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O CURRÍCULO
— Boa tarde, vim deixar um currículo, o homem que a atendeu pegou o papel com um gesto automático, lançou apenas um olhar superficial, mais por obrigação do que por real interesse, e assentiu com a cabeça, já voltando a atenção para outra coisa qualquer. — Vamos analisar, se surgir algo, ligamos. Paloma conhecia aquela resposta como quem conhece um caminho já percorrido muitas vezes. Agradeceu, deu meia-volta e saiu, sentindo que aquela porta se fechava era apenas mais uma entre tantas outras. Ela ajustou a bolsa no ombro e começou a caminhar em direção ao metrô, refazendo mentalmente os próximos lugares onde ainda poderia tentar. — O dinheiro estava curto demais para esperar por ligações que quase nunca vinham, esperar não era uma opção. Caminhava com passos firmes, mas a mente corria, calculando despesas, prazos, possibilidades que se esgotava rápido demais. E foi então que ouviu. — Um som estranho, fraco, quase imperceptível, um gemido engolido pelo barulho da rua, pelas conversas, pelos carros passando. — Paloma diminuiu o passo, certa de que aquilo não combinava com o caos cotidiano da cidade. O som se repetiu, agora acompanhado por um choro baixinho, contido, como se alguém estivesse fazendo força para não ser ouvido, parou de vez. — Esse gemido não é de adulto… — murmurou, mais para si mesma do que para o mundo. O som vinha de um beco estreito, lateral ao restaurante, um daqueles espaços esquecidos que a cidade fingia não existir. — Paloma hesitou apenas um segundo, tempo suficiente para lembrar de tudo o que lhe haviam ensinado sobre prudência, medo e sobrevivência, depois se virou lentamente e foi até onde estava o som. O BECO O beco era sujo, estreito e claramente evitado. Sacos de lixo empilhados de qualquer jeito, caixas velhas encostadas nas paredes úmidas, o cheiro forte de abandono misturado a restos de comida e mofo. — Paloma avançou devagar, o corpo tenso, os sentidos atentos a qualquer movimento estranho, olhando em volta antes de cada passo, como quem sabe que aquele tipo de lugar não costuma perdoar distrações. Então ela viu, uma criança, toda encolhida. Um menino pequeno, encolhido entre os sacos de lixo, sujo, machucado, tentando se fazer menor do que já era. — A roupa era boa, de qualidade, mas estava rasgada e suja, deslocada demais para aquele cenário, era farda do melhor colégio da Sicília, logo se via que é de boa família. Um corte na testa que deixará marca, com sangue seco que escorreu pela pele clara, e o corpo inteiro tremia, não apenas de dor, mas de medo, que uma crianças daquela idade, não deve sentir. — Paloma sentiu o coração apertar de um jeito quase físico. Ajoelhou-se devagar, mantendo distância, para não o deixar mais assustado. — Ei, você está bem?— disse com a voz baixa, cuidadosa, como se cada palavra pudesse ferir. — Calma, eu não vou te machucar, você está precisando de ajuda? O menino se encolheu ainda mais, os olhos atentos, desconfiados demais para alguém tão pequeno. — Não chegue perto de mim— respondeu em siciliano rápido, a voz trêmula. — Você pode estar com eles. — Com quem? — Paloma perguntou, mantendo as mãos visíveis, abertas. — Os homens maus. O aperto no peito dela aumentou, aquilo não era uma linguagem de criança comum, havia algo errado demais ali. — O que aconteceu com você, pequeno? — perguntou com cuidado. — Eles me pegaram, eu fugi. — Onde está o seu pai, e sua mãe? O menino engoliu em seco, o olhar correndo pelo beco como se esperasse vê-los surgir a qualquer momento. — Não sei… eu tô me escondendo dos homens mais, ele me pegaram na escola. Paloma respirou fundo, tentando manter a calma, e ser o porto seguro que ele claramente não tinha naquele momento. — Qual é o seu nome? — Lorenzo. — Lorenzo… eu vou te ajudar — disse com firmeza. Ele balançou a cabeça, desconfiado. — Não, você pode tá mentindo. — Eu não sou daqui — respondeu sem rodeios. — Nem sei quem você é. O menino a observou com atenção, analisando-a com uma seriedade que não combinava com sua idade. — Você não fala igual a mim. — Porque eu não nasci aqui, sou de outro lugar. O silêncio que se seguiu foi pesado, quebrado apenas pelo som distante da rua. — Quem é o seu pai pequeno? — Paloma perguntou. — Matteo. Ela franziu a testa.— Matteo de que? O menino pareceu confuso. — Você não conhece meu papa? — Não, eu sou do Brasil, moro aqui há cinco anos. Ele hesitou por um instante, depois assentiu. — Você sabe o número dele? — Eu decorei. Paloma estendeu o celular, sentindo um frio estranho percorrer-lhe a espinha. — Então me passa o número, vou ligar para ele. Ela digitou o número com cuidado Chamou duas vezes. Uma voz grossa e rude atendeu... Alô, senhor Matteo? me chamo Paloma, e encontrei um menino, ele diz se chamar Lorenzo, ele está escondido nos fundos do restaurante. O senhor é o pai dele? O DON — Se você estiver mentindo para mim, você é uma mulher morta. Paloma arregalou os olhos, sentindo o impacto daquela voz dura atravessar a linha, a acusando. — Meu Deus do céu, o senhor já começa ameaçando? — respondeu, indignada. — Eu estou ligando porque seu filho me deu esse número,o encontrei nos fundos do Restaurante Siciliano, a criança está machucada aqui atrás do restaurante, ele me deu seu número, o senhor é o Matteo? —Sim, e passe o telefone para meu filho agora! Nossa Lorenzo, teu pai é um grosso fala com ele. — Papa, vem me buscar... Do outro lado da linha, houve um silêncio pesado, denso demais para ser ignorado. — Onde você está? — a voz voltou, controlada, perigosa. — Nos fundos de um restaurante siciliano, perto do metrô. — Fique aí, não saia de perto dele, mande a sua localização. — Ela enviou, tremendo. — Eu chego em alguns minutos, desligou sem nem agradecer. Paloma baixou o celular e olhou para o menino, sentindo o coração bater rápido demais. — Pequeno… onde foi que eu fui me meter,? — Você me ajudou, e meu papa vem, você vai ver...— respondeu Lorenzo, com um fio de alívio. — Ele é forte, ele vem me buscar, e vai pegar os homens maus. Minutos depois, o beco foi tomado, vários carros pretos pararam de uma vez, ocupando o espaço com uma precisão quase militar. — Portas se abriram, homens armados desceram, espalhando-se como se aquele pedaço da cidade lhes pertencesse por direito. Então ele apareceu, quase dois metros de altura, corpo largo, postura dominante. —Olhos verdes duros, frios, atentos a tudo, vestia um terno impecável, caro demais para aquele lugar, um homem que não precisava levantar a voz para ser obedecido. O estômago de Paloma gelou. — Meu Deus… acho que estou encrencada.— murmurou. — Eu me meti com a máfia?! Ele avançou direto até o menino. — Lorenzo. — Papa! — o garoto chama o pai com voz fraca. O abraço durou poucos segundos, logo depois, o olhar dele caiu sobre Paloma, pesado e avaliador. — Você sequestrou meu filho! — Pode parar agora! — ela levantou as mãos. — Se eu tivesse sequestrado essa criança, eu não teria ligado para o senhor. Pergunta pra seu filho, achei ele aqui, escutei um gemido, e vim ver o que era — Não, papa — Lorenzo falou rápido em siciliano. — Ela me ajudou, eu me escondi aqui papa, ela me achou, fugi dos homens maus que me pegaram na escola, escorreguei e bati a cabeça. O homem apertou o maxilar, claramente controlando algo mais violento por dentro. — Entra no carro agora!— disse para Paloma. — Eu não vou entrar no carro de estranhos, eu apenas parei para ajudar o pequeno, e o agradecimento que recebi foi só ordens?! Imediatamente, os homens ao redor ergueram as armas. Paloma não recuou. — Eu tenho uma avó que depende de mim, senhor manda chuva, não posso simplesmente sumir, porque um homem com complexo de Deus manda. Os capangas aprontaram as armas no mesmo instante, com uma precisão espantosa. —Ele a encarou com atenção, uma pessoa com juízo jamais ousaria falar ou olhar nos olhos como Paloma fez. — Ninguém fala assim comigo, mulher! — Então se acostume, por que você não é meu dono, nem patrão para me dar ordens.— ela respondeu, sem saber, sem imaginar, que estava falando com um Don. Lorenzo segurou a mão dela. — Papa… ela é boa, não briga com ela por favor, ela cuidou de mim. O silêncio que se seguiu foi pesado, definitivo. Naquele beco esquecido, uma escolha havia sido feita. E nenhum deles sairia ileso.E ENCONTRO DE DOIS MUNDOS O sol da Sicília filtrava-se pelas janelas altas da sede das Empresas Marítimas Matteo, criando padrões de luz sobre o mármore impecável do saguão. Luca caminhava com a arrogância natural de quem carrega o título de Don. Para ele, aquele prédio era uma extensão de sua casa, e todos ali sabiam que seu rosto era a lei. — No entanto, ele estava de mau humor, as pressões de Matteo e Giuseppe sobre um "casamento por conveniência" com alguma princesa da máfia italiana o deixavam exausto. — Para Luca, aquelas mulheres eram previsíveis demais, submissas demais ou ambiciosas demais. Ele precisava de algo que o desafiasse. E o destino, com seu senso de humor peculiar, estava prestes a entregar exatamente isso. — Ao se aproximar da antessala da presidência, Luca não viu a secretária habitual. Em seu lugar, de pé ao lado da mesa de carvalho, estava uma visão que o fez reduzir o passo involuntariamente. — Ela era morena clara, com a pele dourada pelo sol tr
CASA CHEIA, CORAÇÃO EM PAZ PALOMA Os anos passaram como um sopro leve, daqueles que não carregam pressa, mas deixam marcas bonitas por onde passam. —Quando olho para a nossa casa hoje, não vejo apenas paredes de pedra ou móveis caros; vejo vida em movimento constante. —Vejo risadas cruzando os corredores como faíscas, vozes que se misturam em três idiomas diferentes e fazem deste lugar um lar de verdade. Lorenzo já tem doze anos. Ele ostenta aquele ar sério de quem tenta sustentar o mundo nos ombros, mas a infância ainda escapa em pequenos gestos, no brilho do olhar quando ganha um elogio do pai. Gemima, com seis anos, é a nossa alegria viva, uma explosão de energia ruiva. — E os gêmeos, quase com quatro anos, são furacões de encanto, espalhando brinquedos e caos por onde passam. Naquela noite, eu estava na cozinha organizando o jantar enquanto revisava mentalmente o roteiro do meu canal. —Dividir a vida entre a maternidade real e o crescimento dos meus negócios digit
UM NOVO LEGADO PALOMA Os meses que se seguiram à queda de Ramon passaram com uma leveza que eu, em meus dias mais sombrios, nunca imaginei experimentar. Cada amanhecer trazia um pequeno milagre, desde os primeiros movimentos sutis dentro do meu ventre até as noites em que Matteo simplesmente se sentava ao meu lado em silêncio. Ele me observava com uma intensidade devota, como se ainda estivesse se certificando de que eu não era um sonho, de que eu estava ali — viva, segura e, finalmente, nossa. Quando o dia do parto chegou, o hospital exalava uma calma que contrastava com o turbilhão dentro do meu peito. Mesmo tentando manter a postura de mulher forte que a vida me obrigou a ter, eu apertava a mão de Matteo com força suficiente para deixar marcas. Ele, o homem que enfrentou exércitos sem vacilar, apenas retribuía o aperto com um sorriso de canto, carregado de uma ternura que só eu conhecia. — Eu nunca mais vou passar por isso. É o último, ouviu? — falei entre uma contração e ou
E SOL SOBRE A SICÍLIA CTEMPOS EPOIS O sol da tarde banhava os vinhedos da propriedade, pintando tudo com um tom de ouro velho que só a Sicília possui. Do terraço, eu observava a cena que, anos atrás, parecia um sonho impossível. O som que preenchia o ar não era mais o de tiros ou de discussões estratégicas, mas o de gargalhadas infantis que ecoavam pelos jardins. Lorenzo, agora um jovem firme e de olhar atento, corria entre as oliveiras liderando o "exército". Logo atrás dele, Santoro e Francesco tentavam manter o passo, tropeçando nas próprias pernas, mas com a determinação que herdaram do pai. E, no centro de tudo, como uma pequena soberana, Gemima corria com seu vestido branco, os cabelos ruivos brilhando sob o sol, sendo protegida pelos três irmãos como se fosse o tesouro mais precioso da ilha. Senti mãos firmes e quentes pousarem em meus ombros. Não precisei virar para saber que era Matteo. O toque dele ainda causava o mesmo arrepio de dez anos atrás, mas agora vinha acom
UMA FAMÍLIA, UM FUTURO PALOMA · MATTEO · GIUSEPPE · LUCA O silêncio que se instalou na mansão após a poeira baixar não era vazio ou incômodo. Era alívio. Um alívio denso, palpável, daqueles que não se comemoram com gritos de euforia, mas que se sentem na medula, como se finalmente cada célula do corpo pudesse relaxar. Pela primeira vez em muito tempo, o ar entrava nos pulmões sem o gosto metálico do medo ou a paranoia de olhar por cima do ombro a cada sombra. Olhei para Matteo, que ainda carregava a aura de comando, mas com um brilho diferente nos olhos. — Nós estamos livres — falei. Não foi uma pergunta, foi uma constatação, um decreto que selava o fim de uma era de sangue. Ele me observou por um longo instante, como se estivesse catalogando cada cicatriz, cada perda e cada vitória que nos trouxe até este exato segundo. Ele assentiu com a firmeza de quem não permite que a dúvida retorne. — Agora — ele disse, a voz ecoando com uma autoridade renovada —, é hora de reestrutur
PALOMA · MATTEO · FAMÍLIA Subi as escadas de mármore acompanhada pela minha mãe em um silêncio absoluto. Não era um silêncio de luto ou hesitação, mas de conclusão. Tudo o que precisava ser dito já havia sido escrito com pólvora lá embaixo. À medida que subíamos, o ar dos andares superiores parecia mais leve, quase puro, embora eu soubesse que era apenas uma ilusão de óptica; certas decisões deixam marcas invisíveis na alma, marcas que a gente não limpa com banho, mas carrega como medalhas. Quando entramos na sala principal, Matteo estava de pé, a postura impecável de um rei em seu tabuleiro. Ele estava atento, como se estivesse cronometrando cada passo nosso. No momento em que nossos olhos se cruzaram, a eletricidade na sala mudou. Ele não precisou de um relatório; ele leu o veredito no meu rosto. — O lixo já foi eliminado — falei, sem rodeios, minha voz cortando o ambiente com a precisão de um bisturi. — Mandei incinerar tudo. Matteo sustentou meu olhar por um longo segundo,







