Compartilhar

Capítulo 4

Autor: Leslie g
last update Data de publicação: 2026-06-03 21:11:22

Ele ergueu os olhos com aquela precisão característica de quem sempre analisa as pessoas como se fossem relatórios financeiros. Levou apenas um segundo para me reconhecer antes de arquear levemente uma sobrancelha.

— Vega.

Não pareceu surpreso.

Pareceu analítico.

Acomodei a bolsa no colo, como se isso pudesse me dar alguma estabilidade emocional.

— Senhor.

O olhar dele desceu instintivamente para a minha mão esquerda.

Vazia.

Depois, voltou para os meus olhos.

— Seu marido não está viajando com você?

Direto.

Sem anestesia.

Sorri com aquele sorriso que já estava virando o meu mecanismo oficial de defesa.

— Tivemos alguns problemas de agenda — menti com uma fluidez surpreendente. — Ele… precisou ficar.

“Ficar me traindo” não era um detalhe necessário para o momento.

Ele assentiu de leve, mas a sua expressão não indicava que estivesse totalmente convencido.

Então, seu olhar percorreu a cabine com um desagrado discretamente disfarçado.

— Por que o senhor não está na primeira classe? — perguntei antes que pudesse me conter. Afinal, se ele tinha o direito de me interrogar, eu também tinha direito a um pouco de curiosidade executiva.

O rosto dele mudou de forma quase imperceptível.

Ficou mais sério.

Mais fechado.

— Eu tinha uma reserva em outro voo — respondeu, seco. — Surgiu um assunto urgente. Um investidor em Bali resolveu reconsiderar a participação dele. Não havia mais assentos disponíveis na primeira classe e eu precisava viajar hoje.

Bali.

Claro.

Enquanto eu estava usando a minha lua de mel como terapia financeira de choque, ele estava indo atrás de milhões sob palmeiras exóticas.

— Deve ser importante.

— É.

Um pequeno silêncio constrangedor se instalou entre nós, interrompido apenas pela comissária explicando os procedimentos de segurança que nenhum de nós dois estava realmente ouvindo.

Então, ele virou ligeiramente o rosto na minha direção, me observando por um segundo que pareceu longo demais.

— Não vou fazer você trabalhar durante a sua lua de mel.

Pisquei.

— Como?

Sua expressão não mudou, mas sua voz ganhou um tom levemente irônico.

— Você não parece muito feliz em me encontrar aqui — disse calmamente. — Fique tranquila. Não pretendo te passar tarefas a dez mil metros de altitude. Provavelmente, depois que descermos deste avião, não nos veremos até voltarmos ao país… e ao trabalho.

Houve um breve silêncio depois disso.

Uau.

Era a primeira vez que eu o ouvia falar comigo por mais de vinte segundos sem que fosse para ditar uma pauta, corrigir um e-mail ou me chamar de Cláudia.

Fiquei olhando para ele por mais tempo do que seria prudente, tentando processar a situação.

Meu chefe.

O homem que media o tempo em produtividade.

Estava tendo o que tecnicamente poderia ser considerado uma conversa humana comigo.

— Isso seria… o ideal — respondi por fim, recuperando meu tom profissional automático.

Ele apenas assentiu e voltou a olhar pela janela.

Por um momento, pareceu apenas um homem viajando.

Não o dono de metade do setor financeiro da cidade.

Eu, por outro lado, continuava presa no assento do meio, carregando mentiras recém-fabricadas, um casamento inexistente e a desconfortável sensação de que talvez, apenas talvez, Adrián Castellanos percebesse muito mais do que deixava transparecer.

O avião começou a taxiar pela pista e senti a leve vibração sob os meus pés.

Adrián voltou a olhar para a minha mão esquerda.

Desta vez, com mais atenção.

— Você não estava usando uma aliança alguns dias atrás?

Meu coração deu um baque que provavelmente não seria aprovado por nenhum cardiologista.

Droga.

Ele tinha reparado na aliança.

— Mandei ajustar — respondi sem hesitar, surpreendida comigo mesma. — Estava um pouco larga.

Os olhos dele permaneceram nos meus por um segundo a mais do que o normal.

Não disse nada.

Mas havia algo na sua expressão que me fez sentir como se eu tivesse acabado de entregar um relatório com números adulterados.

O avião finalmente decolou.

E o meu estômago despencou junto.

E lá estava eu.

Presa a dez mil metros de altitude ao lado do meu chefe.

Sem aliança.

Com uma lua de mel fantasma.

E uma coleção de mentiras recém-inaugurada que eu esperava desesperadamente não precisar atualizar pelas próximas horas de voo.

Continue a ler este livro gratuitamente
Escaneie o código para baixar o App

Último capítulo

  • Um bebê para meu chefe   Capitulo 209

    (Adrián)Nunca gostei de hospitais. Há algo nos seus corredores que me revira o estômago: o cheiro de antisséptico, o zumbido monótono dos aparelhos, aquelas luzes fluorescentes que escancaram cada uma das nossas fraquezas.Naquele ambiente, a ilusão de controle que tanto me esforço para manter simplesmente desmorona. Tudo depende de variáveis que não consigo encaixar em uma planilha de projeções.E eu odeio perder o controle.Mas, naquela noite, não era uma empresa que estava em jogo.Era ela.Por isso, quando a equipe médica anunciou que era hora de transferi-la para a sala de parto, nem passou pela minha cabeça ficar esperando no corredor com o resto do grupo.Deixei para trás o Eduardo com o terno da festa amassado, a Sandra com a maquiagem borrada, a Laura aos prantos de puro nervosismo e o Alex tentando manter a compostura.Vesti o avental esterilizado, a touca e os propés com as mãos trêmulas, sentindo o ar me faltar no peito.Quando entrei na sala, o ambiente era uma mistura d

  • Um bebê para meu chefe   Capitulo 208

    (Clara) Se alguém tivesse me dito, um ano atrás, que eu terminaria sentada no casamento do Eduardo e da Sandra, grávida de gêmeos e casada com o chefe que um dia me aterrorizava, eu teria rido na cara da pessoa. E, no entanto, ali estava eu. Com os pés inchados, um vestido que tinha deixado de ser confortável havia aproximadamente três horas e um marido que passara a noite inteira agindo como se estivesse transportando uma escultura de cristal em vez de uma mulher grávida. — Você está bem? — perguntou Adrián pela quinta vez em menos de dez minutos. Olhei para ele. — Sim. Dois minutos depois: — Tem certeza? Ergui a empanadinha que segurava na mão. — Estou comendo. Claramente estou bem. Ele não pareceu convencido. A Sandra passou correndo na nossa frente rindo solta, enquanto o Eduardo a seguia com uma expressão completamente derrotada e apaixonada ao mesmo tempo. Ela levava os sapatos em uma das mãos porque já não suportava os saltos, e ele segurava o véu dobrado sobre o an

  • Um bebê para meu chefe   Capitulo 207

    Eu a beijei e o jardim irrompeu em aplausos imediatos. A Laura soltou um grito eufórico, o Alex começou a rir alto, a Clara envolveu o pescoço do Adrián em um abraço e ele a segurou contra si como se ali estivesse o centro de toda a sua vida. A Sandra continuava envolvida pelos meus braços. Minha esposa, meu abrigo e meu lar. E enquanto as lâmpadas acesas brilhavam acima de nós e as pessoas que nos importavam preenchiam aquele quintal, entendi com clareza o que demorei décadas para compreender: o que nos sustentava não era a linhagem herdada por conveniência, mas a família que tínhamos escolhido construir. Foi então que algo fora do planejado chamou minha atenção. O burburinho ao redor diminuiu sutilmente e percebi uma silhueta parada junto ao portão no fundo do jardim. Minha mãe. Ela tinha permanecido ali durante toda a cerimônia. Não deu um passo até a área do altar, não trocou palavra com os convidados e nem sequer tentou sinalizar a sua presença. Estava apenas de pé. Observ

  • Um bebê para meu chefe   Capitulo 206

    (Eduardo) Nunca pensei que terminaria me casando em um jardim pequeno. De verdade, nunca passou pela minha cabeça. Durante anos imaginei algo completamente diferente. Um casamento monumental, lotado de figuras públicas, refletores, fotógrafos, empresários e sorrisos de fachada. Algo suntuoso, impecável e oco. O tipo de evento que mais parecia uma fusão corporativa disfarçada de enlace matrimonial. Mas então a Sandra entrou na minha vida. E, de algum modo, ela pegou cada uma das convicções que eu carregava sobre a vida, quebrou todas uma a uma e me mostrou algo infinitamente melhor. O jardim era pequeno, acolhedor e lindo. Havia cordões de luzes suspensos entre os galhos das árvores, flores brancas cobrindo os cantos e mesas arranjadas com um equilíbrio improvável entre bom gosto e pura improvisação — fruto de semanas em que a Sandra e a Clara coordenaram tudo, enquanto a Laura aparecia a cada cinco minutos sugerindo palpites absurdos que, para a surpresa geral, às vezes davam m

  • Um bebê para meu chefe   Capitulo 205

    (Clara) Eu ainda continuava sorrindo quando chegamos em casa naquela noite. O pedido tinha sido lindo. Ridiculamente lindo. A Sandra chorou tanto que acabou arruinando a maquiagem, o Eduardo fingiu que não estava chorando mesmo com os olhos completamente vermelhos, e a Laura insistia em dizer que ela era a verdadeira mente brilhante por trás de tudo porque tinha escolhido «a iluminação». O Alex, por sua vez, ameaçou postar o vídeo onde ela aparecia chorando ainda mais do que a própria noiva. E no meio de tudo aquilo estava eu. Feliz. Muito feliz. Mas com uma pontada quase invisível no peito que não sumia de jeito nenhum. Entrei no apartamento enquanto o Adrián trancava a porta atrás de nós. O silêncio da casa pareceu estranho, quase espesso, depois de tantas risadas. Tirei os sapatos com um suspiro e me joguei no sofá. O Adrián surgiu imediatamente na minha frente. — Cansada? — perguntou ele. Movi a cabeça em negativa, esboçando um meio sorriso. — Não. Ele não respondeu. Apen

  • Um bebê para meu chefe   Capitulo 204

    (Eduardo) Acordei com ressaca. Não pelo álcool, mas pelas pessoas. Eu ainda não entendia como meu apartamento havia passado de um refúgio triste de homem recém-independente para uma festa improvisada cheia de risadas, comida, música e a Laura criticando a minha decoração quase a noite inteira. Mas algo havia mudado; pela primeira vez, o silêncio não estava me esperando ao acordar. Ainda restavam copos sobre a mesa, um pacote de salgadinho esquecido na cozinha e uma manta rosa dobrada sobre o sofá que definitivamente não me pertencia. Sorri de leve enquanto preparava o café, e então um pensamento me fez parar de repente: eu queria me casar com ela. Não porque já estivéssemos noivos, nem porque o pai dela finalmente havia me aceitado, nem porque o futuro tivesse ficado mais fácil. Eu queria fazer isso porque ela merecia uma história bonita. Uma que realmente pudesse guardar na memória. Peguei o celular e liguei para o Adrián. O sinal tocou várias vezes até que ele finalmente atend

Mais capítulos
Explore e leia bons romances gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de bons romances no app GoodNovel. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no app
ESCANEIE O CÓDIGO PARA LER NO APP
DMCA.com Protection Status