FAZER LOGIN— Não se preocupe com isso. Você está certa, só não sei ao certo a parte de ter um bom coração — ele forçou um sorriso.
— Como não sabe? Você ajudou uma completa estranha, entrou em uma briga por mim, me alimentou e agora está me dando carona. Ainda quer saber o que aconteceu comigo e está disposto a me ajudar mais. Ninguém faria isso, ainda mais em meu estado atual; iriam querer se aproveitar de mim. — E como você sabe que eu não quero me aproveitar de você?Dava para perceber o tom de brincadeira em sua voz, mas havia algo além, uma certa malícia. Esmeralda não deveria, mas não pôde evitar morder os lábios e engolir em seco. Se aquele homem flertasse com ela, tinha certeza de que não seria forte o suficiente para resistir aos próprios desejos. Arthur também engoliu em seco, percebendo algo em seu olhar.
— Você é um bom homem, Arthur, por mais que tente pensar o contrário disso.
— Para alguém que me conheceu em menos de duas horas, você parece estar certa de que sabe muito a meu respeito — zombou ele. — Para falar a verdade, estou curiosa e gostaria de conhecê-lo mais. Só sei o que vejo. — Por que gostaria de saber mais sobre mim?Ela deu de ombros, ignorando a pergunta, e voltou a beber o refrigerante.
— Chega de falar sobre mim, vamos falar de você. Por que está na rua com esses trajes a essa hora da noite? Não sabe que é perigoso para uma mulher? Se eu não estivesse ali, só Deus sabe com que tipo de homem você poderia ter esbarrado. Existem muitos perigos nesse mundo, não vê os jornais?Lá estava Arthur carrancudo e irritado novamente, mas ele estava certo em tudo. O que ela estava pensando? Tudo por causa do cretino do seu ex. Talvez tivesse sido Deus quem a protegeu e colocou Arthur em seu caminho. Não podia correr aquele tipo de risco, ainda mais estando grávida.
Até então, nem havia refletido sobre isso; sua ficha simplesmente caiu naquele momento. Como pôde ter sido tão irresponsável? Se algum homem — ou mais de um — tivesse cruzado seu caminho naquela noite, poderia ter terminado em tragédia. Havia grandes chances de perder o bebê ou até ser encontrada morta em algum beco qualquer.
Uma dor aguda atingiu seu peito e um nó se formou em seu estômago; sentia como se fosse colocar para fora tudo o que havia comido. Não conseguiu controlar as lágrimas que começaram a cair e, quando percebeu, já estava em soluços.
— Não chore, fique calma. Você está segura. Me desculpe, não quis fazer você chorar.
Arthur parecia desesperado ao vê-la naquele estado. Por um momento, Esmeralda sentiu pena do pobre coitado que só estava passando de carro e, sem perceber, se enfiou naquela enrascada. Chorou ainda mais ao se lembrar do motivo de estar ali; parecia que um buraco havia se aberto aos seus pés e seu mundo inteiro estava desabando. A dor em seu peito parecia criar raízes.
Sentia-se ainda mais solitária do que quando perdeu Nina. A dor daquela perda parecia ainda mais forte naquele momento. Nina saberia o que fazer, estaria ao seu lado quando ninguém mais estivesse.
— Se acalme, por favor.
Arthur acariciou seu braço, tentando confortá-la. Aproximou-se, como se fosse abraçá-la, mas hesitou ao lembrar dos trajes que ela ainda usava. Esmeralda, porém, não lhe deu escolha: jogou-se em seus braços e o apertou contra si.
No início, ele pareceu surpreso, talvez até assustado; depois, a trouxe para mais perto. Arthur mostrou-se um verdadeiro cavalheiro por conseguir permanecer tanto tempo abraçado a uma mulher como ela, vestida daquela forma.
Ele beijou o topo de sua cabeça e sussurrou:
— Vai ficar tudo bem.Quando o choro finalmente deu uma trégua, Esmeralda se afastou, envergonhada. Sua maquiagem deveria estar um desastre, mesmo que o rímel fosse à prova d’água. E seu cabelo... nem queria pensar nisso.
Estava ao lado do homem mais lindo e sedutor que já havia visto, vestida de maneira inapropriada, com a maquiagem borrada e o cabelo todo bagunçado.
O que mais poderia dar errado naquela noite? Esperava que nada, afinal já havia ultrapassado o limite de vergonha e humilhação por um único dia.
Gostaria muito de ter conhecido Arthur em outras circunstâncias. Pelo carro e pelo terno, sabia que ele pertencia à classe alta — algo que seus pais certamente aprovariam.
Se não tivesse se envolvido com o traste do Vinícius, não estaria grávida e, quem sabe, teria alguma chance com Arthur. Nenhum homem iria querer se envolver com uma mulher grávida de outro. Nem mesmo sabia se teria alguma possibilidade; Arthur parecia do tipo certinho e perfeccionista. Depois de todo o vexame que havia passado ao lado dele em tão pouco tempo, tinha certeza de que já havia arruinado qualquer oportunidade.
— Não precisa me falar o que aconteceu. Só me diz uma coisa: você tem um lugar para ficar hoje?
Esse era justamente um dos problemas que Esmeralda tentava não enfrentar. Tinha a casa dos pais ou a da melhor amiga, mas sabia que, assim que chegasse, perceberiam que havia algo errado. Acabaria confessando tudo e piorando ainda mais a situação. Já havia passado por demais para um único dia.
Sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria de lidar com as consequências de seus atos. Sua barriga iria começar a crescer e, por mais que tentasse esconder, isso seria impossível. Conhecia bem seus pais: jamais aceitariam um filho de um homem sem status na alta sociedade.
Seria ainda pior quando descobrissem que ela seria mãe solteira, já que o pai da criança a traía e pretendia dar um golpe.
Não se conformava por ter acreditado nas mentiras de Vinícius. Como pôde ter sido tão ingênua?
Vivia uma vida dupla, escondendo aquele romance dos pais e sonhando com um conto de fadas em que se casaria com o grande amor de sua vida — mesmo que fosse preciso ser deserdada e fugir com ele. Haviam feito planos para o futuro, e isso incluía filhos. Mas ele pensava apenas em dinheiro.
Deveria ter percebido quando, todas as vezes que mencionava fugir ou abrir mão da herança, Vinícius discordava, dizendo que não queria que ela ficasse contra os pais, pois prezava muito pela família.
Acreditava que ele era um homem bom e que a amava incondicionalmente. Afinal, até mesmo havia sido tirado de seu posto como segurança particular e acabou trabalhando em uma empresa onde ganhava menos. Ele não demonstrava preocupação com isso; pelo contrário, dizia estar disposto a qualquer sacrifício por ela.
Ainda era difícil acreditar que tudo o que viveram não passava de mentiras. Estava sendo manipulada desde o início.
Tudo fazia parte do plano dele para dar o golpe na patricinha.
Vinícius apareceu exatamente quando ela mais precisava e foi o único a consolá-la, ajudando-a a enfrentar a dor da perda de Nina. Foi fácil entregar seu coração a ele.
Agora sabia que tudo não passava de uma farsa. Talvez ele até risse às suas custas junto da loira oxigenada que se agarrava a ele em seu apartamento. Jamais havia se sentido tão humilhada como naquele momento.
Como odiava aquele homem! Tinha vontade de voltar lá e fazer picadinho dele. Mas aquele verme não merecia que ela perdesse o réu primário.
Era bonita demais para ir presa, além de estar acostumada a certas regalias que não existiam na cadeia.
Vingar-se dele estava fora de questão, por mais que o desejo de vingança queimasse dentro de si.
Esmeralda escutou uma voz que fez um arrepio percorrer sua espinha; mordeu os lábios, insegura. Caminhou até a sala de estar e encontrou Margarida resmungando algo para Penélope, que parecia desesperada para sair dali. — Que absurdo, toda mulher deve se casar e formar uma família. Deus nos criou para ser companheira do homem e você me diz que não pensa em se casar tão cedo. Pois eu digo que deve aproveitar enquanto pode ter filhos; quando estiver velha será tarde demais. Esmeralda conteve o riso. Penélope estava pronta para rebater à altura quando Henri se levantou alegre ao notar sua presença. — Prima! — disse, aproximando-se e cumprimentando-a com um abraço.— Sobrinha, fico feliz que tenha chegado. Quem sabe, se disser sua opinião sobre o casamento, consigo colocar algum juízo nessa cabeça de vento — comentou Catarina, olhando em sua direção. Penélope encarou a cunhada com a boca aberta, como se não acreditasse no que havia escutado.— Estou tentando dizer à sua querida tia que
Assim que saíram do avião, Esmeralda sentiu o vento balançando seus cabelos. Parecia que havia segurado o ar durante muito tempo e só agora conseguia respirar novamente.Era um alívio saber que aquele pesadelo havia acabado, que poderia enfim ter paz. Arthur segurou sua cintura e beijou-lhe a testa, enquanto Pérola resmungava palavras incompreensíveis em seu colo. Ao olhar para o marido, seu coração se acalmou; parecia que um peso havia sido tirado de suas costas. Sabia que não seria fácil seguir em frente depois de tudo o que viveu, mas aqueles olhos azuis que brilhavam ao encará-la despertavam uma chama de esperança, destruindo a tristeza que a consumira nos últimos dias. Eles estavam de volta, prontos para recomeçar e criar novas memórias. Esmeralda lembrou-se das palavras que dissera à mãe no dia em que partiu: precisava se permitir ser feliz, devia isso a Nina. Sua irmã perdera a vida lutando para manter a família segura, e ela não podia se deixar afundar na tristeza e deixar
Havia outras gravações como aquelas, e Esmeralda compreendeu que o Alfa trocava peças originais destinadas a leilões por falsificadas. Não sabia como Nina havia conseguido aquelas imagens, mas podia perceber o risco enorme que correu. Algumas vinham de câmeras de segurança, outras de um celular. Um vídeo, porém, chamou sua atenção: estava nomeado como “O Alfa”. Esmeralda clicou para iniciar e suas mãos tremiam, um nó se formou em seu estômago. Estava prestes a descobrir quem era o maníaco que perseguia sua família. Era nítido que o vídeo foi gravado no quarto de Nina. Esmeralda reconhecia cada detalhe, não havia dúvida de que fora feito pela webcam. Engoliu em seco, aguardando o que viria. Nina apareceu, olhou para a câmera como se certificasse da posição correta. Estava nervosa. Pouco depois, passos ecoaram e alguém entrou. Era Carlo. Esmeralda mordeu os lábios, atônita: por que o tio estava naquela gravação? Ele fechou a porta e se aproximou de Marina, que o encarava com medo.
Esmeralda arregalou os olhos diante de tudo o que ouviu. Não queria acreditar, mas talvez Rafael tivesse razão e o Alfa fosse mesmo algum parente próximo. O choro de Pérola a fez levantar-se ainda atordoada. Imaginou que Rafael soubesse mais do que ela, mas Marina havia escondido segredos até mesmo dele. Ao se aproximar do quarto, encontrou a bebê chorando de fome. Pegou-a no colo e sentou-se na cama de Cristal, que também havia acordado. Enquanto alimentava a filha, acariciava os cabelos da sobrinha, que a observava sonolenta. Pouco depois, Cristal levantou-se e espalhou seus brinquedos pelo chão. Esmeralda sentou-se junto, com Pérola no colo, que observava a prima e gargalhava. Rafael se aproximou para beijar o rosto da filha, mas quando a menina pediu mais atenção, ele se afastou dizendo que iria tomar banho e depois voltaria para brincar. Isso deixou Cristal irritada; ela não sabia lidar bem com seus sentimentos. Pérola segurava um urso de pelúcia da prima quando Cristal se ap
João e Marta eram gentis, porém Esmeralda não conseguia sentir-se em casa; tinha a impressão de ser uma intrusa e torcia para que tudo aquilo acabasse logo. Enquanto isso, Rafael mantinha-se distante. Trocaram poucas palavras no dia em que chegaram. Esmeralda desejava um momento para conversar sobre Nina, mas sempre que tentava se aproximar, ele se afastava. De acordo com João, o café delicioso que bebiam era plantado ali mesmo, e Rafael passava os dias ajudando na lavoura. Para se aproximar dele e também ter alguma ocupação, Arthur começou a trabalhar, mesmo sem saber quase nada sobre o assunto, disposto a aprender. Esmeralda, por sua vez, preenchia os dias cuidando da sobrinha Cristal e da filha, além de ajudar Marta na cozinha. Já não se sentia um completo desastre como antes, pois Arthur havia lhe ensinado algumas coisas. Marta era calma e paciente, sempre disposta a ensinar, e Esmeralda sentia orgulho a cada receita que conseguia preparar sem cometer erros. Ainda assim, por m
A emoção tomou conta das duas. Esmeralda deu alguns passos à frente e abraçou a mãe. Aquele abraço foi diferente de todos os outros. Sentiu um peso enorme se desfazer de seus ombros; somente naquele instante teve certeza de que havia conseguido perdoá-la e compreender, ao menos em parte, suas atitudes. Catarina foi a primeira a sair do quarto. Arthur se aproximou de Esmeralda, segurando seu rosto. — Não imagina o quanto estou orgulhoso de você. É a mulher mais forte que conheço e ainda não consigo acreditar na sorte que tenho por tê-la como minha esposa — disse, beijando sua testa. — Obrigada, Arthur. Você me ajudou a seguir em frente.— Você fez o mesmo por mim, amor.……………….. Um nó se formou na garganta de Arthur ao se sentar à mesa e observar a família reunida. Seria difícil ficar longe do pai e da irmã, principalmente não ter notícias deles. Tinha esperança de que fosse por pouco tempo e que em breve estariam todos juntos novamente. O clima era pesado, dava para ver a trist







