FAZER LOGINGISELE NARRANDO:
Finalmente, o dia chegou. Acordei com as dores das contrações e, logo de início, percebi que aquela seria uma longa jornada. As dores eram indescritíveis, cada vez mais intensas. Eu mal consigo respirar, mas sabia que precisava me preparar. Lembrei da mala que tinha deixado preparada semanas antes. Coloquei a primeira roupa confortável que vi e, com dificuldade, consegui descer as escadas. Minha vizinha, uma senhora muito bondosa, me ajudou a chamar um táxi. Ela segurou minha mão por alguns momentos, enquanto eu tentava manter a calma, rezando para Virgenzinha de Guadalupe. O medo e a dor se misturavam, mas eu segui firme. Chegar ao hospital foi um colapso e, ao mesmo tempo, um choque. As luzes brancas, o cheiro de desinfetante, o burburinho dos corredores... Tudo parecia tão distante enquanto eu tentava, entre uma contração e outra, seguir as orientações da equipe médica. Eles me levaram diretamente para a sala de parto, e foi ali que as horas começaram a se arrastar. Dezesseis horas de trabalho de parto. Dezesseis horas que pareciam uma eternidade. Chegou um ponto em que pensei que não conseguiria. A exaustão, a dor, o medo... Tudo se acumulava, e eu me via sem forças. Mas, então, senti uma última e poderosa contração, seguida de um rompimento imenso. O silêncio foi quebrado pelo choro forte e estridente do meu filho. Quando ouvi aquele som, minhas lágrimas caíram imediatamente. Eu o tinha feito. Ele estava aqui. Uma enfermeira se aproximou com Rodriguinho nos braços, ainda coberto de sangue e de um líquido branco. Ele era perfeito, mesmo assim. Tão pequeno e tão forte ao mesmo tempo. O choro dele parecia ecoar dentro de mim, preenchendo cada parte do meu coração com amor e alegria. As enfermeiras se afastaram para limpá-lo, e eu fiquei ali, imóvel, enquanto me davam os pontos necessários. Cada ponto parecia uma lembrança de que eu havia passado por aquilo e saído mais forte. Depois do procedimento, fui levada para o quarto. Quando finalmente o vi limpo, em meus braços, senti uma felicidade que não consigo descrever em palavras. Ele estava com as roupinhas que eu havia separado com tanto carinho, agora limpas e cheirosas. A enfermeira tinha dado banho e arrumado tudo. Abraçando-o contra o meu peito, com seus cabelos pretinhos e a pele macia, eu sussurrei: — Mi amor, você é a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Amamentar começou de forma tranquila, mas logo se tornou um desafio. Meus seios ficaram doloridos, machucados, e pareciam que, a cada mamada, minha energia era sugada. Rodriguinho não dormia muito, e a exaustão tomava conta de mim. Mas eu era teimosa, e as enfermeiras eram muito prestativas. Uma delas me ensinou como dar o primeiro banho nele. Ver meu bebê tão pequeno na banheira, com seus olhos curiosos e indefesos, enche meu coração de ternura, apesar do cansaço. Recebi alta dois dias depois. Ao sair do hospital, pedi um táxi, e tomei um cuidado absurdo com Rodriguinho. A cada solavanco do carro, meu coração acelerava. Mas tudo deu certo, e, ao chegar em casa, senti que um novo capítulo da minha vida estava começando. Rodriguinho se adaptou bem ao nosso pequeno apartamento. Ele acordava apenas uma vez durante a noite, e o berço conjugado à minha cama me permitia pegá-lo facilmente para amamentar. Eu o observava com entusiasmo. Seus olhos castanhos e profundos lembravam tanto o pai. Às vezes, meu coração se apertava ao pensar em Rodrigo. Será que ele ia aceitar ser pai do meu filho? O que ele faria se descobrisse que é pai? E se ele pensar que eu estava tentando aplicar um golpe? Por mais que eu me envergonhasse ao lembrar daquela noite, não consegui me arrepender. Rodriguinho foi a prova de que algo de bom havia surgido em tudo. Enquanto acariciava seu rostinho delicado e cantava baixinho para ele dormir, prometi a mim mesma que faria de tudo para ser a melhor mãe que ele pudesse ter. As dicas das enfermeiras sobre usar casca de banana para curar os seios machucados funcionaram bem. O leite fluía, e meu bebê sempre estava faminto. Observá-lo dormir em meus braços me dava uma sensação de paz que eu nunca havia experimentado. Por mais difícil que fosse, eu sabia que estava preparada para o desafio. Eu sabia que, em algum lugar, Rodrigo existia, talvez ele nunca fosse conhecer o nosso filho, ou talvez o destino nos unisse de novo, de alguma forma. Até lá, eu continuaria sendo tudo o que Rodriguinho precisava. O futuro era incerto, mas, naquele momento, o amor que eu senti pelo meu filho era tudo o que importava.GISELE NARRANDO:Às vezes eu paro e penso em como a vida pode mudar tão rápido.Fazia alguns meses que nossa pequena Tatiana havia chegado ao mundo, e a mansão parecia ter ganhado uma nova luz. Ela era a alegria da casa inteira. Eu não conseguia passar um dia sem pegar minha neta no colo, sentir seu cheirinho de bebê, ouvir aqueles barulhinhos fofos que ela fazia quando estava satisfeita. Rodriguinho estava completamente apaixonado pela filha, trocava fraldas no meio da noite, cantava baixinho para ela dormir, carregava ela pelo jardim enquanto contava histórias que ele mesmo inventava. Thalia, mesmo ainda se recuperando emocionalmente da perda do primeiro bebê, era uma mãe carinhosa e dedicada. Minha nora brilhava quando olhava para Tatiana, e eu via nos olhos dela uma força que me enchia de orgulho.Rodriguinho e Thalia haviam se mudado para a casa nova ao lado da nossa, conectada por uma passagem privada que Madah mandou construir, era lindo ver os dois construindo seu próprio
THALIA NARRANDO:O dia do primeiro mês de vida da nossa pequena Tatiana foi especial de um jeito que eu nunca imaginei viver.Fizemos uma festa íntima, só para a família e os amigos mais próximos, no jardim da mansão. Eu prometi a mim mesma que iria me permitir sentir alegria plena naquele dia, não queria que a tristeza do passado roubasse nem um segundo da vida da nossa filha, o sol estava brilhante, o céu azul, e o jardim tinha sido decorado com delicadeza: balões brancos e rosados flutuando, flores suaves espalhadas pelas mesas, uma mesa central com um bolo pequeno de um andar só, coberto de flores comestíveis e o nome “Tatiana” escrito em letras douradas.Todos se reuniram para prestigiar nossa pequena e tudo o que Rodriguinho e eu estávamos construindo. Nunca me senti tão amada. Dona Madah comprou um presente enorme, um carrinho de bebê de luxo, Dona Gisele preparou um álbum de fotos personalizado com as primeiras imagens da neta. Meu sogro e meu avô Raphael compraram brinqued
ALINE NARRANDO:O último ano foi o pior da minha vida, um inferno que parecia ter durado dez anos.Passei o primeiro mês inteiro na solitária, um cubículo cinzento, úmido, com uma cama de concreto coberta por um colchão fino que cheirava a mofo. A luz ficava acesa 24 horas por dia, um zumbido constante que me enlouquecia. Não tinha janela, só uma fresta no alto da porta por onde passava a comida, uma papa insossa e fria que mal dava para engolir. Eu gritava por ajuda, batia na porta até os punhos sangrarem, chorava dizendo que era injusto, que eu não tinha matado ninguém, ninguém respondia. O silêncio era pior que os gritos.Quando me tiraram da solitária, fui para o convívio comum. Foi aí que o verdadeiro inferno começou. As outras detentas nos odiavam desde o primeiro dia “vadias mimadas”. Uma turma se juntou e nos deu uma surra brutal no pátio, chutavam minha barriga, meu rosto, minhas costelas, tu tentava proteger a cabeça, mas os golpes vinham de todos os lados, Renata levou
THALIA NARRANDO:Os últimos meses da minha gravidez foram um misto de ansiedade, amor e uma paz que eu nunca havia sentido antes.Depois da inauguração da academia, minha barriga cresceu rápido. Aos sete meses, eu já sentia dificuldade para me movimentar, mas cada chute da nossa pequena Tatiana era como um lembrete de que a vida continuava, forte e teimosa, dentro de mim. Rodriguinho estava ainda mais protetor. Ele praticamente não saía do meu lado quando estava em casa, dormia com a mão na minha barriga, acordava no meio da noite para me trazer água ou ajustar os travesseiros.— Você e ela são tudo pra mim — dizia ele baixinho, beijando minha barriga todas as noites.Minha madrinha também não me deixava sozinha, preparava chás calmantes, massagens nos pés inchados e me contava histórias da minha infância para me distrair. Dona Gisele e Dona Madah me mimavam todos os dias comprando muitos presentes para nossa pequena, o doutor Rodrigo e o senhor Raphael me tratavam como se eu fosse
THALIA NARRANDO:Certa noite, eu acordei com sede e desci para pegar água na cozinha. Ao passar pelo corredor do escritório, escutei a voz de Rodriguinho conversando baixinho com Dona Madah.A porta estava entreaberta.Parei por um instante, sem intenção de ouvir, mas as palavras chegaram até mim:— O jurídico da família está cuidando do caso de Renata e Aline Hernandez. Uma delas ainda está presa, mas a outra o advogado conseguiu uma liberdade provisória — Eu não quero que elas saiam tão fácil, abuela.Dona Madah respondeu com aquela voz firme e calma que eu já conhecia bem:— Deixe comigo, tesouro... Elas vão sentir na pele o que fizeram com a Thalia... Não se preocupe.Eu preferi não continuar ouvindo. Voltei para o quarto em silêncio. Durante esses meses, eu tinha bloqueado qualquer memória relacionada a Renata, Aline, Dona Adriana e o Dr. Otto. Minha mente criava uma barreira automática, como um gatilho que eu não queria acionar. Não era só pelas humilhações que elas me fiz
THALIA NARRANDO:Os últimos seis meses passaram voando, como se o tempo tivesse decidido ser gentil comigo depois de tanta dor.Antes mesmo de terminarmos a lua de mel, estávamos na Irlanda, em um pequeno vilarejo charmoso perto de Dublin. Eu comecei a passar mal de repente, tontura forte, náuseas intensas e vômitos que não paravam. Rodriguinho ficou desesperado. Ele me levou imediatamente para um hospital local. O médico fez os exames de rotina e, quando voltou com os resultados, tinha um sorriso surpreso no rosto.— Parabéns… a senhora está grávida!Eu pisquei várias vezes, sem conseguir processar. Fazia apenas um mês que eu havia perdido nosso primeiro bebê. A dor ainda estava fresca, ainda latejava no peito todas as noites. Eu não conseguia acreditar. Olhei para Rodriguinho, que segurava minha mão com força, os olhos brilhando de emoção e choque ao mesmo tempo.— Grávida? — murmurei, a voz tremendo.O médico confirmou com carinho, era muito recente, ainda nas primeiras sem







