Share

Proibido ficar

Penulis: EllenRoza
last update Tanggal publikasi: 2026-02-05 10:39:31

  Troquei a roupa molhada por outra que a Norma me emprestou e fui encontrá-la na área externa. A casa parecia ainda maior vista de fora, com um jardim que cheirava a grama recém-cortada e folhas frescas. Os meninos estavam sentados perto da piscina, agora mais calmos, mas tagarelando como dois rádios ligados no mesmo volume.

  — Venham aqui — Norma chamou. — Quero apresentar vocês. 

  Eles se aproximaram me olhando dos pés à cabeça, como se eu fosse um bicho novo no quintal.

  — Essa é a Cristina, a nova babá de vocês.

  Bento me encarou primeiro, os olhos curiosos, quase gentis. Noah cruzou os braços e soltou:

  — Vai ser só mais uma que não dura.

  Norma estalou a língua.

  — Chega, Noah. Respeito. Agora os dois para o banho e se preparem para o jantar.

  Os meninos saíram correndo para dentro da casa como se o chão estivesse pegando fogo. Fiquei olhando aquele rastro de energia desaparecer dali. 

  Sozinha comigo, Norma mudou o tom.

  — Escuta, Cristina. Os horários deles são sagrados. Aulas particulares de manhã, escola à tarde, reforço duas vezes por semana. Você vai acompanhar tudo, ver tarefa, agenda, uniforme, remédio do Bento. Precisa garantir que comam direito, que não se metam em confusão… e acredite, eles encontram perigo até onde não existe.

  Eu balançava a cabeça, mas por dentro me perguntava se cabia tanta responsabilidade numa pessoa só. Eu mal sabia cuidar de mim.

  — E preciso dos seus documentos para formalizar — ela continuou. — Para que você receba todos os seus direitos. 

  Senti o estômago afundar.

  — Eu… acabei esquecendo. Mas peço para minha família mandar pelo correio.

  — Consiga o quanto antes — ela respondeu, me olhando com atenção demais.

  Assenti tentando não deixar o nervosismo escapar pelos poros.

  Norma me levou primeiro para o espaço de estudos dos garotos, uma sala clara cheia de livros, mapas na parede, duas mesas iguais, mas com bagunças diferentes. Depois seguimos para a cozinha, enorme, com panelas brilhando como espelho.

  — Bento tem algumas alergias — explicou. — Nada grave se a gente cuidar. A alimentação dele é mais restrita. E Noah come até parede se deixar. 

  Sorri sem jeito.

  Por fim conheci os quartos. Eram tão grandes que caberia minha antiga casa inteira dentro de um deles. Um era decorado com carros e motos, miniaturas alinhadas como exército, pôster de pista de corrida. O outro tinha pranchas desenhadas na parede, fotos de mar, conchas numa estante.

  — Eles dormiam juntos — Norma contou. — Mas pediram quartos separados. Fizemos uma reforma, colocamos uma parede no meio, dois banheiros… mas deixamos uma porta ligando os quartos. Ideia deles. Dizem que precisam “se visitar” de madrugada.

  Fiquei imaginando que tipo de mundo cabia dentro da cabeça daqueles dois.

  Os meninos apareceram já de banho tomado, cabelo molhado, cheirando a sabonete caro.

  — Aguardem o jantar — Norma avisou. — Cristina, eles comem sempre no mesmo horário. Você fica por perto para garantir que comeram direito. Desça com eles em cinco minutos.

  — Entendi. 

  Assim que Norma saiu, senti quatro olhos grudarem em mim.

  — Então — arrisquei — quem é quem?

  Eles deram risadinhas cúmplices.

  — Adivinha — um deles provocou.

  Analisei os dois com calma.

  — Do que vocês gostam?

  — Pra que quer saber? — o outro perguntou desconfiado.

  — Quero conhecer vocês.

  — Não pode conhecer a gente — respondeu o primeiro, sério demais para uma criança.

  — Por que não?

  Ele coçou o nariz.

  — Se conhecer, não será bom pra gente. 

  O irmão cutucou.

  — Não precisava falar isso.

  Respirei fundo. Aquilo era uma muralha invisível.

  — Vamos fazer um trato — sugeri. — Vocês me contam o que gostam e eu conto uma coisa que eu gosto e que vocês vão achar engraçado.

  Eles se olharam, conspirando em silêncio.

  — Tá — disse um deles. — Eu gosto de carro. Quero ser piloto de corrida quando for grande. 

  Lembrei do quarto cheio de pistas e plaquinhas com nome de Noah. Tive certeza, mas fingi não saber.

  — E você? — perguntei ao outro.

  — Eu gosto de coisa mais... calma. Gosto de Surf. Fiz aula nas férias e não caí nenhuma vez.

  Sorri, sentindo que ele me entregava um pedacinho secreto.

  — Então deixa eu tentar. O do surf é o Bento. O dos carros é o Noah.

  Os dois arregalaram os olhos.

  — Como você sabe?

  — Vocês são iguais, mas não são. Bento tem uma pintinha perto da boca. Noah tem uma cicatriz embaixo do queixo.

  Eles ficaram de boca aberta.

  — Bruxaria — Noah resmungou.

  Ri baixinho.

  — Só prestei atenção.

  Ele balançou a cabeça, meio contrariado.

  — Então, é a sua vez de contar o que gosta. 

  Encarei o menino.

  — Não vão me zoar?

  Eles balançaram suas cabeças. 

  — Não dá para zoar algo que a gente nem sabe o que é. — respondeu Noah. 

  — Você tem razão. — falei, assentindo — Eu gosto de desenhos. Fico desenhando tudo que vejo. 

  Noah riu. 

  — Não é coisa de criança?

  — Depende. Adultos também desenham. Nunca ouviram falar de pintores famosos?

  — Mas é diferente. Eles pintam. 

  — Para pintar, precisa desenhar, Noah. 

  Um sino agudo soou pela casa. Bento levantou num pulo.

  — Jantar! Estou faminto. 

  Fui atrás deles ainda confusa com aquele ritual. Na sala de jantar, uma mesa enorme parecia esperar um batalhão. Eles se sentaram lado a lado e eu fiquei em pé, imitando uma mulher de avental que devia ser a cozinheira.

  Enquanto os dois comiam, fiquei pensando por que levantavam tanta defesa. Talvez fizessem isso com todas as babás. Talvez por isso nenhuma tivesse ficado. Senti um aperto ao imaginar que comigo poderia ser igual. E se me mandassem embora? Para onde eu iria?

  Depois do jantar, eles correram para a sala de jogos. Passaram uma hora entre videogame e risadas altas. Fui orientada a olhar os cadernos, conferir agendas, tarefas. Fiz tudo com cuidado, tentando entender a letra torta de cada um.

  — Hora de dormir — avisei, olhando para o relógio de parede.

  Eles resmungaram, mas obedeceram. Escovaram os dentes, vestiram pijama. Estavam cansados, dava para ver. Quando se deitaram, apaguei a luz e fiquei um instante ouvindo a respiração deles atravessar a parede nova que dividia os quartos.

  Voltei para a cozinha encontrar Norma.

  — Não se engane com essa calmaria — ela disse. — Esses dois aprontam até dormindo.

  Sorri sem graça.

   — Pode jantar ali — apontou para a mesa menor. — O patrão deve chegar a qualquer momento. Ele  costuma comer sozinho… quando come. Talvez ele chegue mais tarde, a gente nunca sabe ao certo, então ficamos de prontidão, até... ele chegar e dormir. 

   — E a mãe deles?

  Norma suspirou, o rosto se fechando.

  — Patrícia morreu há alguns anos. Estava grávida. Ela e o bebê… acidente de carro.

  Senti o chão dar uma leve afundada.

  — Desculpa… eu não sabia.

  — Em algum momento você ia ter que saber. Mas esse assunto é proibido perto dos meninos. Aqui dentro quase não se fala disso.

  Assenti em silêncio. Enquanto mastigava a comida que mal tinha gosto, pensei naqueles dois garotos correndo pela casa enorme, no pai que quase não aparecia e em mim, fingindo ser quem não era. Tive a sensação estranha de que todo mundo ali estava vivendo com um nome emprestado, tentando não quebrar por dentro.

  Terminei de jantar meio sem sentir o gosto da comida. Tudo ali parecia grande demais para caber na minha boca, na minha história, no meu corpo. Norma voltou com uma pasta azul debaixo do braço e colocou na mesa como quem entrega um manual de sobrevivência.

  — Aqui tem tudo — disse ela, abrindo e folheando com dedos rápidos. — Horários, telefones da escola, das aulas particulares, lista das alergias do Bento, remédios, rotina de banho, de dormir. Até o que eles detestam comer.

  Peguei a pasta com cuidado, folheando com cuidado. 

  — Obrigada, dona Norma. De verdade.

  — Não me chama de dona — ela respondeu, mas sem grosseria. — E outra coisa: antes de se deitar, confirma se os dois estão dormindo. Às vezes eles viram morcego depois das dez. 

  Assenti.

  Eu ainda estava tentando decorar o mapa daquela casa que parecia não ter fim. Subi as escadas com a pasta apertada contra o peito. O corredor dos quartos dos meninos estava com luz baixa, aquele tipo de claridade que deixa tudo meio secreto. A porta que ligava um quarto ao outro estava entreaberta e dava para ouvir as vozes deles, fininhas, atravessando a parede nova.

  Fiquei parada, sem querer, escutando.

  — Você acha que ela fica? — um perguntou.

  Reconheci o tom mais manso. Bento.

  — Não pode ficar — respondeu o outro, mais firme. Noah. — Quanto mais tempo, pior. Você sabe disso. 

  — Mas ela parece legal… — Bento insistiu. — Descobriu até quem era quem de nós dois. As outras sempre trocavam a gente.

  — Não importa — Noah retrucou. — Legal ou não, é melhor ir embora logo.

  Meu coração apertou como pano torcido. Eu nem tinha começado e já tinha prazo de validade na cabeça deles. Encostei a testa na parede fria, tentando entender por que duas crianças tinham tanto medo de gente que ficava.

  — Se ela for embora também — Bento murmurou — acho que vou ficar chateado com você. 

  — Fica — Noah respondeu baixinho. — Melhor com chateado do que com saudade.

  Engoli seco. Quis entrar, dizer que eu estava ali, que não era inimiga, que também tinha medo de ir embora e não ter para onde voltar. Mas antes que eu criasse coragem, ouvi passos atrás de mim, firmes, ecoando no corredor.

  Me virei num susto e dei de cara com um homem parado a poucos metros. Alto, terno escuro meio afrouxado, gravata torta, cara de quem atravessou o dia inteiro sem sentar um minuto. Ele me olhava com uma mistura de cansaço e surpresa, como se eu fosse um móvel novo que apareceu fora do lugar. 

Lanjutkan membaca buku ini secara gratis
Pindai kode untuk mengunduh Aplikasi

Bab terbaru

  • Uma Babá em Fuga e o CEO Viúvo   Quando a vida dá um jeito

    Dois anos se passaram sem que eu percebesse exatamente quando a dor virou rotina e a saudade deixou de ser um aperto constante para se transformar em um silêncio confortável que eu carregava comigo. A vida seguiu, do jeito que dava, e quando me dei conta, eu já estava sentada em uma sala de aula, caderno aberto, ouvindo sobre comportamento humano enquanto tentava, no fundo, entender o meu próprio. Psicologia não foi uma escolha por acaso, foi quase uma necessidade, como se eu precisasse dar sentido a tudo o que vivi, a cada decisão que tomei, certa ou errada. Eu ainda morava com Cristina e com a pequena Clara que já corria pela casa com uma energia impossível de acompanhar, e com meu pai, que se mantinha firme na sobriedade, completando quase três anos longe do álcool. Às vezes eu o observava em silêncio, tentando reconhecer naquele homem o pai que eu sempre quis ter, e havia algo bonito nisso, algo de reconstrução, de segunda chance. O seu recomeço também foi o meu. O nosso. Ma

  • Uma Babá em Fuga e o CEO Viúvo   Um novo coração

    O hospital parecia mais frio do que realmente era, talvez por causa da ansiedade que tomava conta de todo mundo. Eu andava de um lado para o outro no corredor, tentando disfarçar o nervosismo, enquanto Angélica estava sentada, com as mãos entrelaçadas, e Carlos observava em silêncio, como se qualquer palavra pudesse atrapalhar aquele momento. O marido dela tentava distrair o Bernardo, que já estava inquieto, perguntando a cada cinco minutos se a bebê já tinha nascido. O tempo ali dentro não passava, ele se arrastava, pesado, como se estivesse testando a nossa paciência. Quando a enfermeira apareceu e chamou meu nome, senti meu corpo inteiro reagir antes mesmo de entender o que estava acontecendo. — Ela não quer ficar sozinha — a enfermeira disse, com um tom calmo que contrastava com o meu coração acelerado. Eu nem pensei, só fui. Entrei no quarto e encontrei Cristina na cama, suada, o cabelo grudado na testa, os olhos marejados, como se estivesse lutando contra o próprio corpo

  • Uma Babá em Fuga e o CEO Viúvo   Visitas do coração

    O sol ainda estava alto quando vi o carro parar na entrada da vila, levantando uma poeira fina que dançava no ar quente da tarde. Reconheci antes mesmo de descerem, talvez por intuição, talvez porque, no fundo, eu estivesse esperando por esse momento desde que voltei. Limpei as mãos no avental do quiosque, o cheiro de peixe e limão ainda grudado nos dedos, e caminhei até eles com o coração batendo mais rápido do que deveria. Angélica foi a primeira a sair, elegante até na simplicidade, com um olhar curioso percorrendo tudo ao redor, como se estivesse tentando encaixar aquele lugar na ideia que tinha de mim. Logo atrás veio o marido dela, Roberto, carregando algumas bolsas, e o Bernardo, que praticamente pulou do carro, olhando para tudo com uma empolgação que me fez sorrir sem esforço. Carlos apareceu por último, mais contido, mas com um meio sorriso que dizia mais do que qualquer palavra. — Então é aqui que você se escondeu do mundo? — Angélica disse, abrindo os braços antes mes

  • Uma Babá em Fuga e o CEO Viúvo   Longe de tudo

    Voltar para a vila foi como entrar em uma memória que ainda não tinha decidido se queria me acolher ou me cobrar. O cheiro do mar continuava o mesmo, o vento quente batendo no rosto no fim da tarde, as vozes conhecidas ecoando pelas ruas de areia, mas, dentro de mim, tudo tinha mudado de lugar. Cristina e eu tentávamos retomar a vida que deixamos para trás, só que agora ela parecia pequena demais para tudo o que carregávamos. Enquanto nosso pai seguia na clínica, lutando contra o vício com uma determinação que eu nunca tinha visto antes, eu comecei a trabalhar em um quiosque na beira da praia. Era simples, com mesas de madeira, guarda-sóis desbotados e um cardápio que girava em torno de peixe frito, camarão, moquecas e o que mais o mar resolvesse oferecer naquele dia. A clientela era boa, cheia de gente de fora, turistas curiosos, gente que falava alto, ria fácil e não fazia ideia do que existia por trás dos meus olhos cansados. Eu passava o dia inteiro em pé, anotando pedidos,

  • Uma Babá em Fuga e o CEO Viúvo   Apenas uma pausa

    Os dias seguintes foram atravessados por uma mistura estranha de silêncio e expectativa, como se tudo estivesse suspenso, esperando uma resposta final que ninguém tinha coragem de antecipar. Quando o laudo do IML saiu, eu estava sentada no sofá do apartamento, com uma xícara de café já fria nas mãos, quando o advogado me ligou. A voz dele era técnica, controlada, mas havia algo ali, um cuidado maior ao escolher as palavras, como se soubesse o peso do que estava prestes a dizer. Segundo o laudo, a causa da morte de Jonas era compatível com suicídio. Não havia sinais de luta corporal recente, nem indícios claros de intervenção de terceiros no momento da morte. A perícia apontava que ele utilizou um pedaço de tecido improvisado, preso a uma estrutura da cela, e que o tempo estimado batia com os registros internos do presídio. Além disso, encontraram uma carta. Uma carta rabiscada, irregular, escrita com pressa ou desespero — ou os dois. Não era uma confissão bonita, organizada, nem

  • Uma Babá em Fuga e o CEO Viúvo   Perdão

    Quando a porta do apartamento se abriu, eu senti como se estivesse atravessando mais do que um espaço físico. Era como se estivesse puxando comigo tudo o que tinha acontecido nas últimas horas e tentando encaixar aquilo dentro de um lugar que, até então, era só um refúgio provisório. Cristina entrou devagar, uma mão apoiada na barriga, o olhar perdido, como se ainda estivesse tentando entender a própria realidade. Meu pai veio logo atrás, mais contido, quase encolhido dentro da própria presença, como se não soubesse exatamente onde colocar as mãos ou os olhos. — Fiquem à vontade — eu disse, fechando a porta atrás de nós e tentando dar um tom de normalidade que nem eu mesma sentia. Cristina caminhou até o sofá e se sentou com cuidado, soltando um suspiro longo, daqueles que parecem sair do fundo do corpo. Meu pai permaneceu de pé por alguns segundos, observando tudo ao redor, como se estivesse entrando em um território desconhecido, até que finalmente se aproximou da mesa, ainda

Bab Lainnya
Jelajahi dan baca novel bagus secara gratis
Akses gratis ke berbagai novel bagus di aplikasi GoodNovel. Unduh buku yang kamu suka dan baca di mana saja & kapan saja.
Baca buku gratis di Aplikasi
Pindai kode untuk membaca di Aplikasi
DMCA.com Protection Status