INICIAR SESIÓNTiana
Hoje é o dia da inauguração, acho que nunca fiquei tão ansiosa para trabalhar na minha vida. No dia em que fiquei no escritório trabalhando sozinha, achei que o senhor Carmichael apareceria em algum momento, mas não teve movimentação no seu escritório. Então hoje será o dia de conhecê-lo. Cheguei cedo, e passei na floricultura, peguei algumas flores frescas, uns biscoitos artesanais de uma panificadora que conheci no segundo dia em Nova York. Mesmo parecendo ser um idiota, ele é meu chefe, então preciso fazer um mimo para ele. É como a minha avó sempre dizia, vamos puxar o saco, para ver se o cu vem junto. Chegando na minha sala, me certifico que ele não esteja em seu escritório e arrumei sua mesa, organizando seus papeis e depois coloquei o buquê de tulipas amarelas, os biscoitos numa embalagem artesanal de palha, que ele poderá comer num café da tarde, e uma carta de boas vindas escrita a mão. Não o conheço, e posso me arrepender disso, mas sempre fui atenciosa com todos, e com ele não será diferente, mesmo que aparentemente seja um imbecil. Desço para a área em que todos os funcionários foram convocados, em seguida colocam uma fita enorme na frente da porta de entrada. O local tem muitos repórteres e fotógrafos, deixando claro o quanto são poderosos. Acho que o melhor a ser feito, é realizar meu trabalho e não me envolver muito. Ingrid vem até mim, e conversamos um pouco sobre o que esperamos do nosso futuro. A quantidade de pessoas que nem imaginávamos que trabalhava ali encheria facilmente um teatro inteiro. Entre todos os funcionários, tem toda a galera da administração, acionistas. — Está sabendo que teremos um evento daqui a um mês, para comemorar a inauguração? – Ingrid fala toda feliz. — Mas para quê isso? Não entendo o motivo de gastar tanto dinheiro para vermos os mesmos rostos de todos os dias. — Ah, eu gosto de qualquer evento, mesmo que seja da empresa. Mas não sei se todos serão convidados. Olha só o tanto de gente que tem aqui, teria que alugar um estádio de futebol. — Está vendo, se for fazer, que seja para todos. Ouvimos a movimentação das pessoas que viram o momento em que a família Carmichael chega à empresa. Eles são bem queridos, aparentemente, eles se cumprimentam, e aos acionistas e diretores. Eu sei quem são porque vi a ficha das pessoas que provavelmente eu teria que trabalhar diretamente. O jeito que sua mãe o abraça e beija, é uma coisa inusitada, porque ele não parece ser assim. Chegou o momento do discurso, o chefe da família tem a palavra, ele é firme e direto, Logan Carmichael tem mais tato e uma confiança sem igual, além de ser um pecado de homem. Meu chefe parece estar escondendo sua ansiedade, e poderia passar despercebido, se eu não fosse tão observadora. — Nosso chefe é tão bonito, não é? – Ingrid fala e começa a observar no seu discurso simples. Reparo seu jeito, seu físico, seus traços, não seria um homem que chamaria a minha atenção, na verdade, não sei que tipo de homem chamaria a minha atenção, nunca fui de prestar atenção nesse tipo de coisa. — Ele é bonito, mas não é lá aquelas coisas! – Falo. — Acho que não enxerga a beleza e charme dele, porque ama seu noivo! Meu noivo, será que é por isso, talvez ela tenha razão, e está bom assim. Eu jurava que ele ia fazer piadas sem graça no seu discurso, a fim de chamar a atenção de todos, mas não, ele foi breve e direto, ao mesmo tempo que mostra se importar. Pelo menos foi o que deu a entender. Enquanto ele termina com seu sorriso branco envolto de lábios carnudos, todos aplaudem, e eu sigo todos, seus olhos verdes encontraram os meus, eu penso que ele vai desviar, mas permanece por mais tempo que eu pude retribuir, para não parecer fraca. Percebendo que as pessoas iriam procurar a fonte do seu foco, eu desisto e saio do seu campo de visão. Eu nunca perco uma batalha de olhares, mesmo quando criança, brincava com meus primos, e quem piscasse ou desviasse, perderia. Eu nunca perdia, mas não quero ficar no radar de ninguém. Porque meu coração está acelerado? Depois que a multidão vai se dispersando, eu penso em entrar para a área da recepção na intenção de me manter afastada, sou chamada por uma voz grave. — Senhorita Gonzalez? Me virei para ver Logan Carmichael vindo na minha direção, ele realmente é um homem de presença, isso não tem como negar. — Senhor Carmichael, como vai? — Estou bem! Queria saber se conseguiu se estabelecer bem aqui na cidade. Sei que uma mudança assim é trabalhosa. — Bom, eu ainda não encontrei um apartamento, pois tive pouco tempo, mas estou numa pensão bem acolhedora. Vai me ajudar nesse começo. — Se precisar de alguma ajuda de custo, indicação ou qualquer coisa, não deixe de pedir ao Tony, ele com certeza vai te ajudar a se acomodar. Uma casa confortável e aconchegante para voltar após um dia de trabalho, é essencial para uma boa produtividade. Sorrio com o seu jeito preocupado com a produtividade da empresa. Mas ele tem razão, nada melhor que um lar de verdade. — Eu agradeço muito pela oportunidade Sr Carmichael, eu prometo que darei o meu melhor pela empresa. — Não precisa me prometer nada, agradeça por Tony ser seu chefe, porque não estaria tão feliz se estivesse trabalhando comigo, sou conhecido por ser carrasco. Tony é melhor que eu para lidar com pessoas! — Ah, graças a Deus! — Isso, agradeça por isso! – Ele fala rindo. — Não… eu quis dizer graças a Deus pelo meu chefe ser tranquilo, não por NÃO trabalhar com o senhor… Enfio os pés pelas mãos, e ele sorria me fazendo rir de nervoso. Mas em seguida me acalma. — Está tranquilo, entendi a sua reação! — Obrigada pelo carinho! E se me permite dizer, tenho certeza que é um patrão justo! — Obrigada, mas gostaria de te pedir algo! — Sim, claro, o que precisar. — Ajude ele, está bem, vocês serão como um só daqui pra frente, e Tony terá algumas dificuldades, precisará de alguém pulso firme. Não deixe ele se isolar quando as coisas começarem a ficar difíceis, me prometa que vai ser firme com ele? Achei estranho esse pedido, mas se ele confia em mim para isso, farei o que ele mandar. Sinto meu rosto queimar, e ao olhar para a multidão, vejo Junior Carmichael me encarando do outro lado das escadas. Esse jeito de me encarar está me incomodando, preciso mesmo me manter afastada dele. — Pode deixar, não pegarei leve com ele! – Espero que ele não tenha notado o tom da minha promessa. — É exatamente isso que espero se você. Novamente, seja bem vinda a família! – Logan conclui. Com essa frase estranha, ele aperta minha mão e me dá um beijo no rosto. Fico meio paralisada com essa ação, mas vendo que meu chefe vem na nossa direção, decidi lhe dar as “boas vindas” depois, pois ele pode querer conversar com o irmão.JuniorO escritório estava silencioso naquela tarde de sexta-feira, mas o ar entre nós dois nunca estava calmo.Eu estava sentado à minha mesa, revisando o último relatório da parceria com a Leônidas, quando Tiana entrou na sala com a pasta de documentos. Ela usava um vestido social preto que abraçava perfeitamente as curvas dos quadris, maquiagem básica, mas com um batom mais chamativo, ela usa aquele coque baixo que sempre me fazia querer soltar o cabelo dela. Ela cruzava e descruzava as pernas me hipnotizando. Mas o que realmente me destruiu foi quando ela se inclinou sobre a mesa para me entregar os papéis.O vestido abriu levemente no decote, revelando o sutiã de renda preta e o vale entre os seios. Eu senti o pau endurecer instantaneamente dentro da calça. O tesão bateu forte, quase doloroso. Fazia dias que a gente não tinha um momento só nosso e entre o trabalho intenso, Melissa na escolinha, Elijah ainda pequeno e as famílias sempre por perto, a intimidade tinha virado algo rá
Junior CarmichaelTrês anos se passaram desde o dia em que eu acordei no hospital com a faca ainda latejando na memória e o coração partido pela perda do nosso primeiro filho. Hoje, olhando para o loft iluminado por luzes suaves, com o som distante de risadas infantis ecoando do quarto das crianças, eu percebo que a vida não nos prometeu um caminho fácil, mas nos deu algo melhor, a chance de construir, tijolo por tijolo, a família que merecíamos.A gravidez de Tiana foi um milagre que demorou a chegar, mas quando veio, foi com uma força que nos surpreendeu. Depois da perda, nós dois tivemos medo de tentar de novo, medo de sofrer outra vez, mas Tiana, com aquela força que eu tanto amava, disse um dia, no meio de uma noite em que chorávamos abraçados: “Eu quero tentar. Quero dar um irmão ou irmã pra Melissa. Quero ver você ser pai de verdade”. Eu chorei como criança e nós tentamos.A gravidez foi tranquila, mas intensa. Tiana ficou mais sensível, mais cansada, mas também mais radiante.
3 ANOS DEPOIS…JuniorO ar de Connecticut estava fresco e limpo naquela tarde de primavera, mas dentro da mansão de Logan o calor era palpável. Era o aniversário de 40 anos de Logan, e toda a família tinha se reunido para comemorar. Eu dirigia com Tiana ao meu lado e Melissa no banco de trás, tagarelando sem parar sobre o “bolo gigante” que a tia Samantha tinha prometido. Meu coração batia forte, não de ansiedade, mas de uma alegria profunda, quase sagrada.Quando entramos na mansão, o salão principal estava cheio. Meus pais, Magda radiante, meu pai com seu ar sério mas com um sorriso que agora aparecia com mais frequência. Os pais de Tiana, abraçando Melissa como se fosse neta de sangue. As tias gêmeas contavam histórias animadas. Mary Anne ria com Júlio, Logan estava no centro, cercado por todos, mas com os olhos fixos em Samantha, como sempre. Benjamin corria com os amigos. Lolô trazia travessas para a mesa ao ar livre. E, num canto, conversando com Samantha, estava Jack, o policia
TianaO loft nunca esteve tão vivo quanto naquele Natal.A árvore brilhava no canto da sala com luzes douradas e prateadas, enfeitada com enfeites que Melissa e eu tínhamos escolhido juntas. O cheiro de peru assado, farofa, gemada e biscoitos de canela que Lolô trouxe enchia o ar. Risadas ecoavam por todos os lados, vozes se misturando em espanhol, inglês e um pouco de romani quando Magda contava histórias. Era o nosso primeiro Natal como família completa, com Melissa oficialmente nossa.Eu a segurava no colo, vestidinho vermelho de veludo que Magda tinha costurado com carinho. Após meses de muito amor e carinho, ela já me chamava “mamãe” com aquela vozinha doce que me derretia o coração. Eu a amava como se tivesse carregado ela na barriga, como se ela sempre tivesse sido minha. Toda vez que ela encostava a cabecinha no meu peito, eu sentia uma paz que curava, aos poucos, a dor da perda que ainda doía em silêncio.A família estava toda reunida. Os pais de Junior, Anthony, com um sorri
TianaO processo de adoção de Melissa foi mais rápido do que imaginávamos, mas cada dia pareceu uma eternidade.Depois daquela tarde no orfanato, quando vi aqueles olhos cor de mel me olhando como se já me conhecesse, eu e Junior não conseguimos mais pensar em outra coisa. Conversamos até altas horas da madrugada no loft, chorando, rindo, com medo, com esperança. Decidimos juntos: queríamos adotá-la. Não era pra preencher o vazio do bebê que perdemos, pois nada poderia fazer isso. Era porque ela precisava de nós, e nós precisávamos dela. Foi um amor puro, imediato e inevitável.Os papéis correram com uma velocidade impressionante graças aos contatos da família Carmichael. Assistentes sociais, psicólogos, visitas ao loft, entrevistas intermináveis. Eu tremia toda vez que alguém perguntava sobre nossa perda. Junior segurava minha mão com força, respondendo com calma, mas eu via nos olhos dele a mesma dor que eu sentia. Nós choramos depois, abraçados, mas levantamos no dia seguinte. Porq
Tiana Eu sonhei com o orfanato a noite inteira, e no sonho, eu andava pelos corredores pintados de amarelo desbotado, ouvindo risadas distantes de crianças. Mas quanto mais eu andava, mais o lugar ficava vazio. Os desenhos nas paredes sumiam. Os brinquedos desapareciam, até que eu chegava numa sala pequena, com uma única cama de grades. E ali, no meio do silêncio, um bebê chorava. Um choro alto, desesperado, que me cortava o peito, eu corria até o berço, mas quando chegava, ele estava vazio. Só restava um lençol branco, manchado de algo que parecia sangue. Eu acordava suada, o coração batendo tão forte que parecia querer sair do peito, com aquele choro ainda ecoando nos meus ouvidos. Era a terceira noite seguida. Abri os olhos no escuro do loft, o corpo tremendo, a camisola colada na pele úmida. O choro ainda parecia real, e eu sentei na cama, ofegante, tentando respirar. Junior acordou imediatamente ao meu lado, como se sentisse meu desespero mesmo dormindo. — Amor… de novo? — A







