LOGINGISELE NARRANDO:
Os últimos meses foram uma verdadeira montanha-russa emocional. Rodriguinho, meu filho, era o centro do meu mundo. Ele estava crescendo tão rápido, cada dia mais inteligente e com uma curiosidade infinita. Às vezes, eu me pegava encarando seu rostinho, percebendo como ele herdava os traços do pai. Os olhos castanhos profundos, a linha do queixo... era impossível não pensar em Rodrigo, mesmo que, até então, ele fosse apenas uma memória distante. A verdade, no entanto, era que a maternidade não era fácil. Na teoria, eu sabia que seria difícil, mas nada me preparou para a realidade de criar um bebê sozinho. O custo de cuidar de um recém-nascido era maior do que eu imaginava. Minhas economias foram sumindo como areia entre os dedos. Aluguel, contas de luz, água, fraldas, remédios, roupinhas... A cada mês, Rodriguinho crescia, e eu particularmente comprava mais coisas. Quando ele completou cinco meses, passei por mais um obstáculo: meu leite secou. Foi um choque. Eu havia tentado de tudo para continuar amamentando, mas meu corpo simplesmente não conseguia produzir o suficiente. Tive que recorrer às fórmulas, o que aumentou ainda mais os gastos. Era mais um item na lista interminável de despesas. Eu me senti culpada, frustrada, mas não tinha escolha. Foi aí que minha vizinha, dona Sueli, entrou mais uma vez na minha vida como um verdadeiro anjo. Ela era uma senhora aposentada, com um coração imenso. Desde que me tornei mãe, ela demonstrou um carinho especial por mim e por Rodriguinho. Sempre contava que havia criado o filho sozinho, um homem de quarenta anos que ainda morava com ela e trabalhava à noite em construções de estradas. Dona Sueli se ofereceu para cuidar de Rodriguinho para que eu pudesse encontrar um emprego. Suas palavras foram de um conforto imenso. — Gisele, minha filha, vai lá e arruma um trabalho. Eu cuido do Rodriguinho como se fosse meu netinho, sei o que você está passando. Já passei por isso. Com essa oferta generosa, comecei a procurar emprego. Fiz algumas entrevistas, mas, no fundo, o nervosismo me consumia. O medo de não conseguir dar conta do trabalho e da maternidade me acompanhava em cada entrevista, mas eu sabia que não poderia desistir. Então, um dia, recebi uma ligação de um lugar chamado “Bar do Urso”. Ficava no centro da cidade, próximo à faculdade particular mais cara e no meio do bairro nobre. Fui para a entrevista com o coração na mão, mas a necessidade me impulsionou. O dono, era um jovem simpático e muito acessível, ele se chamava Afonso, e me recebeu com um sorriso caloroso. Conversamos, e ele me explicou tudo: o bar funcionava todos os dias, e ele precisava de alguém para o turno da noite, como bartender. Ele falou sobre o salário, o adicional noturno, o vale-transporte, o vale-refeição e as gorjetas, que, segundo ele, eram generosas. — Vamos fazer um teste, Gisele. Preciso ver como você está atrás do balcão. Pode me preparar uma bebida? — ele disse, com uma voz encorajadora. Eu já tinha alguma experiência com coquetéis, então, sem hesitar, fui até o balcão e decidi preparar um “Mojito”. Peguei o rum, a hortelã fresca, o açúcar, o suco de limão, e adicionei gelo picado, finalizando com água com gás. Caprichei no sabor, garantindo que o equilíbrio entre o doce e o ácido fosse perfeito. Afonso aprovou e mostrou-se satisfeito. — Isso é exatamente o que eu estava procurando. Quando você pode começar? Eu mal podia acreditar. O trabalho seria de domingo a domingo, com uma folga por semana, das cinco da tarde às quatro da manhã nos finais de semana, e podendo sair mais cedo em dias normais. Era pesado, mas o salário valia a pena, e eu não hesitei em aceitar. — Posso começar imediatamente! — respondi, sem pensar duas vezes. Era o início de uma nova fase. Mesmo com o cansaço que sabia que viria, não pude negar a gratidão que senti por ter encontrado um emprego que garantiria o sustento de Rodriguinho. Estava pronta para enfrentar essa nova rotina, com a certeza de que, por ele, eu faria qualquer sacrifício.RENNAN NARRANDO:A manhã tinha sido um verdadeiro caos no escritório. Estava atolado com as demissões e os processos de pagamento que Claudio e eu estávamos finalizando. Os números não paravam de surgir, e minha mente já estava quase saturada. Não via a hora de concluir logo tudo o que tinha vindo resolver no México.— Aqui estão os últimos contratos, Renan — Claudio comentou, passando-me uma pilha de papéis.Peguei os documentos, mas antes de assinar, meu telefone vibrou. Era uma mensagem da Duda. Abri, esperando algo rápido, mas em vez disso, lá estava ela, linda como sempre, em uma selfie na piscina, deliciosa somente de biquíni com aquele sorriso que mexia comigo. Era inegável: Duda tinha uma intensidade que era quase impossível de ignorar.Mas eu não podia me distrair tanto. Meus planos eram claros, e tinha que manter o foco.Voltei à realidade. Estávamos no meio de uma reunião importante, e eu precisava concentrar-me. Tentei retomar a conversa com Cláudio quando, de repente, o c
DUDA NARRANDO:Eu estava saboreando uma deliciosa taça de sorvete de morango ao lado de Gisele e Rodrigo, aproveitando o clima descontraído da tarde. Rodriguinho, meu sobrinho, tirava um cochilo tranquilo sob a sombra de uma palmeira, com sua babá do lado, e eu podia sentir claramente o clima entre os dois à minha frente. Claro que percebi os olhares que Rodrigo lançou para Gisele, mas decidiu ignorar e deixá-los à vontade. Não queria ser uma presença intrusiva.A verdade era que minha atenção estava em outra coisa — ou melhor, em outra pessoa. Meu celular vibrava em cima da mesa, e cada nova mensagem que me chegava arrancava um sorriso. Era Renato. Eu me senti leve conversando com ele, mesmo ele estando ocupado na empresa. Quando ele disse o que eu estava fazendo, não resisti. Tirei algumas fotos de biquíni, nada muito ousado, mas o suficiente para mexer com ele, e enviei. Não demorou muito para que ele respondesse com sua provocação típica:"Você é deliciosa demais, pimentinha...
RODRIGO NARRANDO:O gosto amargo da tequila desceu queimando minha garganta. Já era quase meio-dia, e eu estava sentado no meu escritório, olhando para a garrafa meio vazia. O barulho do relógio na parede me irritava, e o peso da situação de Micaela rodava na minha cabeça, sem me deixar trabalhar. Especialmente a conversa com Gisele, de madrugada. Não conseguia tirar ela da cabeça, nem o jeito dela quando falamos sobre o que está acontecendo entre nós. Eu estava disposto a conquistá-la, mas era tanta coisa ao mesmo tempo...Apertei os olhos, sentindo a frustração latejar. Não dava para continuar assim. Chamei Virginia até minha sala e cancelei toda a minha agenda da tarde. Não ia adiantar me forçar a trabalhar, não com a cabeça cheia dessas questões. Peguei as chaves do carro e dirigi até meu apartamento.Quando entrei, o silêncio me recebeu. Micaela podia ficar ali, claro, mas a verdade é que o clima entre nós dois estava insuportável. As coisas estavam tensas, complicadas, e eu sab
RODRIGO NARRANDO:No dia seguinteO relógio não marcava nem sete horas e eu já estava no escritório, concentrado no meu computador. A transação que eu fazia era importante — milhões estavam em jogo, e um erro poderia custar muito. O telefone vibrou algumas vezes, mas ignorei. Não queria começar o dia me aborrecendo. Já sabia quem era.Enquanto digitava os números finais, o telefone interno tocou, era Virginia.— Diga— Senhor Rodrigo, a senhora Micaela está aqui — ela disse com a voz séria, mas educada.Suspirei profundamente, sentindo o nó da gravata me sufocar. "Ela não pode me dar um tempo?", pensei. Não tinha como evitar agora.— Deixe ela entrar — respondi, tentando manter a calma, mas já sentindo a irritação crescer.Poucos segundos depois, Micaela entrou. Ela estava impecável, como sempre. Um conjunto Chanel branco que realçava sua elegância, mas seu rosto traía todo o glamour. Olhos inchados e vermelhos, como se tivesse chorado a noite inteira. Eu conhecia bem aquele olhar.
GISELE NARRANDO:O vento gelado batia no meu rosto, cortando a pele e fazendo meus olhos lacrimejarem. O carro conversível de Rodrigo acelerava pela estrada quase deserta, e eu me encolhia no banco, cruzando os braços para tentar me aquecer. A blusa de manga longa que eu vestia era fina demais para enfrentar o frio da madrugada. Eu sabia que deveria ter pego algo mais quente antes de aceitar a carona, mas, sinceramente, não estava pensando muito quando Rodrigo ofereceu.A conversa no início foi tranquila. Falamos sobre a Mieko, a nova babá do Rodriguinho, que dona Madah havia contratado. Eu havia conversado um pouco com ela mais cedo, e a impressão era boa. Ela parecia ser mesmo uma excelente escolha: atenciosa, cuidadosa, e claramente tinha experiência com crianças. Rodrigo comentou que foi uma indicação de uma prima, que era bem exigente.— Deve ser uma boa pessoa mesmo. Eu me sinto mais tranquila em saber que o Rodriguinho está sendo bem cuidado — eu disse, tentando distrair minha
GISELE NARRANDO:Meu turno estava finalmente chegando ao fim, e não vou mentir, eu já estava no meu limite. O bar tinha ficado cheio até quase três da manhã, um verdadeiro caos. Agora, só restavam alguns copos para lavar. Foi então que eu o vi. Rodrigo entrou com sua habitual elegância, mas dessa vez, algo parecia diferente. Ele usava uma camisa preta com os primeiros botões abertos, calça social e sapatos impecáveis, como se tivesse vindo direto de alguma reunião de negócios.Ele caminhou até o balcão, sentou-se bem à minha frente e me encarou com aquele olhar indecifrável.— O que você tá fazendo aqui? — perguntei, sem esconder a surpresa.Rodrigo não era de aparecer assim, ainda mais a essa hora.— Aqui é um bar, não é? Vim beber. E boa noite pra você também — ele respondeu, claramente sóbrio, mas com um tom que eu não soube identificar de imediato.— Sim, é um bar que você não costuma frequentar — respondi, tentando manter a conversa leve. — Mas o que vai querer?Sequei as mãos e







