Mag-log in*Elise*
A dor não era apenas física. Era um incêndio invisível que devorava minha alma de dentro para fora. Tudo havia se tornado um borrão distorcido de humilhação e agonia absoluta. O baque do meu corpo contra o chão de madeira da varanda foi a última coisa real que senti antes que o mundo escurecesse. A partir daquele instante, o tempo perdeu o sentido. Lembro-me vagamente de braços fortes me erguendo. O cheiro não era o de pinho e chuva. Era de terra molhada e folhas secas. Harry. — Elise! Aguente firme — a voz dele soava desesperada, abafada pelo zumbido constante nos meus ouvidos. "Por que ele fez isso? Por que me rejeitou?" Eu tentava gritar e exigir respostas para o céu noturno, mas apenas um soluço engasgado e o gosto de sangue escapavam pelos meus lábios. — Eu não senti o vínculo à meia-noite... e vim te procurar — Harry sussurrava enquanto corria comigo nos braços. — Eu vi o que o meu irmão fez. O desgraçado fugiu. Eu sinto muito, Elise. A enfermaria da matilha era um lugar frio. Durante dias, a febre me consumiu por completo. A rejeição do predestinado rasgava as conexões mágicas que ligavam meu lobo recém-desperto ao meu lado humano. Era como se tentassem arrancar uma parte do meu coração sem qualquer anestesia. Nas raras vezes em que a neblina da dor cedia um pouco, eu escutava as vozes ao redor da minha cama. — Os curandeiros disseram que a febre não baixa — a voz da minha mãe estava embargada pelo choro. — Ele a rejeitou sem pensar duas vezes — meu pai rosnou baixinho, contendo a fúria letal de um Beta. — Destruiu a minha filha na frente da nossa própria casa. — Alguma notícia das buscas? — Nada. Henry está sumido até agora. Cruzou a fronteira leste, pelo que os rastreadores indicam. Mas se ele não voltar logo... e se ela não superar isso... ela pode morrer. O vínculo quebrado é quase sempre fatal. "Eu vou morrer por alguém que nunca me quis." A constatação ecoava no vazio gelado que agora habitava o meu peito. Quando finalmente consegui abrir os olhos com clareza, a luz fez minha cabeça latejar. O cheiro de ervas curativas ardia nas minhas narinas. Virei o rosto devagar e encontrei Harry sentado em uma cadeira de madeira ao lado da cama. Ele parecia exausto. O cabelo claro estava bagunçado, e havia olheiras fundas sob seus olhos castanhos. — Você acordou — ele disse, soltando um suspiro pesado de alívio e surpresa. — Quanto tempo? — minha voz era um chiado fraco e arranhado. — Quase uma semana. Fechei os olhos, absorvendo o impacto. Procurei dentro de mim o fio dourado que antes me ligava a Henry. Não estava mais lá. Havia apenas uma escuridão anestesiada. — Elise... — Harry se inclinou para frente, segurando minha mão fria. — O conselho está em pânico. Meu pai está furioso com a traição e a fuga de Henry. Mas nós ainda podemos consertar isso. Abri os olhos e o encarei, a confusão nublando minha mente cansada. — O que quer dizer? — Nosso acordo inicial. Nós ainda podemos continuar com ele. Crescemos para isso, lembra? Se eu te marcar como minha agora, a mordida de um Alpha vai substituir esse vazio. Vai te curar. Você ainda seria a minha Luna. Eu cuidaria de você, prometo. A oferta era sincera e generosa. Era o dever chamando da maneira mais urgente possível. Mas a simples ideia de sentir os dentes de Harry no meu pescoço, de fingir e forçar um vínculo de almas que pertencia a outro homem, revirou meu estômago. Puxei minha mão da dele, devagar e com firmeza. — Não, Harry. — Elise, é para o bem da matilha. E, acima de tudo, para o seu bem. Você não vai sobreviver a essa tristeza sozinha. — Eu agradeço — sussurrei, sentindo as lágrimas quentes finalmente rolarem pelo meu rosto. — Mas eu não posso. Eu não serei a pessoa que vai ficar no meio de você e da sua verdadeira predestinada quando a hora dela chegar. Você merece o vínculo real, Harry. Não uma sobra quebrada de outra pessoa. Ele engoliu em seco, derrotado pela verdade implacável nas minhas palavras. Antes que ele pudesse encontrar um argumento, a porta da enfermaria foi empurrada. Meu pai entrou. Ao ver que eu estava acordada e conversando, ele ignorou a hierarquia, correu até a cama e me envolveu em um abraço protetor. — Minha menina — ele murmurou contra o meu ombro. — Você voltou para nós. Harry se levantou em silêncio, fez um leve aceno respeitoso com a cabeça e saiu do quarto, deixando-nos a sós com nosso luto. — Dói tanto, pai — eu confessei, agarrando a camisa grossa dele como se fosse minha única âncora no mundo. — Eu sei. E continuar aqui, sentindo o cheiro de quem te machucou, ouvindo o conselho exigir que você assuma um posto ao lado de Harry... isso só vai piorar a sua ferida. Afastei-me o suficiente para encará-lo. Havia uma determinação incomum e sombria no olhar do meu pai. — O que o senhor está sugerindo? — Você não é uma ferramenta política do conselho, Elise. Eu sou o Beta desta matilha, mas antes disso, sou seu pai. E eu prefiro ter uma filha longe a ter uma filha morta. — Eu não tenho para onde ir. — Você tem uma tia, irmã da sua mãe. Ela vive no mundo dos humanos, na cidade grande. É um ambiente sem lobos, sem disputas territoriais e sem magia. Para nós, é quase um exílio. — Ele segurou meu rosto entre as mãos calejadas. — Mas, talvez, lá no mundo dos humanos, você encontre um lugar seguro para você. Um lugar para se recuperar dessa dor longe de tudo que te lembra ele. Você partirá hoje, assim que a noite cair. "Hoje." O pensamento me atingiu de sobressalto. Deixar o mundo sobrenatural para trás não era apenas um recomeço. Para uma loba enfraquecida e com o espírito recém-estilhaçado, cruzar aquelas fronteiras escondida na calada da noite e ir em direção ao desconhecido poderia ser o fim definitivo de tudo. E eu, infelizmente, não tinha a menor certeza se sobreviveria à viagem.*Elise*A noite estava silenciosa lá fora, banhando a Casa do Alpha com a luz pálida do inverno, mas o quarto estava preenchido por um calor denso e reverente.Não havia a urgência desesperada do passado, nem o caos de um instinto mágico fora de controle. Dessa vez, cada toque era uma descoberta e uma prece. Os sussurros roucos dele roçavam minha pele, perguntando se ele podia continuar, e eu respondia a todos com uma entrega sincera, despindo-nos não apenas das roupas, mas das últimas amarras que nos afastavam.O fogo consumia nossos corpos, e a nossa proximidade se tornava febril. Henry se inclinou sobre mim, seu rosto afundando na curva do meu pescoço, onde o meu pulso batia descompassado. Senti o hálito quente dele e, em seguida, o raspar letal de suas presas recém-descidas.Naquele exato milésimo de segundo, o ar travou em meus pulmões. Quando seus dentes encostaram no meu pescoço, a memória sombria e asfixiante do terror daquela noite inundou minha mente. S
*Henry*O brilho dourado havia sido engolido pela pedra maldita, deixando para trás um rastro de escuridão e um silêncio sepulcral. Caído de joelhos, paralisado pelo pó de prata lunar, eu observei o corpo inerte de Elise sobre a terra fria. O terror de tê-la perdido esmagou meus pulmões. O cheiro dela, a essência inconfundível de jasmim e chuva que o meu lobo reconhecia como lar, havia desaparecido completamente.A prata finalmente perdeu o efeito. Arrastei-me até ela, as mãos trêmulas alcançando seu rosto.Elise abriu os olhos lentamente, o rosto pálido iluminado pela luz fria da lua. Eu prendi a respiração, esperando o baque, a rejeição ou o desespero. Mas ela apenas piscou, respirou fundo e se sentou.O olhar dela encontrou o meu. A alma humana dela ainda estava ali. E, com um vazio devastador abrindo-se no meu peito, percebi que Elise passa pela mesma experiência. A minha fera se contorcia em confusão, olhando para a mulher que eu amava sem enxergar a predest
*Elise*A lua cheia pairava alta no céu noturno, banhando o refúgio do vale em uma luz prateada e fria. Silas desenhara o círculo de runas no chão de terra com pó de prata lunar, posicionando a pedra de medição que carregava a marca de Mara no centro exato. Henry e eu estávamos sentados frente a frente, as nossas mãos firmemente entrelaçadas sobre o desenho no chão.O ritual começou.Silas recitava um cântico baixo e gutural, cujas palavras eu não conseguia decifrar. Ele caminhava lentamente ao redor do círculo, e a energia mágica zumbiu no ar, densa e pesada, fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem.Aos poucos, o milagre que tanto buscávamos começou a acontecer.Senti o momento exato em que a ressonância caótica cedeu. O zumbido constante da ansiedade de Henry, que vinha se misturando à minha nas últimas semanas, começou a retroceder, escorrendo pelas bordas da minha consciência. Senti as dores e emoções se separando. O calor possessivo dele e a urgê
*Henry*Eu encarei a pedra nas mãos trêmulas de Elise. O fio de luz púrpura pulsava no centro do cristal, espremido de forma antinatural entre a prata da alma dela e o ouro do meu lobo. Uma quarta energia. Meu sangue ferveu, o instinto de proteção rugindo contra os meus tímpanos.A porta da cabana se abriu antes que eu pudesse gritar. Silas entrou, os passos serenos cessando imediatamente ao notar a nossa postura defensiva e a luz hostil iluminando o ambiente.— O que é isso? — rosnei, avançando um passo e apontando para a pedra. — Que energia é essa, Silas? Tem mais alguém dentro dessa conexão!Silas não recuou diante do rosnado do Alpha. Ele abaixou os olhos para o cristal brilhante, e a máscara clínica e controlada que ele vestia finalmente cedeu a uma melancolia profunda, pesada e inegavelmente antiga.— Sim, Henry. Há mais alguém — ele admitiu, a voz caindo para um sussurro áspero.Ele nos deu as costas lentamente e caminhou até uma prateleira isol
*Elise*O interior da cabana de Silas estava impregnado com o cheiro rústico de incenso de sálvia e terra úmida. Sobre a grande mesa de carvalho, ele havia disposto uma série de pequenas pedras pálidas e polidas, entalhadas com runas antigas que eu não conseguia decifrar.— O mapeamento exige que eu compreenda a velocidade e a intensidade com que a magia de vocês se cruza — explicou Silas, a voz assumindo uma cadência clínica e desapaixonada. — Para separar os canais, preciso primeiro forçá-los a se manifestarem de forma isolada.Henry continuava rígido ao meu lado, os braços cruzados e a desconfiança irradiando de cada músculo do seu corpo.Silas pegou um pequeno estilete de prata.— A mão, Alpha, por favor.Henry estreitou os olhos, mas estendeu a mão direita sobre a mesa. Sem hesitar, Silas fez um corte rápido e raso na palma dele. O sangue brotou imediatamente.No mesmo milésimo de segundo, uma linha de fogo invisível cortou a minha própria palma. Eu soltei um arquejo afiado
*Henry* A frase de Silas pairou no ar, densa e sufocante. Devorando a fronteira entre os dois. Meu lobo arranhou o interior da minha mente, os instintos de proteção em alerta máximo diante daquela constatação. Apertei a mão de Elise, sentindo o pulso dela ligeiramente acelerado contra os meus dedos. Silas suspirou, recostando-se na cadeira com a postura de alguém que já havia testemunhado aquele tipo de tragédia antes. — Agnes chama isso de anomalia, mas o termo técnico para o que estão vivenciando é laço cicatricial cruzado. O vínculo de vocês nasceu, mas foi rejeitado antes que pudesse se completar. Quando Elise finalmente escolheu você e permitiu que o laço voltasse, a conexão se reconstruiu sobre uma cicatriz mal fechada. Apertei o maxilar, a culpa que eu carregava há cinco anos voltando a queimar meu estômago. Fui eu quem rasgou aquela ferida. — Em vez de apenas unir as almas, o novo vínculo começou a confundir os limites entre elas. — Silas continuou, a voz assumindo u







