INICIAR SESIÓNO garotinho parecia tão assustado que sua pele clara empalideceu a ponto de dar a impressão de que iria desaparecer a qualquer momento.
Diante do silêncio do pequeno, Amara apenas soltou um suspiro brando e sentou-se devagar ao chão, bem ao seu lado, sem tentar qualquer outra aproximação forçada. Fechou os olhos, exausta, e permitiu que o próprio corpo relaxasse contra a parede. Afinal, a noite havia sido longa e desgastante. Depois de ter sido pressionada por Pillar para acompanhar investidores em intermináveis e exaustivas rodadas de bebida, sua cabeça latejava como se estivesse prestes a explodir. Naquele instante, a única coisa que realmente desejava era um pouco de paz e descanso. Quando Amara finalmente despertou do cochilo leve, sentiu algo morno encostado contra a sua perna. Ao baixar o olhar na penumbra, percebeu que o pequeno havia se aninhado ao seu lado enquanto ela dormia, mantendo a mãozinha miúda firmemente agarrada ao tecido de sua blusa, como se buscasse ali um refúgio de segurança. Ela não conseguiu conter um sorriso terno ao testemunhar a cena. Por um breve instante, sua mente voou de volta aos tempos em que vivera no campo. Lembrou-se com carinho de um coelho que criara na infância, um animal extremamente arisco e receoso, que corria para se esconder ao menor sinal de movimento ao redor. Contudo, quando o bicho finalmente se convencia de que estava em um ambiente seguro, aproximava-se furtivamente, aconchegava-se ao seu lado e adormecia tranquilo em seu colo. Aquele menininho à sua frente agia exatamente da mesma forma. O menino, ao notar que Amara o observava atentamente, corou no mesmo instante, ficando com o rosto vermelho como um tomate. Mas, para a surpresa dela, a expressão do garoto já não carregava mais aquele pavor paralisante de antes. Seus grandes olhos negros, anteriormente cheios de pânico, agora deixavam transparecer uma ponta de curiosidade genuína. — Você é mesmo parecido com um coelhinho assustado — comentou Amara em tom baixo e divertido. Sem resistir ao impulso de carinho, estendeu a mão e acariciou suavemente os cabelos macios e desajeitados do menino. No entanto, no exato segundo em que seus dedos tocaram a pele dele, sua expressão descontraída mudou drasticamente. A testa do garotinho estava queimando. — Você está com uma febre altíssima! — exclamou ela, a preocupação tomando conta de seu peito. Pillar certamente havia planejado mantê-la trancada naquele depósito até o término do teste de elenco no dia seguinte. Porém, se aquela criança continuasse queimando em febre por tantas horas sem socorro, a situação poderia se tornar extremamente perigosa. Amara olhou ao redor com pressa, buscando desesperadamente por qualquer ponto de fuga naquele cômodo fechado. Foi então que seus olhos notaram um pequeno feixe de luz vindo do teto. Havia uma claraboia instalada ali. A abertura era estreita, mas representava a única chance real de saída. Determinada a resolver o problema, ela arrastou uma escada de madeira antiga até posicioná-la exatamente debaixo da pequena janela. — Coelhinho — chamou ela, esforçando-se para transmitir firmeza e encorajamento na voz —, venha cá. Eu vou ajudar você a sair por ali. O menino hesitou por um segundo e, logo em seguida, balançou a cabeça negativamente com determinação, recusando-se a subir. Amara sorriu com doçura, compreendendo o gesto. — Você é um garoto muito leal, não é? Quer ficar aqui para passar aperto comigo? — brincou ela, beliscando gentilmente as bochechas coradas dele. — Mas preste atenção: aquela janela é pequena demais para o meu tamanho. Se você sair primeiro, vai conseguir encontrar ajuda lá fora e poderá voltar para me salvar. Ainda incerto, o pequeno olhava para os degraus da escada com receio, como se enfrentasse um grande desafio. Sem dar espaço para novas hesitações, Amara o pegou com cuidado nos braços e o posicionou no primeiro degrau. — Seja corajoso agora, coelhinho. Pode subir! Eu vou proteger você aqui de baixo. Após a sua insistência amorosa, o menino finalmente tomou coragem e começou a subir degrau por degrau. Amara acompanhou cada movimento até vê-lo desaparecer pela abertura estreita no teto, sentindo um misto de alívio e exaustão tomar conta de si. No entanto, quando tentou dar o último impulso para se manter equilibrada, suas forças fraquejaram por completo. Suas pernas dobraram e ela caiu da escada, atingindo o chão com um baque surdo. Do lado de fora do telhado, o menino olhou para baixo alarmado, com os olhinhos agora repletos de lágrimas de preocupação. — Vá... procure ajuda... — sussurrou Amara, com a voz fraquejando até se tornar quase inaudível. Sob o brilho fraco das estrelas que penetrava pela claraboia aberta, o rosto de Amara parecia ao mesmo tempo frágil e incrivelmente belo. Seus olhos brilhavam na penumbra, parecendo guardar um oceano inteiro de sonhos interrompidos e dores guardadas. Enquanto deslizava lentamente para a inconsciência, Amara deixou escapar um sorriso amargo. "Se o meu fim for neste lugar, ao menos terei feito algo de bom ao salvar esse garotinho...", pensou. Com o corpo entregue ao cansaço, as memórias do passado começaram a invadir sua mente como uma onda incontrolável. Cinco anos atrás, logo após o terrível acidente de carro que quase lhe tirara a vida, a família Baki havia decidido se livrar dela como se ela fosse um simples fardo dispensável. Ela fora enviada para uma universidade nos Estados Unidos conhecida por receber jovens problemáticos da elite. Sem qualquer apoio financeiro ou emocional da família, viu-se forçada a abandonar o curso inicial. Ainda assim, recusou-se a desistir. Inscreveu-se por conta própria em outra instituição de ensino, a Universidade do Sul da Califórnia. Lá, estudou até o limite de suas forças, impulsionada por uma determinação feroz: vencer no mercado do cinema, superar a irmã Melissa e recuperar tudo o que lhe fora tirado injustamente. Afinal, a atuação não era para ela apenas uma escolha de carreira; era o maior e mais precioso sonho de sua vida. Contudo, desde o seu retorno à terra natal, os obstáculos pareciam apenas se multiplicar. A traição mais amarga veio quando Melissa subornou Pillar, transformando sua própria empresária em uma barreira constante em seu caminho. Mesmo tendo sido descoberta pela Stellar Entertainment como um talento promissor, cada passo de seu futuro parecia ser sabotado no momento em que começava a dar frutos. Agora, o destino de Amara permanecia incerto no ar, suspenso entre um ato generoso de bondade e o cruel jogo de poder que sempre a cercou. Naquele instante em que a escuridão cobria a sua visão, sua única esperança era que o pequeno menininho conseguisse encontrar socorro a tempo.À noiteDepois de deixar Amara e Théo no apartamento, Pitter não voltou imediatamente para casa.Em vez disso, ligou para Pietro e marcou um encontro em um bar.Pietro chegou ainda incrédulo.— Você me chamou para beber? Eu achei que estava alucinando!Sob a luz baixa e dourada do ambiente, o rosto de Pitter permanecia parcialmente oculto nas sombras. Ele segurava o copo, mas não bebia.Houve um longo silêncio antes que finalmente falasse:— É possível?— Possível? — Pietro franziu a testa. — Possível o quê?Pitter demorou alguns segundos antes de responder:— Amara… pode ter se apaixonado por outra pessoa.Pietro arregalou os olhos.— O quê?! Quem?!Pitter respirou fundo.— Por mim.Pietro quase cuspiu a bebida que havia acabado de engolir.— Espera… o quê?! Por que você acha isso?— Eu não tenho certeza. — Ele fez uma pausa. — Mas parece.Pietro coçou a cabeça, tentando organizar os pensamentos.— Cara… aconteceu alguma coisa hoje?Um leve vinco formava-se entre as sobrancelhas de P
No dia seguinte à premiação, o mundo da moda estava em chamas.Todas as manchetes destacavam o inesperado vencedor do Prêmio de Ouro. O “azarão” que surgira do nada havia dominado os holofotes.E, como sempre, a imprensa não teve piedade.Além de enaltecer o misterioso designer A, os jornais exploraram com intensidade a constrangedora situação de Divã. Uma das fotos mais divulgadas mostrava-o levantando-se da cadeira, convicto de que subiria ao palco para receber o prêmio — apenas para ter o nome de outro anunciado logo em seguida.A imagem tornou-se símbolo da noite.As manchetes gritavam:[Nova estilista conquista o Golden Award: uma jovem garota?][Divã derrotado — o fim de sua era?][Azarão rouba a cena no Prêmio de Ouro][Quem está por trás do Spirit Studio?]A repercussão era muito maior do que simples fofoca. Tratava-se de uma possível mudança de poder na indústria.---Na Vila PalaceEra fim de semana, e Pitter havia decidido tirar o dia de folga.Amara prometera levar Théo ao
O presidente permanecia de pé no centro do palco, irradiando uma autoridade que dominava o ambiente. Sua presença por si só bastou para silenciar parte da multidão, que ainda murmurava inquieta.— Design de moda… — alguém sussurrou, quase como um lembrete.O presidente captou o comentário e o transformou em argumento.— Exatamente. Este é um prêmio de design de moda — declarou com firmeza. — O que está sendo avaliado aqui não é a modelo, nem os materiais utilizados, muito menos o renome do criador. O que importa são as ideias. A criatividade. A inovação.Ele percorreu o auditório com um olhar penetrante.— O Prêmio de Ouro seleciona o melhor designer. Não o modelo mais bonito, nem os tecidos mais caros, tampouco o profissional mais famoso. Se esses fossem os critérios, qualquer pessoa com dinheiro poderia se tornar estilista. E então, digam-me: por que vocês estariam aqui? Apenas como decoração?Seu tom era cortante, carregado de um sarcasmo implacável. Ninguém ousava sustentar seu ol
— Dez pontos! A pontuação do nosso último participante é… dez pontos! — o apresentador quase gritava de entusiasmo. — Meu Deus! São mesmo dez pontos! Até o nosso jurado mais rigoroso concedeu nota máxima! Isso é simplesmente inacreditável! Temos um verdadeiro azarão surgindo no último momento!O auditório estava em ebulição.Mari levantou-se de um salto e abraçou Rick Melgar com força, sem conter as lágrimas.— Dez pontos! São dez pontos! Isso é surreal! Rick, você é extraordinário! A partir de hoje, sou sua fã incondicional!Rick mal conseguia manter-se de pé, mas seus olhos brilhavam com uma emoção contida.Amara aproximou-se e deu um leve tapa orgulhoso em seu ombro.— Meu bebê, você é incrível.Ela dizia aquilo com uma mistura de brincadeira e admiração genuína — mas seus olhos estavam marejados.O apresentador retomou a palavra, ainda vibrando:— Após inúmeras rodadas de competição intensa, temos oficialmente o vencedor do Prêmio de Ouro! Convidamos agora o nosso último participa
Amara não sabia se ria ou se lamentava.Ser talentoso demais também podia ser uma maldição.O trabalho de Rick Melgar não apenas possuía um tema sólido e coerente, como também exaltava a cultura de forma sofisticada — exatamente o tipo de proposta que os jurados costumavam premiar em eventos de grande prestígio. Com uma equipe competente, tecidos raros e acabamento impecável, era natural que tivesse conquistado tanta admiração.Os aplausos no auditório tornavam-se cada vez mais intensos.Metade da plateia levantou-se para aplaudir Luís Divã e Melissa. Repórteres se acotovelavam, câmeras erguidas, ansiosos para registrar o momento em que ele subiria ao palco para receber o cobiçado prêmio.Radiante, Divã levantou-se e agradeceu com elegância ensaiada:— Vocês me honram demais. Este resultado é fruto do esforço de toda a equipe… — fez uma pausa calculada — especialmente da minha chefe, Srta. Melissa. Sem ela, não existiria o Luís Divã que vocês veem hoje.Melissa sorriu com delicadeza e
Amara simplesmente fechou os olhos.Estava exausta — não fisicamente, mas emocionalmente. Cansada de desperdiçar até mesmo um segundo com aquelas pessoas.Laíza Janee segurou Melissa pelo braço e a conduziu em direção aos assentos VIP.— Esqueça ela. Quem vai passar vergonha é ela, não nós. — Seu tom era carregado de desprezo. — Ainda não acredito que teve coragem de aparecer aqui. Será que ao menos sabe o que é moda?Melissa lançou um olhar cauteloso na direção de Amara.— Talvez ela tenha realmente recebido um convite…Laíza rebateu imediatamente, convicta:— Impossível! Esses convites são disputadíssimos. Até minha mãe precisou implorar para conseguir um. Foi por pouco que consegui vir com você!Ela cruzou os braços, irritada.Melissa, então, comentou de forma calculada:— O relacionamento dela com Pietro parece ser muito próximo…O semblante de Laíza endureceu.— Duvido muito. Se Pietro realmente quisesse, teria garantido para ela um lugar na primeira fila VIP. Então por que está







