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Capítulo 5 — Entre o dezoito e o dezenove

last update publish date: 2026-10-22 03:30:11

Lorenzo

Eu tinha dezoito reuniões naquela semana e um elevador prestes a me lembrar que nem tudo obedecia à minha vontade.

Isabella entrou quando as portas começavam a fechar, o crachá torto e um bloco apertado contra o peito. Prendera o cabelo com uma caneta, deixando algumas mechas soltas junto ao rosto. Eram quase oito, e o estúdio já estava vazio. Eu ficara para revisar o manifesto da Leme. Ela, pelo que Caio me dissera, resolvera procurar referências no arquivo antigo da agência depois de descartar as que encontrara na internet.

— Desce? — perguntou, recuperando o fôlego.

— Desce.

Ela apertou o botão do térreo, embora já estivesse aceso, e se acomodou ao meu lado. No espelho, vi a mancha de café no punho da blusa branca e a marca que a alça da bolsa deixara em seu ombro. Não havia nada de especial naquela roupa. Mesmo assim, precisei me obrigar a olhar para o painel.

O elevador desceu dois andares antes de parar.

A luz piscou, e um aviso sonoro interrompeu o silêncio. Isabella olhou para o teto, depois para mim.

— Isso faz parte da avaliação do estágio?

— Se fizesse, eu estaria do lado de fora.

Apertei o botão de emergência. A portaria respondeu depois de alguns segundos, informou que a manutenção já tinha sido acionada e pediu que aguardássemos. Agradeci, perguntei se havia previsão e recebi uma resposta vaga o suficiente para entender que ficaríamos ali por algum tempo.

Isabella encostou no canto oposto.

— Você leu minha sugestão para o manifesto?

— Li.

— E?

— A ideia é boa. A expressão “porta fechada” vai incomodar o cliente.

— É uma campanha sobre exclusividade. Uma porta que não se abre para qualquer pessoa faz sentido.

— Para nós. Ele pode entender que estamos afastando o público que quer atrair.

Ela franziu a testa.

— Então a gente defende a ideia. Não foi para isso que contrataram a agência?

— Também contrataram para vender.

— Uma coisa não impede a outra.

Soltei o ar, cansado demais para aquela discussão e interessado demais em ouvi-la continuar.

— Eu disse que vai incomodar. Não que descartei.

Isabella me observou por um instante.

— Podia ter dito isso no comentário do arquivo.

— Você podia ter perguntado antes de concluir que eu tinha desistido.

O canto da boca dela se moveu.

— No muro, você era menos difícil.

Desviei os olhos para o painel. Ela mencionava aquele lugar com uma facilidade que eu invejava. Para mim, qualquer lembrança vinha acompanhada de outras que eu preferia evitar.

— Você também discutia menos.

— Porque você inventava as regras enquanto a gente jogava.

— E você mudava quando estava perdendo.

Ela riu, e reconheci o som antes de conseguir me defender do que ele provocava.

Depois de alguns minutos, Isabella deixou a bolsa no chão e se sentou, apoiando as costas no espelho. A barra da blusa escapara parcialmente do cós, mas ela parecia mais preocupada em retirar a caneta do cabelo.

— Pode sentar — disse, ao perceber que eu a observava. — Não precisa supervisionar a porta.

Sentei ao lado, mantendo alguma distância. Ela colocou o bloco sobre as pernas e começou a girar a caneta entre os dedos. Durante um tempo, ficamos ouvindo o ruído abafado do prédio.

— Eu fui ao enterro da sua mãe.

A frase me fez virar o rosto.

Isabella continuava olhando para as mãos.

— Fiquei no fundo, com a minha mãe. Sua tia nos viu e pediu que esperássemos perto da saída. Achei que você fosse passar por ali.

Lembrava pouco das pessoas naquele dia. Lembrava da voz do meu pai, da mão de uma tia no meu ombro e do esforço absurdo que fizera para não olhar novamente para o caixão.

— Eu não vi você, Bella.

Ela parou de girar a caneta. Só então percebi como a chamara.

— Eu sei — respondeu. — Depois achei que você fosse voltar para casa. Esperei alguns dias antes de perguntar.

Baixei os olhos.

— Meu pai já tinha decidido pelo internato.

— Você podia ter me contado.

— Naquela época, eu mal conseguia conversar com alguém.

Isabella assentiu devagar.

— Eu não esperava que você soubesse o que dizer. Também não sabia. Só queria que me deixasse ficar por perto.

Passei o polegar pela pulseira do relógio. Era um gesto que fazia quando precisava ganhar tempo, e o olhar dela acompanhou o movimento.

— Não precisa responder agora — acrescentou. — Mas também não precisa fingir que eu nunca perguntei.

Antes que eu encontrasse uma resposta, o interfone estalou. A manutenção avisou que faria uma tentativa de liberar o elevador e pediu que permanecêssemos afastados da porta.

Isabella recolheu a bolsa e se levantou. Depois estendeu a mão para mim, com uma naturalidade que tornou impossível hesitar sem dar importância demais ao gesto.

Aceitei.

A palma estava fria. Quando fiquei de pé, soltei seus dedos, mas ela ainda estava perto quando o elevador deu um tranco.

A luz se apagou.

Ouvi sua respiração prender e levei a mão à lateral de seu braço, procurando firmá-la. A iluminação de emergência acendeu quase imediatamente, amarela e fraca. Isabella ergueu o rosto.

— Tudo bem — disse.

Eu deveria ter retirado a mão.

Em vez disso, senti o tecido fino da blusa sob os dedos e percebi que ela não tinha se afastado. Uma mecha caíra junto à sua boca. Olhei para ela por tempo demais antes de conseguir voltar aos seus olhos.

— Lorenzo…

Ela não parecia assustada. Isso tornou tudo mais difícil.

Havia espaço para recuar. Bastava um passo, uma pergunta sobre o tranco, qualquer coisa que devolvesse sentido à minha mão em seu braço. Mas eu continuava ali, atento à proximidade do rosto dela e ao modo como sua respiração também perdera o ritmo.

— Você vai ser minha irmã.

A frase saiu brusca. Retirei a mão assim que a ouvi.

Isabella piscou, e a expressão em seu rosto mudou.

— Por que você faz isso?

Não respondi.

Ela ergueu um pouco o queixo.

— Repete, então. Olhando para mim.

Sustentei seu olhar, mas não consegui repetir.

A luz principal voltou antes que qualquer um de nós se movesse. O motor retomou o funcionamento, e Isabella recuou para pegar o bloco que deixara no chão. Ajeitou o crachá sem olhar para mim.

Descemos os andares restantes em silêncio.

No térreo, um segurança nos esperava junto às portas.

— Está tudo bem com vocês?

Respondi que sim. Isabella fez o mesmo, agradeceu e saiu primeiro. Atravessei a porta logo atrás, mas ela parou no meio do saguão e se voltou para mim.

— Você quase quebrou o contrato.

A voz era baixa. Não havia humor nela.

Isabella não esperou minha resposta. Seguiu até a saída enquanto eu permanecia perto do elevador, procurando uma interpretação daquela frase que não me obrigasse a encarar o que acontecera.

No táxi, mais tarde, abri o relatório automático sobre a falha. Li o horário da parada, a duração da ocorrência e a confirmação de que ninguém se ferira.

Deixei o e-mail aberto.

Havia alguma coisa reconfortante em ver aqueles minutos registrados. O elevador realmente parara. A luz realmente se apagara. Não fora só uma desculpa que eu inventara para ficar perto dela.

A desculpa viera depois, quando eu a chamara de irmã.

E Isabella tinha percebido.

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