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Capítulo 38

Author: Ana Elói
last update publish date: 2026-10-02 01:32:48

Henry Sanchez

A mesa da sala de jantar da mansão comporta vinte pessoas. Hoje somos cinco, e mesmo assim consigo sentir cada cadeira vazia como uma testemunha.

Minha mãe está em uma ponta, meu pai na outra. Zayn está à minha frente, com o garfo na mão e um sorriso que tenta parecer casual e fracassa. Nara está ao meu lado, de vestido azul-marinho, o cabelo preso, as costas retas. Eu perguntei se ela queria que Soren enviasse algo, e ela respondeu que o armário dela existia por um motivo.

Tem um
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    Alguns meses depois – BrasilNara FerrariO cheiro chega antes de tudo. Café passado na hora, pão quente, asfalto molhado de chuva fina. Desço do carro na calçada e fecho os olhos por um segundo, porque nenhuma lembrança me preparou para isso. Esse momento.Esse lugar.Faz tanto tempo que achei que tivesse esquecido. Não, eu não esqueci. Estava guardado em algum lugar do corpo, esperando.— Você está bem? — Henry pergunta, atrás de mim.— Estou. — Abro os olhos. — Estou só respirando.Dou uma risadinha baixa, nervosa. Ele não diz mais nada. Fica ali, a um passo, de camisa de linho, sem terno, sem gravata e sem celular. Faz onze dias que não olha o e-mail. Soren manda uma mensagem por dia, sempre a mesma. Sem incêndios. Henry responde sempre com um polegar para cima, e eu o flagrei sorrindo para a tela como um menino.A rua é estreita, com árvores dos dois lados e casas. Esses anos fora mais casas surgiram, uma para cima da outra.É como se nada tivesse mudado, mas, com toda certeza,

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    Henry Sanchez— Só me chame se houver um incêndio — digo a Soren, entregando o celular. — E só se for literal.Soren olha o aparelho na própria mão como quem recebe uma criança que não sabe segurar.— O senhor tem certeza?— Tenho.— Até que horas?— Até quinze.Ele guarda o celular no bolso interno do paletó com uma solenidade quase religiosa. Ao meu lado, Nara cobre a boca com a mão para disfarçar o riso. Aposto que ela ia querer fazer uma piada sobre isso.O salão da fundação ocupa o térreo de um prédio antigo, com portas altas de vidro abertas para um jardim. Do lado de fora, atrás de uma faixa de segurança, os fotógrafos já esperam. Reconheço três rostos que estavam na entrada da faculdade.Nara respira fundo antes de descer do carro. O vestido verde-escuro, o cabelo solto, o anel pequeno brilhando discreto no dedo. Não faço questão de perguntar se ela está pronta, porque eu sinto que está. Esse é o momento dela também; é uma presença mais do que oficial para todas as mães. Cada

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    Nara FerrariGosto do silêncio ao entrar no apartamento de Henry não fizemos questão de acender a luz além do abajur do corredor. A noite está bem iluminada, assim como a cidade em si, deixando com que a luz entre no apartamento. Henry se mantém perto enquanto andamos pelo enorme espaço, suas mãos estão no bolso do caco e percebe que está pensativo. Talvez um pouco nervoso. O homem que fecha negócios sem piscar fica parado no meio da sala, olhando para mim como quem teme quebrar algo.— Você está nervoso de novo — digo.— Estou.— Já falamos disso.— Eu sei. — Um sorriso bem pequeno surge em seu rosto. — Mas desta vez é diferente. Não quero errar.A sua sinceridade aperta meu coração, ando devagar pela sala e tiro as mãos dele e os bolsos. Eu seguro firme em minhas mãos. Eu as levo ao meu rosto, e ele solta o ar como se tivesse prendido a respiração durante o caminho até aqui.— Henry — falo baixinho. — Você não vai errar.— Posso...— Pode.— Eu nem terminei a pergunta.— Não precis

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    Henry SanchezNunca imaginei que existisse tanta ciência em guardar um prato. Não existe uma secadora de louça? Anthony não providenciou uma? Deve existir esse tipo de tecnologia. — Esse vai no fundo, Henry. — Helena me entrega um escorredor com a paciência de quem ensina uma criança. — Os pratos fundos ficam à esquerda.— Eu sei ler uma prateleira.— Então por que está quase pondo a travessa de vidro em cima das taças?Recolho a travessa com o cuidado de quem desarma uma bomba. Do outro lado da bancada, Nara apoia o queixo na mão e me observa com um sorriso que está tentando muito não ser sorriso. Tenho as mangas da camisa dobradas até o cotovelo, espuma até o pulso e o celular desligado dentro do bolso desde o início do almoço.A porta da cozinha se abre. Anthony Ferrari para na soleira, olha para mim, olha para a pia, olha para mim de novo e leva a mão ao peito como um ator numa cena de despedida.— Meu genro lavando louça. Alguém registre a data.— Anthony — Helena adverte, rindo

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    Nara FerrariAcordei às cinco da manhã e não voltei a dormir. Imprimi o plano de Henry na impressora do escritório de Anthony, sentei-me à mesa da biblioteca com um lápis na mão e li o texto três vezes. Na primeira, li como noiva. Na segunda, como estudante. Na terceira, como a pessoa que seria obrigada a defender aquilo diante de um conselho se algo desse errado.A terceira leitura foi a que mais rendeu rabiscos.Às nove em ponto, a campainha toca.Henry nunca foi pontual por educação. É pontual por controle. Mas, desta vez, o minuto exato me parece quase um pedido de desculpas.Minha mãe abre a porta antes de mim, e escuto a voz dela, calorosa e discreta, dizendo que o café está na mesa. Quando chego ao corredor, Henry está parado no hall, de terno escuro e sem gravata, com uma pasta embaixo do braço.A aparência cansada continua, não é surpresa. Até a normalidade voltar, nem eu estou conseguindo ficar bem. Ele me olha, e, por um segundo, nenhum de nós diz nada.— Oi — falo.— Oi.—

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    Henry SanchezÀs seis em ponto, o portal publica.Estou de pé diante da janela do escritório, com o tablet na mão e o dedo parado sobre a tela, e leio a retratação. Um parágrafo seco, sem adjetivos. A matéria publicada anteriormente foi encomendada por terceiros e continha informações destorcidas sobre Nara Ferrari e sua família. O portal pede desculpas. E, mais abaixo, em letras menores, o nome da assessoria de Lua Ferrari.Era isso que eu queria. Há três dias eu teria apertado a mão de Soren e mandado abrir uma garrafa. Agora sinto só um vazio.— Em dez minutos já tinha três mil compartilhamentos, senhor — Soren diz, sem tirar os olhos do próprio aparelho. — A maioria é de gente celebrando. Alguns veículos já pediram comentário.— Não comento.— Entendido. — Ele hesita. — O fundo de Eldridge pediu para remarcar a reunião. Para quarta.— Remarque.— E a Carrow mandou uma mensagem da assessoria deles. Muito educada. Dizem que "a situação foi esclarecida".Quase rio. Foi esclarecida. C

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