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CAPÍTULO 21 - GLADYS VIERMOND

last update Data de publicação: 2021-09-04 07:33:32

Gladys deu à luz a um menino, da qual Marie o chamou de Theodore, do qual cresceu cercado por todo amor e carinho, Gladys jamais foi visitá-los e nem respondeu a nenhuma carta mandada por Marie que ia relatando tudo o que acontecia com o garoto, colocando uma foto gradual de seu crescimento, ela sentia que a dívida havia sido paga, principalmente por saber que jamais poderia dar à luz a outra criança, o que se tornou um alívio, não queria dever mais nada a ninguém.

— Ocorreu tudo bem, senhora Viermond, o bebê é saudável e...

— Fica quieto, por gentileza, só quero sair daqui.

— Terá alta dentro de três dias.

Naquela noite Gladys fugiu do hospital.

GLADYS ESTAVA EM TODAS as capas de revistas e jornais, sempre polêmica em seus relacionamentos, era chamada por todos de Cleópatra da Moda devido seus ornamentos chamativos, era como se confrontasse a era moderna os chamando de retrógrados, virou símbolo de admiração entre as feministas e o recém-criado movimento dos homossexuais, que ainda sofriam terríveis restrições e retaliações do mercado de trabalho e das famílias tradicionais parisienses.

Em uma das milhares de entrevistas que concedeu, ela disse:

— É inadmissível vermos que estamos há mais de mil e novecentos anos depois do nascimento de Cristo e ainda temos preconceitos tão frívolos quanto cuidar com quem devo me deitar, tenho funcionários homossexuais que são exemplos de ser humano, com caráter divinos, o que os diferencia de heterossexuais? Absolutamente nada, para mim, o importante é serem excelentes profissionais, excelentes pessoas e excelentes amigos...

— Mas a sociedade preza por valores morais, madame Viermond.

— Todos nós somos imorais por natureza dentro de quatro paredes, Jim, posso parecer na sua frente uma mulher forte, determinada e repleta de princípios, porque sou bem-sucedida, mas entre quatro paredes posso ser a mulher mais pervertida do mundo, assim como qualquer pessoa, incluindo a sua esposa, alguém demonstrar carinho e afeto por outra do mesmo gênero pode parecer pecado aos nossos olhos, pois fomos criados para ter este tipo de pensamento, mas quando nos isolamos, sabemos quem somos, seria mais fácil ser à luz de todos sem haver julgamentos, mas deixamos nossos demônios isolados na escuridão dos nossos corações.

— É uma ideia bonita na prática, mas terá que enfrentar toda a humanidade moderna para colocá-la em prática.

— Alguém algum dia teria que fazê-lo.

— Mesmo com o crescimento do comunismo na Europa que é radicalmente contra isso?

— Mesmo se Deus fosse contrário a isso eu lutaria.

— Mas segundo os padres e pastores é.

— Muitos deles são gays só que não assumem e nem por isso os julgo e a vida segue.

Houve ataque das alas conservadoras de todos os lados, mas Gladys conseguia impedi-los de falar sobre suas ideias com seus desfiles magníficos, chamando bandas famosas para tocar ao vivo, astros do cinema e teatro. Quanto mais tentavam derrubá-la, maior era o glamour de suas roupas, e mais vendiam, suas roupas misturadas com joias de todas as cores estavam no topo de vendas, foi então que a guerra estourou, e o que achavam que iria fali-la, a deixou ainda mais rica.

Mas o preço que ela pagou foi ainda mais alto.

GLADYS ESTAVA VENDO o exército de Hitler desfilando triunfalmente sobre Paris em 10 de maio de 1940, derrotaram o exército mais bem treinado de toda a Europa com uma simples estratégia, entraram pela Polônia e os cercaram por trás.

O General nazista a chamou em seu escritório.

— Seja bem-vinda, madame Viermond.

Ela fez uma leve reverência.

— Fico muito agradecida pelo seu convite, general.

— Sente-se, por favor.

Assim ela o fez.

— Sabe que sou um profundo admirador do seu trabalho, mas...

Ela o interrompeu bruscamente.

— Mas não gosta das coisas que eu falo.

— Pelo que eu vejo, é bem direta com as palavras.

— Sou o que preciso ser, general, ninguém chega onde cheguei enrolando as pessoas.

— Claro... mas o que eu quero dizer.

— Sei muito bem o que quer dizer.

Ela se levantou, fez novamente a reverência e saiu.

Que mulher...

GLADYS CHEGOU em seu escritório e ficou pensando na ameaça do general nazista, ela sabia que eles eram extremamente homofóbicos e não tinham pudor algum em matar as pessoas, não era apenas contra gays, mas havia uma lista enorme de vítimas que sofriam em suas mãos: gays, ciganos, Testemunhas de Jeová, judeus, pessoas com deficiência física ou psicológica...  

Ela chamou a sua secretária.

— Acho que temos um problema temporário, Marley, mas vamos tentar contorná-lo da melhor forma possível e de forma bem sutil.

— O que tem em mente?

— Preciso que todos os gays que trabalhem para nós se casem com gente do sexo oposto, senão teremos problemas sérios com os nazistas.

— Não sei se eles vão aceitar.

— Já disse que é temporário, é a única forma de protegê-los dos nazistas, Paris não tem muitos judeus para eles explorá-los, então irão para as vias paralelas.

— No caso, os gays.

— Exatamente, e não posso me dar ao luxo de perdê-los só porque gostam de um órgão genital igual ao que tem em sua virilha, chame-os um-a-um aqui em meu escritório, vamos tentar deixar as coisas o mais fácil possível, quando esta guerra maldita acabar poderemos tocar o dane-se novamente, mas por enquanto temos que ser cautelosos e jogar com as cartas que temos nas mãos.

— Você acha que dará certo?

— Temos que fazer de tudo para não dar errado.

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