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capítulo 2

Author: Danny Veloso
last update publish date: 2026-09-30 20:11:21

— Não chore, omorfi mou. Desse jeito eu não consigo entender uma palavra do que você está dizendo — pediu Átila, meu agente, estendendo-me um lenço de papel enquanto me lançava um olhar compassivo.

— Kolotripida!

Ele estava ali, impecavelmente vestido em um terno caro, com os cabelos ruivos perfeitamente arrumados e os olhos escuros e acusadores escondidos atrás dos óculos de grau que havia esquecido de tirar.

Damon Stark.

Só de pensar nele, minha irritação aumentava.

— Ele foi até lá e não ajudou em absolutamente nada! Só conseguiu me deixar ainda mais constrangida e irritada, tratando-me como uma criança. Como se eu fosse uma fedelha que não soubesse o que estava falando!

— Calma, docinho. Seu cunhado é mesmo um homem elegante e influente, mas vocês não têm nenhuma relação além do parentesco. Nem amigos são. Não é isso que você sempre me diz?

— Né! Né! Mil vezes né!

Exclamei, exasperada.

— Então não tem com o que se preocupar — respondeu, dando de ombros.

— Átila, claro que temos! Foi tudo horrível! Eu tentei contar o que vi, mas ninguém quis me ouvir. Eles menosprezaram nosso trabalho e nosso prejuízo como se fossem donos da verdade. Como se nossa perda não significasse nada só porque nossos livros não são considerados clássicos da literatura!

— Panemorfi, provavelmente aqueles caras nem leem coisa alguma. Não fique assim por causa deles. Não valem suas lágrimas nem seu tempo.

Ele fez uma expressão debochada.

— Eles não fazem ideia do que estão falando.

— Mas e o prejuízo? Os livros queimados?

Minha voz voltou a falhar. Olhei para o lenço completamente encharcado e tentei usá-lo mais uma vez.

Átila suspirou.

— Quanto ao prejuízo, nós vamos nos recuperar. Todos nós. Os outros autores vão se reerguer, você também vai. Estaremos juntos. E, unidos, somos mais fortes.

— Estou cansada...

As lágrimas voltaram.

— São tantas coisas que precisamos superar todos os dias. Avaliações ruins, resenhas estranhas, competição desleal, ataques nas redes sociais, plágio, violação de direitos autorais, pirataria, golpes... Tantas situações.

Abaixei a cabeça entre as pernas, sentindo a mão grande de Átila deslizar suavemente pelos meus cabelos.

— Eu sei, panemorfi. Eu sei. A vida é difícil para todo mundo, mas para escritores parece ser ainda pior. É um mundo de cão!

— Né... Exatamente.

Funguei.

Átila esperou alguns segundos antes de falar novamente.

— Caroline, você é muito talentosa. De verdade. Eu acredito nisso. Caso contrário, não estaria aqui representando você.

Levantei o rosto.

— Eu nunca tinha representado escritores iniciantes. Mas estou aqui, não estou? Suas palavras formaram cenas inteiras na minha cabeça, como filmes sem imperfeições. Fiquei impressionado com a maneira como elas cantavam para mim, como uma melodia sedutora e poderosa.

Sorri entre as lágrimas.

Bendito fosse aquele desconhecido que havia esquecido meu livro caído no chão daquele avião, permitindo que ele o encontrasse e viesse atrás de mim.

Meu rosto devia estar inchado de tanto chorar, e meu nariz certamente estava vermelho.

— Eu sei. Você nunca teria lido um romance hot se não fosse por isso. Só leu porque não tinha nada para fazer naquela longa viagem além de ouvir música e dormir.

Recitei o restante da história que ele nunca havia escondido de mim.

Foi justamente aquela sinceridade que me fez confiar nele.

Átila sorriu.

— O importante é que eu li. E o encanto das suas palavras me prendeu. Demorei para encontrar você. Não foi fácil. E, depois que encontrei, ainda precisei convencê-la.

Soltei uma risada fraca.

Eu realmente não acreditara nele no começo. Não conseguia imaginar que aquele homem estivesse mesmo procurando por mim.

Ele insistira bastante, admito. Mas seu nome abria muitas portas. Foi muito mais fácil acreditar nele quando apareceu com um contrato nas mãos do que quando chegou apenas com promessas.

— Quando a editora me ligou dizendo que meu agente havia feito contato e mencionou seu nome, pensei que fosse algum engano. Eu nem sabia quem você era.

Sorri, ainda um pouco envergonhada por não ter reconhecido seu nome naquela época.

— Não se culpe — ele respondeu. — A bolha em que você vivia estava muito distante do mundo em que eu transitava. Agora estamos cada vez mais próximos de chegar lá. Naqueles corredores pelos quais vale a pena gastar os sapatos para atravessar.

— A High Society?

Um sorriso começou a surgir em meu rosto.

— Essa mesma! Acho bonitinho como você costuma chamar. Já disse isso?

— Um milhão de vezes só este ano!

Revirei os olhos, entrando novamente no nosso jogo habitual.

Átila riu e apertou meu nariz vermelho e inchado entre o polegar e o indicador.

— Isso também é bonitinho, sabia?

Acabei sorrindo novamente.

Cada sorriso parecia um pouco mais fácil que o anterior.

— Átila, o que eu faria sem você?

— Continuaria sendo a mulher incrível que sempre foi — respondeu imediatamente, sorrindo para mim.

— Engraçadinho!

Dei um tapinha carinhoso em sua perna.

— Agora vá se arrumar. Vou levá-la para comer alguma coisa e melhorar esse humor.

— Não precisa, amigo. Eu juro que vou ficar bem. Só preciso de uma boa noite de sono.

— Eu quero levar minha estrela do hot para jantar. Não posso?

A diversão desapareceu dos olhos dele por apenas um segundo, voltando logo depois.

Ele realmente estava preocupado comigo.

Átila era assim.

— Está certo. Vou tomar um banho e me vestir.

Levantei-me e segui em direção ao meu quarto.

— Sim, acho melhor. Porque tem fuligem no seu rosto! — gritou ele da sala.

Parei no meio do caminho.

— O quê? No meu rosto? Por que não me disse antes?

Voltei e coloquei apenas a cabeça para fora da porta.

Átila abriu um sorriso malicioso.

— Não quis estragar a cena. Você estava tão bonitinha chorando com o rosto manchado desse jeito.

Comecei a rir.

— Vamos comer e falar mal desse detetive e do meu cunhado.

— Perfeito. Nunca gostei desses tipos cheios de certezas e dinheiro. Muito menos daqueles apaixonados por leis e regras que só parecem existir quando servem aos interesses deles.

— Está certo. Não vou demorar.

Fiz um sinal com a mão.

— Não se preocupe. Estarei bem aqui esperando.

Ele sorriu tranquilizadoramente.

Entrei no banheiro e, enquanto tirava o vestido, um pensamento voltou à minha cabeça.

Átila.

Há seis meses, aquele homem havia surgido na minha vida e se tornado uma das pessoas mais importantes para mim.

Como um homem tão alto, forte, elegante e bonito havia decidido se tornar um agente literário?

Ele parecia muito mais o tipo de homem que deveria estampar a capa de um livro do que aquele que passava os dias cuidando dos caprichos de seus autores.

Sua beleza ruiva era algo que eu ainda não conseguia compreender.

O corpo elegante, o rosto bonito e aquele jeito de quem parecia ter nascido para viver sob o sol e os holofotes.

Não conseguia pensar em Átila sem sorrir, principalmente porque ele sempre tinha um sorriso pronto, revelando dentes perfeitamente brancos.

Ele cuidava muito bem de si mesmo e não tinha medo de demonstrar isso. Pele, cabelo, roupas, viagens, comida e mulheres. Átila apreciava as coisas boas da vida sem restrições ou culpa.

Costumava dizer:

— O que se leva da vida é o que se vive dela.

Eu gostava daquela filosofia simples.

Gostava ainda mais da maneira como ele se permitia sentir prazer sem culpa, sem medo e sem se prender ao que os outros pensavam.

Já havia dito algumas vezes que sonhava ser assim um dia.

Ele nunca me contava com o que sonhava.

Se é que sonhava.

Átila parecia realizar muito mais do que a maioria das pessoas sequer ousava imaginar.

Mas todo mundo tinha sonhos.

Desejos escondidos no fundo da alma, aqueles que acabam se transformando em obsessões até serem realizados.

Fiquei me perguntando se ele também tinha um.

Talvez apenas soubesse escondê-lo muito bem.

Fechei os olhos quando o jato de água quente atingiu minha cabeça.

Meu cabelo devia estar impregnado de fumaça e fuligem.

A água escorrendo pelo rosto trouxe um alívio imediato.

Soltei um suspiro satisfeito.

Era refrescante.

Relaxante.

Esfreguei cuidadosamente os cabelos e lavei cada mecha.

Meu novo cabeleireiro, indicado por Átila, era realmente espetacular. Aqueles produtos haviam feito maravilhas pelos meus cachos. O mesmo acontecia com o esteticista que ele havia recomendado.

Minha pele nunca estivera tão saudável e luminosa.

Espalhei a espuma pelo corpo com a esponja, satisfeita.

Tudo o que eu estava gastando era um investimento em mim mesma.

Na minha imagem.

Na minha carreira.

No meu trabalho.

Átila era um anjo que havia caído na minha vida.

Ou talvez uma fada madrinha que decidira transformar tudo ao meu redor.

Da consultoria de imagem às roupas escolhidas para mim. Dos profissionais que indicava às portas que abria.

Sorri e sussurrei seu nome sob a água, quase como uma saudação.

— Átila...

Ele era meu melhor amigo.

Não havia entrado devagar na minha vida.

Não.

Ele havia aberto caminho a pontapés e simplesmente se instalado nela.

Sempre abrindo portas e janelas, estendendo tapetes a cada passo que eu dava.

Eu era imensamente grata àquele homem.

E também à pessoa que havia deixado meu livro cair no chão daquele avião, permitindo que Átila o encontrasse.

Depois do banho, fui até o closet.

Escolhi um vestido prateado.

Eu sabia que era mais adequado para uma boate, mas gostava dele de verdade.

Quando me olhei no espelho, gostei do que vi.

Eu estava radiante.

Bonita.

Forte.

E, pela primeira vez desde o incêndio, não parecia uma mulher prestes a desmoronar.

Já conseguia imaginar as expressões das pessoas desagradáveis ao me verem bem vestida, feliz e realizada ao lado de um homem bonito.

Estava saindo do quarto quando meu telefone tocou.

Olhei para a tela.

Era um convite para jantar na casa da minha irmã.

Quase recusei por ter sido enviado por Damon.

Meu cunhado.

Mas sabia que Karyn estava preocupada comigo desde que eu voltara para a Grécia, seis meses antes, pouco depois do nascimento de Árion.

Por isso, aceitei.

Mandei mil desculpas para Átila.

Como sempre, ele foi compreensivo e entendeu imediatamente.

Muito diferente de Damon Stark.

Eu tinha certeza de que meu cunhado não aceitaria um não como resposta.

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