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O estalar da lareira foi o único som que preencheu o escritório por longos segundos.
O silêncio pesava, e eu o deixei se prolongar de propósito. Era uma velha tática de meu pai — deixar o outro se contorcer no desconforto antes da primeira palavra.Felippo recostou-se na poltrona de couro, o copo de uísque girando lentamente em sua mão. Matteo, ao lado, observava tudo em silêncio, como sempre fazia. Don Cesare sentou em uma das poltronas já visivelmente cansado. Eu via o reflexo das chamas dançar nos olhos de ambos — e no cristal âmbar das bebidas que suavizavam a tensão crescente no ar.
Cruzei as pernas e encarei Antônio Falconi à minha frente. O homem mantinha o ar arrogante que exibia à mesa, a postura rígida e o olhar frio de quem acredita controlar cada peça do tabuleiro. Talvez controlasse, em parte. Mas não a mim.
— Vinte e cinco anos — quebrei o silêncio, minha voz baixa, rouca. — E ainda não se casou?
A pergunta soou mais provocação do que curiosidade.
Falconi arqueou uma sobrancelha, desconfiado. — Isabella sempre foi protegida. Não havia motivo para apressar o destino dela. — Falconi respondeu seco.Dei um gole no uísque, deixando o líquido queimar a garganta antes de falar.
— As mulheres de honra da máfia costumam se casar aos dezoito. — Apoiei o copo sobre a mesa. — É uma questão de tradição… e de segurança.O velho sustentou meu olhar.
— Está insinuando algo sobre a honra da minha filha, Don Coppola?Felippo moveu-se na poltrona, tenso, mas fiz um leve gesto com a mão, pedindo calma.
Aproximei-me da mesa de carvalho e apoiei as mãos sobre ela, olhando-o nos olhos. — Não insinuo. Eu pergunto. — Minha voz soou como um golpe seco. — Se vou unir meu sangue ao de outra famiglia, quero ter certeza do que estou recebendo.O ar ficou denso. Felippo soltou um leve suspiro e ergueu o copo, bebendo sem dizer uma palavra. Ele sabia que, quando eu falava nesse tom, não havia espaço para amenidades.
Falconi, no entanto, manteve-se impassível.
— Se tem dúvidas, Don Coppola, podemos providenciar o exame. — A frase veio gelada, carregada de orgulho. — Os Falconi não têm nada a esconder.Soltei uma risada curta, sem humor, e peguei o isqueiro de prata sobre a mesa. Acendi um charuto, deixando o estalar do fogo preencher o silêncio.
— Não é necessário. — Traguei devagar. — A honra de uma mulher não se mede com papel e tinta.Ergui o olhar e deixei que minha voz soasse mais grave.
— Mas, como manda a tradição, na manhã seguinte à lua de mel o lençol manchado de sangue deverá ser apresentado ao conselho. Eu mesmo acho essa tradição retrógada, mas meu conselho é formado em grande parte por velhos que cultuam a tradição, sabe como é?A chama refletiu nos olhos de Antônio Falconi. Ele não vacilou.
— Minha filha é pura. — disse, firme. — Pode seguir com a tradição.Assenti lentamente, sem quebrar o contato visual.
Mas, por um breve instante, lembrei da mulher sentada à minha mesa há poucos minutos — os cabelos negros caindo em ondas suaves sobre os ombros, pele clara, o olhar cor de avelã que escondia mais do que mostrava, a boca carnuda que tremia sutilmente quando ela tentava manter o controle. Isabella Falconi. A filha do homem à minha frente. Tão bonita quanto misteriosa.Vinte e cinco anos… protegida demais.
As palavras do pai ecoavam em minha mente, e uma parte de mim duvidava que fosse apenas inocência o que ela escondia por trás daqueles olhos. Era inteligente, percebi logo. Observava antes de agir. E esse tipo de mulher… era a que mais sabia ferir.Felippo quebrou o silêncio:
— Então temos um acordo, não é? — Ele pousou o copo e me olhou de lado, tentando aliviar a tensão. — Melhor selar isso antes que o uísque acabe.Matteo riu baixinho, mas manteve o olhar atento, avaliando cada movimento de Falconi.
Ergui o copo em direção a ele.
— Temos. — disse, com firmeza. — O casamento é bom para ambas as famílias.Falconi levantou o dele também.
— A aliança trará estabilidade. — Concordou. — E selará nossa confiança.O som dos copos se chocando ecoou como um brinde pesado, selando algo maior que um acordo. Era uma sentença.
— Em uma semana anunciaremos o noivado — falei, direto. — E dentro de dois meses, o casamento.
Falconi assentiu, satisfeito.
— Assim será.Terminei meu uísque de um gole e deixei o copo sobre a mesa.
Quando ele e os irmãos se levantaram, eu permaneci sentado por um instante, observando o fogo dançar na lareira.Naquele reflexo dourado, a imagem dela voltou à minha mente — os traços delicados, a postura elegante, e aquele olhar que parecia dizer mais do que deveria.
Isabella Falconi.
Bonita demais para o próprio bem. E inteligente o bastante para ser perigosa.Sorri de leve, um sorriso sem calor.
Talvez, afinal, esse casamento fosse mais interessante do que o conselho imaginava.Depois que o brinde selou o acordo, ficamos alguns minutos em silêncio. O fogo da lareira iluminava as faces dos homens à minha volta, projetando sombras longas pelo escritório. O uísque já não queimava — apenas aquecia como a confirmação de algo inevitável.
Antônio Falconi ajeitou o paletó, satisfeito.
— Então está decidido. Permaneceremos em Nova York até o noivado. — disse, a voz firme. — Assim, os jornais e o conselho poderão anunciar oficialmente a união.
Assenti.
— Em uma semana. — Confirmei. — A cerimônia será aqui, na mansão Coppola.— Excelente. — Ele ergueu o copo vazio em um gesto de aprovação. — Após isso, Isabella retornará para a Sicília. Precisa resolver alguns assuntos antes do casamento.
Ergui uma sobrancelha.
— Assuntos?— Ela ainda cursa Direito — explicou, orgulhoso. — Pretende solicitar transferência para a universidade de Nova York.
Felippo soltou um assobio baixo, sarcástico.
— Uma principessa mafiosa estudando Direito? Isso é novo.— Não vejo mal algum — retruquei, antes que Antônio respondesse.
Meus olhos deslizaram até a porta, onde o vulto de Isabella se moveu discretamente — provavelmente à espera do pai. — Uma mulher instruída entende melhor o valor da lealdade e das leis… mesmo as que escolhemos quebrar.Falconi assentiu, satisfeito com a resposta.
— Então está de acordo que ela continue os estudos?— Sim. — Confirmei, pousando o copo. — Desde que saiba equilibrar seus deveres de esposa e de Coppola.
Ele sorriu, e percebi que aquela aprovação silenciosa valia mais que qualquer contrato assinado.
Matteo se levantou, foi até o bar e serviu mais uísque para todos. O som do líquido âmbar enchendo os copos misturou-se ao crepitar do fogo.
— Então, senhor Falconi, — disse ele com seu jeito leve — teremos visitas femininas em breve?— Sim. — respondeu Falconi, olhando para mim com aquele ar calculista. — Quando Isabella retornar para Nova York, trará sua prima Francesca e minha irmã, Signora Luciana Rossi, para auxiliá-la nos preparativos do casamento.
Matteo piscou, divertido.
— Parece que a casa vai ficar… mais animada.Ignorei o tom e apenas soltei um leve sorriso.
— As portas da mansão estarão abertas para as Falconi.Felippo se inclinou para frente.
— Espero que saiba o que está fazendo, fratello. Essa aliança vai colocar meio conselho de olho em você.— Que olhem. — Retruquei, a voz baixa. — Deixem que vejam o que acontece quando duas casas aprendem a coexistir sem sangue.
Enquanto Antônio Falconi e meus irmãos conversavam sobre detalhes logísticos — convites, proteção, presença do conselho — minha atenção voltou para o reflexo da porta envidraçada.
Isabella estava ali, parada sob a luz suave do corredor, observando discretamente.
Os cabelos negros caíam como seda sobre os ombros, o vestido colava sutilmente à curva de sua cintura e ao balanço natural do quadril. Quando nossos olhares se cruzaram, por um instante, ela pareceu hesitar… mas não desviou.Havia algo perigoso naquela mulher — um tipo de elegância silenciosa que escondia mais do que revelava.
A boca carnuda, o queixo erguido, os olhos cor de avelã que pareciam analisar o mundo antes de reagir. Ela me lembrava o mar da Sicília: bonito, mas traiçoeiro.Antônio notou meu olhar e sorriu de canto.
— Uma joia rara, não acha, Don Enzo?Bebi o resto do uísque antes de responder.
— Sim. — Murmurei. — E toda joia precisa ser bem guardada.Nos despedimos com o protocolo habitual — um aperto de mãos firme, olhares que diziam mais do que as palavras.
Quando o patriarca Falconi saiu do escritório, levei alguns segundos antes de me mover.Felippo se levantou e estalou os ombros.
— Parece que teremos uma semana interessante.Matteo riu.
— Eu diria perigosa. Ela tem aquele olhar… que promete problemas.—Acredito que não, a garota foi criada para arrumar um bom casamento, só isso, e o pai estava a guardando para selar uma boa aliança. —Felippo continuou.
Fiquei em silêncio, observando pela janela os Falconi subindo para os quartos acompanhados pela empregada.
Eles ficariam hospedados por aqui essa semana, a mansão era segura e devido aos ataques sofridos nos últimos tempos eu e Don Antônio achamos prudente a instalação deles por aqui.
O reflexo do fogo tremulava no vidro, e no meio dele, ainda via o rosto dela — os olhos avelã, o sorriso contido.Sette giorni.
Sete dias até o noivado. Dois mês até o casamento.Sorri de leve, tragando o resto do charuto.
Tempo suficiente para descobrir se Isabella Falconi seria minha aliança benéfica…ou o início da minha ruína.EPÍLOGO Enzo CoppolaA Toscana sempre teve esse cheiro: uva madura, terra quente e vento amaciado pelo sol. É um perfume antigo, que gruda na memória e, por algum motivo que nem tento entender, me acalma.Talvez porque aqui nada me lembra sangue. Nada me lembra perda. Nada me lembra o Don que o mundo exige que eu seja.Caminho entre as fileiras do parreiral enquanto Isabella acompanha meu passo, o vestido leve roçando na pele bronzeada pelas últimas semanas de calmaria. Nani ficou em casa com Dante, prometendo que não tiraria os olhos dele nem por um segundo. Deixar nosso filho lá enquanto vínhamos ver a vinícola foi o mais perto de uma “folga” que tivemos desde que o pequeno nasceu.E, sinceramente, senti falta desse tempo com ela.— Non è bellissimo? — Isabella pergunta, girando devagar entre as vinhas, como se estivesse em um filme. A luz dourada cola no cabelo dela, transformando tudo o que toco em al
Capítulo 37 Enzo CoppolaEu nunca pensei que um dia estaria assim: correndo por um hospital não porque alguém foi ferido…, mas porque meu filho estava chegando ao mundo.Era madrugada quando Isabella apertou minha mão e disse com aquela calma irritante:— Enzo… a bolsa estourou.Eu entrei em pânico.Ela riu.Os médicos correram.Eu quase desmaiei — de novo.— Senhor Enzo, venha por aqui — a enfermeira pediu.— Eu vou junto — eu disse imediatamente.— É claro — ela respondeu, contida, tentando não rir da minha cara.Isabella caminhava com firmeza, apesar das contrações. Eu estava quase carregando ela e quase sendo carregado — porque minhas pernas tremiam mais que as dela.Dentro da sala, os monitores apitavam e o hospital parecia grande demais. E eu… pequeno demais.— Enzo — ela sussurrou, segurando meu queixo — olha para mim. Respira comigo, lembra?Eu respirei.Por ela.Por Dante.O trabalho de parto foi r
Capítulo 36 Enzo CoppolaA notícia ainda pulsava dentro de mim: um bambino.Meu filho. Nosso filho.Eu estava tão feliz, tão leve, tão fodidamente vivo que, pela primeira vez em meses, mandei meus seguranças irem embora.— Podem ir. Eu levo minha esposa para casa — falei, batendo a mão no ombro de Luigi.Ele arqueou a sobrancelha.— Tem certeza disso?— Luigi, eu sou o homem mais feliz do planeta. Nada vai dar errado hoje.Ele riu, incrédulo, mas obedeceu. Uma a uma, as SUVs pretas se afastaram. O estacionamento ficou quase vazio.Eu abri a porta do carro e ajudei Isabella a entrar. Ela mal sentou e já me olhava com aquele sorriso que sempre detonava minha sanidade.— O que foi? Por que está me olhando assim? — ela murmurou.— É que… — encostei a testa na dela — Eu nem acredito que você me perdoou.O sorriso dela cresceu.O meu também.A felicidade transbordava e junto com ela veio algo perigoso, quente, pulsando s
Capítulo 35 Enzo CoppolaEu já enfrentei tiroteio, sangue, correria, sequestro…, mas nada, absolutamente nada, podia ter me preparado para uma sala branca, uma tela de ultrassom e o coração da mulher que eu amo batendo acelerado enquanto esfregava gel na barriga.A médica parecia mais animado que a gente.Tudo bem, mais animado que eu — porque Isabela estava sorrindo como se tivesse engolido o sol.Eu, por outro lado?Parecia que eu tinha engolido um tijolo.A tela piscou. O médico passou o aparelho, deu um zoom, sorriu de canto e soltou:— Bom… acho que temos novidades aqui.Meu estômago caiu até o inferno.— O quê? Tá tudo bem doutora? — minha voz saiu meio trincada, meio rouca, meio desesperada.Isabela apertou minha mão, rindo.— Enzo, respira.Eu tentei.Falhei miseravelmente.A médica virou a tela um pouco mais para a gente e apontou.— Meus parabéns. Vocês vão ter um menino.Foi como se alguém tives
Capítulo 34 Isabella FalconiAcordei hoje com a sensação de que meu estômago tinha virado uma máquina de lavar roupa no modo turbo.Culpa dos nervos?Culpa do bebê chutando?Culpa da porra do exame que vai revelar o sexo?Ou… culpa do nome que não sai da minha cabeça, mesmo quando eu juro que não vou pensar nele?Enzo.Dois meses.Faz dois meses que não sei nada sobre ele.Ele sumiu sem deixar nem cheiro de uísque no ar.E ainda assim… aqui estou eu, passando perfume, arrumando o cabelo e fingindo pra Francesca que o enjoo é físico — quando na verdade é emocional mesmo.Francesca, claro, repara tudo.— Isa, você está pálida.— Grávida, Francesca. GRÁ-VI-DA — respondo, revirando os olhos. — É normal.— Normal é você ficar com vontade de comer tijolo, não ficar com cara de viúva antes do enterro.Eu suspiro.— Eu não estou com cara de viúva.Ela me olha de cima a baixo.— Querida, se tristeza tivesse forma humana, seria você
Capítulo 33 Enzo Coppola (2 MESES DEPOIS)Duas coisas viraram rotina nesses últimos dois meses:A porra da insônia…E a saudade que está me matando aos poucos.Acordo todo dia enfiado nessa casa velha da Itália, que mais parece um mausoléu do que um lugar para viver. A mansão Coppola aqui na Sicília deveria ser “tradicional”, “respeitável”, “símbolo da família”.Para mim virou só um buraco luxuoso onde eu me escondo do mundo… e dela.Isabela.Maldita e bendita Isabella.Me levanto da cama com a cabeça latejando, resultado de outra madrugada bebendo mais do que devia.Já perdi a conta de quantas garrafas de uísque matei tentando apagar o rosto dela.Os olhos dela.A porra do cheiro dela.Mas nada funciona.Nem álcool, nem silêncio, nem distância.Jogo a camisa amarrotada no chão e caminho até a varanda. O sol da Sicília bate forte demais, como se tivesse raiva de mim também.A vista é bonita, o mar lá embai







