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Capítulo 18

Autor: Dzel
last update Data de publicação: 2026-08-14 08:52:42

Na Rocinha o som grave dos alto-falantes de última geração fazia o chão de concreto do calçadão tremer. Eram onze horas da noite de sábado quando o carro blindado de Marcos estacionou na entrada da quadra principal da Rocinha, onde o baile funk acontecia a todo vapor. As luzes de LED coloridas cortavam a névoa de fumaça e o ar quente da noite, refletindo no mar de pessoas que dançavam e comemoravam a vitória da comunidade após o combate do início da semana.

Eu vestia um vestido preto justo que
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  • Uma médica para o morro   Capítulo 73

    O silêncio na casa do alto agora tinha valor de ouro. Depois de semanas sufocado pelo cheiro de pólvora, pelo som estridente de rádios comunicadores e pela ameaça constante das viaturas do asfalto, o morro parecia ter entrado num acordo silencioso com a minha família. A ordem que expedi para a comunidade fora clara e executada sem questionamentos: nenhum baile de favela a menos de quinhentos metros da nossa rua, nenhum disparo para o alto em comemoração, nenhuma buzina de moto estridulando nas ruelas próximas. A prioridade absoluta do império da Rocinha era o repouso de Maria Júlia e a preservação do meu filho.Eram seis da manhã quando saí do quarto no segundo andar. Caminhei descalço pelo corredor de madeira nobre para não produzir ruídos. Vestia apenas uma calça de moletom cinza, sem camisa, expondo as cicatrizes antigas de tiros e facadas que contavam a história das guerras que travei para erguer aquele lugar.No andar de baixo, na cozinha, Dona Lourdes já coava o café fresco. O a

  • Uma médica para o morro   Capítulo 72

    O recuo da Polícia Federal na entrada da favela deixara um rastro de frustração no asfalto. Enquanto os helicópteros da imprensa sobrevoavam a rotatória da Via Ápia transmitindo ao vivo a retirada das viaturas pretas, eu permanecia no meu escritório, iluminado apenas pela tela fria do computador de alta precisão que mantínhamos escondido na sala secreta do subsolo.O Paulista estava morto, e a traição dele deixara um mapa. A conta bancária fantasma que pagara a calada do rádio da contenção não pertencia a um político qualquer ou a um traficante rival; os caminhos do dinheiro levavam diretamente ao décimo quarto andar de um arranha-céu espelhado na Avenida das Américas, na Barra da Tijuca. O escritório de advocacia *Vianna, Medeiros & Associados*.Eles achavam que podiam usar ternos de grife, relógios importados e a Polícia Federal para exterminar a minha história na Rocinha. Achavam que a violência só sabia subir a favela, sem jamais cruzar a ponte de volta para a praia.— O sistema t

  • Uma médica para o morro   Capítulo 71

    O ar no subsolo do galpão de suprimentos era denso, cheirando a mofo, gasolina e o suor frio do pavor. A única luz vinha de uma lâmpada nua pendurada por um fio descascado no teto de concreto. No centro do cômodo, amarrado a uma cadeira de ferro pesada, estava o Paulista. O garoto que comia na minha mesa, que recebia o meu salário e que jurara lealdade à bandeira do morro tremia da cabeça aos pés, a respiração desordenada rasgando o silêncio do cativeiro.Aproximei-me devagar. O som das minhas botas contra o chão batido era o único aviso de que a sentença chegara.— Marcos... por favor, Marcos... — ele implorou, as lágrimas sujeiras de poeira escorrendo pelo rosto. — Eu juro pela minha mãe que eu não sabia que era pra pegar a Doutora! Eles disseram que era só pra desligar o canal por três minutos! Disseram que era assunto de carga!Parei a meio metro dele. Não gritei. Não dei um soco. A raiva no meu peito já ultrapassara a fase do barulho; era uma pedra de gelo afiada e mortal. Puxei

  • Uma médica para o morro   Capítulo 70

    O silêncio do meu quarto na casa do alto era absoluto, mas a minha mente rugia como uma tempestade. Enquanto Maria Júlia repousava na cama — o soro correndo devagar no acesso do seu braço sob o olhar vigilante do Dr. Roberto —, eu permanecia de pé junto à janela, observando o sol nascer sobre a Rocinha. A ameaça do descolamento de placenta nos obrigara a trancar a fortaleza, mas a calmaria externa era apenas uma ilusão. O fantasma daquele dia no galpão da Zona Portuária continuava a me assombrar, não apenas pela dor que causara, mas pelas perguntas sem resposta que deixara para trás.O SUV preto dos homens de Vianna não poderia ter subido o morro, dobrado as esquinas certas da comunidade e arrancado com Maju sem que as nossas contenções principais dessem o alarme. Para um carro inimigo furar a segurança sem disparar um único tiro, ele precisava de um mapa. Precisava de horários. Precisava de alguém do lado de dentro cobrindo a brecha.A porta do quarto se abriu num roçar suave. Beto p

  • Uma médica para o morro   Capítulo 69

    O silêncio do quarto nas primeiras horas da manhã não me trazia paz; trazia um alerta constante. Desde o dia do resgate no galpão, a minha mente se transformara em uma torre de vigia ininterrupta. Cada estalo na estrutura da casa, cada ruído do vento na varanda me fazia tatear a coronha da pistola no criado-mudo. Mas, naquela terça-feira ensolarada, o perigo não viria com o som de projéteis ou o urro de blindados escalando a rampa do morro. O inimigo da vez era silencioso, invisível e imune a qualquer fuzil que eu pudesse empunhar.Voltei-me para o lado na cama. Maria Júlia continuava dormindo, mas o seu descanso era inquieto. A respiração dela saía curta, e pequenas gotículas de suor frio cobriam a sua testa macia. A mão direita dela, como se operasse por puro instinto materno, permanecia cravada sobre a curva do ventre de quase cinco meses.Pousei a minha mão calejada sobre a dela com extremo cuidado.— Maju... — chamei baixo, a minha voz grave cortando a penumbra do quarto. — Meu a

  • Uma médica para o morro   Capítulo 68

    A segunda-feira trouxe uma calmaria quase irreal para a casa do alto. Depois do barulho da festa na quadra no dia anterior, o silêncio da manhã parecia um abraço demorado. O morro funcionava no seu ritmo próprio, em paz, e pela primeira vez em meses eu não precisei me levantar com o rádio estalando no ouvido ou com a pistola sobre o criado-mudo pronta para o combate. No início da tarde, a nossa sala de estar estava transformada. Dona Lourdes organizara uma mesa pequena de madeira ornamentada com ramos de oliveira e flores brancas que trouxera da feira da comunidade. Não era um evento para o morro inteiro, mas uma reunião íntima, reservada apenas para o núcleo mais sagrado da nossa vida. Beto estava sentado no sofá com uma xícara de café nas mãos, parecendo um pouco deslocado sem o colete tático, enquanto conversava baixo com o Dr. Roberto. O pai de Maju voltara ao morro, desta vez vestindo uma camisa social sem paletó, completamente integrado à atmosfera da casa. Lourdes ajeitava o

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