INICIAR SESIÓNTiana
Olho com expectativas para meus pais e meu noivo sentados à minha frente. Minha mãe está com os olhos cheios de lágrimas e meu pai a consola de cabeça baixa. Meu noivo não me olha nos olhos, e parece que eu estou fazendo algo muito errado. E meus pais não estariam tão tristes se ele não tivesse aberto a boca para dizer que era perigoso, e incerto, que eu estou jogando minha estabilidade fora, por uma empresa que nem inaugurou ainda. — Gente, eu preciso fazer isso, provavelmente não terei uma oportunidade com esta… — E nós dois? Como será a nossa relação a quilômetros de distância? Não pensou nisso? – Lúcio fala exaltado. — Estou fazendo isso por nós, Lúcio, não vamos conseguir nos casar se continuarmos trocando moedas, não quero formar uma família e não poder dar uma vida decente para nossos filhos. — Tiana, não fale assim com seu noivo, ele está trabalhando duro para te dar o melhor! – Minha mãe fala e parece que eles não estão me entendendo. — Mamá, eu sei que ele vai se esforçar para isso, mas sem faculdade fica difícil encontrar algo que possa nos sustentar do jeito que eu mereço. Antes que eu perceba, acabo soltando essa minha frustração. Lúcio se levanta e vai em direção a porta. Me sinto uma idiota por ter deixado isso escapar, porque eu fui a maior incentivadora do seu crescimento pessoal, mas ele não tem ambição, por mais amoroso que seja, seu jeito meio machista e bruto não o deixa enxergar que precisamos evoluir. Saber que eu posso ganhar mais que ele o deixou meio frustrado, e seu trabalho digno poderia ser mais valorizado pelo menos com um curso profissionalizante. — Não sabia que minha ignorância te deixava tão inconformada e envergonhada. Eu preciso estar com a mão na massa, e não com uma caneta. Você sabia que eu era um simples eletricista quando me conheceu? — E eu uma simples operária, uma simples garçonete! É assim que quer me ver a vida toda? Ele sai batendo a porta, e meus olhos se enchem de lágrimas, olho para meus pais esperando algo de positivo, uma benção da parte deles. — Minha filha, não precisava falar assim com ele, o pobre homem só quer te proteger. – Minha mãe sempre é puxada para o lado de Lúcio. — Papá! – Tento buscar aprovação pelo menos dele. — Hija (filha), eu entendo seu desejo, e entendo Lúcio também, converse com ele, e resolvam o que for melhor para os dois. — Eu só vou se me derem sua benção! – Falo com os lábios tremendo. – Eu posso ir na frente e preparar tudo para receber vocês dois quando encontrar uma boa casa e estabilidade. Quero que saibam que é importante para mim. — Você tem a nossa benção, hija, somos orgulhosos por ser tão batalhadora. Mas só queremos que esteja tudo bem entre você e Lúcio, ele também tem direito a opinião, afinal, serão marido e mulher em breve. — Está bem Papá, eu vou falar com ele, e estou feliz que confia em mim! — Vai atrás dele, mas só vá se for o melhor para os dois! Dou um beijo nos dois e vou procurar por Lúcio. Ele mora na rua atrás da minha casa, então chego rápido. Encontro ele na escada da entrada sentado sozinho, ele dá espaço para que eu sente ao seu lado, e ficamos ali, por alguns minutos em silêncio. — Eu estou fazendo isso por nós, só queria que entendesse… — Pensei que veio aqui para pedir desculpas e dizer que voltou atrás desta loucura! – Ele me interrompe. — Eu não vou voltar atrás, mas quero que me entenda! São somente 2 horas e meia de distância, ou até menos se não pegar trânsito, você pode ir comigo, não tem emprego fixo, pode trabalhar por lá. — Parece que já decidiu tudo, não é? – Ele ri com escárnio. — Sim, já pedi demissão, e depois de amanhã vou para Nova York procurar um lugar para morar, tenho menos de 15 dias para me mudar. — Uau, pensei que eu seria sua prioridade, que seria o suficiente para você. Que confiaria em mim para te sustentar… eu gosto da minha vida aqui, não pretendo mudar. — É uma pena ouvir isso… só me resta dizer adeus então, porque eu não estou satisfeita aqui. Eu quero uma vida com você. – Falo tocando seu rosto moreno, com a barba por fazer. – Mas não vou deixar que estrague sua felicidade por minha causa e não vou me prender a essa cidade por você, então… então é melhor nós darmos um tempo. — Eu não acredito em tempo, só Deus sabe o que fará enquanto estiver longe. Me levanto nervosa, sem acreditar no que ele disse. — Eu sou uma mulher de respeito, não uma vagabunda, se é assim que se sente em relação a mim, então você é um imbecil. Saio da casa dele ignorando seus gritos. Eu gosto muito dele, foi meu segundo namorado, é protetor e amoroso, mas preciso pensar em mim ao menos uma vez. Voltei para casa triste, tentando conter as lágrimas teimosas, e quando entro, vejo a surpresa no rosto dos meus pais. — E então, o que decidiram? – Minha mãe perguntou ansiosa, segurando seu terço nas mãos. — Eu decidi o que vai ser melhor para nós. Vamos dar um tempo para pensar em nossas prioridades. Vou para meu quarto antes da minha mãe surtar pedindo desesperadamente intervenção de Nossa senhora de Guadalupe. Meu pai tenta acalmar ela para que sua pressão não se eleve novamente. Um dos motivos de eu ter aceitado esse trabalho, foi o plano de saúde, com isso meu pai poderia tratar da gota e minha mãe do seu problema de hipertensão. Sei que até semana que vem eu vou ter que ouvir muitas lamentações, mas será para um bem maior.JuniorO escritório estava silencioso naquela tarde de sexta-feira, mas o ar entre nós dois nunca estava calmo.Eu estava sentado à minha mesa, revisando o último relatório da parceria com a Leônidas, quando Tiana entrou na sala com a pasta de documentos. Ela usava um vestido social preto que abraçava perfeitamente as curvas dos quadris, maquiagem básica, mas com um batom mais chamativo, ela usa aquele coque baixo que sempre me fazia querer soltar o cabelo dela. Ela cruzava e descruzava as pernas me hipnotizando. Mas o que realmente me destruiu foi quando ela se inclinou sobre a mesa para me entregar os papéis.O vestido abriu levemente no decote, revelando o sutiã de renda preta e o vale entre os seios. Eu senti o pau endurecer instantaneamente dentro da calça. O tesão bateu forte, quase doloroso. Fazia dias que a gente não tinha um momento só nosso e entre o trabalho intenso, Melissa na escolinha, Elijah ainda pequeno e as famílias sempre por perto, a intimidade tinha virado algo rá
Junior CarmichaelTrês anos se passaram desde o dia em que eu acordei no hospital com a faca ainda latejando na memória e o coração partido pela perda do nosso primeiro filho. Hoje, olhando para o loft iluminado por luzes suaves, com o som distante de risadas infantis ecoando do quarto das crianças, eu percebo que a vida não nos prometeu um caminho fácil, mas nos deu algo melhor, a chance de construir, tijolo por tijolo, a família que merecíamos.A gravidez de Tiana foi um milagre que demorou a chegar, mas quando veio, foi com uma força que nos surpreendeu. Depois da perda, nós dois tivemos medo de tentar de novo, medo de sofrer outra vez, mas Tiana, com aquela força que eu tanto amava, disse um dia, no meio de uma noite em que chorávamos abraçados: “Eu quero tentar. Quero dar um irmão ou irmã pra Melissa. Quero ver você ser pai de verdade”. Eu chorei como criança e nós tentamos.A gravidez foi tranquila, mas intensa. Tiana ficou mais sensível, mais cansada, mas também mais radiante.
3 ANOS DEPOIS…JuniorO ar de Connecticut estava fresco e limpo naquela tarde de primavera, mas dentro da mansão de Logan o calor era palpável. Era o aniversário de 40 anos de Logan, e toda a família tinha se reunido para comemorar. Eu dirigia com Tiana ao meu lado e Melissa no banco de trás, tagarelando sem parar sobre o “bolo gigante” que a tia Samantha tinha prometido. Meu coração batia forte, não de ansiedade, mas de uma alegria profunda, quase sagrada.Quando entramos na mansão, o salão principal estava cheio. Meus pais, Magda radiante, meu pai com seu ar sério mas com um sorriso que agora aparecia com mais frequência. Os pais de Tiana, abraçando Melissa como se fosse neta de sangue. As tias gêmeas contavam histórias animadas. Mary Anne ria com Júlio, Logan estava no centro, cercado por todos, mas com os olhos fixos em Samantha, como sempre. Benjamin corria com os amigos. Lolô trazia travessas para a mesa ao ar livre. E, num canto, conversando com Samantha, estava Jack, o policia
TianaO loft nunca esteve tão vivo quanto naquele Natal.A árvore brilhava no canto da sala com luzes douradas e prateadas, enfeitada com enfeites que Melissa e eu tínhamos escolhido juntas. O cheiro de peru assado, farofa, gemada e biscoitos de canela que Lolô trouxe enchia o ar. Risadas ecoavam por todos os lados, vozes se misturando em espanhol, inglês e um pouco de romani quando Magda contava histórias. Era o nosso primeiro Natal como família completa, com Melissa oficialmente nossa.Eu a segurava no colo, vestidinho vermelho de veludo que Magda tinha costurado com carinho. Após meses de muito amor e carinho, ela já me chamava “mamãe” com aquela vozinha doce que me derretia o coração. Eu a amava como se tivesse carregado ela na barriga, como se ela sempre tivesse sido minha. Toda vez que ela encostava a cabecinha no meu peito, eu sentia uma paz que curava, aos poucos, a dor da perda que ainda doía em silêncio.A família estava toda reunida. Os pais de Junior, Anthony, com um sorri
TianaO processo de adoção de Melissa foi mais rápido do que imaginávamos, mas cada dia pareceu uma eternidade.Depois daquela tarde no orfanato, quando vi aqueles olhos cor de mel me olhando como se já me conhecesse, eu e Junior não conseguimos mais pensar em outra coisa. Conversamos até altas horas da madrugada no loft, chorando, rindo, com medo, com esperança. Decidimos juntos: queríamos adotá-la. Não era pra preencher o vazio do bebê que perdemos, pois nada poderia fazer isso. Era porque ela precisava de nós, e nós precisávamos dela. Foi um amor puro, imediato e inevitável.Os papéis correram com uma velocidade impressionante graças aos contatos da família Carmichael. Assistentes sociais, psicólogos, visitas ao loft, entrevistas intermináveis. Eu tremia toda vez que alguém perguntava sobre nossa perda. Junior segurava minha mão com força, respondendo com calma, mas eu via nos olhos dele a mesma dor que eu sentia. Nós choramos depois, abraçados, mas levantamos no dia seguinte. Porq
Tiana Eu sonhei com o orfanato a noite inteira, e no sonho, eu andava pelos corredores pintados de amarelo desbotado, ouvindo risadas distantes de crianças. Mas quanto mais eu andava, mais o lugar ficava vazio. Os desenhos nas paredes sumiam. Os brinquedos desapareciam, até que eu chegava numa sala pequena, com uma única cama de grades. E ali, no meio do silêncio, um bebê chorava. Um choro alto, desesperado, que me cortava o peito, eu corria até o berço, mas quando chegava, ele estava vazio. Só restava um lençol branco, manchado de algo que parecia sangue. Eu acordava suada, o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito, com aquele choro ainda ecoando nos meus ouvidos. Era a terceira noite seguida. Abri os olhos no escuro do loft, o corpo tremendo, a camisola colada na pele úmida. O choro ainda parecia real, e eu sentei na cama, ofegante, tentando respirar. Junior acordou imediatamente ao meu lado, como se sentisse meu desespero mesmo dormindo. — Amor… de novo? — A







