FAZER LOGIN*Henry*
A guerra havia acabado. O sangue inimigo finalmente parou de manchar as nossas fronteiras e o tratado de paz foi selado sob a luz da lua. Quando o Beta retornou da sua viagem à cidade humana no dia seguinte, a primeira coisa que me pediu na sala de reuniões foi um evento. — Um baile de confraternização, Alpha — ele sugeriu, as mãos calejadas apoiadas na grande mesa de carvalho. — Nosso povo sobreviveu a um ano de trevas. Eles precisam de música. Precisam celebrar a vida para lembrar pelo que estávamos lutando. Eu o encarei por um longo momento. Durante os últimos doze meses, nas trincheiras de gelo e nas tendas de comando, o pai de Elise havia se tornado a minha âncora. Ele guiou minha fúria recém-descoberta e moldou o líder que a matilha precisava. O respeito que criamos nas linhas de frente forjou um laço de parceria real entre nós. E ele sabia muito bem que eu ouvia cada um de seus conselhos com toda a minha atenção. — Você tem razão — concordei, suspirando. — Faça os preparativos para amanhã à noite. Ele assentiu, mas não recuou. O olhar do guerreiro assumiu uma frieza calculista. — Há outro motivo, Henry. Um baile é a oportunidade perfeita para você circular. Conhecer as mulheres das famílias aliadas. — Não temos tempo para cortejos. O pós-guerra ainda é muito frágil. — Exatamente por isso. — Ele cruzou os braços sobre o peito largo. — A estabilidade da nossa matilha deve ser mantida a todo custo. Você precisa escolher uma parceira logo. Alguém para marcar e assumir o posto de Luna. O povo precisa se sentir seguro. Eu sabia que ele estava certo. Meu dever agora era absoluto e deixava pouca margem para os meus próprios fantasmas. — Eu vou encontrar alguém — me rendi. Na noite seguinte, o grande salão da Casa do Alpha estava irreconhecível. As mesas de estratégia deram lugar a banquetes e arranjos de flores. A música preenchia o ar, misturando-se às risadas aliviadas dos membros da matilha. Eu estava parado em um canto isolado do salão, observando os convidados girando pelo centro. Pela primeira vez em mais de um ano, percebi que estava sorrindo. Eu havia conseguido. A paz era real. Eu estava pronto para descer os degraus, escolher uma mulher de boa família, oferecer um acordo político e fechar o último buraco na nossa defesa. Um plano seguro. E então, o ar do salão mudou. Um aroma doce e inebriante flutuou por entre a multidão e atingiu meus pulmões como um soco. Jasmim e chuva de inverno. Meu corpo inteiro travou. O mundo pareceu girar em câmera lenta. Meu lobo, que passara o último ano em um estado focado apenas na brutalidade da guerra, explodiu dentro da minha mente. Ele se contorcia em puro e absoluto êxtase, arranhando minhas costelas de dentro para fora. Eu não liguei o cheiro a ela. A lógica não teve tempo de processar a informação. A única coisa que existia era a necessidade irracional, possessiva e enlouquecedora de encontrar a fonte daquele aroma. Deixei meu posto na escada e avancei em direção à multidão. Minha respiração ficou pesada, descompassada. — Alpha? — um dos anciões chamou, mas eu não parei. Meus passos se tornaram urgentes. Comecei a empurrar os convidados para longe do meu caminho, ignorando os esbarrões agressivos e os sussurros de confusão pelo salão. Eu precisava chegar lá. A fera rosnava nas bordas da minha sanidade, frenética. Parei bruscamente perto das portas do jardim. Lá estava ela. De costas para mim. O cheiro emanava do seu corpo em ondas densas e perfeitas. Ela conversava baixinho com o Beta. Dei mais dois passos, a atração me puxando para frente com a força de um ímã letal. O som das minhas botas fez com que ela virasse a cabeça devagar. Meus pulmões pararam de funcionar. O impacto da revelação me deu um sobressalto físico. Os traços assustados e jovens haviam desaparecido. No lugar deles, havia uma beleza madura, inalcançável e devastadora. Os olhos azuis profundos me encararam sob a luz dos lustres. Era ela. A garota que eu havia quebrado junto com o laço que nos unia e que, agora, parecia mais uma vez intacto. O rugido do meu lobo soterrou o resto do mundo, ensurdecedor e dominador, e a palavra rasgou a minha garganta como uma sentença definitiva: — Minha.*Henry* A frase de Silas pairou no ar, densa e sufocante. Devorando a fronteira entre os dois. Meu lobo arranhou o interior da minha mente, os instintos de proteção em alerta máximo diante daquela constatação. Apertei a mão de Elise, sentindo o pulso dela ligeiramente acelerado contra os meus dedos. Silas suspirou, recostando-se na cadeira com a postura de alguém que já havia testemunhado aquele tipo de tragédia antes. — Agnes chama isso de anomalia, mas o termo técnico para o que estão vivenciando é laço cicatricial cruzado. O vínculo de vocês nasceu, mas foi rejeitado antes que pudesse se completar. Quando Elise finalmente escolheu você e permitiu que o laço voltasse, a conexão se reconstruiu sobre uma cicatriz mal fechada. Apertei o maxilar, a culpa que eu carregava há cinco anos voltando a queimar meu estômago. Fui eu quem rasgou aquela ferida. — Em vez de apenas unir as almas, o novo vínculo começou a confundir os limites entre elas. — Silas continuou, a voz assumindo u
*Elise* O interior da cabana de Silas estava impregnado com o cheiro rústico de incenso de sálvia e terra úmida. Sobre a grande mesa de carvalho, ele havia disposto uma série de pequenas pedras pálidas e polidas, entalhadas com runas antigas que eu não conseguia decifrar. — O mapeamento exige que eu compreenda a velocidade e a intensidade com que a magia de vocês se cruza — explicou Silas, a voz assumindo uma cadência clínica e desapaixonada. — Para separar os canais, preciso primeiro forçá-los a se manifestarem de forma isolada. Henry continuava rígido ao meu lado, os braços cruzados e a desconfiança irradiando de cada músculo do seu corpo. Silas pegou um pequeno estilete de prata. — A mão, Alpha, por favor. Henry estreitou os olhos, mas estendeu a mão direita sobre a mesa. Sem hesitar, Silas fez um corte rápido e raso na palma dele. O sangue brotou imediatamente. No mesmo milésimo de segundo, uma linha de fogo invisível cortou a minha própria palma. Eu soltei um arquej
*Elise*Corremos em silêncio durante a maior parte daquela manhã. O aviso sombrio que Henry recebera em seu sono ainda pairava sobre nós como uma nuvem pesada, mas recuar já não era uma opção. A agonia de nossas almas costuradas exigia uma resposta, e apenas um homem parecia tê-la.Quando finalmente chegamos ao refúgio de Silas Greymoor, a paisagem se transformou. Escondido no fundo de um vale sinuoso, protegido por montanhas de pedra escura, o lugar não se parecia em nada com a prisão sombria de um exilado que eu havia imaginado. Era um assentamento pacífico, composto por cabanas de madeira robustas, jardins bem cuidados e chaminés fumegantes.Enquanto entrávamos pela estrada de terra central, observei os moradores. O local abrigava lobos rejeitados, viúvos e sobreviventes de marcas forçadas. Eu esperava encontrar olhares opacos, posturas curvadas pela dor e o cheiro agridoce do desespero que geralmente acompanha corações partidos e lobos sem laço. Mas o que vi foi uma resiliência
*Henry*O amanhecer trouxe uma calmaria fria e cinzenta após a fúria da tempestade. Fiquei de pé perto da janela embaçada do nosso quarto na hospedaria, observando o pátio lamacento lá embaixo. Nossos guardas já estavam acordados.Enquanto eu observava os homens de confiança da nossa escolta, um pensamento sombrio e pegajoso se instalou na minha mente. Uma matilha é tão forte quanto seus líderes, mas a lealdade possui limites práticos quando o Alpha e a Luna compartilham uma fraqueza tão letal. Nós não éramos mais apenas companheiros, éramos um sistema falho, uma bomba-relógio caminhando. Se a notícia do nosso laço defeituoso se espalhasse, se nossos inimigos soubessem que bastava ferir Elise para derrubar o líder do Vento do Norte, seríamos os alvos mais fáceis do continente.Quanto mais pessoas soubessem o que estava acontecendo conosco, maiores seriam as chances de sermos traídos. A informação era o nosso calcanhar de Aquiles.Tomei minha decisão. Desci as escadas de madeira ran
*Elise*A dor nas minhas costelas foi tão súbita e brutal que me fez dobrar meu corpo, arfando em busca de um ar que de repente parecia escasso. A tempestade rugia ao nosso redor, a chuva transformando o mundo em um borrão cinzento e caótico, mas o som do meu próprio coração martelando nos ouvidos era ainda mais alto.Henry havia caído. Eu não precisava ver para saber, a agonia esmagadora que irradiava do nosso laço defeituoso era a prova inegável.— Luna! — um dos guardas falou através da ligação de mentes. — Precisamos recuar! — Encontrem um lugar seguro! — eu disse de volta, a água escorrendo pelo meu rosto enquanto eu me virava. — Eu vou atrás do Alpha!Ignorando os protestos, caminhei até a beira do caminho lamacento. O vínculo pulsava com um eco de dor, mas estava confuso, abafado pela tempestade e pela distância. Ele não me dava uma localização exata, apenas uma direção vaga e um sentimento de pânico cego. Fechei os olhos por um segundo, bloqueando a magia caótica, e force
*Henry*Deixamos a Matilha Vento do Norte antes do amanhecer. O ar estava gelado, cortando a pele, mas nada se comparava ao frio persistente que se instalara no meu peito. Olhei para Elise correndo ao meu lado em sua forma lupina, ladeada por nossa pequena escolta de guardas de confiança. Sua postura era tensa, os olhos cobertos por uma determinação inabalável. Eu odiava a ideia de levá-la para além das nossas fronteiras, rumo ao desconhecido, mas eu sabia que tentar deixá-la para trás seria inútil. Nossa sobrevivência agora era uma equação que só funcionava com os dois juntos.Durante os primeiros dias de viagem, decidimos usar o trajeto para entender os limites da nossa maldição. Precisávamos testar o alcance do laço. Propus um experimento: deixei Elise sob a proteção da retaguarda e corri adiante, avançando quase dois quilômetros à frente com os batedores.Conforme a distância física entre nós aumentava, percebi uma mudança sutil. O zumbido constante das emoções dela — a preocupa







