LOGINO sol da tarde invade a casa com uma calma que parece permanente agora. Não é mais uma pausa entre guerras. É rotina. É vida. Estou no jardim, sentada em uma das cadeiras de madeira, observando enquanto Agnes corre pela grama com uma energia que parece inesgotável. Os cabelos dela balançam ao vento, o riso solto, leve… livre. — Mamãe, olha! — ela grita, girando desajeitada, quase caindo. Eu rio. — Toma cuidado, amor! Levo a mão até a barriga, já visivelmente maior desta vez. O vestido leve acompanha o movimento, e o pequeno chute que sinto me faz sorrir automaticamente. — Seu irmão ou irmã já está te dando trabalho, hein… — murmuro, acariciando o local. — Eu ouvi isso. A voz de Ares surge atrás de mim. Sorrio antes mesmo de me virar. Ele se aproxima com passos tranquilos, sem pressa, como alguém que finalmente aprendeu a viver sem precisar correr o tempo todo. Os anos fizeram algo nele. Não tiraram a intensidade. Mas suavizaram as bordas. — Você está ouv
A casa ganhou um novo som. Não é mais o silêncio calculado de antes, nem o eco distante de passos e decisões importantes. Agora, o que preenche cada canto é algo menor… mais suave… mas infinitamente mais poderoso. Um choro leve. Um resmungo. O som de uma respiração pequenininha no meio da madrugada. Vida. Estou sentada no sofá da sala, com Agnes nos braços, balançando devagar enquanto observo o jardim pela janela. A luz da manhã entra suave, iluminando o ambiente de um jeito quase tranquilo demais para alguém que passou a noite acordando a cada duas horas. — Eu não sabia que alguém tão pequeno podia mandar tanto… — murmuro, olhando para ela. Agnes se mexe levemente, os olhos ainda fechados, como se estivesse decidindo se acorda ou não. — Por favor… continua dormindo… — sussurro, quase implorando. — Você está negociando com um bebê? A voz de Ares surge atrás de mim. Viro o rosto. Ele está encostado na parede, de braços cruzados, observando a cena com um leve sorriso. Cabe
A casa já não é mais a mesma. Meses se passaram, e tudo ganhou novos detalhes — um quarto preparado com cuidado, tons suaves, móveis escolhidos com calma, pequenos objetos que carregam expectativa. Vida. Minha vida mudou com o tempo. Meu corpo também. E agora… Nada disso parece suficiente para me preparar para o que está acontecendo. — Ares… — chamo, com a voz falhando. Estou parada no meio do quarto, uma mão apoiada na barriga já grande, a outra tentando se firmar na cômoda. Uma dor vem. Forte. Profunda. Como uma onda que começa baixa… e cresce. Cresce até tomar tudo. Fecho os olhos com força. — Claire? — a voz dele vem rápida, atenta. Ouço passos. Ele aparece na porta em segundos. O olhar muda na hora. Alerta. — O que foi? Respiro com dificuldade. — Eu… acho que… — outra contração me corta no meio da frase. Minha mão aperta o móvel. — Ares… tá doendo… Ele se aproxima imediatamente. As mãos dele seguram meu rosto, depois descem até meus braços, tentando me e
O dia amanhece diferente. Não é só a luz entrando pelas janelas — suave, dourada, quase perfeita. É o ar. A sensação. Como se tudo estivesse em suspensão, esperando por esse momento. Eu estou sentada diante do espelho, o vestido já ajustado ao meu corpo, as mãos repousando sobre o colo… e o coração completamente acelerado. — Você está linda, senhora… — uma das mulheres comenta atrás de mim, ajeitando o véu com cuidado. Eu sorrio de leve. Mas meu olhar permanece fixo no reflexo. Porque, por um instante… Eu não me reconheço. Não aquela versão que entrou nesse mundo assustada. Nem a que tentou fugir. Nem a que sobreviveu a tudo aquilo. Essa… É outra. Mais forte. Mais inteira. Mais… feliz. Minha mão desliza automaticamente até a barriga, num gesto quase inconsciente. Ainda não há sinais visíveis. Mas eu sei. E isso muda tudo. — Está pronta? — alguém pergunta. Respiro fundo. Lentamente. Sentindo o peso… e a leveza… daquele dia. — Estou. — respondo. E, pela prime
A luz do restaurante é suave, dourada, refletindo nos copos e talheres como pequenos pontos de brilho. A cidade lá fora pulsa, mas ali dentro… tudo parece mais calmo. Ares está à minha frente, completamente envolvido no que está dizendo. — Eu vi uma casa hoje. — ele comenta, apoiando os braços na mesa, os olhos brilhando de um jeito que eu ainda estou me acostumando a ver — Não é muito longe daqui… mas também não é isolada demais. Eu o observo em silêncio. — Tem um jardim grande. — continua — Espaço suficiente pra… — ele faz uma pausa breve, como se organizasse o pensamento — pra gente viver sem precisar se preocupar com segurança o tempo todo. Meu coração aperta. Ele está planejando. Pensando no futuro. Em nós. — E os quartos… — ele segue — são amplos, bem iluminados. Eu pensei que você ia gostar da vista… Minha mão aperta levemente o guardanapo sobre meu colo. Porque eu não estou conseguindo acompanhar. Minha mente está em outro lugar. Naquele teste. Naquelas duas linh
O quarto está tomado por tecidos. Brancos, off-white, rendas delicadas, véus espalhados como nuvens sobre a cama. Caixas abertas, sapatos, joias… tudo parece girar em torno de um único ponto: O casamento. Nosso casamento. Estou em frente ao espelho, segurando um dos vestidos contra o corpo, tentando imaginar como vai ser naquele dia. Meu coração aperta de um jeito bom, leve… quase inacreditável depois de tudo. — Senhora, esse aqui valoriza mais a cintura… — a costureira comenta ao meu lado, ajustando o tecido com cuidado. Eu sorrio de leve, mas antes que consiga responder— Uma tontura. Forte. Repentina. Levo a mão à cabeça. — Claire? — a mulher chama, preocupada. Dou um passo para trás. O quarto gira. — Eu… eu tô bem… — tento dizer. Mas não estou. Uma onda de enjoo sobe de uma vez. Levo a mão à boca. — Com licença— — Mal termino a frase e já estou correndo para o banheiro. Ajoelho diante do vaso, sentindo o estômago revirar completamente. Meu corpo treme, o gosto a







