INICIAR SESIÓNEu não deveria estar tão nervosa para algo tão simples quanto… chegar.
Mas a verdade é que meu corpo ainda lidava com os resquícios de adrenalina do pneu furado, do GPS possuído e, claro, do encontro com o homem mais rabugento — e perigosamente bonito — que eu já tive o desprazer de conhecer.
E que, aparentemente, também era meu chefe.
Ótimo começo, Alice. Realmente promissor.
Ainda assim, ao entrar na recepção iluminada por luzinhas de Natal, finalmente respirei um ar que não cheirava a desespero. Cheirava a canela, biscoitos recém-assados e madeira aquecida. O calor suave do ambiente parecia dissolver, pouco a pouco, a tensão que ainda habitava meus ombros.
Rosa me lançou um sorriso tão acolhedor que tive a estranha sensação de estar reencontrando alguém da família, dessas pessoas que seguram sua mão e dizem, sem precisar falar, que você pode descansar.
— Venha, querida — disse, contornando o balcão. — Vamos ajeitar sua chegada direitinho.
Aproximei-me, sentindo meu corpo relaxar pela primeira vez em dias.
— Nome completo?
— Alice Benette.
— Lindo nome. — Digitou algo com calma. — E você veio direto do caos, pelo visto.
Soltei um riso baixo.
— Algo assim.
Ela inclinou a cabeça, me observando com atenção gentil demais para ser invasiva.
— Marco já me avisou que você é a nova gerente de marketing… e que chegou em grande estilo.
Revirei os olhos.
— Se “grande estilo” inclui pneu furado no meio do nada, então sim.
Rosa riu com gosto, como se aquela fosse a melhor história do dia.
— Ele tem esse jeitinho… delicado de apresentar as coisas.
— Delicado não foi exatamente a palavra que me veio à cabeça.
Ela assentiu, cúmplice.
— Imaginei.
Digitou mais algumas informações e então fechou o sistema com um clique leve.
— Pronto. Agora vamos te instalar.
Esperei automaticamente que ela me entregasse uma chave de quarto, como em qualquer hotel.
Mas, em vez disso, Rosa pegou um molho de chaves diferente — mais simples — e girou uma delas entre os dedos antes de me entregar.
— Seu chalé fica na ala dos funcionários, querida. Mais tranquila e mais perto da rotina real do rancho.
A palavra funcionária pousou de verdade dentro de mim naquele momento.
— Perfeito — respondi, sincera.
— Ryan! — chamou ela, virando-se para a porta lateral.
O rapaz apareceu quase imediatamente.
— Leve essas malas para o chalé da Alice, por favor. Fica lá no fundo, perto dos estábulos.
Ele assentiu e pegou minhas malas — sem reclamar, diferentemente de certo cowboy mal-humorado.
Rosa tocou meu braço com delicadeza.
— Vamos caminhar. Quero te mostrar onde fica tudo.
Saímos pela lateral da recepção, e o que me atingiu primeiro foi o silêncio.
O caminho de pedras claras serpenteava entre arbustos baixos, pequenas luzes douradas e cercas de madeira. Tudo parecia simples, mas pensado com cuidado. Bonito de um jeito que não precisava impressionar ninguém.
— Nossa… — murmurei, olhando ao redor. — Isso é lindo.
— Tentamos manter o lugar com vida o ano inteiro — disse Rosa, orgulhosa. — Mesmo no inverno.
Caminhamos lado a lado enquanto ela apontava os espaços ao redor.
— Ali fica o refeitório dos funcionários. Café bem cedo, almoço no meio do dia e jantar no final da tarde. Aqui todo mundo come junto, nada de frescura.
— Gosto disso — respondi, surpresa por realmente gostar.
— E ali ficam os estábulos. Você vai acabar passando bastante tempo por lá, mesmo que não monte.
Segui o olhar dela e senti o cheiro leve de terra, feno e algo mais… real.
Muito diferente da minha vida anterior.
Passamos por uma pequena ponte de madeira, onde um riacho corria tranquilo, refletindo as luzes ao redor.
— Faz muito tempo que eu não… paro — comentei, percebendo tarde demais que tinha falado em voz alta.
Rosa não apressou a conversa.
— Imagino… e imagino também que não veio acompanhada.
Respirei fundo antes de responder.
— Não. Vim sozinha.
Ela assentiu, como se aquilo fosse suficiente — como se não precisasse arrancar mais nada de mim.
Mas, ainda assim… eu falei.
— Eu estava noiva quando descobri a gravidez… e pouco depois descobri que ele me traía.
As palavras saíram mais leves do que eu esperava.
— Sinto muito, querida.
— Ele disse que eu estava complicando a vida dele — completei, olhando para frente. — Engraçado, né?
Rosa parou de andar e segurou minhas mãos com firmeza gentil.
— Não. Triste. E ele foi um idiota.
Aquilo me pegou desprevenida.
Simples. Direto. Sem rodeios.
— Às vezes — ela continuou — recomeçar é a única resposta possível para quem tentou nos diminuir.
Engoli em seco, mas não chorei.
Pela primeira vez em semanas… eu não chorei.
— Obrigada.
Ela sorriu e retomou a caminhada.
— Seu chalé fica logo ali.
O chalé ficava mais afastado, longe da área principal, cercado por árvores e com uma vista parcial dos pastos e dos estábulos ao fundo. Era mais simples do que os outros que eu tinha visto… mas, de alguma forma, parecia mais verdadeiro.
Ryan já estava saindo quando chegamos.
— Tudo certo — disse ele, antes de desaparecer pelo caminho.
Rosa me entregou a chave.
— Aqui é seu espaço. Pode não ser luxuoso, mas é seu.
Abri a porta devagar.
O interior era simples, mas acolhedor. Madeira clara, móveis funcionais, na porta aberta do quarto, deu para ver uma cama confortável com uma manta grossa dobrada aos pés. Uma pequena lareira, duas cadeiras, uma mesa e um armário com o essencial além de uma pequena geladeira e um fogão.
Mais do que suficiente.
— Qualquer coisa, me chama — disse Rosa, já se afastando. — E, Alice…
Olhei para ela.
— Você fez bem em vir.
Assenti, sem confiar na minha voz.
Quando a porta se fechou, o silêncio voltou. Tirei os sapatos, sentindo o alívio imediato nos pés, e caminhei devagar pelo espaço, absorvendo cada detalhe.
Passei a mão pela barriga, ainda pequena, ainda discreta… mas tão presente.
— Talvez aqui… — sussurrei, fechando os olhos por um segundo — talvez aqui a gente consiga começar de novo.
Do lado de fora, o vento balançava levemente as árvores.
E, pela primeira vez desde que tudo desmoronou eu não senti vontade de fugir.
O dia do aniversário de Luna amanheceu com um sol dourado que parecia ter sido colocado no céu especialmente para nós, e eu acordei cedo, antes de todo mundo, com o coração cheio de uma gratidão que eu não conseguia colocar em palavras.A casa estava decorada com balões coloridos e flores do campo que Alice tinha colhido no jardim. As mesas do gramado estavam cobertas com toalhas xadrez, e o cheiro de bolo assando vinha da cozinha, onde Rosa e Helena trabalhavam juntas, rindo e conversando como quando eram crianças. Luna corria pelo gramado com os primos, os gêmeos dormiam no carrinho ao lado da avó, e Marco estava na churrasqueira, preparando a carne com a habilidade de quem faz isso há décadas.Eu fiquei parado na varanda por um momento, observando tudo. A minha família. A minha vida. Tudo o que eu tinha construído, tudo o que eu tinha conquistado, tudo o que eu tinha lutado para ter.— Você está aí parado? — Rosa perguntou, aproximando-se com um sorriso. — Vem ajudar.— Estou obser
A manhã estava clara e dourada quando a minha mãe anunciou que ia embora, e eu fiquei ali, parado na varanda, com uma xícara de café na mão, sentindo o peso daquelas palavras se instalar no meu peito como uma pedra que eu não sabia se queria carregar.— Você vai voltar para a Europa? — eu perguntei, a voz mais baixa do que eu gostaria.— Vou. — ela respondeu, os olhos fixos no horizonte. — Eu preciso resolver algumas coisas. Questões pessoais. Coisas que eu deixei pendentes por tempo demais.— Que coisas?— A casa. Os negócios. A minha vida. Eu passei anos cuidando da família Abernati, do nome, da fortuna. E eu esqueci de cuidar de mim.Eu fiquei em silêncio por um momento, processando as palavras dela.— Você vai voltar? — eu perguntei, finalmente.— Vou. Eu prometo.— Quando?— Não sei. Talvez em alguns meses. Talvez em um ano. Mas eu vou voltar. Eu quero ver os meus netos crescerem. Eu quero fazer parte da vida deles.— Eles vão sentir a sua falta.— Eu também vou sentir a deles.E
A chegada de Helena ao rancho foi como um raio de sol em um dia nublado, uma explosão de energia e alegria que preencheu a casa de um jeito que só ela conseguia, e eu a vi descer do carro com as malas na mão e um sorriso que iluminava o rosto, os cabelos soltos ao vento, os olhos brilhando com aquele brilho que eu conhecia desde criança.— Rosa! — ela gritou, correndo em direção à varanda.— Helena! — eu respondi, tentando me levantar do sofá com os gêmeos nos braços, mas ela chegou antes que eu pudesse me mexer, me abraçando com uma força que quase me derrubou.— Eu senti tanto a sua falta. — ela disse, a voz falhando.— Eu também senti a sua, irmã.— E esses são os meus sobrinhos? — ela perguntou, olhando para os dois bebês nos meus braços.— São. Marco e Luna Helena.— Luna Helena. — ela repetiu, os olhos marejados. — Você deu o meu nome para ela.— Dei. Em homenagem à melhor irmã do mundo.Ela levou as mãos à boca, e as lágrimas escorreram.— Eu não mereço.— Merece. Você sempre e
Os dias depois do nascimento dos gêmeos passaram como um sonho do qual eu não queria acordar, um sonho onde o tempo parecia ter encontrado um ritmo mais suave, mais lento, mais generoso, como se o universo tivesse resolvido nos dar uma trégua depois de tantas tempestades.A casa estava cheia de vida, de som, de amor. Marco e Luna Helena choravam, dormiam, mamavam, e eu me dividia entre eles e Luna, que estava encantada com a ideia de ser irmã mais velha. Ela me ajudava a pegar as fraldas, a segurar as mamadeiras, a cantar para os bebês quando eles choravam. E eu olhava para ela e sentia o coração transbordar de orgulho.Miguel estava se desdobrando. Ele acordava cedo, preparava o café da manhã, ajudava com os bebês, ia para o restaurante, voltava para almoçar, voltava para o restaurante, e à noite, quando chegava em casa, ainda encontrava energia para brincar com Luna e para me ajudar com os gêmeos. Ele estava exausto, mas feliz, e eu via nos olhos dele a mesma alegria que eu sentia.
O quarto do hospital estava cheio de flores e balões quando a família começou a chegar, e eu fiquei ali, sentado ao lado da cama de Rosa, com Marco em um dos braços e Luna Helena no outro, sentindo o peso dos dois corpos pequenos contra o meu peito, a respiração deles contra a minha pele, a certeza de que a minha vida tinha mudado para sempre.Rosa estava exausta, os olhos pesados, mas o sorriso no rosto dela iluminava o quarto mais do que qualquer luz. Ela tinha passado por um parto longo e difícil, mas estava bem, e os bebês estavam saudáveis, e isso era tudo o que importava.A primeira a chegar foi Luna, trazida por Alice, que a segurava pela mão. A minha filha mais velha entrou no quarto com os olhos arregalados, olhando para os dois berços ao lado da cama, e eu vi a curiosidade e a emoção se misturarem no rostinho dela.— Pai? — ela chamou, aproximando-se devagar.— Oi, minha princesa. — eu respondi, inclinando-me para beijar a testa dela. — Vem conhecer os seus irmãos.Ela subiu
A dor começou no meio da noite, um aperto profundo que me acordou do sono e me fez sentar na cama com a respiração presa, as mãos instintivamente pousadas sobre a barriga enorme onde os gêmeos se moviam como se também soubessem que a hora tinha chegado.— Miguel. — eu chamei, a voz saindo baixa, mas urgente.Ele acordou em segundos, como se estivesse apenas esperando por aquele momento.— O que foi? — ele perguntou, sentando na cama, os olhos arregalados.— Acho que é a hora.— O quê?— Os bebês. Eles estão vindo.Ele ficou paralisado por um instante, o rosto pálido, e depois entrou em ação como se tivesse ensaiado aquele momento a vida inteira.— Vamos para o hospital. Agora.Ele me ajudou a levantar, pegou a bolsa que já estava pronta há semanas, e me levou até o carro. No caminho, ele dirigia em silêncio, mas eu via os nós dos dedos dele brancos no volante, e eu sabia que ele estava tão nervoso quanto eu.— Você está bem? — ele perguntava a cada poucos minutos.— Estou. — eu respon







