Compartir

CAPÍTULO 4 - TERRENO SENSÍVEL

last update Fecha de publicación: 2026-01-08 21:36:34

A reunião tinha sido um desastre. Arthur saiu da sala de vidro com o maxilar rígido, o telefone ainda pressionado contra a orelha enquanto respondia a perguntas que se repetiam com variações mínimas e paciência cada vez menor. Investidores, conselheiros, expectativas. Tudo exigia decisões rápidas, respostas firmes, nenhuma margem para hesitação. Era assim que ele funcionava ou costumava funcionar.

Quando entrou no carro, desligou o telefone e apoiou a cabeça no encosto por um segundo mais longo do que o normal. Pensou em Sofia. Pensou na última vez que a filha havia desenhado durante o café da manhã, concentrada, tranquila. Pensou em Helena. Irritou-se consigo mesmo. Misturar esses pensamentos era um erro.

Chegou em casa mais cedo do que o habitual naquela tarde. Não por escolha consciente — apenas seguiu o impulso, algo que raramente se permitia fazer. Ao abrir a porta, encontrou risadas vindas da cozinha. Risadas de Sofia. Arthur parou no hall, em silêncio, como se invadir aquele som fosse uma falta de educação.

— Se você colocar muito alto, ele cai! — dizia Helena, divertida.

— Não cai! — Sofia respondeu, com convicção.

Arthur entrou devagar. Sobre a mesa da cozinha, havia uma torre improvisada de blocos coloridos, muito mais alta do que parecia segura. Helena estava agachada ao lado da filha, as mãos próximas o suficiente para amparar, mas sem interferir.

A torre caiu segundos depois, espalhando peças pelo chão. Sofia arregalou os olhos, surpresa. Depois… riu. Arthur não lembrava da última vez que tinha ouvido aquele riso tão solto.

— Papai! — Sofia o viu e correu até ele — Você chegou cedo!

— Cheguei. — respondeu, abaixando-se para abraçá-la.

Helena se levantou imediatamente.

— Boa tarde.

— Boa tarde! — ele respondeu, mas havia algo diferente em seu tom. Menos rígido, menos distante.

— Posso terminar o lanche? — perguntou ela, recuando um passo.

Arthur assentiu, ainda observando a filha juntar os blocos no chão.

— Você se divertiu hoje? — perguntou a Sofia.

— Muito. A Helena deixou eu escolher a música.

Arthur lançou um olhar rápido para Helena. Ela sorriu, de forma contida.

— Música baixa. — acrescentou — Enquanto ela desenhava.

— Regras respeitadas. — ele concluiu.

— Sempre.

Houve uma pausa breve, densa. Arthur sentiu a necessidade de reafirmar limites, mesmo sem saber exatamente por quê.

— Sofia, vá lavar as mãos! — disse, firme — O lanche já vai sair.

A menina obedeceu, deixando os dois sozinhos por um instante.

— Não quero que confunda liberdade com intimidade, minha filha gosta de você. Isso é bom. Mas precisa manter a distância certa. — disse, com a voz baixa.

Helena o encarou, surpresa apenas por um segundo.

— Distância emocional não significa frieza. — respondeu, solene — Crianças percebem quando alguém está presente de verdade.

— Não estou falando de Sofia. — ele disse, firme.

O silêncio caiu entre eles, Helena entendeu imediatamente.

— Arthur… — começou, mas se conteve, respirou fundo — Não ultrapassei nenhum limite.

— Ainda. — ele respondeu, talvez mais seco do que pretendia.

O olhar dela se fechou um pouco, não em raiva, mas em cuidado.

— Eu sei exatamente onde piso e sei por que estou aqui.

Arthur assentiu, mas a inquietação permaneceu, porque ele não estava tão certo de saber.

-

Naquela noite, depois que Sofia dormiu, Helena se recolheu mais cedo do que de costume. Não por cansaço físico — mas emocional, o tom da conversa ainda ecoava em sua mente. Ela entendia o medo dele, mas também conhecia o próprio limite.

No quarto, sentou-se na cama e pegou o celular. Uma mensagem não enviada piscava na tela: uma antiga colega perguntando se ela estava feliz no novo emprego. Helena apagou a resposta que havia escrito, felicidade era uma palavra grande demais.

Do outro lado da casa, Arthur caminhava pela sala em passos curtos, repetitivos. Pegou um copo d’água, largou sobre a bancada sem beber, passou pela porta do quarto de hóspedes e hesitou. Bateu.

— Helena?

Houve alguns segundos de silêncio antes da resposta.

— Sim?

— Podemos conversar um minuto?

Ela abriu a porta, mantendo uma distância respeitosa.

— Claro.

Arthur respirou fundo.

— Fui ríspido mais cedo. — disse, pausadamente — Não era minha intenção.

Helena sustentou o olhar dele.

— Entendo a sua preocupação.

— Mas isso não me dá o direito de projetar medos em você. — completou, sincero — Nem de ultrapassar o tom. — ela assentiu, em silêncio — Só preciso ter certeza de que tudo aqui… — fez um gesto vago com a mão — …permaneça sob controle.

— Controle não impede sentimentos, Arthur. Só os adia. — disse, suavemente.

Ele a encarou por longos segundos.

— Boa noite, Helena.

— Boa noite.

A porta se fechou devagar. Arthur se afastou sentindo algo perigoso crescer dentro de si: a certeza de que aquele terreno já não era neutro. Era sensível e qualquer passo em falso poderia mudar tudo.

Continúa leyendo este libro gratis
Escanea el código para descargar la App

Último capítulo

  • SOB CONTRATO COM O CORAÇÃO - A BABÁ DO CEO   CAPÍTULO 180 -O RECOMEÇO QUE ESCOLHEMOS

    POV HELENA.Os dias que vieram depois foram estranhamente silenciosos, mas não um silêncio ruim. Não aquele que sufoca, que aperta o peito e faz a gente lembrar de tudo o que perdeu, era um silêncio diferente. Como se a vida estivesse respirando junto com a gente, pela primeira vez sem urgência.Arthur permaneceu no hospital por mais alguns dias, a recuperação foi lenta, cuidadosa, quase meticulosa. Cada movimento era observado, cada reação analisada — e, ainda assim, cada pequeno avanço parecia uma vitória gigantesca.Eu não saía do lado dele, nem por um minuto, não por obrigação mas porque, depois de tudo, eu precisava vê-lo ali. Precisava tocar, sentir, ter certeza de que ele ainda era real, que nós ainda éramos reais. Sofia foi quem trouxe leveza antes de qualquer outra coisa.— Mamãe, o papai já pode voltar pra casa?Todos os dias, sem falhar. Sentada ao lado da cama, com os olhos brilhando e uma esperança que não conhecia limites. Arthur sorria, ainda fraco, mas sorria.— Logo,

  • SOB CONTRATO COM O CORAÇÃO - A BABÁ DO CEO   CAPÍTULO 179 - O PESO DO FIM E A LEVEZA DO RECOMEÇO

    POV HELENA.A notícia não chegou como um choque, chegou como um silêncio pesado, profundo e inevitável.Eu estava sentada ao lado da cama de Arthur quando ouvi a porta se abrir devagar, não levantei os olhos de imediato. Meu mundo, naquele momento, cabia ali — no som do monitor, na respiração ainda frágil dele, na mão que eu não soltava por nada, mas algo no ar mudou e eu senti.— Helena…A voz de Isabella veio baixa, diferente. Eu levantei o olhar e, antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa, eu soube.Meu peito apertou, mas não como antes, não com medo ou com desespero, era outra coisa. Uma sensação estranha, difícil de explicar.— Ele… não resistiu — ela completou.As palavras ficaram suspensas entre nós e, por alguns segundos eu não reagi. Fiquei ali, parada, olhando para ela, como se meu corpo estivesse tentando entender algo que a minha mente já havia aceitado.Jorge estava morto, meu pai. Aquele homem que, por tanto tempo, foi mais sombra do que presença. Mais dor do que prot

  • SOB CONTRATO COM O CORAÇÃO - A BABÁ DO CEO   CAPÍTULO 178 - FIM E RECOMEÇOS

    A madrugada parecia suspensa no tempo.No hospital, os corredores ainda carregavam o peso do que havia acontecido. O cheiro de antisséptico, os passos apressados, os sussurros contidos — tudo denunciava que aquela não tinha sido uma noite comum e, de fato, não foi.Em uma ala isolada, longe da sala onde Arthur se recuperava, outro desfecho se desenhava definitivo e irreversível.Jorge não resistiu.O tiro que atravessou seu peito não deu margem para segundas chances, nem tempo para arrependimentos tardios. Os médicos tentaram, a equipe agiu rápido mas havia limites que nem a ciência conseguia ultrapassar e ele havia cruzado todos.O corpo agora repousava coberto por um lençol branco, silencioso, distante de toda a fúria que um dia carregou. Sem voz, sem poder e principalmente sem controle.A notícia precisou ser dada e o nome que surgiu primeiro foi inevitável: Clarice.Do outro lado da cidade, o telefone tocou insistentemente frio.Clarice demorou alguns segundos para atender. O cora

  • SOB CONTRATO COM O CORAÇÃO - A BABÁ DO CEO   CAPÍTULO 177 - ENTRE SOMBRAS E LUZ

    SUBCONSCIENTE DE ARTHUR.Escuridão, não era uma escuridão comum, não era apenas ausência de luz, era um vazio denso, silencioso. Profundo demais para ser explicado.Arthur não sentia o corpo, não havia dor, peso, tampouco tempo. Estava apenas flutuando em algum lugar entre o que era real e o que talvez nunca mais fosse mas, aos poucos, algo começou a surgir. Um som distante e abafado, como vozes atravessando água.— Pressão caindo…— Aumenta a dose…— Vamos, mantém estável…As palavras iam e vinham, sem forma, sem sentido completo e então, uma luz. Fraca no início, quase imperceptível, mas ali, Arthur tentou se mover. Não havia corpo, tentou falar, mas não havia voz. Ainda assim, algo dentro dele reagia, como se aquela luz o chamasse e, junto com ela vieram imagens.Fragmentos de memórias: Sofia correndo pelo jardim, o riso leve, os cabelos ao vento.— Papai, olha!A cena mudou, dessa vez, Helena estava na varanda. O olhar doce, mas firme.— Você não precisa carregar tudo sozinho.A v

  • SOB CONTRATO COM O CORAÇÃO - A BABÁ DO CEO   CAPÍTULO 176 - ESPERANÇA

    O tempo, naquela sala de espera, parecia não seguir as mesmas regras do mundo lá fora, os minutos se arrastavam lentos e até cruéis.Helena estava sentada, o corpo inclinado levemente para frente, as mãos entrelaçadas sobre o ventre, como se aquele gesto fosse a única coisa capaz de mantê-la inteira. O olhar perdido em algum ponto do chão não acompanhava o movimento ao redor, mas ela ouvia tudo, do tilintar das xícaras ao ruído constante dos passos no corredor e, principalmente, o silêncio entre um pensamento e outro.Túlio permanecia por perto, atento, discreto. Em alguns momentos, levantava-se para buscar água e chá, qualquer coisa que pudesse oferecer algum tipo de conforto.— Toma… — disse, entregando uma xícara quente nas mãos de Helena.Ela segurou, mas não bebeu. Observava o vapor subir lentamente, dissipando-se no ar, assim como a pouca calma que ela tentava manter.— Obrigada… — murmurou.Helena tinha a voz fraca, cansada. Enquanto o relógio na parede marcava uma hora que já

  • SOB CONTRATO COM O CORAÇÃO - A BABÁ DO CEO   CAPÍTULO 175 - CORRIDA CONTRA O TEMPO

    O carro avançava pelas ruas com pressa, rápido demais para uma noite comum e lento demais para o desespero que tomava conta de Helena.No banco de trás, ela apertava as mãos uma contra a outra, os dedos trêmulos, enquanto o olhar fixo pela janela mal enxergava o caminho. As luzes da cidade passavam borradas, como se o mundo lá fora não tivesse importância alguma, porque, naquele momento, nada importava além dele Arthur.— Vai ficar tudo bem… — disse Túlio, quebrando o silêncio.A voz dele era firme, controlada, mas carregava um cuidado genuíno. Ele dirigia com precisão, atento a cada movimento da rua, desviando, acelerando quando possível, fazendo o que estava ao alcance para chegar mais rápido. Helena não respondeu de imediato, apenas levou a mão ao ventre, como se precisasse lembrar a si mesma que ainda precisava ser forte.— Ele não pode… — a voz falhou — Ele não pode me deixar.— Ele não vai. — afirmou, sem hesitar.A resposta veio como uma ordem, como uma certeza que ele precisav

Más capítulos
Explora y lee buenas novelas gratis
Acceso gratuito a una gran cantidad de buenas novelas en la app GoodNovel. Descarga los libros que te gusten y léelos donde y cuando quieras.
Lee libros gratis en la app
ESCANEA EL CÓDIGO PARA LEER EN LA APP
DMCA.com Protection Status