FAZER LOGINMatteo não fez mais perguntas, seu olhar percorreu o corpo de Paloma, avaliando cada uma das suas reações com uma frieza calculista que denunciava o controle absoluto que ele mantinha sobre a situação.
— Ao descer até Lorenzo, notou a fraqueza do menino, mas isso não lhe trouxe compaixão; ao contrário, apenas reforçou a determinação de Matteo em não permitir desobediência. Ele segurou firmemente o braço da jovem, sua mão era como uma presa de aço, equilibrando-se entre a firmeza da ordem e a sutileza de não causar dor. — Havia uma ironia perturbadora naquele gesto, um controle absoluto que, embora aparentemente suave, revelava a intimidação que sempre o acompanhava. — Entre no carro. Paloma abriu a boca para protestar, sua mente fervilhando com várias respostas que poderiam escapar de seus lábios. — Mas, antes que pudesse desenvolver qualquer uma delas, Lorenzo reagiu primeiro, como se a presença opressora do pai tivesse libertado um instinto de sobrevivência dentro dele. Soltando a mão do pai por um instante, ele estendeu a pequena mão em direção a ela, os dedos tremendo e os olhos transbordando medo. — Vem comigo... — ele sussurrou, a voz baixa, quase inaudível, mas repleta de um desespero que perfurou o coração de Paloma. — Segura minha mão? — Aquelas palavras ressoa profundamente em Paloma, como um eco de esperança e vulnerabilidade. Ela olhou para o corte na cabeça do menino, para o sangue seco que manchava seu cabelo e o esforço dele em ser forte, mesmo diante da adversidade. — Pequeno, você precisa ir ao hospital— disse, abaixando-se novamente diante dele, tomando cuidado para não perder o contato visual, a voz firme apesar da angústia que apertava seu peito. — Você machucou a cabeça, isso não é brincadeira, precisamos ir fazer exames, urgente. — O tom de sua voz era quase uma súplica, uma tentativa de convencê-lo de que, mesmo em meio à pressão, havia um caminho a seguir, que sua segurança era a prioridade máxima. Lorenzo olhou para Matteo, buscando apoio em uma figura que deveria ser protetora, mas que agora representava uma eleição entre medo e obediência. — Papa... — ele murmurou, a voz trêmula, carregada de um misto de carinho e temor, como se estivesse pedindo para que o pai reconsiderasse. — Nós vamos — Matteo respondeu, sem desviar o olhar de Paloma, como se estivesse tentando estabelecer uma conexão invisível entre os dois. — Todos nós, ela vai também, não se preocupe, meu filho.. As palavras de Matteo eram uma promessa, mas também uma advertência: ele estava levando-os junto, mas sob suas regras, em suas condições, e a liberdade que eles desejavam parecia cada vez mais distante. — As palavras de Matteo soaram como uma sentença irrevogável, um comando que não deixaria espaço para dúvidas. O contraste de sua voz com a fragilidade da situação, como se a própria atmosfera estivesse tensa e carregada de expectativas insustentáveis. — Não, vou não , você não manda em mim!— ela respondeu imediatamente, com uma resolução que desafiava a pressão sobre ela. — Seu coração batia rápido, mas havia uma força inabalável em sua determinação. — Eu vou pra casa, minha avó precisa de mim. Minha avó é muito idosa e não vim do Brasil para ser sequestrada porque salvei o seu filho. — As últimas palavras saíram de sua boca com uma indignação que ela não conseguia conter, uma mistura de defesa e determinação que fazia ecoar a importância do que estava em jogo. Os homens ao redor dela se moviam quase imperceptivelmente, seus olhares focados na situação tensa, como gatos em uma emboscada à espera do momento perfeito para atacar. Apesar da inquietação que cercava o ambiente, Matteo se manteve calmo, observando cada palavra de Paloma com a atenção de alguém que percebe uma ameaça não pela força, mas pela coragem. — Era como se, em meio ao caos, ele tivesse encontrado a clareza necessária para ver além do que estava à frente. — Onde a sua avó mora? — ele perguntou em um tom seco, que refletia a urgência do momento, cada sílaba impregnada de uma seriedade que sugeria que a vida da mulher na sua frente estava em jogo. — Esta não era apenas uma pergunta; era uma questão de estratégia, uma tentativa de entender o terreno antes que os passos seguintes fossem dados. Paloma hesitou por um breve instante, ciente do risco que corria, como se cada segundo que passava pesasse em sua consciência, mas a exaustão a impediu de mentir. As memórias da sua avó, cada ruga em seu rosto, cada sorriso cansado, vieram à tona, iluminando sua determinação. — Na periferia. — Ela então citou o bairro e o endereço exato, a própria rua ecoando em sua mente com nostalgia e urgência. — O nome dela é Francescca De Lucca. — Havia um certo peso nas palavras, um sacrifício implícito na revelação que trouxe um misto de medo e esperança a seu coração, sabendo que qualquer informação poderia mudar o rumo daquela noite. O efeito foi quase instantâneo. O maxilar de Matteo contraiu-se levemente, um movimento quase imperceptível para quem não estivesse prestando atenção. — De Lucca... — ele repetiu, um brilho de reconhecimento iluminando seus olhos, como se finalmente uma peça-chave do quebra-cabeça tivesse caído no lugar. — O nome carregava um peso que provocou uma centelha de raiva e determinação em seu interior. — Você é da família De Lucca? Paloma franziu a testa, sentindo um desconforto crescente misturado com um leve temor. Seu coração batia descompassado, e ela percebeu a gravidade da situação. — Sou neta dela mas não conheço a família De Lucca. Meu pai mora no Brasil, estou aqui apenas para cuidar da minha avó, faz cinco anos. A verdade escorregava de seus lábios como uma última esperança, mas ela sabia que era apenas uma fração da complexidade que a cercava. — O peso de sua linhagem agora parecia uma maldição em vez de uma bênção, um fato que a isolava ainda mais do homem à sua frente. O silêncio que se seguiu era carregado de tensão, quase tangível, como um fio prestes a se romper, e Paloma sentiu a pressão do instante. — Matteo deu um passo à frente, não com a intenção de intimidar, mas para avaliar a situação com mais clareza, seus olhos perscrutando cada detalhe do rosto da jovem. — Primeiro, vamos levar meu filho ao hospital, ele precisa de você, e você vai de um jeito ou de outro.— disse como um comando. — Depois, mandarei meus homens buscarem sua avó e levarem vocês duas para a minha mansão. — A menção à mansão, cercada por mistérios e sussurros de poder, trouxera consigo uma sensação de inevitabilidade que Paloma não conseguia ignorar. — O quê?! — Paloma elevou a voz, a incredulidade transparece em suas palavras. — Isso não vai acontecer! A indignação pulsava em seu peito como um grito mecanicamente ensaiado, mas, no fundo, uma parte dela se questionava se estava pronta para enfrentar o que Matteo realmente representava. — As regras que antes lhe eram familiares pareciam se desvanecer na imensidão daquelas circunstâncias.E ENCONTRO DE DOIS MUNDOS O sol da Sicília filtrava-se pelas janelas altas da sede das Empresas Marítimas Matteo, criando padrões de luz sobre o mármore impecável do saguão. Luca caminhava com a arrogância natural de quem carrega o título de Don. Para ele, aquele prédio era uma extensão de sua casa, e todos ali sabiam que seu rosto era a lei. — No entanto, ele estava de mau humor, as pressões de Matteo e Giuseppe sobre um "casamento por conveniência" com alguma princesa da máfia italiana o deixavam exausto. — Para Luca, aquelas mulheres eram previsíveis demais, submissas demais ou ambiciosas demais. Ele precisava de algo que o desafiasse. E o destino, com seu senso de humor peculiar, estava prestes a entregar exatamente isso. — Ao se aproximar da antessala da presidência, Luca não viu a secretária habitual. Em seu lugar, de pé ao lado da mesa de carvalho, estava uma visão que o fez reduzir o passo involuntariamente. — Ela era morena clara, com a pele dourada pelo sol tr
CASA CHEIA, CORAÇÃO EM PAZ PALOMA Os anos passaram como um sopro leve, daqueles que não carregam pressa, mas deixam marcas bonitas por onde passam. —Quando olho para a nossa casa hoje, não vejo apenas paredes de pedra ou móveis caros; vejo vida em movimento constante. —Vejo risadas cruzando os corredores como faíscas, vozes que se misturam em três idiomas diferentes e fazem deste lugar um lar de verdade. Lorenzo já tem doze anos. Ele ostenta aquele ar sério de quem tenta sustentar o mundo nos ombros, mas a infância ainda escapa em pequenos gestos, no brilho do olhar quando ganha um elogio do pai. Gemima, com seis anos, é a nossa alegria viva, uma explosão de energia ruiva. — E os gêmeos, quase com quatro anos, são furacões de encanto, espalhando brinquedos e caos por onde passam. Naquela noite, eu estava na cozinha organizando o jantar enquanto revisava mentalmente o roteiro do meu canal. —Dividir a vida entre a maternidade real e o crescimento dos meus negócios digit
UM NOVO LEGADO PALOMA Os meses que se seguiram à queda de Ramon passaram com uma leveza que eu, em meus dias mais sombrios, nunca imaginei experimentar. Cada amanhecer trazia um pequeno milagre, desde os primeiros movimentos sutis dentro do meu ventre até as noites em que Matteo simplesmente se sentava ao meu lado em silêncio. Ele me observava com uma intensidade devota, como se ainda estivesse se certificando de que eu não era um sonho, de que eu estava ali — viva, segura e, finalmente, nossa. Quando o dia do parto chegou, o hospital exalava uma calma que contrastava com o turbilhão dentro do meu peito. Mesmo tentando manter a postura de mulher forte que a vida me obrigou a ter, eu apertava a mão de Matteo com força suficiente para deixar marcas. Ele, o homem que enfrentou exércitos sem vacilar, apenas retribuía o aperto com um sorriso de canto, carregado de uma ternura que só eu conhecia. — Eu nunca mais vou passar por isso. É o último, ouviu? — falei entre uma contração e ou
E SOL SOBRE A SICÍLIA CTEMPOS EPOIS O sol da tarde banhava os vinhedos da propriedade, pintando tudo com um tom de ouro velho que só a Sicília possui. Do terraço, eu observava a cena que, anos atrás, parecia um sonho impossível. O som que preenchia o ar não era mais o de tiros ou de discussões estratégicas, mas o de gargalhadas infantis que ecoavam pelos jardins. Lorenzo, agora um jovem firme e de olhar atento, corria entre as oliveiras liderando o "exército". Logo atrás dele, Santoro e Francesco tentavam manter o passo, tropeçando nas próprias pernas, mas com a determinação que herdaram do pai. E, no centro de tudo, como uma pequena soberana, Gemima corria com seu vestido branco, os cabelos ruivos brilhando sob o sol, sendo protegida pelos três irmãos como se fosse o tesouro mais precioso da ilha. Senti mãos firmes e quentes pousarem em meus ombros. Não precisei virar para saber que era Matteo. O toque dele ainda causava o mesmo arrepio de dez anos atrás, mas agora vinha acom
UMA FAMÍLIA, UM FUTURO PALOMA · MATTEO · GIUSEPPE · LUCA O silêncio que se instalou na mansão após a poeira baixar não era vazio ou incômodo. Era alívio. Um alívio denso, palpável, daqueles que não se comemoram com gritos de euforia, mas que se sentem na medula, como se finalmente cada célula do corpo pudesse relaxar. Pela primeira vez em muito tempo, o ar entrava nos pulmões sem o gosto metálico do medo ou a paranoia de olhar por cima do ombro a cada sombra. Olhei para Matteo, que ainda carregava a aura de comando, mas com um brilho diferente nos olhos. — Nós estamos livres — falei. Não foi uma pergunta, foi uma constatação, um decreto que selava o fim de uma era de sangue. Ele me observou por um longo instante, como se estivesse catalogando cada cicatriz, cada perda e cada vitória que nos trouxe até este exato segundo. Ele assentiu com a firmeza de quem não permite que a dúvida retorne. — Agora — ele disse, a voz ecoando com uma autoridade renovada —, é hora de reestrutur
PALOMA · MATTEO · FAMÍLIA Subi as escadas de mármore acompanhada pela minha mãe em um silêncio absoluto. Não era um silêncio de luto ou hesitação, mas de conclusão. Tudo o que precisava ser dito já havia sido escrito com pólvora lá embaixo. À medida que subíamos, o ar dos andares superiores parecia mais leve, quase puro, embora eu soubesse que era apenas uma ilusão de óptica; certas decisões deixam marcas invisíveis na alma, marcas que a gente não limpa com banho, mas carrega como medalhas. Quando entramos na sala principal, Matteo estava de pé, a postura impecável de um rei em seu tabuleiro. Ele estava atento, como se estivesse cronometrando cada passo nosso. No momento em que nossos olhos se cruzaram, a eletricidade na sala mudou. Ele não precisou de um relatório; ele leu o veredito no meu rosto. — O lixo já foi eliminado — falei, sem rodeios, minha voz cortando o ambiente com a precisão de um bisturi. — Mandei incinerar tudo. Matteo sustentou meu olhar por um longo segundo,







