Se connecterSerena:
Ele me encarou.
E antes que dissesse qualquer coisa, a cobra míope deslambida deslizou as unhas vermelhas pelo braço dele, aproximando a boca do ouvido enquanto cochichava algo.
Mas os olhos azuis.
Ah, os olhos azuis continuavam presos nos meus.
Não nela.
Em mim.
Aquilo foi um golpe baixo demais para eu suportar.
Baixei o olhar imediatamente, encarando meus sapatos como se eles fossem a coisa mais fascinante do mundo. Melhor aquilo do que assistir à cena degradante à minha frente.
Mesmo assim, não consegui evitar.
Vi de relance as unhas vermelhas escandalosas escorregando para dentro do bolso da calça preta dele.
Um cartão magnético.
Extra.
Soltei o ar com força, o peito inflando de raiva.
Ótimo.
Agora eu teria que registrar a vadia que estava entregando o cartão extra do quarto.
Eu não era ingênua.
Las Vegas. Cidade do pecado.
Metade daqueles empresários passava as conferências abrindo portas para mulheres diferentes a cada noite. Até eu queria colocar meus pecados em dia.
Mas qual era o plano dele?
Ele não tinha largado outras mulheres nas três últimas conferências.
Ia fazer o quê?
Abrir a porta de hora em hora e gritar “próxima”?
— Está com algum problema, senhorita Beaumont?
Levantei o olhar.
A cobra já não estava mais colada nele, mas o cheiro doce e enjoativo do perfume ainda pairava no ar.
Balancei a cabeça.
Profissional.
Sempre profissional.
Porque o problema de ser mulher em meio a tantos homens — e ainda ser vista como jovem demais, como o próprio León adorava reforçar — e negra-latina, era não poder baixar a guarda nem por um segundo.
Nunca deixe os tubarões sentirem cheiro de sangue.
Essa era a regra.
E quando o tubarão branco estava na sua frente, analisando cada microexpressão sua… a regra valia em triplo.
Eu odiava León mais do que odiava Nikolai.
Porque Nikolai provocava.
Mas León… León lia.
Ele me pegou admirando-o mais vezes do que eu gostaria de admitir.
E nunca de forma profissional.
— Creio que é hora de criança estar na cama.
A voz veio atrás de mim.
Virei devagar.
Nikolai.
Sério.
Imponente.
Chamando a atenção do primo com apenas um olhar.
Meu sangue ferveu.
Controlei.
Engoli.
Quase tirei os sapatos ali mesmo, no carpete vermelho escuro, só para libertar meus pés daquele dia infernal.
— Creio que sí, señor. — Olhei o relógio e voltei para ele com uma expressão calculada. — Assim como os velhos já devem estar se recolhendo… procurando suas cuidadoras.
Senti o ar ser sugado sobre minha cabeça.
León não reagiu de imediato.
Mas a faísca nos olhos azuis cresceu.
Lenta.
Perigosa.
— Devo deduzir que sou velho diante da senhorita, então?
A voz grossa veio baixa. Densa. Como se pudesse me fazer engolir as palavras.
— Realmente homens mais velhos procuram mulheres que os cuidem bem. Ensinar juventude… não é para nós.
Aquilo foi uma estocada limpa.
Precisa.
Eu quase encolhi.
— Os alemães estão abrindo contrato. A melhor empresa vai morder essa baleia. Quero essa empreitada para nós.
Nikolai passou por nós, encerrando a provocação como se fosse irrelevante. León o acompanhou.
E eu?
Fiquei para trás.
Como se fosse invisível.
Mas caminhei atrás deles mesmo assim. Como um pequeno animal de estimação sendo levado para passear.
Eu aceitei aquela viagem porque estava farta.
Farta de fazer trabalho que não era meu.
Farta de ver outros receberem os créditos.
Eu evoluí dentro da empresa.
Eu sabia o que fazia.
E ali, naquele hotel cheio de empresários poderosos… eu tinha uma chance.
Eles pararam diante do elevador, discutindo como abordar a Hartmann.
E então algo dentro de mim decidiu que já era hora.
— Os alemães valorizam qualidade. — Minha voz saiu antes que eu pudesse me sabotar. — E família é algo sagrado para a cultura deles.
Eles se viraram.
Ambos.
Silêncio.
— Apenas duas empresas têm porte suficiente para essa disputa.
Dei de ombros, sustentando o olhar.
— Trank e Volkovs. A Trank não compareceu à segunda palestra dos alemães. Não havia ninguém do comitê presente. Isso nos dá vantagem estratégica.
Eles não me interromperam.
Isso me deu coragem.
— Convidar o senhor Alexander para um almoço pode abrir espaço para apresentar nossa infraestrutura. E levá-lo ao Cassino Rooltes. Foi nosso maior recorde de execução. Meses. Não anos.
O elevador ainda não havia chegado.
E eu já não tremia mais.
— Podemos oferecer 5% de desconto em mão de obra. Ainda manteremos margem, porque temos 45% sobre os materiais exportados. Nenhuma empresa consegue competir com esse equilíbrio.
Silêncio.
Os olhos deles se encontraram.
Uma conversa muda.
Eu prendi o ar.
— Como uma estagiária sabe tanto sobre infraestrutura e porcentagens, senhorita Beaumont?
Nikolai.
Olhos fixos.
Eu não podia dizer a verdade.
Que eu fazia o trabalho da secretária incompetente dele.
Apertei a pasta contra o peito.
— Estou no último ano de estágio, señor. Aprendi muito aqui.
Nikolai apenas inclinou a cabeça.
León cruzou os braços.
Peito estufado.
Olhos azuis me analisando como se decidisse se eu era presa… ou ameaça.
Eu me senti pequena.
Minúscula.
Mas não recuei.
Porque eu estava farta de ser o peixe beta.
Eu não vim até Las Vegas para continuar invisível.
Eu estava pronta.
Pronta para deixar de ser o peixe pequeno.
Pronta para ser um tubarão.
Luna:— Creio que esses enjoos de alto-mar têm grandes chances de darem positivo em um teste de gravidez. — Ela ri mais ainda. Estou em choque, sem saber o que falar. — Mira, procura uma farmácia e compra um teste de gravidez. Depois me conte como foi a reação daquele ogro.Dona Serena desliga a chamada entre risadas, me largando ali, sem rumo. Abro o aplicativo de pesquisa, procurando por sintomas de gravidez. Estou a um passo de cair de bunda no chão, vendo que tudo o que tenho sentido está descrito ali: os enjoos matinais, a preguiça que está me pegando a cada dia, o sono excessivo... E eu que sempre jogo a culpa do sono e dos bocejos em cima de Sedrico, por conta de me deixar exausta.Ergo a cabeça, virando para a parede onde o grande espelho está, deixando meus olhos irem para o meu ventre. Estou tão feliz na viagem que não me dei conta de que minha menstruação não tinha descido. Olho a data no celular, apenas confirmando que o atraso é grande. Meus dedos param em meu ventre, olh
Luna:— Eu te amo, loucamente, senhor Lycaios! — Seu peito estufa, como um grande leão abrindo suas presas para mim.Solto um grito, entre risadas, quando Sedrico me ergue nos braços, nos rodando e marchando como um verdadeiro homem das cavernas de volta para nossa cabine. Meus dedos seguram com força em seu ombro, me aninhando mais ao seu ataque.Apenas sinto nossos corpos se colando na cama. Um tempo depois, estou me afogando no olhar que ele me dá. É tão mágico que tenho medo de ser um sonho. Sedrico beija meu pescoço, descendo seus lábios lentamente por mim. Seus beijos molhados causam arrepios pelo meu corpo todo, me incendiando por completo. Meu corpo se arqueia quando sinto sua língua passar lentamente sobre o bico do meu seio, raspando seus dentes, me induzindo entre o desejo e a dor. Minhas mãos param em sua dourada juba, me abrindo mais para ele e, dessa forma, tortuosamente, ele vai seguindo seu caminho, mapeando cada parte minha que lhe pertence.Antes que possa dar conta,
Luna:Lola, tão bela, fica sorrindo com Will, percorrendo o caminho do grande tapete vermelho. Sinto meu peito se acelerar quando, ao fim, perto do altar, vislumbro o mais lindo deus, em seu terno branco, destacando a juba dourada que tanto amo. Sua face ainda indecifrável tem seus olhos presos aos meus, anulando por completo tudo à nossa volta. Meus olhos caem sobre o buquê de flores, olhando para meu lado vazio. E, por um segundo, é como ver ele ali outra vez, com seus olhos negros, sorrindo para mim.— A moça então experimentou o sapatinho, mas, antes mesmo que ele servisse em seus pés, o príncipe já tinha dentro do seu coração a certeza de que havia reencontrado o amor de sua vida. Cinderela e o príncipe se casaram em uma linda cerimônia. Ela e o príncipe foram felizes para todo o sempre. — Meus olhos observam sua face alegre, enquanto ele fecha o livro, alisando meus cabelos.— Pai, acha que um dia vou achar um príncipe também? — Meu corpo se estica na cama, puxando as cobertas p
Luna:— É como ter uma criança grande dentro de casa. — Meu rosto se vira para Calíope, que fala baixinho, balançando seu bebê ao colo.A pequena Suze é tão delicada e perfeita, com seus três meses, parecendo uma princesa em seu vestido lindo.— Un hijo dengoso que quer atención constante — dona Serena solta, arrumando a barra do meu vestido.Ela sorri mais ainda para mim, enquanto nós duas olhamos cada canto do vestido de corte grego que escolhi. A delicada cinta que prende minha cintura, em dourado, deixa seu balanço livre, caindo sobre minhas pernas.— Lycaios não é assim — sussurro baixo, passando meus dedos por ele.— Oh, sim, meu amor, ele é, todos são. Espere até ele ficar gripado, parece que está morrendo. — Sorrio, me virando para a cunhada de dona Serena, que balança sua cabeça em confirmação.Rana, sentada ao chão atrás de nós, brinca com os pequenos de dona Serena, conversando com Dolores, a irmã caçula de dona Serena.— E, quando ficar esquecido, vai gritar pela casa e de
Sedrico:— Sabe aquela sensação de dar a última palavra? — Arrumo minha gravata, observando pelo reflexo do espelho os putos dos Volkovs, sentados no meu sofá do escritório, com as pernas cruzadas.— Esqueça! Se quer viver em paz, vai ter que saber que sempre está errado! — León estufa o peito, soltando o botão do terno. — Ou ela vai fazer você se arrepender até o último fio de cabelo.— Luna não é assim. — Me viro para eles, sentindo o nó da gravata me estrangulando.— Elas nunca são. — Benjamin sorri, apertando o filho no colo. — Até você falar algo que elas não gostem e dormirem do seu lado com o rabo virado, sem deixar você tocar.— E quando ela lhe perguntar algo, conte a verdade na hora. — Nikolai se levanta, indo até o irmão, esticando os braços para o sobrinho e beijando o pescoço do menino.— É. Isso é verdade, quando ela perguntar... — Benjamin pega o copo de uísque em cima da mesa, levando-o aos lábios. — Não será apenas uma pergunta.— Ela já sabe a resposta, está apenas t
Luna:— Trabalhando? — A olho perdida, sem entender. Meus dedos vão à minha cabeça, sentindo todas as informações de uma única vez. — Como... Como assim conheceu alguém?Eu sei que ela não é uma mulher velha. Minha mãe, por mais que estivesse caindo de bêbada, ainda é uma mulher bonita, com sua face doce. E agora, se recuperando, sem mais aquelas olheiras ou semblante abatido, sua face corada se ilumina mais. Eu desejava que ela encontrasse alguém, mas é como se tudo estivesse indo muito rápido.— Victor, dá palestra aqui todos os dias. Conheci ele na reunião do AA. — Vejo minha mãe, pela primeira vez, envergonhada para falar sobre amor, sobre o que deseja em sua vida. Seus dedos se apertam uns aos outros e solta o ar lentamente. — Começou como uma boa amizade, ele me ajudava nas horas mais difíceis. Ele é enfermeiro em um hospital no Texas.— Uau! — Solto o ar, ainda sem acreditar, mas vejo seus olhos brilhando em uma felicidade tão distante, adormecida dentro dela.— Eu venho ajudan







