Se connecterIsabellaMarina segurou o vestido contra a luz do meu quarto e ergueu as sobrancelhas.— Sua mãe vetou esse por um motivo.— Minha mãe não foi convidada.— Mas Lorenzo foi. Pelo visto, o vestido também sabe disso.Tomei a peça das mãos dela e me virei para o espelho.— É uma confraternização num hotel, Marina. Não vou de camisa social.— Você tem outros vestidos. Escolheu justamente o que passou vinte minutos experimentando quando soube que ele estaria lá.Não respondi porque seria difícil discordar sem mentir.O vestido era preto, de alças finas, ajustado à cintura e curto o suficiente para exigir alguma atenção ao sentar. Deixei o cabelo solto e coloquei brincos pequenos. Quando terminei, Marina me observou pelo espelho.— Você está linda. Só tenta se divertir também.Peguei a bolsa.— Essa é a intenção.Ela fez uma expressão de quem não acreditava, mas teve a gentileza de não insistir.A Leme alugara o terraço de um hotel na Paulista. Havia música baixa, garçons circulando entre os
LorenzoEu tinha dezoito reuniões naquela semana e um elevador prestes a me lembrar que nem tudo obedecia à minha vontade.Isabella entrou quando as portas começavam a fechar, o crachá torto e um bloco apertado contra o peito. Prendera o cabelo com uma caneta, deixando algumas mechas soltas junto ao rosto. Eram quase oito, e o estúdio já estava vazio. Eu ficara para revisar o manifesto da Leme. Ela, pelo que Caio me dissera, resolvera procurar referências no arquivo antigo da agência depois de descartar as que encontrara na internet.— Desce? — perguntou, recuperando o fôlego.— Desce.Ela apertou o botão do térreo, embora já estivesse aceso, e se acomodou ao meu lado. No espelho, vi a mancha de café no punho da blusa branca e a marca que a alça da bolsa deixara em seu ombro. Não havia nada de especial naquela roupa. Mesmo assim, precisei me obrigar a olhar para o painel.O elevador desceu dois andares antes de parar.A luz piscou, e um aviso sonoro interrompeu o silêncio. Isabella ol
IsabellaA Valle ocupava os três últimos andares de um prédio na Faria Lima onde até o calor parecia ter sido barrado na recepção. Cheguei às oito e trinta e sete, porque dar a Lorenzo o prazer de apontar um atraso no primeiro dia estava fora de questão. A recepcionista encontrou meu nome na lista e me entregou um crachá provisório.Isabella Duarte.Passei o polegar sobre o sobrenome antes de prender o cartão à blusa. Ali, pelo menos, eu ainda não era apresentada como parte da família dele.Caio Mendes me esperava na saída do elevador. Tinha trinta e poucos anos, a camisa aberta no colarinho e um sorriso de quem conseguia deixar qualquer pessoa à vontade.— Então você é Isabella. O chefe comentou que chegaria cedo.— Espero não ter decepcionado.— Três minutos de vantagem. Excelente começo. — Ele indicou o corredor. — Vi seu cartaz do prêmio estudantil. Melhor que muita coisa que passou por aqui no último trimestre. Não conta que eu disse isso.— Só se eu quiser ser demitida na primeir
IsabellaMinha mãe já estava na cozinha de Ricardo quando chegamos para o almoço de domingo. Tinha insistido em preparar o frango com alecrim que costumava fazer nas ocasiões especiais e, desde a manhã, falava da sobremesa, da roupa, do trânsito, de qualquer coisa que a impedisse de perguntar outra vez se eu estava mesmo feliz por ela.Eu estava. Só não sabia como explicar que minha dificuldade com aquela nova família tinha nome, sobrenome e uma habilidade irritante de me fazer perder a paciência.Lorenzo chegou ao meio-dia em ponto. Usava uma camisa branca com as mangas dobradas e parecia à vontade naquela casa de um jeito que eu ainda não conseguia ficar. Cumprimentou minha mãe com um beijo no rosto, conversou brevemente com o pai e, quando olhou para mim, fez um pequeno movimento de cabeça.— Isabella.— Lorenzo.Helena sorriu, satisfeita com o que provavelmente considerou uma evolução. Eu aceitei a taça que ela me ofereceu e resolvi colaborar. Não mencionaria as cartas, não faria
LorenzoAs cartas de Isabella estavam no fundo do cofre do meu escritório, junto da aliança da minha mãe e de um relógio que eu não usava havia anos. Eu poderia ter guardado os envelopes em qualquer gaveta. Poderia ter jogado fora. Escolhera um lugar que ninguém abria além de mim e, durante muito tempo, evitei pensar no que isso significava.Na agência, eu sabia o que fazer com qualquer coisa que chegasse às minhas mãos. Havia um responsável, um prazo, uma decisão a tomar. Com aquelas cartas, nunca tinha conseguido passar da leitura.Eram sete. Algumas folhas tinham marcas das dobras, outras ainda conservavam a pressão da caneta no papel. Isabella escrevia como falava: começava num assunto, se lembrava de outro no meio e acrescentava alguma observação que provavelmente me faria rir se ela estivesse por perto. A letra ficara mais firme com o passar dos anos, mas o modo de escrever meu nome no alto da página continuara igual.Enzo.No jantar, bastara ouvir aquele nome na voz dela para d
Capítulo 1IsabellaEu tinha ensaiado aquele reencontro umas quarenta vezes no banco de trás do carro da minha mãe. Em algumas versões, Lorenzo Valle sorria assim que me via; em outras, fingia surpresa e fazia algum comentário sobre como eu continuava baixinha. Mas, em todas, ele dizia meu nome daquele jeito antigo, arrastando o “s” de Isabella, antes de me chamar de Bella pelo resto da noite. Era uma lembrança tão nítida que, por alguns minutos, consegui acreditar que oito anos não fariam tanta diferença.Nenhuma das versões incluía um terno preto. Muito menos um jantar na casa do pai dele, com talheres demais ao redor do prato e uma sala tão impecável que eu me sentia inconveniente só por estar ali.— Para de puxar o vestido — minha mãe murmurou, inclinando-se discretamente na minha direção. — Está ótimo.Soltei o tecido, embora continuasse achando que a barra tinha subido durante o caminho.— Você disse que seria um jantar de família.— E é.Olhei para a mesa posta, depois para o h







