido a presença de Catherine, quase como um fantasma pairando sobre tudo.Quando chegou ao refrão, fechei os olhos também.Queria tentar sentir a música da maneira como ela havia sugerido.Fazia muito tempo que eu não tentava sentir alguma coisa de verdade.Muito tempo desde que permitira que qualquer coisa atravessasse as barreiras que havia construído ao redor de mim.E, ironicamente, estava fazendo isso por causa
Saí do quarto procurando o escritório, como Maya havia me explicado. Demorei alguns minutos, mas finalmente encontrei.A parede deslizante era sempre a que possuía os porta-retratos agrupados em mosaico.Inteligente.Discreto.Praticamente impossível perceber que havia uma passagem escondida ali.Assim que entrei, Damon ergueu a cabeça.Estava sentado em um grande sofá, quase como um divã, próximo a uma luminária de leitura curva presa à parede.Só então reparei melhor em sua roupa.Era engraçado como ele conseguia transformar uma roupa simples em algo sofisticado.À primeira vista, parecia apenas confortável.De perto, porém, era tudo menos comum.Damon continuava elegante como eu me lembrava, embora aquela fosse a primeira vez que o via vestido de maneira tão informal.Usava um blusão de lã em tom de areia e uma calça larga de linho, com botões da mesma cor nas laterais. Nos pés, sandálias de couro.Tudo em tons suaves.Em outra situação, eu provavelmente teria rido.Aquelas roupas
Acordei e me espreguicei na enorme cama, rolando para um lado e para o outro. Eu sempre fora espaçosa e pouco comportada para dormir, desde criança.Abri os olhos devagar.O quarto ainda estava mergulhado em uma penumbra azulada. A luz da manhã mal conseguia atravessar as cortinas, e aquilo me deixou confusa por alguns segundos.Então o medo veio.A escuridão me deixava inquieta.Respirei fundo.Eu precisava aprender a conviver com aquilo. Precisava juntar os pedaços da minha alma e descobrir uma maneira de seguir em frente.Peguei o vestido do dia anterior e o vesti. Era a única roupa que tinha ali. Calcei as sapatilhas, arrumei a cama e desci as escadas.Um cheiro delicioso vinha da cozinha.Segui o aroma.E parei imediatamente.Meus olhos se arregalaram.Damon estava diante do fogão, aquecendo a refeição.Eu não fazia ideia de que ele sabia cozinhar.Durante anos, sempre achei que os elogios de Karyn sobre as habilidades do marido fossem apenas aquelas gentilezas que as esposas faz
DamonAcordei sobressaltado.Por um instante, tive a impressão de ter ouvido alguém gritar.Então veio um som abafado, parecido com um choro.— Árion?Levantei-me depressa.Atravessei a porta de comunicação até o quarto do meu filho, mas encontrei-o dormindo tranquilamente. Íris estava acomodada na cama ao lado do berço, provavelmente havia trocado de lugar com Maya para que ela pudesse descansar depois da viagem.Fechei a porta com cuidado.Não queria acordá-la sem necessidade.Então ouvi novamente.Mais distante.Um soluço.Foi quando me lembrei dela.— Caroline...Voltei rapidamente para o meu quarto.Parei diante da porta que ligava os dois ambientes.Hesitei.Caroline ainda não sabia que, na verdade, aqueles três quartos faziam parte de um único espaço, separado apenas por painéis de madeira deslizantes.Quando a casa fora construída, eu havia pedido que o quarto de Árion tivesse acesso ao meu. Os arquitetos presumiram que o quarto de minha esposa deveria seguir o mesmo projeto.
— Esta é a Ilha Stamos. Chegamos em casa! — anunciou Damon, abrindo um sorriso satisfeito.— Uma ilha?A palavra escapou em um sussurro.Fiquei olhando para o lugar sem saber o que dizer.Damon tinha se mudado para uma ilha.Uma ilha de verdade.Eu sabia que ele era ridiculamente rico. Átila costumava chamá-lo de "milionário em dobro" quando falava sobre ele.Ainda assim, até para os padrões de Damon, possuir uma ilha parecia um pouco exagerado.Deixei o vento continuar sacudindo meus cabelos contra o rosto. Não havia muito o que eu pudesse fazer para impedi-lo."Seu cunhado tem dinheiro suficiente para comprar um milhão de coisas para cada parte do corpo de uma mulher", Átila costumava dizer, rindo.Na minha cabeça, ter uma ilha era quase como possuir um país particular.Um mundo próprio.Um lugar onde alguém poderia estabelecer as próprias regras e viver como um verdadeiro rei.Eu sabia que algumas pessoas extremamente ricas viviam daquela maneira.Damon era uma delas.Karyn sempre
Durante o trajeto até o apartamento de Caroline, tentamos ser discretos.Eu mantinha o local sob vigilância havia meses, por isso, à primeira vista, parecia exatamente como deveria estar.Ainda assim, o lugar me surpreendeu.Era simples.Pequeno demais.Deixei Dion no carro, responsável por Árion e Maya, enquanto subi com Caroline. Tínhamos ainda a cobertura de um dos homens que mantinha o apartamento sob observação.Assim que entrei, tive a sensação de estar dentro de uma casa de bonecas.Tudo era pequeno.Estreito.Pouco arejado.Um homem do meu tamanho praticamente ocuparia sozinho a sala de estar.— Vou juntar minhas coisas rapidamente — avisou Caroline.— Não se preocupe. Faça tudo o que precisar.Tentei demonstrar boa vontade.Enquanto ela se afastava, comecei a observar o ambiente.Pisei em um tapete de pelos que fez meus sapatos afundarem de maneira ridícula.Olhei ao redor.Os móveis eram simples.Os objetos pareciam ter pouco valor.O sofá branco estava coberto por uma camad







