MasukCapítulo 3
Louise Brown O silêncio do meu apartamento parecia mais ensurdecedor naquela noite. A porta se fechou atrás de mim com um clique seco, e eu fiquei parada por um instante, encostada nela. Meu olhar fixo no vazio à minha frente. Os ecos dos passos no corredor sumiram, e a única coisa que preenchia o espaço era o peso da decisão que eu tinha que tomar, o tempo estava correndo e cada segundo era mais crucial. Minha mente era um turbilhão de pensamentos contraditórios, uma mistura dolorosa de medo, esperança, vergonha e uma centelha de coragem que eu nem sabia que ainda existia dentro de mim. James Bellerose é o quarentão bilionário mais desejado de Nova York. O nome dele soava repetidamente na minha cabeça como uma espécie de mantra confuso, assustador, mas a imagem dele vinha, sempre, e o tornava irresistível. O homem que eu tinha conhecido na empresa, distante e autoritário, agora pode ser o único capaz de mudar o destino da minha tia. Mas a que custo? Ele me ofereceu dinheiro, dinheiro suficiente para pagar o tratamento caro que poderia salvar a visão dela. Mas não era só isso. Ele me pediu algo em troca um favor que mexia com tudo o que eu sempre valorizei. Fingir ser a namorada dele,o que junto traria de volta muitos traumas, que tento afastar todos os dias... Era uma proposta que, na superfície, parecia simples demais. Mas para mim, era um salto para o desconhecido, um salto para dentro de um mundo onde eu não tinha controle. Enquanto eu deixava a bolsa cair no sofá, sentindo o peso dela me puxar para baixo, lembrei das palavras dele naquele tom firme, quase íntimo: — Eu quero que finja ser minha namorada, Louise. Minha mãe está doente, e eu preciso dela feliz. Eu engoli em seco. Era fácil entender a necessidade dele, mas difícil aceitar o que isso significava para mim, para minha vida, e principalmente para minha mente cheia de traumas. Por quê? Por que ele me escolheu? Por que eu? Eu era só uma secretária. Uma menina comum, que passava despercebida atrás daqueles óculos grossos e roupas discretas demais, era o que eu mais fazia questão, passar despercebida. Eu não tinha glamour, nem beleza escandalosa. Não tinha nada que justificasse sua atenção, e como vou combater os meus próprios sentimentos, principalmente o desejo ardente que eu sentia quando ele estava por perto, algo que eu nunca senti por ninguém antes... Nem pelo... Afastei as lembranças elas não podem me dominar nunca mais... Mas ele via algo em mim. Algo que eu não enxergava. Ou talvez, ele simplesmente estivesse com pena da pobre idiota garota sem sal, querendo vender a virgindade... O frio da noite entrou pela janela, fazendo com que eu me encolhesse, tentando me proteger do que quer que estivesse por vir. Eu não sabia ainda se estava pronta para isso. Para o que significaria estar ao lado de James, mesmo que só de mentira. A água fervia na chaleira, mas eu não tinha ânimo para preparar o chá que costumava me confortar toda noite. Em vez disso, fiquei ali, encostada na bancada da cozinha, os olhos perdidos no nada, e no tudo ao mesmo tempo. Minha mente voltou para o momento exato em que ele me enviou a mensagem. E depois, eu completamente vulnerável, sentada na cadeira da sala dele, ouvindo a proposta que parecia um misto de oferta e ameaça. Senti o calor da sala, o cheiro forte do perfume dele misturado ao aroma de madeira e couro. Ouvi o som da minha própria respiração acelerada, o bater frenético do meu coração que parecia querer escapar do peito. Ele não precisou dizer mais nada. Eu sabia que não podia deixar aquela oportunidade escapar. Mas também sabia que não seria fácil. O mundo que ele vivia era diferente do meu, um universo de poder, dinheiro e segredos que eu nunca sonhei em conhecer ou alcançar. E agora eu estava prestes a entrar nele. Olhando para o espelho do banheiro, encarei meus próprios olhos fundos, cansados, mas ainda brilhando com uma centelha de resistência, talvez esperança pela minha tia ter uma chance de não perder a visão... Passei a ponta dos dedos pela pele do rosto, sentindo a textura macia, os pequenos sinais de insegurança que eu tentava esconder, procurando a beleza que um dia eu já tive. Eu era o tipo de garota que sempre escondeu seus sonhos, que se acomodou com a rotina e o previsível, principalmente depois do meu primeiro e único relacionamento. Mas aquela noite tudo mudou dentro de mim. O reflexo diante de mim parecia me desafiar. “Você não pode fugir disso”, parecia dizer. Eu precisava decidir. Dar o passo que poderia mudar a vida da minha tia e a minha. E, talvez, me transformar para sempre. Voltei para o quarto, sentando na beirada da cama, o celular na mão. A tela ainda mostrava a conversa aberta, as palavras dele marcadas em negrito como uma sentença: "Preciso da sua resposta até segunda." A mensagem que ele enviou assim que saí do escritório como um lembrete possessivo. O sábado escurecido lá fora me lembrava que eu tinha pouco tempo. E mesmo assim, minhas mãos tremiam ao digitar, mas digitei, e me enchendo de coragem enviei. “Eu aceito, James.” Apaguei. Respirei fundo, tentando afogar o medo que me preencheu, digitei novamente... “Eu aceito sua proposta. Mas quero conversar sobre os termos.” Enviei. O som do envio foi como uma explosão silenciosa dentro de mim. E agora eu sabia que não havia mais volta. Me joguei na cama, o coração batendo tão forte que parecia que ia pular do peito. Os pensamentos me perseguiam — “Será que estou fazendo a coisa certa?”, “Será que ele realmente quer me ajudar?”, “O que vai acontecer comigo depois disso?”. Não havia respostas. Só um futuro incerto que me esperava. E, no meio daquela tempestade de dúvidas, um sentimento estranho: um desejo que eu ainda não entendia, uma mistura de medo e curiosidade sobre aquele homem que agora tem o poder de mudar toda a minha vida, ou destruir... O celular vibrou de novo, e quando a tela acendeu, a mensagem dele surgiu curta, mas devastadora: “Prepare-se, Louise. A partir de agora, sua vida é minha.”Capítulo 64Lavínia Brown BelleroseA luz da manhã entrava pelas janelas, tingindo a sala de um dourado suave. Eu ainda estava deitada, sentindo o peso do travesseiro no rosto, mas com aquele peso de tudo que estava prestes a acontecer. Olhei para o lado e vi Matthew dormindo, os braços relaxados, a respiração profunda e constante. Um arrepio me percorreu ao perceber como ele parecia em paz, mesmo com tudo que estávamos prestes a mudar, ele era pequeno demais para sequer imaginar tudo que viria.Levantei-me devagar, andando pela casa ainda silenciosa. O cheiro de café recém-passado vinha da cozinha, e o som da chaleira chiando me fez sorrir. Respirei fundo. Dias atrás, tudo parecia pesado demais, o envelope, as decisões, o medo de perder o que construímos. Mas agora… havia esperança. Possibilidades.Nos últimos dias, meu corpo me deu sinais. Um cansaço que não era só físico, um enjoo leve, batimentos acelerados sem motivo. Ontem, escondida no banheiro, respirei fundo e fiz um teste.
Capítulo 63David Bellerose NetoAs palavras do envelope continuavam queimando nas minhas mãos enquanto eu e Lavínia descíamos as escadas. Era como se cada degrau ecoasse o peso daquilo que a gente ainda nem tinha decidido.Lavínia caminhava ao meu lado em silêncio, com a expressão dividida entre coragem e medo. Parecia forte, mas eu a conhecia bem o suficiente para saber que, por dentro, ela estava tremendo tanto quanto eu.A campainha tocou de novo.— Estranho, né? — murmurei.— Muito — ela respondeu.Ninguém aparecia na nossa casa sem avisar, ainda mais àquela hora da noite. No máximo, era o vizinho pedindo açúcar ou algum entregador de comida no endereço errado.Mas quando abri a porta…— SURPRESA!Eu piscai algumas vezes, sem acreditar muito no que estava vendo.— Tia Scarlett? — minha voz saiu num meio riso, meio choque.Ela abriu os braços e já vinha pra cima de nós com aquele abraço apertado de quem não sabe abraçar devagar.— MEUS DOIS LINDOS! — ela exclamou, esmagando Lavíni
Capítulo 62David Bellerose NetoChegar em casa foi aquela cena clássica que nunca perde a graça: Matthew acordando ao ouvir a porta, sorrindo como se a gente tivesse desaparecido por meses, Lavínia abraçando cada cômodo como se estivesse reencontrando velhos amigos, e eu… eu só agradecendo mentalmente por ter exatamente aquilo.A vida grande, linda e absurda que eu tinha sonhado um dia.Nos dias seguintes, tudo voltou ao ritmo natural.Eu acordei às cinco e meia. Alongamento, café rápido, beijo no rosto da minha linda mulher e treino.Lavínia acordava depois e levava Matthew para a primeira aula do estúdio. Às vezes, eu passava lá na volta e via pela janela aquele lugar cheio, vivo, cheio de gente que só queria dançar.Toda vez que eu via, meu coração fazia um estalo estranho, como se dissesse:Ela nasceu pra isso.E aí, enquanto eu via o estacionamento do estádio se aproximar, aquele mesmo pensamento me pegava:E eu nasci pra isso aqui.Era bonito… mas também começava a ficar aperta
Capítulo 61Lavínia Brown BelleroseA música suave do quarteto de cordas se espalhava pelo jardim iluminado, como se a melodia tivesse sido criada só para aquele dia. O casamento de Rose e Antony estava digno de um livro ilustrado e, sinceramente, completamente esperado para alguém que foi pedida em casamento na Disney. As luzes penduradas nas árvores criavam um céu próprio, cintilante, e o tapete branco coberto de pequenas flores parecia ter saído de uma pintura.Matthew dormia no meu colo, exausto de brincar com as daminhas e roubar a atenção de metade dos convidados. Eu acariciava a cabecinha dele enquanto observava Rose entrar pelo corredor e senti meus olhos marejarem.Rose estava… radiante.Não só bonita, mas inteira.Completa.O vestido princesa, cheio de tule e brilho na medida certa, fazia ela parecer saída de um sonho. Antony chorou já nos primeiros passos dela, e eu ouvi Neto rir baixinho ao meu lado.— Ele não vai segurar até o “sim” — Neto murmurou, ajeitando a gravata.—
Capítulo 60David Bellerose NetoExistem dias em que o campo parece uma extensão do meu corpo.E existem outros, poucos, mas existem, em que cada passo parece pesado demais.A semana do jogo tinha sido intensa. Treinos longos, análises de jogada, pressão da imprensa, expectativa da torcida. O início da temporada sempre traz aquela mistura de adrenalina e responsabilidade que só quem vive isso entende.Mas, no meio de tudo isso, tinha Lavínia.Lavínia acordando cedo comigo.Lavínia cansada, mas sorrindo.Lavínia me abraçando quando eu voltava do treino destruído.Lavínia vibrando com cada avanço meu.Lavínia fazendo o estúdio acontecer como se tivesse nascido pra liderar, mesmo que o amor maior dela fosse dançar, ela se reinventou.Só que naquela manhã… eu acordei estranho.Um nó no peito.Uma inquietação ridícula.Coisa de atleta.Levantei, tomei banho, e quando saí, ela estava no closet, terminando de colocar Matthew no macacão do time, com o número 12 nas costas, o meu.— Vocês dois
Capítulo 59Lavínia Brown BelleroseA recepção não era grandiosa, mas era acolhedora, quis deixar com o meu jeito, cuidei de cada detalhe.Pequenas mesas com pétalas de rosas, luzes quentes penduradas entre as vigas e um som ambiente suave preenchendo o espaço recém-inaugurado.Pais, alunos, amigos… todos conversavam, tiravam fotos, exploravam as salas como se estivessem entrando em outro mundo.O meu mundo.Eu deveria estar radiante, e estava, mas havia uma pontinha de vazio latejando no meu peito.A nevasca tinha fechado estradas, atrasado voos, e minha família não conseguiu chegar.Tia Scarlett, que sempre esteve nos momentos mais importantes da minha vida, e tudo isso aqui só está acontecendo graça a ela, mandara uma mensagem carinhosa dizendo que estava tentando uma alternativa, mas não conseguiria a tempo.Eu sorri, respondi “tudo bem”, e segui mesmo faltando algo…Mas não estava tudo bem.Eu queria eles comigo.Eu queria eles aqui.Matthew estava no colo do Neto, empolgado com







