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Capítulo 6

last update Data de publicação: 2026-05-26 19:36:17

 — Um suco de laranja, então?

— Pode ser.

— Vou pegar, fique à vontade.

Esmeralda observou enquanto Arthur virava as costas e caminhava em direção à cozinha.

 A casa era linda, organizada, e cada detalhe mostrava atenção e cuidado. Duvidava que tivesse sido ele quem escolheu tudo; havia um toque feminino no ambiente. Talvez fosse obra de uma ex, ou ele havia contratado alguém para decorar.

 Sentou-se no sofá. Pouco tempo depois, Arthur voltou trazendo dois copos de suco.

Esmeralda agradeceu e bebeu quase de um gole só, como se quisesse se preparar para a conversa que viria.

— É seu aniversário?

— Como disse? — ela arqueou a sobrancelha, surpresa com a pergunta.

— Você esteve agarrada a esse presente o caminho todo.

Então era isso que ele quis dizer. Estava tão no automático que nem lembrava da caixa de presente em suas mãos. Respirou fundo antes de decidir contar tudo. Sabia que ele era um estranho e não precisava lhe dar detalhes sobre sua vida; mas até agora Arthur havia se mostrado um homem bom, alguém que a ajudara tanto.

Compreendia sua curiosidade. Afinal, encontrara uma mulher desconhecida andando pela rua seminua; qualquer um poderia presumir que fosse prostituta ou louca. E ela não era nenhuma das duas. Talvez houvesse dúvidas quanto à sua sanidade, mas ainda não chegara ao ponto de precisar de um médico especialista.

De qualquer forma, não queria que ele pensasse mal dela. Precisava contar o que havia acontecido.

Abriu o presente e o entregou a Arthur. Ele observou atentamente. Quando pegou o teste de gravidez e o exame de ultrassom, pareceu surpreso.

— Você está grávida.

— Estou. Esse é um dos motivos pelos quais entrei nessa enrascada — suspirou ela.

— Eu entendo se não quiser me contar todos os detalhes. Sou um estranho.

— Não, tudo bem, eu quero.

Era doloroso reviver em sua mente tudo o que havia presenciado naquele dia. Por mais que seu coração estivesse partido, ainda nutria sentimentos por Vinícius. Sabia que eles não desapareceriam de repente.

Mesmo que, poucos minutos antes, tivesse tido pensamentos indecentes com Arthur, seria difícil esquecer Vinícius. Não entendia como podia sentir tanta atração por Arthur. Ele era um homem lindo e sedutor, mas nunca havia se sentido tão atraída por alguém assim.

Precisava de uma conexão mais forte para despertar sentimentos tão intensos, mesmo que fossem apenas desejo. Culpou novamente a gravidez por isso. Só podia ser. Ou talvez, com o choque da traição de Vinícius, seu cérebro estivesse tentando lhe mostrar que existiam outros peixes no oceano.

Pronto, agora havia se tornado uma daquelas pessoas que usam frases cafonas de velhos. Por que estava pensando em peixes? Sentiu uma vontade enorme de comer peixe.

Contou tudo a Arthur: desde a surpresa que preparou para o ex até o momento em que foi surpreendida ao vê-lo se agarrando com a amante.

 Arthur era um bom ouvinte; permaneceu em silêncio o tempo todo. Esmeralda não conseguiu ser forte o suficiente para conter as lágrimas que começaram a rolar. Era doloroso demais saber que havia sido traída por alguém em quem confiava tanto, a quem entregara seu coração sem que ele merecesse.

— Você, como todos que me viram na rua, deve ter pensado o pior de mim. Sinto tanta vergonha por isso. Não acredito que fui tão descuidada a ponto de me esquecer que estava seminua na rua. Eu estava tão nervosa e chocada com tudo que vivenciei que não pensei em mais nada além de sair daquele apartamento o quanto antes.

Ela cobriu o rosto, sentindo-se envergonhada.

— Ei, não se preocupe com isso. Confesso que, no primeiro instante em que te vi andando assim pelas ruas, algo do tipo passou pela minha cabeça. Mas observei melhor: você carregava uma mala de roupas e esse presente nas mãos. Nada fazia sentido, eram coisas caras, de grife.

— Ai, meu Deus, que vergonha! Tenho certeza de que todos pensaram que eu era uma prostituta sendo bancada por algum velho rico, por isso uso tudo de marca.

Mais uma vez, tampou o rosto, envergonhada.

— Não se preocupe com o que pensam. Nenhuma dessas pessoas te conhece, e você não andou muito, pelo que me contou.

— Graças a Deus você estava lá e resolveu com aquele fotógrafo. Caso contrário, se essas fotos saíssem nos sites de fofoca, eu estaria completamente ferrada.

— Não se preocupe mais com isso. Eu não tenho uma solução para os seus problemas, mas o conselho que dou é: não desista dessa criança. Não vai ser fácil; há grandes chances de seus pais não apoiarem essa decisão. Porém, também há chances de eles aceitarem, afinal será neto deles.

— Eles não vão me apoiar. Eu os conheço, sei do que são capazes.

Arthur não podia imaginar até onde eles chegariam em nome do status social. Esmeralda já havia visto Nina passar pela mesma dor. Do mesmo jeito que destruíram a vida da filha mais velha, fariam o mesmo com a caçula.

— Aconteça o que acontecer, priorize você e essa criança.

— É o que eu mais quero. Porém, sei que eles não me deixariam em paz onde quer que eu vá. Não dá para esconder segredos deles.

Por mais que Arthur fosse um bom ouvinte, ela ainda não o conhecia tão bem assim, então se calou. Havia muitos segredos e mentiras envolvendo sua família — segredos que teria de levar até o caixão. Jamais poderia compartilhar com alguém a dor que ela e Nina vivenciaram juntas.

— Me desculpe, acho que falei demais. Você me ajudou tanto hoje e eu aqui só reclamando dos meus problemas.

— Está tudo bem, eu que perguntei.

 Arthur engoliu em seco e observou como a garota estava assustada.

— Eu sei que não nos conhecemos muito bem, mas quero que saiba que, se estiver correndo algum perigo e tiver algo para me contar, eu posso tentar ajudar.

— Você, mais uma vez, bancando o herói — ela brincou.

— Estou falando sério, Esmeralda.

— Eu agradeço por isso. Mas não cabe a ninguém carregar o peso dos meus problemas, somente a mim. Terei que agir como adulta e resolvê-los.

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