LOGIN*Elise*
A visita inesperada dos meus pais transformou o pequeno apartamento da minha tia. O cheiro familiar de terra úmida, pinheiros e lareira que eles traziam nas roupas grossas quase me derrubou de nostalgia. Era como ter um pedaço do meu lar dentro da cidade de concreto. — A guerra está praticamente no fim, querida — minha mãe disse, segurando minha mão sobre a mesa de centro. Seu sorriso era de puro alívio. — O Alpha Henry encurralou as últimas tropas inimigas no vale. Ele está prestes a declarar vitória oficial. A paz finalmente vai reinar de novo. O nome bateu nos meus ouvidos, mas o baque devastador não veio. “Henry”, repeti mentalmente, testando a palavra na minha própria consciência. Nenhuma dor lancinante. Nenhuma falta de ar. Apenas o eco distante de uma história que parecia ter acontecido com outra pessoa, em outra vida. — Fico feliz que a matilha estará segura — respondi, mantendo a voz nivelada e sincera. — Vocês merecem um pouco de paz depois de tudo. Minha tia, percebendo a leve tensão no ar, levantou-se rapidamente e chamou minha mãe para a cozinha sob o pretexto de conferir a chaleira, deixando-me a sós com o meu pai. Ele me avaliou em silêncio por um longo minuto. — Você não piscou quando ela falou o nome dele — ele pontuou, a voz baixa, cruzando os braços. — E eu deveria? — Encostei as costas no sofá. — Eu não me importo mais, pai. É indiferente. Ele assentiu devagar, os olhos perscrutadores do Beta buscando qualquer rachadura na minha armadura. — Você está bem, Elise? Digo, de verdade. Suspirei, deixando a fachada de garota da cidade cair por um instante. — Eu sobrevivo. Construí uma rotina aqui. Mas... confesso que sinto falta de casa. — Do nosso chalé? — De tudo. — Olhei para as minhas próprias mãos, lembrando da sensação da terra sob os meus pés descalços. — Sinto falta das florestas de inverno, das pessoas da nossa vila. Sinto falta da neve e das histórias dos anciões. — Engoli o nó que se formou na garganta. — Sinto falta do meu lobo, pai. Ela despertou há cinco anos e logo foi trancafiada por causa do trauma. Quase nunca conseguimos correr juntas. Eu devo anos de liberdade a ela. O olhar endurecido do meu pai suavizou de uma maneira que eu raramente via. Ele descruzou os braços e se inclinou para frente. — Já se passaram cinco longos anos desde aquela noite, Elise. Nesse momento de reconstrução, a matilha precisa de pessoas dispostas a reerguer tudo o que foi destruído. — Ele hesitou, cauteloso e escolhendo cada palavra com precisão cirúrgica. — Você acha que está pronta para voltar? Meu coração deu um pulo inesperado no peito. — Voltar? — O Alpha passa a maior parte do tempo nas tendas de comando e focado na reestruturação militar e política da matilha. Ele raramente pisa na vila principal, a não ser para reuniões de conselho. Você poderia viver na nossa casa. Ninguém ousaria incomodá-la. Mas eu só aceito isso se o seu espírito estiver verdadeiramente em paz. — Eu... eu vou pensar no assunto — prometi, a voz saindo um pouco mais fraca do que eu gostaria. Horas depois, meus pais enfrentaram a longa viagem de volta à matilha. O apartamento da minha tia mergulhou no silêncio típico da madrugada urbana, com o som distante de sirenes cortando a noite. Mas o sono não veio. Deitada na minha cama estreita, encarei o teto escuro e deixei as memórias inundarem a minha mente. Lembrei das tardes de infância correndo entre as árvores com Harry. Lembrei das risadas e do sentimento absoluto de pertencimento que só o sangue de lobo compreendia. Eu sentia falta do meu lar com uma intensidade dolorosa. Toquei o centro do meu peito, logo acima do coração. Aquele vazio esmagador, que quase me levou à loucura e à morte no passado, estava selado. Era apenas uma cicatriz antiga. Eu tinha sobrevivido à pior dor que nossa espécie poderia enfrentar. Ouvir o nome do Alpha hoje havia comprovado isso. Não havia mais paixão clandestina. Não havia dor sufocante. Havia apenas uma sobrevivente. “Eu não posso deixar que o fantasma de um bastardo rejeitado me mantenha exilada do meu próprio povo para sempre.” Sentei na cama, a decisão cristalizando-se na minha mente com clareza. Pela primeira vez em meia década, senti meu lobo se mexer de felicidade nas profundezas da minha consciência. Ela soltou um ruído baixo, concordando com a minha decisão. Nós queríamos voltar para casa. Levantei de supetão, peguei a velha mala no topo do guarda-roupa e comecei a jogar minhas roupas de frio dentro dela. Eu estava voltando. Eu só não imaginava que, nas sombras da sala do conselho da matilha, o meu pai em breve assinaria um documento com o próprio sangue, selando um destino para mim que seria infinitamente mais perigoso do que a rejeição.*Elise*A noite estava silenciosa lá fora, banhando a Casa do Alpha com a luz pálida do inverno, mas o quarto estava preenchido por um calor denso e reverente.Não havia a urgência desesperada do passado, nem o caos de um instinto mágico fora de controle. Dessa vez, cada toque era uma descoberta e uma prece. Os sussurros roucos dele roçavam minha pele, perguntando se ele podia continuar, e eu respondia a todos com uma entrega sincera, despindo-nos não apenas das roupas, mas das últimas amarras que nos afastavam.O fogo consumia nossos corpos, e a nossa proximidade se tornava febril. Henry se inclinou sobre mim, seu rosto afundando na curva do meu pescoço, onde o meu pulso batia descompassado. Senti o hálito quente dele e, em seguida, o raspar letal de suas presas recém-descidas.Naquele exato milésimo de segundo, o ar travou em meus pulmões. Quando seus dentes encostaram no meu pescoço, a memória sombria e asfixiante do terror daquela noite inundou minha mente. S
*Henry*O brilho dourado havia sido engolido pela pedra maldita, deixando para trás um rastro de escuridão e um silêncio sepulcral. Caído de joelhos, paralisado pelo pó de prata lunar, eu observei o corpo inerte de Elise sobre a terra fria. O terror de tê-la perdido esmagou meus pulmões. O cheiro dela, a essência inconfundível de jasmim e chuva que o meu lobo reconhecia como lar, havia desaparecido completamente.A prata finalmente perdeu o efeito. Arrastei-me até ela, as mãos trêmulas alcançando seu rosto.Elise abriu os olhos lentamente, o rosto pálido iluminado pela luz fria da lua. Eu prendi a respiração, esperando o baque, a rejeição ou o desespero. Mas ela apenas piscou, respirou fundo e se sentou.O olhar dela encontrou o meu. A alma humana dela ainda estava ali. E, com um vazio devastador abrindo-se no meu peito, percebi que Elise passa pela mesma experiência. A minha fera se contorcia em confusão, olhando para a mulher que eu amava sem enxergar a predest
*Elise*A lua cheia pairava alta no céu noturno, banhando o refúgio do vale em uma luz prateada e fria. Silas desenhara o círculo de runas no chão de terra com pó de prata lunar, posicionando a pedra de medição que carregava a marca de Mara no centro exato. Henry e eu estávamos sentados frente a frente, as nossas mãos firmemente entrelaçadas sobre o desenho no chão.O ritual começou.Silas recitava um cântico baixo e gutural, cujas palavras eu não conseguia decifrar. Ele caminhava lentamente ao redor do círculo, e a energia mágica zumbiu no ar, densa e pesada, fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem.Aos poucos, o milagre que tanto buscávamos começou a acontecer.Senti o momento exato em que a ressonância caótica cedeu. O zumbido constante da ansiedade de Henry, que vinha se misturando à minha nas últimas semanas, começou a retroceder, escorrendo pelas bordas da minha consciência. Senti as dores e emoções se separando. O calor possessivo dele e a urgê
*Henry*Eu encarei a pedra nas mãos trêmulas de Elise. O fio de luz púrpura pulsava no centro do cristal, espremido de forma antinatural entre a prata da alma dela e o ouro do meu lobo. Uma quarta energia. Meu sangue ferveu, o instinto de proteção rugindo contra os meus tímpanos.A porta da cabana se abriu antes que eu pudesse gritar. Silas entrou, os passos serenos cessando imediatamente ao notar a nossa postura defensiva e a luz hostil iluminando o ambiente.— O que é isso? — rosnei, avançando um passo e apontando para a pedra. — Que energia é essa, Silas? Tem mais alguém dentro dessa conexão!Silas não recuou diante do rosnado do Alpha. Ele abaixou os olhos para o cristal brilhante, e a máscara clínica e controlada que ele vestia finalmente cedeu a uma melancolia profunda, pesada e inegavelmente antiga.— Sim, Henry. Há mais alguém — ele admitiu, a voz caindo para um sussurro áspero.Ele nos deu as costas lentamente e caminhou até uma prateleira isol
*Elise*O interior da cabana de Silas estava impregnado com o cheiro rústico de incenso de sálvia e terra úmida. Sobre a grande mesa de carvalho, ele havia disposto uma série de pequenas pedras pálidas e polidas, entalhadas com runas antigas que eu não conseguia decifrar.— O mapeamento exige que eu compreenda a velocidade e a intensidade com que a magia de vocês se cruza — explicou Silas, a voz assumindo uma cadência clínica e desapaixonada. — Para separar os canais, preciso primeiro forçá-los a se manifestarem de forma isolada.Henry continuava rígido ao meu lado, os braços cruzados e a desconfiança irradiando de cada músculo do seu corpo.Silas pegou um pequeno estilete de prata.— A mão, Alpha, por favor.Henry estreitou os olhos, mas estendeu a mão direita sobre a mesa. Sem hesitar, Silas fez um corte rápido e raso na palma dele. O sangue brotou imediatamente.No mesmo milésimo de segundo, uma linha de fogo invisível cortou a minha própria palma. Eu soltei um arquejo afiado
*Henry* A frase de Silas pairou no ar, densa e sufocante. Devorando a fronteira entre os dois. Meu lobo arranhou o interior da minha mente, os instintos de proteção em alerta máximo diante daquela constatação. Apertei a mão de Elise, sentindo o pulso dela ligeiramente acelerado contra os meus dedos. Silas suspirou, recostando-se na cadeira com a postura de alguém que já havia testemunhado aquele tipo de tragédia antes. — Agnes chama isso de anomalia, mas o termo técnico para o que estão vivenciando é laço cicatricial cruzado. O vínculo de vocês nasceu, mas foi rejeitado antes que pudesse se completar. Quando Elise finalmente escolheu você e permitiu que o laço voltasse, a conexão se reconstruiu sobre uma cicatriz mal fechada. Apertei o maxilar, a culpa que eu carregava há cinco anos voltando a queimar meu estômago. Fui eu quem rasgou aquela ferida. — Em vez de apenas unir as almas, o novo vínculo começou a confundir os limites entre elas. — Silas continuou, a voz assumindo u







