LOGINGISELE NARRANDO:Ăs vezes eu paro e penso em como a vida pode mudar tĂŁo rĂĄpido.Fazia alguns meses que nossa pequena Tatiana havia chegado ao mundo, e a mansĂŁo parecia ter ganhado uma nova luz. Ela era a alegria da casa inteira. Eu nĂŁo conseguia passar um dia sem pegar minha neta no colo, sentir seu cheirinho de bebĂȘ, ouvir aqueles barulhinhos fofos que ela fazia quando estava satisfeita. Rodriguinho estava completamente apaixonado pela filha, trocava fraldas no meio da noite, cantava baixinho para ela dormir, carregava ela pelo jardim enquanto contava histĂłrias que ele mesmo inventava. Thalia, mesmo ainda se recuperando emocionalmente da perda do primeiro bebĂȘ, era uma mĂŁe carinhosa e dedicada. Minha nora brilhava quando olhava para Tatiana, e eu via nos olhos dela uma força que me enchia de orgulho.Rodriguinho e Thalia haviam se mudado para a casa nova ao lado da nossa, conectada por uma passagem privada que Madah mandou construir, era lindo ver os dois construindo seu prĂłprio
THALIA NARRANDO:O dia do primeiro mĂȘs de vida da nossa pequena Tatiana foi especial de um jeito que eu nunca imaginei viver.Fizemos uma festa Ăntima, sĂł para a famĂlia e os amigos mais prĂłximos, no jardim da mansĂŁo. Eu prometi a mim mesma que iria me permitir sentir alegria plena naquele dia, nĂŁo queria que a tristeza do passado roubasse nem um segundo da vida da nossa filha, o sol estava brilhante, o cĂ©u azul, e o jardim tinha sido decorado com delicadeza: balĂ”es brancos e rosados flutuando, flores suaves espalhadas pelas mesas, uma mesa central com um bolo pequeno de um andar sĂł, coberto de flores comestĂveis e o nome âTatianaâ escrito em letras douradas.Todos se reuniram para prestigiar nossa pequena e tudo o que Rodriguinho e eu estĂĄvamos construindo. Nunca me senti tĂŁo amada. Dona Madah comprou um presente enorme, um carrinho de bebĂȘ de luxo, Dona Gisele preparou um ĂĄlbum de fotos personalizado com as primeiras imagens da neta. Meu sogro e meu avĂŽ Raphael compraram brinqued
ALINE NARRANDO:O Ășltimo ano foi o pior da minha vida, um inferno que parecia ter durado dez anos.Passei o primeiro mĂȘs inteiro na solitĂĄria, um cubĂculo cinzento, Ășmido, com uma cama de concreto coberta por um colchĂŁo fino que cheirava a mofo. A luz ficava acesa 24 horas por dia, um zumbido constante que me enlouquecia. NĂŁo tinha janela, sĂł uma fresta no alto da porta por onde passava a comida, uma papa insossa e fria que mal dava para engolir. Eu gritava por ajuda, batia na porta atĂ© os punhos sangrarem, chorava dizendo que era injusto, que eu nĂŁo tinha matado ninguĂ©m, ninguĂ©m respondia. O silĂȘncio era pior que os gritos.Quando me tiraram da solitĂĄria, fui para o convĂvio comum. Foi aĂ que o verdadeiro inferno começou. As outras detentas nos odiavam desde o primeiro dia âvadias mimadasâ. Uma turma se juntou e nos deu uma surra brutal no pĂĄtio, chutavam minha barriga, meu rosto, minhas costelas, tu tentava proteger a cabeça, mas os golpes vinham de todos os lados, Renata levou
THALIA NARRANDO:Os Ășltimos meses da minha gravidez foram um misto de ansiedade, amor e uma paz que eu nunca havia sentido antes.Depois da inauguração da academia, minha barriga cresceu rĂĄpido. Aos sete meses, eu jĂĄ sentia dificuldade para me movimentar, mas cada chute da nossa pequena Tatiana era como um lembrete de que a vida continuava, forte e teimosa, dentro de mim. Rodriguinho estava ainda mais protetor. Ele praticamente nĂŁo saĂa do meu lado quando estava em casa, dormia com a mĂŁo na minha barriga, acordava no meio da noite para me trazer ĂĄgua ou ajustar os travesseiros.â VocĂȘ e ela sĂŁo tudo pra mim â dizia ele baixinho, beijando minha barriga todas as noites.Minha madrinha tambĂ©m nĂŁo me deixava sozinha, preparava chĂĄs calmantes, massagens nos pĂ©s inchados e me contava histĂłrias da minha infĂąncia para me distrair. Dona Gisele e Dona Madah me mimavam todos os dias comprando muitos presentes para nossa pequena, o doutor Rodrigo e o senhor Raphael me tratavam como se eu fosse
THALIA NARRANDO:Certa noite, eu acordei com sede e desci para pegar ĂĄgua na cozinha. Ao passar pelo corredor do escritĂłrio, escutei a voz de Rodriguinho conversando baixinho com Dona Madah.A porta estava entreaberta.Parei por um instante, sem intenção de ouvir, mas as palavras chegaram atĂ© mim:â O jurĂdico da famĂlia estĂĄ cuidando do caso de Renata e Aline Hernandez. Uma delas ainda estĂĄ presa, mas a outra o advogado conseguiu uma liberdade provisĂłria â Eu nĂŁo quero que elas saiam tĂŁo fĂĄcil, abuela.Dona Madah respondeu com aquela voz firme e calma que eu jĂĄ conhecia bem:â Deixe comigo, tesouro... Elas vĂŁo sentir na pele o que fizeram com a Thalia... NĂŁo se preocupe.Eu preferi nĂŁo continuar ouvindo. Voltei para o quarto em silĂȘncio. Durante esses meses, eu tinha bloqueado qualquer memĂłria relacionada a Renata, Aline, Dona Adriana e o Dr. Otto. Minha mente criava uma barreira automĂĄtica, como um gatilho que eu nĂŁo queria acionar. NĂŁo era sĂł pelas humilhaçÔes que elas me fiz
THALIA NARRANDO:Os Ășltimos seis meses passaram voando, como se o tempo tivesse decidido ser gentil comigo depois de tanta dor.Antes mesmo de terminarmos a lua de mel, estĂĄvamos na Irlanda, em um pequeno vilarejo charmoso perto de Dublin. Eu comecei a passar mal de repente, tontura forte, nĂĄuseas intensas e vĂŽmitos que nĂŁo paravam. Rodriguinho ficou desesperado. Ele me levou imediatamente para um hospital local. O mĂ©dico fez os exames de rotina e, quando voltou com os resultados, tinha um sorriso surpreso no rosto.â ParabĂ©ns⊠a senhora estĂĄ grĂĄvida!Eu pisquei vĂĄrias vezes, sem conseguir processar. Fazia apenas um mĂȘs que eu havia perdido nosso primeiro bebĂȘ. A dor ainda estava fresca, ainda latejava no peito todas as noites. Eu nĂŁo conseguia acreditar. Olhei para Rodriguinho, que segurava minha mĂŁo com força, os olhos brilhando de emoção e choque ao mesmo tempo.â GrĂĄvida? â murmurei, a voz tremendo.O mĂ©dico confirmou com carinho, era muito recente, ainda nas primeiras sem







