FAZER LOGINDois anos se passaram sem que eu percebesse exatamente quando a dor virou rotina e a saudade deixou de ser um aperto constante para se transformar em um silêncio confortável que eu carregava comigo. A vida seguiu, do jeito que dava, e quando me dei conta, eu já estava sentada em uma sala de aula, caderno aberto, ouvindo sobre comportamento humano enquanto tentava, no fundo, entender o meu próprio. Psicologia não foi uma escolha por acaso, foi quase uma necessidade, como se eu precisasse dar sentido a tudo o que vivi, a cada decisão que tomei, certa ou errada. Eu ainda morava com Cristina e com a pequena Clara que já corria pela casa com uma energia impossível de acompanhar, e com meu pai, que se mantinha firme na sobriedade, completando quase três anos longe do álcool. Às vezes eu o observava em silêncio, tentando reconhecer naquele homem o pai que eu sempre quis ter, e havia algo bonito nisso, algo de reconstrução, de segunda chance. O seu recomeço também foi o meu. O nosso. Ma
O hospital parecia mais frio do que realmente era, talvez por causa da ansiedade que tomava conta de todo mundo. Eu andava de um lado para o outro no corredor, tentando disfarçar o nervosismo, enquanto Angélica estava sentada, com as mãos entrelaçadas, e Carlos observava em silêncio, como se qualquer palavra pudesse atrapalhar aquele momento. O marido dela tentava distrair o Bernardo, que já estava inquieto, perguntando a cada cinco minutos se a bebê já tinha nascido. O tempo ali dentro não passava, ele se arrastava, pesado, como se estivesse testando a nossa paciência. Quando a enfermeira apareceu e chamou meu nome, senti meu corpo inteiro reagir antes mesmo de entender o que estava acontecendo. — Ela não quer ficar sozinha — a enfermeira disse, com um tom calmo que contrastava com o meu coração acelerado. Eu nem pensei, só fui. Entrei no quarto e encontrei Cristina na cama, suada, o cabelo grudado na testa, os olhos marejados, como se estivesse lutando contra o próprio corpo
O sol ainda estava alto quando vi o carro parar na entrada da vila, levantando uma poeira fina que dançava no ar quente da tarde. Reconheci antes mesmo de descerem, talvez por intuição, talvez porque, no fundo, eu estivesse esperando por esse momento desde que voltei. Limpei as mãos no avental do quiosque, o cheiro de peixe e limão ainda grudado nos dedos, e caminhei até eles com o coração batendo mais rápido do que deveria. Angélica foi a primeira a sair, elegante até na simplicidade, com um olhar curioso percorrendo tudo ao redor, como se estivesse tentando encaixar aquele lugar na ideia que tinha de mim. Logo atrás veio o marido dela, Roberto, carregando algumas bolsas, e o Bernardo, que praticamente pulou do carro, olhando para tudo com uma empolgação que me fez sorrir sem esforço. Carlos apareceu por último, mais contido, mas com um meio sorriso que dizia mais do que qualquer palavra. — Então é aqui que você se escondeu do mundo? — Angélica disse, abrindo os braços antes mes
Voltar para a vila foi como entrar em uma memória que ainda não tinha decidido se queria me acolher ou me cobrar. O cheiro do mar continuava o mesmo, o vento quente batendo no rosto no fim da tarde, as vozes conhecidas ecoando pelas ruas de areia, mas, dentro de mim, tudo tinha mudado de lugar. Cristina e eu tentávamos retomar a vida que deixamos para trás, só que agora ela parecia pequena demais para tudo o que carregávamos. Enquanto nosso pai seguia na clínica, lutando contra o vício com uma determinação que eu nunca tinha visto antes, eu comecei a trabalhar em um quiosque na beira da praia. Era simples, com mesas de madeira, guarda-sóis desbotados e um cardápio que girava em torno de peixe frito, camarão, moquecas e o que mais o mar resolvesse oferecer naquele dia. A clientela era boa, cheia de gente de fora, turistas curiosos, gente que falava alto, ria fácil e não fazia ideia do que existia por trás dos meus olhos cansados. Eu passava o dia inteiro em pé, anotando pedidos,
Os dias seguintes foram atravessados por uma mistura estranha de silêncio e expectativa, como se tudo estivesse suspenso, esperando uma resposta final que ninguém tinha coragem de antecipar. Quando o laudo do IML saiu, eu estava sentada no sofá do apartamento, com uma xícara de café já fria nas mãos, quando o advogado me ligou. A voz dele era técnica, controlada, mas havia algo ali, um cuidado maior ao escolher as palavras, como se soubesse o peso do que estava prestes a dizer. Segundo o laudo, a causa da morte de Jonas era compatível com suicídio. Não havia sinais de luta corporal recente, nem indícios claros de intervenção de terceiros no momento da morte. A perícia apontava que ele utilizou um pedaço de tecido improvisado, preso a uma estrutura da cela, e que o tempo estimado batia com os registros internos do presídio. Além disso, encontraram uma carta. Uma carta rabiscada, irregular, escrita com pressa ou desespero — ou os dois. Não era uma confissão bonita, organizada, nem
Quando a porta do apartamento se abriu, eu senti como se estivesse atravessando mais do que um espaço físico. Era como se estivesse puxando comigo tudo o que tinha acontecido nas últimas horas e tentando encaixar aquilo dentro de um lugar que, até então, era só um refúgio provisório. Cristina entrou devagar, uma mão apoiada na barriga, o olhar perdido, como se ainda estivesse tentando entender a própria realidade. Meu pai veio logo atrás, mais contido, quase encolhido dentro da própria presença, como se não soubesse exatamente onde colocar as mãos ou os olhos. — Fiquem à vontade — eu disse, fechando a porta atrás de nós e tentando dar um tom de normalidade que nem eu mesma sentia. Cristina caminhou até o sofá e se sentou com cuidado, soltando um suspiro longo, daqueles que parecem sair do fundo do corpo. Meu pai permaneceu de pé por alguns segundos, observando tudo ao redor, como se estivesse entrando em um território desconhecido, até que finalmente se aproximou da mesa, ainda







