FAZER LOGINLeonardo não sabia exatamente em que momento havia cometido aquele erro.Talvez tivesse sido quando aceitou sentar-se à mesa. Talvez quando permitiu que Sofia puxasse sua mão. Ou talvez quando percebeu que, pela primeira vez em cinco anos, estava jantando com outras pessoas e não sentia vontade de terminar a refeição o mais rápido possível.A cozinha estava iluminada pela luz amarelada do lustre, e o cheiro do macarrão ainda pairava no ar, misturado ao aroma do molho de tomate e das ervas que Helena havia usado. Os pratos estavam quase vazios, e Sofia ainda mexia o garfo no próprio prato, como se estivesse prolongando o momento.— Você não gosta de macarrão? — Sofia perguntou, inclinando a cabeça com uma curiosidade genuína.Leonardo olhou para o prato, onde a massa ainda estava parcialmente intacta.— Gosto. — A resposta foi curta, mas não rude.— Então por que está comendo tão devagar? — A menina apontou o garfo na direção dele, como se estivesse fazendo uma acusação formal.Ele lev
Às oito da noite, Leonardo estava sentado diante do notebook, os olhos fixos na tela.Uma reunião terminará há poucos minutos. Havia outros documentos esperando por ele. Mais contratos. Mais números. Mais problemas que precisavam ser resolvidos.Mas sua atenção não estava neles.Estava no relógio.Oito e cinco.Ele olhou para a porta do escritório, fechada como sempre. Depois para o notebook, onde uma planilha de números esperava por ele. Voltou a olhar para o relógio.Aquilo era ridículo. Ele não precisava descer. Não havia motivo para fazer isso. A menina tinha apenas seis anos, e o convite havia sido feito com a impulsividade de uma criança que não entendia as complexidades do mundo adulto.Levantou-se da cadeira, o couro rangendo sob seu peso. Saiu do escritório com passos lentos, como se cada passo fosse uma batalha contra si mesmo.Caminhou pelo corredor, a luz fraca dos lustres projetando sombras nas paredes. Quando chegou próximo à cozinha, ouviu vozes. Helena ria, um som que
Aquelas duas palavras o atingiram de uma maneira inesperada. *Ela fica*. A simplicidade da afirmação, a certeza com que foi dita, perfurou algo dentro dele que ele mantinha fechado há anos.Leonardo desviou o olhar, incapaz de sustentar a intensidade daquele momento. Durante cinco anos, tudo o que conhecera fora perda. Pessoas iam embora. Promessas acabavam. Casas ficavam vazias. E, em algum momento, ele havia decidido que era melhor não precisar de ninguém, porque quem não precisava de ninguém não podia ser abandonado.— Você quer alguma coisa? — A pergunta saiu mais suave do que ele pretendia, quase um convite.Sofia abriu um sorriso enorme, os olhos brilhando.— Quero.— O quê?— Que você venha jantar com a gente hoje. — A resposta veio rápida, como se ela já estivesse esperando por aquela pergunta.Leonardo franziu a testa, surpreso.— Eu janto na minha sala. — A afirmação era automática, a rotina que ele seguia há anos.— Hoje não. — Sofia balançou a cabeça com determinação.— So
Dessa vez, o canto da boca de Leonardo realmente se moveu. Foi mínimo, quase imperceptível — um leve tremor muscular que não chegou a se transformar em um sorriso completo. Mas aconteceu.Os olhos de Sofia se arregalaram, e ela apontou para ele com dedo acusador.— Você sorriu!Leonardo imediatamente voltou à expressão habitual, a máscara de controle deslizando de volta ao lugar.— Não sorri. — A negação foi automática.— Sorriu sim. — Sofia deu um passo à frente, os olhos brilhando.— Não.— Sorriu. — A menina repetiu, e havia uma alegria triunfante em sua voz.— Sofia. — Ele tentou usar um tom de advertência, mas não funcionou.— Eu vi. — Ela cruzou os braços, imitando a postura dele. — Eu vi com os meus olhos.Leonardo apontou para a porta com um movimento seco do indicador.— Sua mãe sabe que você está aqui?A menina ficou em silêncio por um momento, os olhos desviando para o lado, para o chão, para qualquer lugar menos para ele.Ele estreitou os olhos.— Sofia. — A voz era um avi
Helena respirou fundo, sentindo o peso da pergunta. Não era uma questão simples, e ela sabia que qualquer resposta que desse precisaria ser cuidadosa.— Talvez ele tenha motivos para ser assim. — A voz de Helena estava mais baixa agora. — Algumas pessoas carregam coisas que a gente não consegue ver.— Ele perdeu a esposa? — A pergunta de Sofia foi direta, sem rodeios.Helena arregalou os olhos, surpresa.— Quem contou isso para você?— Dona Clara — Sofia respondeu com naturalidade. — Ela disse que o senhor Leonardo era casado, mas que a esposa dele foi embora. Que ele ficou muito triste e nunca mais foi o mesmo.Claro. Dona Clara, a cozinheira, que parecia ter uma habilidade especial para transformar segredos em fofocas.— Sofia, algumas pessoas ficam tristes quando perdem alguém que amam. — Helena se ajoelhou na frente da filha, segurando suas mãos pequenas. — É uma tristeza que não vai embora fácil. Às vezes, a gente aprende a conviver com ela, mas ela sempre fica ali, em algum luga
Leonardo permaneceu alguns segundos olhando para a folha sobre sua mesa.O desenho era simples, feito com lápis de cor que pareciam ter sido usados muitas vezes. As cores estavam ligeiramente fora das linhas, como se a mão que as guiava ainda estivesse aprendendo a controlar a pressão. Um homem de terno preto diante de um prédio enorme, a silhueta retangular e impessoal contrastando com a figura pequena ao seu lado — uma menina segurando um balão vermelho que subia em direção a um céu azul pintado com traços irregulares.E, acima dos dois, uma frase escrita com letras tortas, algumas maiúsculas misturadas com minúsculas, como se a ortografia ainda fosse um território em exploração:"O moço da janela precisa de uma amiga."Ele deveria jogar aquilo fora. Era apenas um desenho infantil. Um pedaço de papel sem qualquer importância, rabiscado por uma criança que não tinha ideia do que estava dizendo. Não havia motivo para guardar aquilo, para dar àquelas palavras mais peso do que mereciam.







