LOGINO jantar estava transcorrendo muito bem.
Ou, pelo menos, tão bem quanto poderia ser com Caroline à mesa. Minha cunhada tinha a capacidade impressionante de ser agradável como um furúnculo. Passara a noite inteira trocando farpas comigo, claramente contrariada por não ter sido levada a sério pelo inspetor no incêndio daquela tarde. Karyn insistira para que ela jantasse conosco. Depois de saber do incêndio, minha esposa queria Caroline por perto para se sentir mais tranquila. Caroline, por outro lado, chegara avisando que havia cancelado um jantar de negócios para estar ali. Naturalmente, fiz questão de não comentar. Assim que terminamos de comer, uma movimentação estranha começou do lado de fora. Primeiro vieram os gritos. Depois, a correria dos funcionários. Minha equipe de segurança invadiu a sala de jantar no mesmo instante em que o som de tiros explodiu pela casa. O vidro das janelas se estilhaçou. — Fujam para um lugar seguro! — gritei. Dion colocou uma pistola em minha mão. Agarrei-a e disparei na direção do homem escondido atrás do balcão. Outros homens responderam imediatamente, atirando em nossa direção. — As mulheres estão fora de vista, senhor Stark! — Luka avisou. Os disparos cessaram por alguns segundos. Levantei a mão e fiz um movimento circular com o indicador. — Vamos! Dividam-se! Se aqueles homens ainda estivessem dentro da casa, precisávamos encontrá-los antes que mudassem de posição ou conseguissem escapar. Luka seguiu para a cozinha. Dion tomou a direção oposta. Amaris foi para os fundos, onde ficavam o depósito e a adega. Eu segui pelo corredor que levava ao meu escritório. Sabia exatamente o que aqueles homens procuravam. O corredor estava escuro. Uma das lâmpadas havia sido atingida por um disparo e piscava de maneira irregular, impedindo que o ambiente mergulhasse completamente na escuridão. Aquilo confirmou minha suspeita. Eles estavam indo atrás do meu cofre. Ali estavam meus contratos mais sigilosos, documentos que poderiam destruir anos de negócios se caíssem nas mãos erradas. Dinheiro, joias e outros objetos de valor ficavam no cofre de Karyn, já que era ela quem costumava utilizá-lo. Mas aqueles homens não pareciam interessados em dinheiro. Não eram ladrões comuns. E isso era muito pior. Eram rivais. Tinham estudado a casa, nossas rotas de segurança e os horários da família. Sabiam exatamente o que queriam e não estavam ali para perder tempo com qualquer coisa que encontrassem pelo caminho. Quem quer que fossem, conheciam o alvo. Provavelmente haviam entrado junto com alguma das entregas do dia, passando pela segurança sem levantar suspeitas. Cheguei ao meu escritório. A porta estava arrombada. Uma bala havia destruído a fechadura. Empurrei-a lentamente. O caos me recebeu. Móveis estavam tombados. Louças quebradas cobriam o chão. Objetos haviam sido jogados por todos os lados. Eles tiveram tempo. Tempo suficiente para procurar. Apontei a arma para as sombras e vasculhei cada canto. Ninguém. O cofre continuava intacto. Eu sabia que estaria. Ninguém além de mim conhecia a combinação. E eu não era próximo de quase ninguém naquele momento. Exceto... Karyn. Merda! Um estampido ecoou pela casa. Meu sangue gelou. Corri na direção oposta. Na direção em que as mulheres haviam fugido. Naquele instante, percebi que tinha outros tesouros. Muito mais importantes do que meus contratos, meu dinheiro ou qualquer coisa que estivesse naquele cofre. Minha família. Ouvi novos disparos do lado de fora. Depois, gritos. Gritos de mulheres. Desesperados. Doloridos. Meu coração pareceu parar. Corri ainda mais rápido. Quando finalmente alcancei o local, quase desabei de alívio. Karyn estava agachada no gramado, com Árion nos braços. — Karyn! Árion! Corri até ela. Assim que me ajoelhei ao seu lado, minha esposa empurrou nosso filho para meus braços. Eu sequer tive tempo de guardar a arma. — Kassie... — Sua respiração estava entrecortada. — Disse que... era eu... me protegeu... Franzi a testa. — O quê? — Levaram ela... Meu coração parou. — Caroline? Karyn assentiu com dificuldade. — Traga... prometa... cuide dela... Damon... — Sim, glyka mou. Eu prometo. Eu vou. Farei tudo o que você quiser. Prometi desesperadamente. Eu daria a lua se ela me pedisse. Qualquer coisa. — Diga... Árion... amo... A voz dela estava cada vez mais fraca. Abracei nosso filho com um braço, embalando-o mecanicamente contra meu peito, enquanto a outra mão segurava o rosto de Karyn. — Glyka mou, você está em choque. Você mesma pode dizer isso a ele. Tentei tranquilizá-la. Mas ela balançou a cabeça. — Não... posso... Seus braços perderam a força. Caíram ao lado do corpo. E então eu vi. Uma mancha vermelha se espalhava pelo vestido azul. Cada vez maior. Karyn mantinha as mãos sobre o ferimento, como se ainda tentasse impedir que seu sangue alcançasse as roupas e as mantas que envolviam nosso filho. — Não... Minha voz saiu em um sussurro. Então tudo aconteceu rápido demais. Pessoas correram em nossa direção. Alguém gritava. Árion começou a chorar. E, no meio daquela confusão, ouvi um grito terrível. Demorei alguns segundos para perceber que aquele som havia saído da minha própria garganta. Meu mundo havia acabado. Karyn estava morta. E Caroline havia sido levada. --- Sirenes. Policiais. Curiosos. Jornalistas. Estranhos entrando e saindo da minha casa. Tudo girava ao meu redor como um carrossel enlouquecido de luzes, vozes e movimentos que eu não conseguia fazer parar. Eu havia me refugiado no quarto de Árion. Era o único lugar onde conseguia permanecer. Não queria meu filho longe de mim. Ele era meu único ponto de lucidez. Meu único motivo para continuar respirando. Uma batida soou na porta. Dion colocou o rosto pela abertura. — Senhor Stark... Eu não queria responder. Não queria ouvir mais ninguém. Mas respondi. Porque eu ainda precisava ser o adulto. O pai. O chefe. Mesmo quando tudo dentro de mim queria apenas se encolher no escuro e permanecer sozinho com meu filho. — Entre. Dion entrou. Seu rosto estava sério. — Precisamos das suas ordens para encontrar a senhorita Caroline. Levantei os olhos lentamente. — Estão falando o nome dela na televisão. Agora sabem que ela não é a senhora Stark. Ela fingiu ser Karyn para proteger sua irmã. Ele hesitou. — Vão matá-la também. As palavras atravessaram minha apatia. Caroline. Karyn. As últimas palavras da minha esposa voltaram à minha cabeça. Traga a Kassie de volta. Fechei os olhos. Então repeti a ordem. — Traga Caroline de volta. Dion assentiu e saiu imediatamente. Fiquei sozinho outra vez. Sentado no mesmo lugar. Com Árion nos braços. Sem saber como continuar. Sem Karyn. Sem saber se Caroline ainda estava viva. Eu preferia ter morrido no lugar de Karyn. Ela seria muito mais necessária ao nosso filho do que eu. Eu havia falhado em protegê-la. Porque não fiquei ao lado dela. Confiei demais na segurança. Confiei demais nas pessoas ao meu redor. Nenhuma delas amava Karyn como eu. Nenhuma teria lutado por ela como eu lutaria. E, ainda assim, eu havia confiado sua vida a elas. A culpa era minha. Toda minha. Eu era egoísta. Prepotente. Eu havia chamado Caroline naquela noite para nossa casa apenas para tranquilizar Karyn. Tirei minha cunhada de seu compromisso. Trouxe-a para perto de nós. E, por minha causa, ela havia sido sequestrada. Talvez estivesse morta. Enquanto eu chorava pela minha esposa, havia me esquecido de Caroline nas mãos daqueles criminosos. Durante aqueles minutos de dor, eu só conseguia pensar em Karyn. Na minha perda. No meu sofrimento. Meu Deus... Eu era uma desgraça. Tinha perdido minha esposa. E agora talvez tivesse condenado a irmã dela à morte também.A voz clara de Caroline me provocou uma satisfação genuína.Seu inglês era quase sem sotaque, muito melhor que o meu.Havia algo curioso no tom de sua voz enquanto cantava. Parecia mais jovem, quase como a menina que eu havia conhecido tantos anos atrás.Fiquei observando-a enquanto cantava de olhos fechados, provavelmente para não se distrair ou perder o tom.Eu precisava admitir: era agradável ouvi-la.A música tinha algo envolvente, quase hipnótico, e combinava perfeitamente com a história.Para mim, a parte mais interessante de O Morro dos Ventos Uivantes sempre havia sido a presença de Catherine, quase como um fantasma pairando sobre tudo.Quando chegou ao refrão, fechei os olhos também.Queria tentar sentir a música da maneira como ela havia sugerido.Fazia muito tempo que eu não tentava sentir alguma coisa de verdade.Muito tempo desde que permitira que qualquer coisa atravessasse as barreiras que havia construído ao redor de mim.E, ironicamente, estava fazendo isso por causa
Saí do quarto procurando o escritório, como Maya havia me explicado. Demorei alguns minutos, mas finalmente encontrei.A parede deslizante era sempre a que possuía os porta-retratos agrupados em mosaico.Inteligente.Discreto.Praticamente impossível perceber que havia uma passagem escondida ali.Assim que entrei, Damon ergueu a cabeça.Estava sentado em um grande sofá, quase como um divã, próximo a uma luminária de leitura curva presa à parede.Só então reparei melhor em sua roupa.Era engraçado como ele conseguia transformar uma roupa simples em algo sofisticado.À primeira vista, parecia apenas confortável.De perto, porém, era tudo menos comum.Damon continuava elegante como eu me lembrava, embora aquela fosse a primeira vez que o via vestido de maneira tão informal.Usava um blusão de lã em tom de areia e uma calça larga de linho, com botões da mesma cor nas laterais. Nos pés, sandálias de couro.Tudo em tons suaves.Em outra situação, eu provavelmente teria rido.Aquelas roupas
Acordei e me espreguicei na enorme cama, rolando para um lado e para o outro. Eu sempre fora espaçosa e pouco comportada para dormir, desde criança.Abri os olhos devagar.O quarto ainda estava mergulhado em uma penumbra azulada. A luz da manhã mal conseguia atravessar as cortinas, e aquilo me deixou confusa por alguns segundos.Então o medo veio.A escuridão me deixava inquieta.Respirei fundo.Eu precisava aprender a conviver com aquilo. Precisava juntar os pedaços da minha alma e descobrir uma maneira de seguir em frente.Peguei o vestido do dia anterior e o vesti. Era a única roupa que tinha ali. Calcei as sapatilhas, arrumei a cama e desci as escadas.Um cheiro delicioso vinha da cozinha.Segui o aroma.E parei imediatamente.Meus olhos se arregalaram.Damon estava diante do fogão, aquecendo a refeição.Eu não fazia ideia de que ele sabia cozinhar.Durante anos, sempre achei que os elogios de Karyn sobre as habilidades do marido fossem apenas aquelas gentilezas que as esposas faz
DamonAcordei sobressaltado.Por um instante, tive a impressão de ter ouvido alguém gritar.Então veio um som abafado, parecido com um choro.— Árion?Levantei-me depressa.Atravessei a porta de comunicação até o quarto do meu filho, mas encontrei-o dormindo tranquilamente. Íris estava acomodada na cama ao lado do berço, provavelmente havia trocado de lugar com Maya para que ela pudesse descansar depois da viagem.Fechei a porta com cuidado.Não queria acordá-la sem necessidade.Então ouvi novamente.Mais distante.Um soluço.Foi quando me lembrei dela.— Caroline...Voltei rapidamente para o meu quarto.Parei diante da porta que ligava os dois ambientes.Hesitei.Caroline ainda não sabia que, na verdade, aqueles três quartos faziam parte de um único espaço, separado apenas por painéis de madeira deslizantes.Quando a casa fora construída, eu havia pedido que o quarto de Árion tivesse acesso ao meu. Os arquitetos presumiram que o quarto de minha esposa deveria seguir o mesmo projeto.
— Esta é a Ilha Stamos. Chegamos em casa! — anunciou Damon, abrindo um sorriso satisfeito.— Uma ilha?A palavra escapou em um sussurro.Fiquei olhando para o lugar sem saber o que dizer.Damon tinha se mudado para uma ilha.Uma ilha de verdade.Eu sabia que ele era ridiculamente rico. Átila costumava chamá-lo de "milionário em dobro" quando falava sobre ele.Ainda assim, até para os padrões de Damon, possuir uma ilha parecia um pouco exagerado.Deixei o vento continuar sacudindo meus cabelos contra o rosto. Não havia muito o que eu pudesse fazer para impedi-lo."Seu cunhado tem dinheiro suficiente para comprar um milhão de coisas para cada parte do corpo de uma mulher", Átila costumava dizer, rindo.Na minha cabeça, ter uma ilha era quase como possuir um país particular.Um mundo próprio.Um lugar onde alguém poderia estabelecer as próprias regras e viver como um verdadeiro rei.Eu sabia que algumas pessoas extremamente ricas viviam daquela maneira.Damon era uma delas.Karyn sempre
Durante o trajeto até o apartamento de Caroline, tentamos ser discretos.Eu mantinha o local sob vigilância havia meses, por isso, à primeira vista, parecia exatamente como deveria estar.Ainda assim, o lugar me surpreendeu.Era simples.Pequeno demais.Deixei Dion no carro, responsável por Árion e Maya, enquanto subi com Caroline. Tínhamos ainda a cobertura de um dos homens que mantinha o apartamento sob observação.Assim que entrei, tive a sensação de estar dentro de uma casa de bonecas.Tudo era pequeno.Estreito.Pouco arejado.Um homem do meu tamanho praticamente ocuparia sozinho a sala de estar.— Vou juntar minhas coisas rapidamente — avisou Caroline.— Não se preocupe. Faça tudo o que precisar.Tentei demonstrar boa vontade.Enquanto ela se afastava, comecei a observar o ambiente.Pisei em um tapete de pelos que fez meus sapatos afundarem de maneira ridícula.Olhei ao redor.Os móveis eram simples.Os objetos pareciam ter pouco valor.O sofá branco estava coberto por uma camad







