Home / Romance / Suíte 804 / Sem sobrenomes

Share

Sem sobrenomes

Author: Ray B.
last update publish date: 2026-08-11 19:40:50

Capítulo 5

— Isso é passado.

Vicente sustentou o olhar dela.

— Recente.

Manuela olhou novamente para a marca mais clara no dedo anelar.

— Continua sendo passado.

Por alguns segundos, nenhum dos dois disse nada.

Ela esperou uma pergunta.

Não veio.

Vicente apenas levou o copo aos lábios e tomou um gole.

Aquilo a desarmou mais do que insistência teria desarmado.

— Só isso? — perguntou.

— O quê?

— Não vai perguntar?

— Você disse que é passado.

— As pessoas normalmente não se importam.

— Eu não sou como as outras pessoas.

Manuela soltou um riso curto.

— Essa frase parece ensaiada.

— Não foi.

— Pior ainda.

Vicente sorriu.

Ela voltou ao drinque, mas percebeu que a tensão no peito havia diminuído um pouco.

Era estranho.

Henrique havia passado oito meses escondendo uma verdade dela.

Agora um homem que ela acabara de conhecer estava, de alguma forma, respeitando um silêncio.

Talvez por isso ela não quisesse ir embora ainda.

— Precisamos de regras — disse.

Vicente arqueou uma sobrancelha.

— Precisamos?

— Você mesmo falou em regras.

— Eu disse que depende da regra para eu decidir se obedeço.

— Exatamente.

Manuela girou a taça entre os dedos.

Talvez aquilo fosse absurdo.

Talvez fosse o álcool.

Ou talvez fosse apenas a primeira decisão que ela tomava sem pensar no que alguém esperava dela.

— Primeira: sem sobrenomes.

O sorriso de Vicente diminuiu.

Muito pouco.

Manuela percebeu, mas não entendeu por quê.

— Sem sobrenomes — ele repetiu.

— Segunda: sem profissões.

— Está fugindo da polícia?

— Essa pergunta viola a terceira regra.

— Que é?

— Sem perguntas sobre o passado.

Vicente apoiou o antebraço no balcão.

— Essa parece importante.

— É.

— E o futuro?

Manuela não precisou pensar.

— Também não.

Ele a observou por alguns segundos.

— Então não falamos de onde viemos nem de onde vamos.

— Isso.

— E o que sobra?

Ela sustentou o olhar dele.

— O presente.

Dessa vez, Vicente não brincou.

Houve um silêncio diferente entre eles.

Mais denso.

Mais próximo.

Como se aquele acordo tivesse deixado de ser apenas uma conversa de bar.

— Sem sobrenomes — ele disse.

— Sem sobrenomes.

— Sem profissões.

— Sem profissões.

— Sem passado.

— Exatamente.

— Sem futuro.

Manuela hesitou por um instante.

— Principalmente sem futuro.

Vicente inclinou a cabeça.

Não perguntou por quê.

Mais um ponto a favor dele.

Ela estendeu a mão.

— Então começamos de novo.

Ele olhou para a mão dela.

— Já sei seu nome.

— Só o primeiro.

— Verdade.

Vicente segurou sua mão.

O toque foi simples.

Mas Manuela sentiu.

Calor.

Firmeza.

E uma coisa incômoda que parecia atenção demais para um aperto de mãos.

— Manuela — disse ela.

— Vicente.

— Muito prazer, Vicente sem sobrenome.

— O prazer é meu, Manuela sem passado.

Ela estreitou os olhos.

— Não abusa.

— Você cria regras demais.

— E você reclama demais para alguém que acabou de aceitar todas.

— Talvez eu goste de desafios.

A frase veio baixa.

Manuela sentiu um arrepio percorrer os braços.

Definitivamente o drinque.

Tinha que ser.

Ela soltou a mão dele.

— Quantos anos você tem?

Vicente sorriu.

— Isso está permitido?

Manuela pensou.

— Presente.

— Trinta e nove.

— Hm.

— Hm o quê?

— Nada.

— Isso foi claramente um julgamento.

— Talvez.

— Sua vez.

— Trinta e três.

— Eu não perguntei.

— Eu sei.

— Você tem o hábito de responder perguntas que ninguém fez?

— Só quando quero.

Vicente riu.

Manuela gostou do som.

E não gostou de ter gostado.

Tomou o restante do drinque.

O bartender passou por eles.

— Mais um?

Manuela negou.

— Melhor não.

Vicente olhou para a taça vazia.

— Responsável.

— Você parece decepcionado.

— Eu estava curioso para descobrir quantas regras apareciam depois do segundo drinque.

— Nunca saberá.

— Trágico.

Ela pegou a bolsa.

Era hora de ir.

Não porque estivesse desconfortável.

Exatamente o contrário.

Estava confortável demais.

E isso, naquela noite, parecia perigoso.

Quando desceu do banco, ficou quase de frente para Vicente.

Só então percebeu a diferença de altura de verdade.

Ele era mais alto do que parecera sentado.

Manuela levantou o rosto.

Vicente também ficou de pé.

Por um instante, ficaram perto demais.

Ela sentiu o perfume dele.

Madeira.

Alguma coisa cítrica.

Talvez vetiver.

Discreto.

Mas marcante.

Vicente baixou os olhos até o rosto dela.

Não havia pressa em seu olhar.

Nem aquela confiança invasiva de homens que confundiam atenção com convite.

Era pior.

Ele simplesmente esperava.

Como se quisesse descobrir o que ela faria.

Manuela deu meio passo para trás.

— Boa noite.

— Boa noite, Manuela.

Ela virou e começou a caminhar em direção ao elevador.

— Até amanhã.

Manuela parou.

Olhou por cima do ombro.

Vicente continuava junto ao balcão.

— Quem disse que vai me ver amanhã?

— Ninguém.

— Então por que disse isso?

Ele levantou o copo.

— Intuição.

— Convencido.

— Você já disse isso.

— E continuo certa.

Manuela seguiu até o elevador.

Quando as portas se abriram, entrou e apertou o botão do sétimo andar.

Antes que fechassem, olhou uma última vez para o bar.

Vicente ainda estava olhando para ela.

Dessa vez, Manuela sorriu primeiro.

As portas se fecharam.

E o sorriso desapareceu no instante em que ficou sozinha.

Ela encostou a cabeça no espelho.

O que exatamente estava fazendo?

Horas antes, estava sentada no chão do banheiro segurando uma aliança.

Agora estava flertando com um homem que não conhecia.

Não.

Não era flerte.

Era conversa.

Talvez um pouco de flerte.

Manuela fechou os olhos.

Aquilo não significava nada.

E era exatamente por isso que parecia tão seguro.

Quando chegou ao quarto, tirou os sapatos e deixou a bolsa sobre a poltrona.

O celular continuava desligado.

Ela pensou em ligá-lo.

Não ligou.

Foi até a janela.

Lá embaixo, o hotel parecia tranquilo.

Manuela tocou o dedo onde a aliança estivera.

— Passado — murmurou.

Queria acreditar.

Vicente permaneceu no bar depois que Manuela saiu.

A expressão divertida desapareceu devagar.

Ele olhou para o elevador vazio.

Depois para o copo em sua mão.

Sem sobrenomes.

A ironia quase o fez rir.

Vicente sabia o sobrenome dela.

Sabia havia anos.

Manuela Ferraz.

A mulher que, até onde ele sabia, deveria se casar em poucos dias com Henrique Vasconcelos.

Ele tinha visto fotografias.

Mais de uma.

Em redes sociais.

Em mensagens antigas.

Em uma época em que o nome Henrique Vasconcelos ainda significava amizade, e não uma coleção de assuntos que ambos preferiam manter enterrados.

Vicente não sabia por que Manuela estava naquele hotel.

Não sabia por que estava sozinha.

Não sabia por que tinha tirado a aliança.

Mas a marca no dedo era recente.

E a forma como ela dissera isso é passado não parecia uma brincadeira.

Algo havia acontecido.

Algo grande.

Vicente deveria deixar aquilo quieto.

Deveria terminar o uísque, subir para seu quarto e permitir que Manuela continuasse sendo exatamente o que queria ser:

uma desconhecida.

Era a escolha mais sensata.

Também era, percebeu com irritação, a que menos queria fazer.

O bartender se aproximou.

— Mais um?

Vicente olhou novamente para o elevador.

— Não.

— Conta no quarto?

Vicente assentiu.

— Oito-zero-quatro.

O bartender pegou o cartão.

Vicente se afastou do balcão.

Antes de sair, olhou mais uma vez para o elevador.

Manuela tinha acabado de impor quatro regras.

Vicente já havia quebrado a primeira antes mesmo de concordar com ela.

Porque, para ele, ela nunca tinha sido apenas Manuela.

Ela sempre fora Manuela Ferraz.

E isso podia transformar aqueles cinco dias em um erro muito maior do que ele estava disposto a admitir.

Continue to read this book for free
Scan code to download App
Comments (1)
goodnovel comment avatar
Eliana Franco
o que será que vai acontecer ...............
VIEW ALL COMMENTS

Latest chapter

  • Suíte 804   Bônus: Depois do "Sim"

    CAPÍTULO 123: Uma Noite Fora da RotinaManuelaNa terceira quinta-feira depois da lua de mel, cheguei em casa com os pés doloridos, a cabeça cheia de números e uma vontade quase desesperada de tirar os sapatos.A semana havia sido interminável. Dois projetos atrasados, reuniões que poderiam ter sido resolvidas por e-mail e um cliente que parecia acreditar que mudar de opinião a cada quarenta minutos era uma estratégia de gestão.Vicente não estava na sala.Dante, entretanto, veio me receber com uma animação incompatível com meu estado físico.— Oi, meu amor. Pelo menos alguém nesta casa está feliz em me ver.— Eu ouvi isso.A voz de Vicente surgiu da cozinha.Encontrei meu marido usando calça escura e uma camisa preta com as mangas dobradas. Ele estava terminando de guardar alguma coisa em uma sacola.— Você chegou cedo — observei.— Organizei minha agenda.— Milagre.

  • Suíte 804   Bônus: Depois do "Sim"

    CAPÍTULO 124: Senhor e Senhora Albuquerque A primeira semana depois da lua de mel passou entre reuniões, mensagens acumuladas e uma quantidade absurda de roupas para lavar. Na sexta-feira, eu estava terminando uma apresentação quando Vicente ligou. — Boa tarde, senhora Albuquerque. Sorri ao reconhecer sua voz. — Boa tarde, marido. Aconteceu alguma coisa? — Temos um compromisso amanhã à noite. Afastei os olhos do computador. — Temos? — Um jantar beneficente organizado por um grupo de empresários. Recebi o convite antes do casamento e confirmei nossa presença. — Você esqueceu de me avisar? Houve uma pausa. — Considerei que avisar com vinte e oito horas de antecedência ainda seria socialmente aceitável. — Vicente! Ele riu. — O evento começa às oito. Traje form

  • Suíte 804   Bônus:Depois do "Sim"

    CAPÍTULO 123: De Volta à Nossa CasaManuelaA mala estava aberta sobre a cama havia quase quarenta minutos, e eu continuava tentando descobrir como tínhamos conseguido trazer mais coisas das Maldivas do que havíamos levado.— Vicente, essa camisa é sua?Meu marido apareceu à porta do banheiro, enxugando os cabelos com uma toalha.— Considerando que está segurando uma camisa masculina, as chances são grandes.— Você comprou três camisas durante a viagem?— Quatro.Olhei para ele.— Quatro?— A última estava com desconto.Soltei uma gargalhada.— Vicente Albuquerque comprando roupa por causa de promoção? Preciso registrar esse momento.Ele pegou a camisa das minhas mãos e a dobrou.— Casei com uma mulher que compara preços até de água mineral. Alguma coisa precisava aprender.Sorri, observando-o acomodar a peça na mala.Nossa lua de mel havia

  • Suíte 804   Bônus: Depois do "Sim"

    CAPÍTULO 122: O Imprevisto Perfeito Manuela tinha uma relação curiosa com imprevistos. Conseguia administrar uma crise profissional sem alterar a voz, mas bastava um restaurante perder nossa reserva para ela considerar a possibilidade de reorganizar o estabelecimento inteiro. Por isso, quando anunciou que havia planejado nossa tarde, fiquei interessado. — Reservei um passeio de barco para vermos o pôr do sol — explicou, enquanto passava protetor solar diante do espelho. — Com jantar a bordo. Eu estava sentado na cama, abotoando uma camisa de linho. — Parece excelente. Ela me observou pelo reflexo. — Nenhuma pergunta? — Devo fazer alguma? — Você costuma querer saber todos os detalhes. — Confio na organizadora. Manuela estreitou os olhos

  • Suíte 804   Bônus: Depois do "Sim"

    CAPÍTULO 121: Entre Lençóis e Confissões A primeira coisa que senti ao despertar foi uma mão deslizando lentamente pela minha cintura. A segunda foi a boca de Vicente depositando um beijo demorado no meu ombro. — Bom dia, senhora Albuquerque. Sorri antes mesmo de abrir os olhos. — Você está gostando demais de me chamar assim. — Esperei bastante para ter esse privilégio. Virei-me entre os lençóis, encontrando meu marido apoiado sobre um cotovelo, com os cabelos desalinhados e aquele sorriso que sempre anunciava problemas deliciosos. — Que horas são? — Quase dez. Arregalei os olhos. — Dez? Perdemos o café! — Pedi para trazerem à vila. Observei a bandeja sobre a mesa próxima à varanda. Havia frutas, croissants, café e suco

  • Suíte 804   Bônus: Depois do "Sim"

    CAPÍTULO 120: Uma Aposta Perigosa Descobri duas coisas naquela manhã. A primeira era que Vicente Albuquerque tinha uma capacidade impressionante de acordar disposto, independentemente de quantas horas tivéssemos dormido. A segunda era que meu marido estava escondendo alguma coisa. Quando saí do banheiro, encontrei-o sentado na cama, usando uma bermuda azul-marinho e examinando uma pequena bolsa impermeável. — Você está aprontando — anunciei. Vicente ergueu os olhos. — Bom dia, esposa. — Não tente me distrair com esse sorriso. — Costuma funcionar. — Hoje não. Ele se levantou e caminhou na minha direção, colocando as mãos na minha cintura. — Então talvez eu precise melhorar minha abordagem. Seu beijo começou delicado

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status