INICIAR SESIÓNTiana
Sabe quando você sente a esperança voltar para sua vida? Que a qualquer momento ela vai mudar da água para o vinho? Então, é exatamente assim que me sinto, vendo o protocolo de inscrição para a vaga de secretária, nas indústrias Carmichael preenchido e sendo enviado por e-mail. Eu estava em um emprego de merda, sendo tratada como um lixo, com um chefe abusivo que tentava a todo momento se aproximar de mim. Muitas vezes eu fazia meu trabalho no banheiro, em algum canto do armário do almoxarifado, para não estar em seu radar. Quando sua esposa estava na empresa trabalhando conosco, ele ficava quietinho, e eu conseguia ter paz. Denunciar nunca foi uma opção, porque sou uma imigrante que por sorte conseguiu o visto permanente. Sorte não, muito trabalho duro. Quando minha amiga Mary Anne me mandou o anúncio de vaga nas indústrias Carmichael, família da sua tia, eu vi uma oportunidade de sair da fossa. O salário era maravilhoso, os benefícios eram surreais e fora as bonificações que eles davam mensalmente e anualmente. Eu poderia viver bem e cuidar financeiramente dos meus pais, que já trabalharam muito. Quando me inscrevi, passei a noite pedindo a Deus esta oportunidade, eu merecia, batalhei a minha vida inteira para ter a chance de poder trabalhar num bom lugar, sustentar minha família com dignidade, e retribuir todo os esforços que meus pais fizeram por mim. Vim do México com 18 anos, meus pais já estavam aqui de maneira ilegal, e enquanto estava com a minha tia, que já não gostava de ter mais um boca para alimentar, meus pais vieram tentar uma vida melhor e me trazer de maneira legal e se esforçaram para isso. Quando meus pais vieram, eu tinha 14 anos, mas eu sempre estava trabalhando depois da escola, como faxineira, caixa bar, garçonete, cuidava de crianças de gente rica aos finais de semana. E à medida que fui ganhando meu dinheiro, eu fazia cursos de inglês e treinava muito, depois fiz curso de informática avançada, não era muito, mas eu sabia que me ajudaria no futuro. Todo o dinheiro que meus pais mandavam, minha tia pegava para as suas despesas pessoais. Eu nunca os denunciei e nunca reclamei, até porque eles “cuidavam” de mim, então batalhei muito. Juntei secretamente meu dinheiro, para que eles não me pedissem, e com a ajuda de outra tia, que trabalhava de empregada doméstica e morava na casa de uma família poderosa, ela conseguiu as papeladas necessárias para começar a dar entrada no meu visto americano. Não sabia o que era diversão, comer algo gostoso, e nem tempo de viver a fase mais incrível que era a adolescência. Mas tudo deu certo, assim que completei 18 anos e alguns meses, eu estava voando para Connecticut somente com uma mochila e um sonho. Ao chegar na América, eu via o quanto os dois trabalhavam, e não fiquei parada, acabei começando a trabalhar numa fábrica de calçados e numa lanchonete para juntar dinheiro para ir à faculdade. Moramos em uma casa pequena, mas era o suficiente para nós três. Nesta fábrica eu conheci Lúcio Pérez, também mexicano, que agora é meu noivo. Eu acho que ainda somos, não tenho certeza. Com muito trabalho duro, eu consegui entrar na faculdade de administração, meus pais me ajudavam com a mensalidade e eu trabalhava nas horas vagas para ajudar e comprar meus livros. Hoje sou formada e em busca do meu lugar ao sol, não lutei tanto para limpar pratos e ser tratada como escrava. No dia da entrevista, eu fiquei deslumbrada com o poder da empresa, e por um segundo eu achei que não merecia. Mas levantei a cabeça e dei cada passo em direção ao prédio gigante no centro da cidade, até um carro passar e jogar água em mim. Fiquei apavorada com a minha roupa arruinada pela água suja. Corri para uma cafeteria e fui ao banheiro me secar como dava. Os minutos se passaram e sabia que me atrasaria. Parecia que tudo estava dando errado. Meu noivo não queria que eu fizesse a entrevista, dizendo que eu tinha que me poupar da humilhação de ser rejeitada. Fui molhada por água suja e ao chegar no saguão, a pessoa que estava no elevador me fez sentir uma idiota. A entrevista com o senhor Carmichael foi tensa, ele chamou a minha atenção pelo atraso, disse que se eu fosse contratada, teria que gerenciar meu tempo para esse tipo de imprevisto não acontecer. Eu não achei que a entrevista seria com ele, mas depois do puxão de orelha, me senti melhor. Esperaria que fosse chamada caso conseguisse o cargo, aí seriam mais dias de oração. Porém, ao sair do escritório e ver o homem arrogante do elevador, que me comia com os olhos, pedi a Deus para que se eu fosse contratada, não tivesse que cruzar muito com ele por aqui. Ele me provocou novamente por tê-lo xingado, e ele fez na frente do chefe de propósito. Eu queria esganar ele, mas parecia que estávamos na creche. Decido não ceder a suas provocações. Mas quando Logan Carmichael me apresentou a ele como sua nova assistente, e que ainda são irmãos, fez meu mundo parar. E o pior, seria em Nova York. Foi impressionante como eu tive que decidir algo tão importante para a minha vida em apenas 5 segundos… 5 benditos segundos. Na minha cabeça vieram feixes de imagens, meus pais cansados e ainda trabalhando arduamente, os benefícios que esse emprego pode me proporcionar, sair daquele mausoléu que trabalho ganhando uma miséria. — Mas você ainda vai querer a vaga? Será para a filial de Nova Iorque, onde Tony estará à frente. — Sim senhor, ficarei com a vaga, só teve esse mal entendido da minha parte! — Então, senhorita González, como o meu irmão falou, vou tomar a frente da filial, então espero que em duas semanas já esteja instalada na cidade, antes de começar as atividades. Pois suponho que não estava preparada para uma mudança. – O arrogante fala, e saber que foi ele quem me molhou na rua, quase me fez arrepender da minha resposta. — Realmente não estava, mas vou cuidar disso agora mesmo. … Saí de lá mais perdida do que entrei. Recebi por e-mail meu pedido de exames e documentação para a contratação, o que foi bem rápido. Estava numa mistura de alegria e confusão. Meu coração estava tão agitado que eu precisei me sentar no canteiro de plantas de uma loja para assimilar tudo o que havia acontecido. — Eu vou para Nova York? – Pergunto a mim mesma. Coloco as mão na cabeça e fecho os olhos, porque acho que vou ter uma crise de pânico. Não era para eu estar feliz e vibrando? Mas estava apavorada, imaginando a reação dos meus pais e de Lúcio. Mas eu preciso disso, talvez não tenha mais oportunidades com esta. Vou ganhar o triplo do que ganho hoje, fora as bonificações, fora o convênio e vales… Me levantei determinada a dar andamento no processo. Primeiro passei no consultório médico e marquei os exames, depois fui até meu atual emprego e sabendo que eles vão me cobrar pela quebra de contrato, mas chego com sangue nos olhos. — Onde você estava? Vou descontar cada segundo do seu salário! – O velho asqueroso fala. — Eu quero que me demita! Vim buscar meu cheque. — Você o que? – Ele fala rindo. — Não quero perder tempo, tenho coisas para resolver. Agora quero a demissão. — Você vai pagar pela quebra de contrato? Vou até ele, e de cabeça erguida eu falo. — Você vai me dispensar, e vai arrumar uma desculpa bem válida para nós dois, ou eu mostrarei os vídeos e áudios que tenho com seus assédios, mostrarei a sua esposa e farei uma denúncia junto à polícia. — Como ousa me ameaçar? — E digo mais, se eu descobrir que alguém aqui está sofrendo seus assédios, eu vou soltar os vídeos. Agora vou na minha mesa pegar minhas coisas, na volta quero o cheque do meu salário integral preenchido. Dou as costas para ele e me afasto sem olhar para trás, pois não quero que ele perceba meu blefe. Tudo que eu tinha na mesa cabia dentro da minha bolsa. Me despeço dos meus colegas de trabalho e passando em frente a sala do meu ex chefe, ele está com o cheque na mão. Sem olhar para ele, eu pego o papel e vou em direção a porta. — Assinarei sua demissão amanhã, e espero nunca mais te ver! — O sentimento é recíproco! Agora tenho uma missão mais difícil, convencer meus pais a me apoiar nessa nova fase.JuniorO escritório estava silencioso naquela tarde de sexta-feira, mas o ar entre nós dois nunca estava calmo.Eu estava sentado à minha mesa, revisando o último relatório da parceria com a Leônidas, quando Tiana entrou na sala com a pasta de documentos. Ela usava um vestido social preto que abraçava perfeitamente as curvas dos quadris, maquiagem básica, mas com um batom mais chamativo, ela usa aquele coque baixo que sempre me fazia querer soltar o cabelo dela. Ela cruzava e descruzava as pernas me hipnotizando. Mas o que realmente me destruiu foi quando ela se inclinou sobre a mesa para me entregar os papéis.O vestido abriu levemente no decote, revelando o sutiã de renda preta e o vale entre os seios. Eu senti o pau endurecer instantaneamente dentro da calça. O tesão bateu forte, quase doloroso. Fazia dias que a gente não tinha um momento só nosso e entre o trabalho intenso, Melissa na escolinha, Elijah ainda pequeno e as famílias sempre por perto, a intimidade tinha virado algo rá
Junior CarmichaelTrês anos se passaram desde o dia em que eu acordei no hospital com a faca ainda latejando na memória e o coração partido pela perda do nosso primeiro filho. Hoje, olhando para o loft iluminado por luzes suaves, com o som distante de risadas infantis ecoando do quarto das crianças, eu percebo que a vida não nos prometeu um caminho fácil, mas nos deu algo melhor, a chance de construir, tijolo por tijolo, a família que merecíamos.A gravidez de Tiana foi um milagre que demorou a chegar, mas quando veio, foi com uma força que nos surpreendeu. Depois da perda, nós dois tivemos medo de tentar de novo, medo de sofrer outra vez, mas Tiana, com aquela força que eu tanto amava, disse um dia, no meio de uma noite em que chorávamos abraçados: “Eu quero tentar. Quero dar um irmão ou irmã pra Melissa. Quero ver você ser pai de verdade”. Eu chorei como criança e nós tentamos.A gravidez foi tranquila, mas intensa. Tiana ficou mais sensível, mais cansada, mas também mais radiante.
3 ANOS DEPOIS…JuniorO ar de Connecticut estava fresco e limpo naquela tarde de primavera, mas dentro da mansão de Logan o calor era palpável. Era o aniversário de 40 anos de Logan, e toda a família tinha se reunido para comemorar. Eu dirigia com Tiana ao meu lado e Melissa no banco de trás, tagarelando sem parar sobre o “bolo gigante” que a tia Samantha tinha prometido. Meu coração batia forte, não de ansiedade, mas de uma alegria profunda, quase sagrada.Quando entramos na mansão, o salão principal estava cheio. Meus pais, Magda radiante, meu pai com seu ar sério mas com um sorriso que agora aparecia com mais frequência. Os pais de Tiana, abraçando Melissa como se fosse neta de sangue. As tias gêmeas contavam histórias animadas. Mary Anne ria com Júlio, Logan estava no centro, cercado por todos, mas com os olhos fixos em Samantha, como sempre. Benjamin corria com os amigos. Lolô trazia travessas para a mesa ao ar livre. E, num canto, conversando com Samantha, estava Jack, o policia
TianaO loft nunca esteve tão vivo quanto naquele Natal.A árvore brilhava no canto da sala com luzes douradas e prateadas, enfeitada com enfeites que Melissa e eu tínhamos escolhido juntas. O cheiro de peru assado, farofa, gemada e biscoitos de canela que Lolô trouxe enchia o ar. Risadas ecoavam por todos os lados, vozes se misturando em espanhol, inglês e um pouco de romani quando Magda contava histórias. Era o nosso primeiro Natal como família completa, com Melissa oficialmente nossa.Eu a segurava no colo, vestidinho vermelho de veludo que Magda tinha costurado com carinho. Após meses de muito amor e carinho, ela já me chamava “mamãe” com aquela vozinha doce que me derretia o coração. Eu a amava como se tivesse carregado ela na barriga, como se ela sempre tivesse sido minha. Toda vez que ela encostava a cabecinha no meu peito, eu sentia uma paz que curava, aos poucos, a dor da perda que ainda doía em silêncio.A família estava toda reunida. Os pais de Junior, Anthony, com um sorri
TianaO processo de adoção de Melissa foi mais rápido do que imaginávamos, mas cada dia pareceu uma eternidade.Depois daquela tarde no orfanato, quando vi aqueles olhos cor de mel me olhando como se já me conhecesse, eu e Junior não conseguimos mais pensar em outra coisa. Conversamos até altas horas da madrugada no loft, chorando, rindo, com medo, com esperança. Decidimos juntos: queríamos adotá-la. Não era pra preencher o vazio do bebê que perdemos, pois nada poderia fazer isso. Era porque ela precisava de nós, e nós precisávamos dela. Foi um amor puro, imediato e inevitável.Os papéis correram com uma velocidade impressionante graças aos contatos da família Carmichael. Assistentes sociais, psicólogos, visitas ao loft, entrevistas intermináveis. Eu tremia toda vez que alguém perguntava sobre nossa perda. Junior segurava minha mão com força, respondendo com calma, mas eu via nos olhos dele a mesma dor que eu sentia. Nós choramos depois, abraçados, mas levantamos no dia seguinte. Porq
Tiana Eu sonhei com o orfanato a noite inteira, e no sonho, eu andava pelos corredores pintados de amarelo desbotado, ouvindo risadas distantes de crianças. Mas quanto mais eu andava, mais o lugar ficava vazio. Os desenhos nas paredes sumiam. Os brinquedos desapareciam, até que eu chegava numa sala pequena, com uma única cama de grades. E ali, no meio do silêncio, um bebê chorava. Um choro alto, desesperado, que me cortava o peito, eu corria até o berço, mas quando chegava, ele estava vazio. Só restava um lençol branco, manchado de algo que parecia sangue. Eu acordava suada, o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito, com aquele choro ainda ecoando nos meus ouvidos. Era a terceira noite seguida. Abri os olhos no escuro do loft, o corpo tremendo, a camisola colada na pele úmida. O choro ainda parecia real, e eu sentei na cama, ofegante, tentando respirar. Junior acordou imediatamente ao meu lado, como se sentisse meu desespero mesmo dormindo. — Amor… de novo? — A







