LOGINKaty Nunes Tentei controlar o ritmo desordenado da minha respiração enquanto caminhava ao lado do Ian de volta à área coberta do deck principal. O vento quente do oceano batia no meu rosto, mas por dentro eu sentia um frio congelante. O toque da mão do Ian no meu cotovelo era o único ancoradouro que me impedia de desabar ali mesmo na frente de dezenas de turistas desconhecidos.Julien e Ana estavam acomodados em uma das mesas de madeira do deck inferior, segurando pratos de acarajé e copos de caipirinha. Quando nos aproximamos, os olhos atentos da Ana se cravaram no meu rosto na mesma hora. Como minha melhor amiga desde a infância, a Ana tinha um radar bizarro para qualquer mudança no meu humor. Ela me conhecia muito bem e, por mais que eu tentasse estampar um sorriso neutro nos lábios, a minha palidez me entregava.— O que aconteceu com vocês dois? — Julien perguntou, interrompendo a mastigação e nos encarando com o garfo suspenso no ar. — Vocês saíram para pegar bebida com cara
Ian Parker Paguei o atendente do restaurante e peguei os dois copos de suco gelado sobre o balcão. Julien contava alguma história exagerada sobre as ondas do trajeto, mas minha atenção se desviou na hora em que vi a Katy se aproximar. Ela caminhava rápido, com os ombros erguidos e o rosto ligeiramente pálido. Conhecia cada traço da mulher que amava e soube no mesmo instante que algo estava errado. A postura dela tentava transmitir calma, mas quando toquei seu braço, senti sua pele fria e o tremor leve que corria por suas mãos. — Katy? Está tudo bem? — perguntei, colocando os copos no balcão ao notar a mudança no olhar dela. — Você está pálida. — Ian... — ela me chamou bem baixo, puxando-me suavemente pelo pulso para longe da movimentação de turistas que pegavam o almoço. — O que foi, meu amor? — fechei o terno das sobrancelhas, abaixando o tom de voz para que só ela escutasse. Ela engoliu em seco, olhou rapidamente para os lados e encarou o meu rosto com uma intensidade a
Katy Nunes. Meu coração deu um salto violento no peito e pareceu parar na garganta. O ar sumiu dos meus pulmões por um segundo. Encarar Valentina a menos de dois metros de mim, no deck superior daquele barco em alto-mar, foi como levar um balde de água gelada no meio de um sonho perfeito. Sentir o choque me paralisar durou apenas o tempo de uma respiração. Lembrei-me na hora de quem eu era, de todo o meu esforço na agência e do homem que me amava e estava a poucos degraus dali. Busquei uma frieza que nem sabia que possuía, vinda direto do fundo do peito. Ajeitei a postura, alinhei os ombros com calma, cruzei os braços sobre o peito e encarei Valentina de cabeça erguida, sem deixar piscar um único músculo do meu rosto. — Valentina — respondi, mantendo a voz pausada, firma e absurdamente calma. — O mundo é realmente pequeno, não é? O sorriso irônico dela vacilou por meio segundo diante da minha falta de pavor, mas ela logo se recompôs, dando um passo lento na minha direção. O ol
Valentina Fernandes O embarque começou cerca de vinte minutos depois que o grupo se dirigiu ao ancoradouro. Esperei estrategicamente que a maioria dos turistas e o próprio Ian com seus acompanhantes subissem a bordo para só então passar pela checagem do pier. Entrei na embarcação mantendo-me no teto inferior, com o rosto protegido sob a aba avantajada do meu chapéu e a lona de proteção contra o sol. Enquanto eles subiam direto para a área nobre do deck superior, me acomodei em um canto discreto, onde podia observar os degraus sem ser notada por quem estava em cima.A escuna soltou as amarras e o motor roncou alto, cortando as águas transparentes da baía. A partir daquele instante, começou o meu exercício de paciência e autocontrole.Fiquei encolhida no meu espaço, o celular mantido em mãos na altura do peito, operando exatamente como um predador à espreita. A cada parada que o barco fazia nas enseadas paradisíacas e praias de tom turquesa, o grupo se divertia como se estivesse gra
Valentina Fernandes Ajeitei meus óculos de sol no rosto com um empurrão irritado do indicador, bufando enquanto saía pelo portão de madeira da pousada mequetrefe onde fui obrigada a me hospedar no centro. O cheiro de maresia e protetor solar barato me dava ânsia. Eu odiava o litoral, odiava aquele calor úmido e, acima de tudo, odiava estar me humilhando naquele fim de mundo só para tentar entender o que o Ian Parker estava fazendo.Minha cabeça martelava com a falta de sono. Passei a noite inteira em claro, girando na cama daquele quarto abafado, remoendo cada rejeição velada e cada fora elegante que o Ian já tinha me dado nas festas da alta sociedade. Ele sempre foi frio, inalcançável, um homem que mantinha uma barreira intransponível com todas as mulheres que tentavam se aproximar. Mas eu não sou de desistir. Eu sempre soube que era apenas uma questão de tempo até ele perceber que nós dois fomos feitos um para o outro.A minha única pista concreta para estar ali era a foto que a
Katy Nunes O sol forte batia direto na janela do quarto quando me mudei para o pé da cama. Olhei para o diamante no meu anelar com um aperto no peito, sabendo que a hora de esconder o nosso segredo tinha chegado. Tirei a aliança de noivado devagar e a guardei no bolso mais fundo da minha bolsa, trancando o zíper. No lugar, mantive apenas o anel de compromisso simples que o Ian já tinha me dado meses atrás e que todo mundo na agência já estava cansado de ver no meu dedo.Coloquei um biquíni escuro, puxei um short jeans bem confortável e uma camisa de linho leve por cima, dobrando as mangas até o cotovelo. Prendi o cabelo num coque meio solto, peguei meus óculos de sol e desci.Na cozinha, o cheiro de passar café fresco já dominava a casa toda. Ana estava encostada na bancada com um copo de suco na mão, enquanto o Julien tentava equilibrar duas fatias de mamão num prato, rindo da própria desgraça.— Olha só quem resolveu dar as caras — debochou Julien, assim que o Ian e eu pisamos







