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CAPÍTULO 31 - TÂNIA COPELLI

last update Fecha de publicación: 2021-09-04 07:39:41

Tânia embarcou no navio e sabia da gravidade da guerra, apesar de achar que estava perto de seu fim, pois já não havia mais o que destruir na Europa, daquele momento em diante teriam que conviver sobre os escombros.

Mas a guerra que tinha iniciado na Europa estava começando a se espalhar pelo mundo, principalmente pelo ataque japonês em Pearl Harbor, obrigando os americanos a entrarem na guerra.

Ela percebeu que, assim como seus avós, seu instinto de sobrevivência a tirou dali no momento certo, levanto tudo o que tinha consigo, principalmente como a sua avó havia lhe ensinado, nunca manter dinheiro no banco além do necessário, mas investir sempre em joias preciosas, especialmente ouro, que sempre valorizavam com o tempo e eram cambiáveis em qualquer lugar do mundo.

Tânia pegou sua filha no colo e percebeu que enfrentaria o mundo todo por ela, quiçá toda a tropa dos alemães, russos, japoneses e italianos juntos, mas se sentiu derrotada pelo marido não aceitar voltar com ela, todos imaginariam que ele estava morto já que sua tropa inteira havia sido dizimada e nos Estados Unidos era muito fácil obter uma nova identidade.

Para inflamar o espírito da guerra nas pessoas, ela fez aquela linha especial inspirada nos uniformes dos soldados, o que foi um imediato sucesso, criando algumas joias em formato de medalhas e barretes para combinar com o clima cívico que o país orgulhosamente enfrentava.

— Nós estamos no país certo para lançar isso, se fosse na França seria um fracasso total, cherry.

— Tenho a impressão que você tem uma certa aversão à moda francesa.

Tânia sorriu percebendo que Jorge, seu melhor estilista a conhecia melhor do que ninguém.

— Se você gostasse de mulher, tenho certeza que me apaixonaria por você, parece que conhece minha alma como ninguém.

— Deus me livre de gostar de uma xoxota, queridinha.

Tânia sabia muito bem das andanças noturnas de Jorge e sua vida mundana, não poucas vezes chegou todo machucado dizendo ter sido a melhor trepada de sua vida.

— Só acho que eles estão sempre querendo reviver o passado, é muito estranho... tipo...

A frase ficou incompleta de propósito.

— Gladys Viermond...

Tânia sorriu.

— Às vezes acho que você é bruxo.

— Queridinha, só existem dois nomes no mundo da moda que estão em destaque no momento, uma em cada lado do continente, só que ela está no epicentro da moda, enquanto você está criando um mundo para a sua moda invadir.

— Talvez, mas ainda a acho um pouco vulgar.

— Vulgar? Ela é uma puta que sabe o que está fazendo, conquistou um continente em plena guerra... fico imaginando quantos paus ela não teve que chupar para não tirarem tudo dela... especialmente os nazistas que sempre arrancam tudo das pessoas.

Ela assentiu com pesar nas histórias que ouvia das pessoas que conseguiam fugir dos campos de concentração.

— Acho que você está com inveja dela, não é mesmo?

— Ela é digna de toda a inveja do mundo, queridinha, se eu tivesse aquele corpo, aquela beleza e a sua ousadia iria querer que o mundo todo morresse de inveja também.

Tânia sorriu.

Eu só queria um mundo em paz...

TÂNIA DESEMBARCOU e olhou para a Estátua da Liberdade, de certa forma ela parecia tão solitária representando algo tão grandioso, era como se estivesse se olhando no espelho naquele momento, estar sozinha e mesmo assim parecer forte diante das pessoas.

Coincidentemente aquela estátua era um presente dos franceses, o que a remeteu imediatamente à Gladys Viermond.

— Senhora Copelli, está tudo bem?

— Claro... porque não estaria?

Ela olhou para o seu lenço azul um pouco sujo e ficou imaginando quantas histórias ele deveria ter presenciado junto a Gael, sua avó e quem quer que estivesse em posse dele antes dela, mas agora era tudo passado, ela sentia que ele tinha deixado o seu melhor lado com ela ao lhe dar uma princesa linda.

TÂNIA CHEGOU AO SEU ESCRITÓRIO e tudo o que havia planejado em sua ausência tinham cumprido cabalmente, sua filosofia de cercar-se pelos melhores estava certa, era um preço justo a pagar pela excelência.

— Estávamos com saudades da senhora.

— Eu também... alguma urgência para resolver.

— Jamais... tudo está conforme a senhora planejou.

— Maravilha, então temos que colocar agora os pés no futuro que nos aguarda.

O DESFILE DE NOVA YORK se mostrou um estrondoso sucesso, recheado de heróis do exército e as enfermeiras que abrilhantaram o evento, ela sabia que os Estados Unidos tinham entrado na guerra aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo...

Mas entrou decisivamente...

Pouco tempo após sua chegada foi anunciado a vitória dos Aliados sobre os nazistas e pouco tempo depois a vitória definitiva com as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki soltas pelo esplendoroso Enola Gay.

Sua filha, a pequena Janice, estava crescendo e parecia um menino, odiava qualquer coisa ligada à moda, preferia os brinquedos dos meninos.

— Essa menina deve ter algum problema, Jorge.

— Deixa ela, queridinha, se está se divertindo e está feliz é o que importa.

— Talvez sim...

— Você não é uma mulher de talvez...

Jorge chegou por trás dela e começou a fazer uma massagem.

— Você tem mãos fantásticas, sabia?

— É claro que sei, querida, essas mãos fazem verdadeiros milagres.

— Estava precisando disso... parecia que estava carregando o mundo nas costas.

— Talvez estivesse mesmo, amar alguém que te troca por uma burrice feito o comunismo.

— Não é realmente fácil tentar entender uma situação dessas, ele poderia estar aqui conosco, curtindo a família dele, ao lado das pessoas que o amam.

— Um dia a ficha dele irá cair.

— Mas agora é tarde demais para isso, não há mais volta... ninguém me troca por nada neste mundo.

Bateram na porta.

— Agora não posso atender – disse tentando relaxar.

— Mas é extremamente importante, senhora.

— O que seria mais importante do que relaxar depois de um longo dia de trabalho?

— Seu marido veio aqui e levou a sua filha embora.

De repente, ela sentiu novamente que tinham colocado o mundo em suas costas.

Era um peso que ela não sabia se conseguiria suportar...

Mas tenho que fazer, mesmo que custe a minha própria vida...

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