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CAPÍTULO 22 - GAEL NEVILLE

last update Data de publicação: 2021-09-04 07:34:07

Gael e sua tropa estavam acampados na fronteira, era quase meia-noite e ele estava revezando na ronda, mesmo sendo o oficial comandante daquele destacamento, ele fazia questão de dar o exemplo para que todos o seguissem sem questionamentos, o lema de sua tropa era:

Se um estava se fodendo, todos tinham que se foder juntos...

— Comandante, na sua opinião, vamos vencer esta guerra?

— Enquanto estivermos na aliança, sim.

— O senhor confia tanto assim nesta aliança?

— Na verdade, confio na aliança em si, nenhuma tropa na história venceu sem alianças, toda divisão, historicamente falando, traz derrotas memoráveis, pois o ego deles faz com que não vejam além de seus esforços, mas basta ver os avanços que os aliados, e nós mesmos, tivemos nestes anos em que decidimos implantar o comunismo, vencemos até mesmo duas Copas do Mundo de futebol graças a Mussolini.

O sargento assentiu, ele não concordava com diversos aspectos de doutrinas que priorizavam ditadores, mas a Alemanha, Itália e Rússia certamente desfrutavam de uma estabilidade política e econômica que os outros países não tinham.

Eles então ouviram um barulho e então começou uma saraivada por todos os lados.

GAEL ACORDOU e estava encarcerado.

— A bela adormecida acordou.

O oficial inglês jogou um prato de comida em sua direção e Gael não sabia porque aquilo parecia a mais saborosa comida do mundo, provavelmente porque informaram a ele que estava há quatro dias desacordado sem ter comido absolutamente nada.

Gael devorou tudo aquilo em instantes.

— Pelo jeito estava gostoso.

Parecia lavagem para porcos...

— Quando se tem fome, qualquer merda é gostosa.

O oficial inglês riu:

— Infelizmente não sei como é isso companheiro.

— Vai à merda, pau-mandado da realeza.

— Aqui neste cárcere eu sou o seu rei, garoto, me dê as devidas honrarias que terá um tratamento digno, senão, serei obrigado a ser um ditador igual o desgraçado que comanda seu país.

Outro soldado entrou no recinto, prestou continência e disse para Gael.

— Meu comandante quer falar com você por um minuto.

— Não tenho nada a falar com ele.

— Ser herói não funciona aqui, sabia, Senhor Neville? Deixa eu te contar uma historinha que talvez te ajude a elucidar como as coisas funcionam.

Gael parecia não estar muito interessado na conversa.

— Certa vez, Um homem cometeu um crime e foi preso e condenado à morte, então a população pediu para que o governador o perdoasse e ele disse que iria pensar, então se vestiu de padre, colocou a carta de perdão dentro da Bíblia e foi visitar o preso na cadeia para tirar a prova se ele realmente merecia o perdão ou não.

Chegando lá o governador foi escorraçado pelo preso por impropérios e cusparadas: - Some daqui padre – disse o homem –, não quero ver você.

- Mas senhor, tenho algo muito importante para compartilhar com você, é do seu interesse. - Não quero nada que venha de você. E para a sua própria segurança o governador foi embora, então o carcereiro disse:

- Como você é estúpido, aquele era o governador e ele tinha dentro da Bíblia a sua carta de perdão. O homem desandou a chorar vendo o erro que tinha cometido. No dia da sua execução ele disse:

- Senhores, hoje eu irei morrer, não pelos crimes que cometi, mas devido o perdão que eu neguei receber.

Gael ficou em completo silêncio.

— Nós somos apenas inimigos no front, aqui você não nos oferece risco de vida algum e enquanto se comportar também não ofereceremos risco.

— Saber que sou um oficial de baixa patente também não me faz saber de muita coisa, o que acha que eu saberia que possa dar a vocês?

— Talvez não saiba, e isso pouco importa, mas os alemães estão se virando contra os soviéticos e os italianos, achei que gostaria de saber.

— Conversinha furada essa, Hitler tem Il Duce em alta.

— Não é o que as nossas escutas conseguiram captar.

— Então além de burros são surdos também.

O oficial inglês deu um leve sorriso e então desferiu um soco na boca do estômago de Gael.

— Tão importante quanto pensar numa guerra é saber bater... e italiano, tendo você como prova, adora apanhar... agora vamos logo.

Gael o acompanhou em silêncio.

GAEL FOI LEVADO até a sala do general que estava fazendo uma refeição das mais saborosas que ele já tinha visto.

— Está servido, Capitão Neville?

— Sabe muito bem a resposta.

O general levantou os ombros com indiferença pela atitude do rapaz.

— Um dia já fui jovem, capitão, e todo jovem é um tolo.

Gael continuou em silêncio e viu o general limpar cuidadosamente a boca e fita-lo por um momento antes de começar a falar:

— Não depende de mim, sabe que será muito bem-vindo se cooperar, temos razões de sobra para tratá-lo bem, pode não pensar que seja assim pelo simples fato de estarmos em guerra, mas isso pode ser deixado de lado no momento.

— Conheço muito bem a sua hospitalidade.

Gael olhou para o oficial que foi buscá-lo que fez uma leve reverência com um sorriso sacana no rosto.

— A oferta ainda está de pé.

— Desde que traia a minha pátria.

— Não diria isso, conseguimos alguns bons contatos e sabemos que sua esposa está na América, podemos levá-lo até lá se assim quiser e conhecer a sua filha pessoalmente.

O general estendeu uma foto de uma criança, Gael pegou a foto e a jogou na mesa como se não fosse nada.

— Não vou abandonar meus homens.

— Homens? Que homens? Estão todos mortos, um deles se jogou por cima de você para protegê-lo, seu imbecil, estou te dando a garantia de uma nova vida ao lado dos vencedores, foi o único de seu pelotão que teve este privilégio.

— Está blefando, pegou qualquer foto de criança e quer me convencer.

— Porque faria isso? Não ganharia absolutamente nada fazendo isso, e outra, olha para o rosto dela, é a sua cara...

Gael não podia negar.

— Mas se eu agradar à minha esposa que gosta das roupas que a sua esposa produz, então, digamos, que tenho algo de muito valor nas minhas mãos.

Gael não sorriu pela piada.

— Ainda não estou entendendo onde quer chegar.

— Tudo bem... vou ser o mais franco possível, parece que a burrice e teimosia dos italianos a fizeram conquistar a Europa e depois disso nunca mais a terão, fiz um acordo com a sua esposa que te levaria de volta aos braços de sua família e agora estou cumprindo isso, consegue entender isso ou ainda está muito difícil de entender?

— E meus homens?

— Já foram despachados durante um acordo de cessar-fogo para recolher os mortos.

O general fez um sinal com a mão e um oficial acompanhado pela última pessoa que ele imaginaria que veria em meio àquela guerra.

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