FAZER LOGINO voo foi desconfortável.
Não por causa de turbulência, mas pela proximidade constante, por passar horas dividindo um espaço pequeno demais com alguém que, em qualquer outro contexto, mantinha uma distância perfeitamente calculada. Adrián Castellanos não era o tipo de homem que invadia o espaço dos outros… mas também não era de compartilhá-lo assim. Mesmo assim, lá estávamos nós. Silêncios longos, olhares que eu fingia não notar e uma tensão sutil que eu não sabia exatamente de onde vinha, mas que simplesmente não passava. Quando pousamos, achei que o pior já tinha ido. Claramente, eu não fazia ideia. Não tinha táxi disponível. A fila estava absurda, o calor úmido de Bali grudava na pele e a minha paciência estava perigosamente perto do limite. Adrián observou a cena com aquela calma imperturbável de sempre, como se o caos fosse apenas mais uma variável a ser resolvida. Ele fez uma ligação rápida. Cinco minutos depois, um carro preto parou bem na nossa frente. — Vamos dividir — disse ele. Não discuti. Nem mesmo quando ele pegou a minha mala antes que eu pudesse esboçar qualquer reação. — Não precisa — tentei protestar. Ele mal olhou para mim, com aquela expressão que não era dura, mas também não era totalmente distante. — Aqui você não é a minha secretária. A frase foi simples, mas alguma coisa no tom dele a deixou diferente. Não soube o que responder de imediato, então só assenti. O hotel foi o problema seguinte. Era perfeito demais, romântico demais, como se tudo tivesse sido desenhado de propósito para me lembrar exatamente do que eu tinha perdido. Luzes quentes, detalhes delicados, um lugar pensado para histórias que não eram a minha. — Que coincidência — murmurei, quando descobrimos que estávamos no mesmo hotel. E depois, no mesmo andar. E depois… cara a cara. O universo tinha um senso de humor bem peculiar. Entreio no meu quarto e travei na porta, correndo os olhos pelo espaço enquanto cada detalhe terminava de confirmar o óbvio: pétalas de rosa espalhadas sobre a cama, uma garrafa de champanhe no balde de gelo e velas cuidadosamente posicionadas, como se alguém tivesse preparado o cenário para uma história perfeita. Era a suíte de lua de mel. A minha lua de mel. Só que sem marido. Respirei fundo, sentindo uma mistura incômoda de ironia com algo mais profundo que eu preferia não analisar. Antes que o peso de tudo voltasse a me esmagar, decidi sair. Precisava de ar, de movimento… qualquer coisa que me impedisse de ficar pensando. E foi aí que o vi. Adrián. No restaurante. Sem o paletó, com a camisa levemente aberta, como se até ele tivesse se permitido baixar a guarda um pouco. Não estava cercado de pessoas nem revisando documentos, estava só… ali. Pela primeira vez, ele não parecia inacessível. Ele ergueu os olhos e me viu quase imediatamente, como se já soubesse que eu estava ali. Em vez de desviar o olhar, sustentou o meu por um segundo a mais do que o habitual. Depois, com um leve aceno de cabeça em direção à cadeira à sua frente, me convidou para sentar. Não havia pressão naquele gesto, nenhuma obrigação. Mesmo assim… eu fui. — O seu investidor apareceu? — perguntei. — Ainda não — respondeu ele. — Parece que ele gosta de fazer as pessoas esperarem. A voz era a mesma de sempre, mas havia algo diferente no ritmo, menos rígido. Ele apontou para a taça. — Aceita uma? Eu deveria ter dito não. — Só uma. Não foi só uma. A conversa fluiu de um jeito inesperado, natural, como se não estivéssemos no mesmo mundo onde ele era o meu chefe e eu organizava cada minuto da sua agenda. Ele não falou de trabalho. Não olhou para mim como se eu fosse parte do sistema. Olhou para mim como se… eu estivesse realmente ali. — Você não parece feliz — disse ele, num tom mais baixo. Encarei-o. — Não é uma lua de mel tradicional. O canto dos lábios dele se curvou de leve, quase imperceptível, mas o suficiente para mudar algo no ambiente. E, naquele silêncio, a distância que sempre existiu entre nós começou a parecer… desnecessária. Não saberia dizer em que momento exato aconteceu, só sei que uma taça levou a outra, e depois a mais uma, e, a cada gole, a distância entre nós ficava menos rígida, mais difusa, como se tudo o que nos definia lá fora deixasse de importar aos poucos. Em algum momento, os dedos dele roçaram os meus e eu não os afastei. Quando os nossos olhares se cruzaram de novo, já não havia uma linha clara entre o que era certo e o que não era; restava apenas aquela tensão silenciosa que nenhum dos dois parecia disposto a ignorar. Quando ele me beijou, não foi por impulso. Foi decidido, como ele sempre era, mas também inesperadamente suave, como se por trás de toda aquela precisão existisse algo que ele raramente deixava transparecer. E eu… simplesmente não recuei. Uma taça levou a outra, e a certa altura paramos de pensar demais. Tudo ficou mais leve, mais próximo, como se o espaço entre nós tivesse sumido sem que percebêssemos. Saímos do restaurante sem falar muita coisa. Não precisava. No elevador, o silêncio estava carregado de algo que dava para sentir na pele. Mas aquela calmaria durou só um instante, porque, assim que as portas se fecharam, ele voltou a me beijar, dessa vez sem se segurar. Os lábios dele encontraram os meus com uma intensidade que me fez esquecer o resto do mundo, enquanto suas mãos percorriam o meu corpo com firmeza, me puxando para mais perto, ditando o ritmo de um momento que já não tinha mais volta. Ele me segurou com segurança, colando meu corpo ao dele como se não devesse existir nenhum espaço entre nós, e eu respondi sem hesitar, me deixando levar por aquela mistura de urgência e desejo que crescia a cada segundo. O elevador continuava subindo, mas nada disso importava; a única coisa real era a forma como ele me beijava, como se quisesse apagar qualquer distância que um dia já existiu entre nós. O corredor passou sem que eu notasse. A porta se fechou atrás de nós… e, junto com ela, qualquer tentativa de fazer a coisa certa.(Adrián)Nunca gostei de hospitais. Há algo nos seus corredores que me revira o estômago: o cheiro de antisséptico, o zumbido monótono dos aparelhos, aquelas luzes fluorescentes que escancaram cada uma das nossas fraquezas.Naquele ambiente, a ilusão de controle que tanto me esforço para manter simplesmente desmorona. Tudo depende de variáveis que não consigo encaixar em uma planilha de projeções.E eu odeio perder o controle.Mas, naquela noite, não era uma empresa que estava em jogo.Era ela.Por isso, quando a equipe médica anunciou que era hora de transferi-la para a sala de parto, nem passou pela minha cabeça ficar esperando no corredor com o resto do grupo.Deixei para trás o Eduardo com o terno da festa amassado, a Sandra com a maquiagem borrada, a Laura aos prantos de puro nervosismo e o Alex tentando manter a compostura.Vesti o avental esterilizado, a touca e os propés com as mãos trêmulas, sentindo o ar me faltar no peito.Quando entrei na sala, o ambiente era uma mistura d
(Clara) Se alguém tivesse me dito, um ano atrás, que eu terminaria sentada no casamento do Eduardo e da Sandra, grávida de gêmeos e casada com o chefe que um dia me aterrorizava, eu teria rido na cara da pessoa. E, no entanto, ali estava eu. Com os pés inchados, um vestido que tinha deixado de ser confortável havia aproximadamente três horas e um marido que passara a noite inteira agindo como se estivesse transportando uma escultura de cristal em vez de uma mulher grávida. — Você está bem? — perguntou Adrián pela quinta vez em menos de dez minutos. Olhei para ele. — Sim. Dois minutos depois: — Tem certeza? Ergui a empanadinha que segurava na mão. — Estou comendo. Claramente estou bem. Ele não pareceu convencido. A Sandra passou correndo na nossa frente rindo solta, enquanto o Eduardo a seguia com uma expressão completamente derrotada e apaixonada ao mesmo tempo. Ela levava os sapatos em uma das mãos porque já não suportava os saltos, e ele segurava o véu dobrado sobre o an
Eu a beijei e o jardim irrompeu em aplausos imediatos. A Laura soltou um grito eufórico, o Alex começou a rir alto, a Clara envolveu o pescoço do Adrián em um abraço e ele a segurou contra si como se ali estivesse o centro de toda a sua vida. A Sandra continuava envolvida pelos meus braços. Minha esposa, meu abrigo e meu lar. E enquanto as lâmpadas acesas brilhavam acima de nós e as pessoas que nos importavam preenchiam aquele quintal, entendi com clareza o que demorei décadas para compreender: o que nos sustentava não era a linhagem herdada por conveniência, mas a família que tínhamos escolhido construir. Foi então que algo fora do planejado chamou minha atenção. O burburinho ao redor diminuiu sutilmente e percebi uma silhueta parada junto ao portão no fundo do jardim. Minha mãe. Ela tinha permanecido ali durante toda a cerimônia. Não deu um passo até a área do altar, não trocou palavra com os convidados e nem sequer tentou sinalizar a sua presença. Estava apenas de pé. Observ
(Eduardo) Nunca pensei que terminaria me casando em um jardim pequeno. De verdade, nunca passou pela minha cabeça. Durante anos imaginei algo completamente diferente. Um casamento monumental, lotado de figuras públicas, refletores, fotógrafos, empresários e sorrisos de fachada. Algo suntuoso, impecável e oco. O tipo de evento que mais parecia uma fusão corporativa disfarçada de enlace matrimonial. Mas então a Sandra entrou na minha vida. E, de algum modo, ela pegou cada uma das convicções que eu carregava sobre a vida, quebrou todas uma a uma e me mostrou algo infinitamente melhor. O jardim era pequeno, acolhedor e lindo. Havia cordões de luzes suspensos entre os galhos das árvores, flores brancas cobrindo os cantos e mesas arranjadas com um equilíbrio improvável entre bom gosto e pura improvisação — fruto de semanas em que a Sandra e a Clara coordenaram tudo, enquanto a Laura aparecia a cada cinco minutos sugerindo palpites absurdos que, para a surpresa geral, às vezes davam m
(Clara) Eu ainda continuava sorrindo quando chegamos em casa naquela noite. O pedido tinha sido lindo. Ridiculamente lindo. A Sandra chorou tanto que acabou arruinando a maquiagem, o Eduardo fingiu que não estava chorando mesmo com os olhos completamente vermelhos, e a Laura insistia em dizer que ela era a verdadeira mente brilhante por trás de tudo porque tinha escolhido «a iluminação». O Alex, por sua vez, ameaçou postar o vídeo onde ela aparecia chorando ainda mais do que a própria noiva. E no meio de tudo aquilo estava eu. Feliz. Muito feliz. Mas com uma pontada quase invisível no peito que não sumia de jeito nenhum. Entrei no apartamento enquanto o Adrián trancava a porta atrás de nós. O silêncio da casa pareceu estranho, quase espesso, depois de tantas risadas. Tirei os sapatos com um suspiro e me joguei no sofá. O Adrián surgiu imediatamente na minha frente. — Cansada? — perguntou ele. Movi a cabeça em negativa, esboçando um meio sorriso. — Não. Ele não respondeu. Apen
(Eduardo) Acordei com ressaca. Não pelo álcool, mas pelas pessoas. Eu ainda não entendia como meu apartamento havia passado de um refúgio triste de homem recém-independente para uma festa improvisada cheia de risadas, comida, música e a Laura criticando a minha decoração quase a noite inteira. Mas algo havia mudado; pela primeira vez, o silêncio não estava me esperando ao acordar. Ainda restavam copos sobre a mesa, um pacote de salgadinho esquecido na cozinha e uma manta rosa dobrada sobre o sofá que definitivamente não me pertencia. Sorri de leve enquanto preparava o café, e então um pensamento me fez parar de repente: eu queria me casar com ela. Não porque já estivéssemos noivos, nem porque o pai dela finalmente havia me aceitado, nem porque o futuro tivesse ficado mais fácil. Eu queria fazer isso porque ela merecia uma história bonita. Uma que realmente pudesse guardar na memória. Peguei o celular e liguei para o Adrián. O sinal tocou várias vezes até que ele finalmente atend







