FAZER LOGINZara Nox
A mão tremia quando girei a chave.
E, quando a porta se abriu, o ar me faltou.
O apartamento era... lindo.
Um luxo que eu nunca imaginei sequer visitar, muito menos morar.
O piso brilhava, o sofá era de veludo cinza, os lustres reluziam sob a luz do fim de tarde. Tudo parecia novo, como se alguém tivesse acabado de preparar o lugar para mim.
Deixei o envelope e a mochila sobre o sofá e fechei a porta com a chave.
Sozinha em um lugar daqueles, a primeira regra era simples: não deixar a porta aberta.
Caminhei devagar, ainda incrédula.
A vista da janela era de tirar o fôlego - o Central Park se estendia logo abaixo, verde e sereno, em contraste com o caos da cidade.
Por um segundo, esqueci de respirar.
- Isso não pode ser real... - murmurei para mim mesma.
Fui até a cozinha e abri a geladeira.
Cheia.
Carne, frutas, leite, até iogurte. Tudo fresco.
Os armários estavam repletos de mantimentos, e até a cafeteira era automática, daquelas que eu só via em comerciais.
Toquei o balcão frio de mármore, como se precisasse me convencer de que era sólido.
"Quem faria tudo isso por mim?"
Segui para o corredor.
Três portas.
Abri a primeira o meu quarto com certeza. Cama enorme, cortinas de linho, um abajur dourado, e uma escrivaninha com um notebook novo, tinha duas portas, a primeira - um banheiro branco e espaçoso, com uma banheira que parecia saída de um catálogo.
A segunda... e meus olhos quase saltaram.
Um closet. Enorme.
Lotado de roupas.
De todos os tipos: ternos femininos, vestidos de gala, roupas de dormir, casacos de inverno.
Todas, absolutamente todas, do meu tamanho.
- Tá legal... - sussurrei, rindo nervosamente. - Isso tá ficando cada vez mais estranho.
Peguei um vestido preto, toquei o tecido. Seda pura. E na etiqueta... meu nome bordado.
Engoli em seco.
- Será que... minha mãe lembrou que tem uma filha? - falei para o nada.
Mas o silêncio do apartamento respondeu por ela.
Olhei ao redor do quarto e em cima da escrivaninha tinha algo que fez meu coração bater descompassado. Uma carta.
"Para Zara Nox.
Use essa nova chance para recomeçar.
A segunda e terceira porta dava para quartos de hóspedes. O mundo lá fora é cruel, mas você é mais forte do que imagina."
Sem assinatura.
Sem remetente.
Fechei os olhos e suspirei.
Havia algo de reconfortante e assustador em saber que alguém lá fora se importava comigo - mas não o bastante para dizer quem era.
Sentei-me na cama e deixei o olhar vagar pelo quarto.
Era tudo perfeito demais.
Luxuoso demais para uma garota como eu.
Mas, pela primeira vez na vida, não senti medo de aceitar algo bom.
- Talvez... eu mereça - murmurei, deitando devagar.
A chuva começou a cair lá fora, batendo nas janelas imensas.
O som era suave, quase como um sussurro.
Fechei os olhos por um instante, lembrando de todas as noites em que chorei sozinha no internato, pedindo a Deus que, um dia, alguém me tirasse de lá.
E agora, aqui estava eu.
Num apartamento que parecia saído de um sonho.
Com um futuro misterioso me esperando do lado de fora daquelas paredes.
Levantei-me de novo, incapaz de ficar parada. Fui até a varanda e olhei a cidade iluminada.
Carros passando, pessoas correndo, vidas acontecendo.
Pela primeira vez, eu sentia que a minha estava prestes a começar.
- Aí, meu Deus... - sussurrei, com um sorriso tímido. - Obrigada por não esquecer de mim.
Depois de tantos anos de sofrimento... será que, enfim, terei anos de paz?
Talvez o universo estivesse, finalmente, me devolvendo algo que sempre foi meu:
a chance de pertencer.
O vento frio tocou meu rosto, e, sem perceber, uma lágrima escorreu.
Não de tristeza - mas de gratidão.
De esperança.
De medo também, talvez.
Porque algo dentro de mim dizia que, por mais que tudo parecesse perfeito... nada era tão simples assim.
E eu estava prestes a descobrir o porquê.
TrizO avião tocou o solo com uma suavidade que parecia simbolizar mais do que apenas o fim de um voo. Era o fim de uma fase, mas também o começo de algo ainda maior. Após um ano inteiro de intercâmbio, Hector e eu finalmente estávamos de volta. E, apesar da saudade que sentíamos da família, a ansiedade por reencontrá-los era maior ainda.- Finalmente... - murmurei, segurando a mão dele enquanto caminhávamos pelo terminal. O coração batia acelerado, misturando felicidade e nervosismo.- Eu sei... Triz - disse Hector, apertando minha mão. - Agora é hora de voltarmos para casa.Ao sairmos pelo portão de desembarque, fomos recebidos por uma cena que me fez o coração quase explodir. Lorenzo, Zara, Liz, Rômulo, Bianca e Vittorio nos esperavam, com sorrisos imensos, alguns chorando de emoção. Hector e eu corremos para eles, e foi como se nenhum dia tivesse passado.- Meus filhos! - gritou Zara, me abraçando com força. - Vocês estão finalmente de volta!- Nós sentimos tanta falta de vocês -
TrizO vazio que Hector deixou quando embarcou ainda doía dentro de mim. Cada canto da casa parecia ecoar a ausência dele, cada manhã sem o som da sua voz era um lembrete cruel de que a distância tinha chegado. Eu tentei me ocupar com estudos, amigos, passeios com a família... mas no fundo, nada conseguia preencher aquele espaço que era só dele.Sentada na sala, com as mãos sobre o livro que eu fingia ler, respirei fundo e decidi que era hora de ser honesta com todos. A verdade, por mais que me assustasse, precisava sair. Eles mereciam saber quem eu realmente era, quem eu amava.- Eu... eu preciso falar pra vocês - comecei, a voz trêmula. - Eu e Hector... nós nos apaixonamos. E namoramos por três anos. Mas ele... ele foi embora, e terminamos... e eu tinha decidido esperar para contar quando ele voltasse. Mas... eu não consegui mais esperar.O silêncio que se seguiu foi quase doloroso. Olhei para minha mãe, Zara, que estava encostada no batente da porta, com o olhar suave, mas atento.
HectorO dia finalmente chegou. Depois de três anos intensos, cheios de risadas, olhares roubados, segredos e promessas silenciosas, eu estava prestes a embarcar para um intercâmbio que mudaria a minha vida. Eu mal dormi na noite anterior, e mesmo assim, quando acordei, o nervosismo tomou conta do meu corpo como se eu fosse um iniciante num palco gigantesco, sem roteiro e sem ensaio.O sol da manhã entrava pelas cortinas do meu quarto, mas não conseguia aquecer o frio que sentia no peito. Triz estava na cozinha, preparando café com aquele jeitinho dela de sempre - tentando agir normal, mesmo sabendo que algo estava prestes a mudar. Eu tentei sorrir, mas era impossível. Cada passo em direção à porta parecia me puxar de volta, cada respiração me lembrava de que os próximos meses seriam longe dela. E eu não sabia se meu coração iria sobreviver a isso.- Bom dia, Hector. - Triz apareceu na porta, ainda com a camiseta grande que usava para dormir, e um sorriso tímido no rosto. - Dormiu bem
HectorMeses se passando... e o mundo virando de cabeça pra baixo.As coisas mudaram muito rápido. Rápido demais, pra ser sincero.Alguns meses atrás, eu e a Triz ainda estávamos escondendo nosso namoro, achando que ninguém desconfiava - embora todos provavelmente soubessem. Nós achávamos que éramos ótimos em disfarçar, mas éramos só dois adolescentes bobos, apaixonados, tentando não chamar atenção.Mas tudo isso ficou pequeno perto do que aconteceu com a minha mãe e com a tia Liz.As duas grávidas ao mesmo tempo - de novo - e agora com as barrigas tão enormes que parecia que carregavam o planeta Terra dentro delas. Às vezes eu olhava e pensava que, se elas espirrassem, iam entrar em trabalho de parto. Só que obviamente eu nunca falava isso em voz alta, porque eu gostava de ter meus dentes completos.Eu observava a minha mãe de longe naquele dia. Ela estava rindo de algo que a tia Liz tinha falado, segurando a barriga, como se rir já fosse difícil demais.- Hector... - Triz me cutucou
HectorNunca pensei que me sentiria assim. Confuso, animado, nervoso e ao mesmo tempo feliz. Tudo isso ao mesmo tempo. Eu e Triz tínhamos um segredo. Um segredo que nem Lorenzo, nem Zara, nem ninguém da família sabia: nós estávamos namorando escondidos.Tudo começou de forma inocente. Crescemos juntos, brincando, estudando, crescendo lado a lado. Sempre fomos muito próximos, mas nos últimos meses algo mudou. Eu comecei a perceber cada gesto dela, cada sorriso, cada risada, de uma forma diferente. Meu coração acelerava quando ela estava por perto, e eu sabia que não era apenas amizade.- Hector, você está estranho hoje - disse Triz um dia, com aquele sorriso provocador. - Parece que vai explodir a qualquer momento.- Eu... não sei do que você está falando - tentei disfarçar, mas minha voz traiu meu nervosismo.Ela riu, aproximando-se de mim na biblioteca da escola.- Ah, vamos, não se faça de bobo. Eu sei quando você está pensando em mim.Eu senti meu rosto esquentar, mas tentei manter
Zara NoxA manhã começou calma na mansão Castellani, mas dentro de mim havia um turbilhão de emoções. Hector brincava na sala com Triz, já acostumados com o mundo que nós, mães, estávamos construindo para eles. Liz estava ao meu lado, segurando minha mão, nervosa, ansiosa. Nós duas sabíamos que aquele momento seria especial - e também carregado de expectativa.- Então... é hoje - sussurrei, quase sem ar.Liz assentiu, mordendo o lábio, o gesto denunciando a ansiedade que também sentia.- Eles vão reagir... bem, espero - disse ela, tentando rir, mas seus olhos brilhavam de emoção.Respirei fundo. Hoje iríamos contar para Lorenzo e Rômulo que as duas estavam grávidas. Dois bebês chegando, quase ao mesmo tempo. A sincronia era inacreditável, e eu não poderia guardar segredo por mais tempo.- Vamos fazer isso agora? - perguntei. - Antes que a emoção nos derrube.Liz concordou. Levantamo-nos, e eu segurei Hector pelo braço, caminhando até a sala onde Lorenzo e Rômulo estavam trabalhando. O







