LOGIN*Henry*
Corri até meus pulmões queimarem e o gosto de sangue inundar a minha boca. Deixei a floresta para trás, ignorando os galhos que rasgavam minhas roupas e a neve que congelava meus ossos. Cruzei a fronteira invisível que separava o território da Matilha Vento do Norte do mundo dos humanos. O chão de terra batida deu lugar ao asfalto rachado. As árvores imensas foram substituídas por postes de luz amarelada que piscavam de forma intermitente. Parei em um beco escuro, apoiando as mãos nos joelhos enquanto tentava recuperar o fôlego. A confusão nublava minha mente. Eu ofegava, tateando meu próprio peito em busca da ferida mortal. As histórias com as quais crescemos eram claras: quebrar um vínculo predestinado era uma sentença de dor física enlouquecedora. Os anciões juravam que era como ter os órgãos arrancados com as próprias mãos. Mas meu corpo estava intacto. Não havia dor física. Onde estava a agonia que deveria rasgar minhas veias? Onde estava a febre letal? Tudo o que eu sentia era um peso esmagador no espírito. Uma culpa ácida que corroía a minha sanidade ao lembrar do grito de Elise. Do jeito como ela despencou na varanda. Eu a havia estilhaçado. “O que eu fiz?” O pensamento ecoou na minha mente turbulenta. “Por que não estou morrendo?” Forcei minhas pernas a continuarem se movendo. Atravessei algumas ruas adormecidas da pequena cidade humana até chegar a uma casa modesta de tijolos à vista, no final de uma rua sem saída. A luz da varanda estava acesa. Bati na porta de madeira com urgência. Poucos segundos depois, a fechadura estalou. Uma mulher de cabelos escuros e mechas grisalhas, usando um roupão de lã grosso, me encarou. Os olhos dela, tão parecidos com os meus, se arregalaram em choque. — Henry? — A voz da minha mãe falhou. — O que você está fazendo aqui? Aconteceu alguma coisa com o Alpha? — Eu fugi, mãe — minha voz saiu como um sussurro áspero. Ela me puxou para dentro de casa num solavanco rápido, trancando a porta logo em seguida. O ambiente cheirava a chá de camomila e poeira antiga. Era um refúgio solitário, o lugar para onde ela havia sido banida há quase vinte anos, logo após o Alpha descobrir que sua verdadeira companheira não era ela. Ela conhecia a crueldade da matilha melhor do que ninguém. — Fugiu? — Ela me guiou até o sofá surrado da sala e me forçou a sentar. — Hoje era a véspera da consagração. Você deveria estar nas rondas. O que você fez? — Eu a encontrei. A minha companheira. Minha mãe paralisou, os olhos analisando cada milímetro do meu rosto pálido e suado. — Isso é algo bom, Henry. Maravilhoso. Por que você parece que viu um fantasma? Engoli em seco, puxando o ar com força. De novo, a imagem de Elise caída na porta de casa, gritando de dor invadiu a minha mente. — Eu não... eu não podia. Não com ela. Minha mãe se inclinou em minha direção, nossos rostos ficando na mesma altura. — O que houve, Henry? Quem é a sua predestinada? Minha voz saiu engasgada: — Elise. A filha do Beta. Aquela que seria a Luna de Harry. O silêncio caiu entre nós, cheio de confusão e terror. Quando minha mãe voltou a falar, sua voz estava urgente. — E você a deixou? Henry, isso é suicídio. A rejeição mata! — É exatamente isso que eu não entendo — eu murmurei, cravando os dedos no cabelo. — Eu proferi as palavras. Eu a rejeitei na frente da porta do Beta. O fio se rompeu, eu vi a luz se apagar nos olhos dela. Mas... olhe para mim. Eu não estou sentindo a dor física! Ela se ajoelhou na minha frente, colocando as mãos quentes e trêmulas sobre o meu peito, bem onde meu coração batia em um ritmo humano e constante. — Nada? Nenhuma queimação? Nenhuma febre? — ela perguntou, a voz carregada de uma cautela estranha. — Apenas a culpa. Eu a destruí, mãe. Ela era a luz daquela matilha, a noiva do meu irmão, e eu tirei tudo dela por egoísmo. Por querer ser livre. Minha mãe suspirou profundamente, retirando as mãos do meu peito. Ela desviou o olhar para o chão, como se estivesse montando um quebra-cabeça perigoso na própria mente. — As palavras da rejeição vieram de onde, Henry? — Como assim? — Vieram da sua boca, não foi? Do seu raciocínio lógico? O seu lado humano tomou a decisão de fugir para se proteger do desprezo que sofremos lá. — Mas o vínculo estilhaçou. — E o seu lobo? — Ela levantou os olhos para mim, afiados e intensos. — Onde a fera está agora? Fechei os olhos, tateando o interior da minha consciência. O espaço onde meu lobo costumava rosnar e arranhar estava envolto em uma escuridão espessa. Não havia fúria. Não havia presença. — Silencioso — respondi, abrindo os olhos. — Trancado no fundo da minha mente. Como se estivesse em torpor. Ela assentiu devagar. — Então me escute bem. Fique aqui. Fique no mundo dos humanos. E, em hipótese alguma, retorne à sua forma lupina tão cedo. — Por quê? — Porque as leis da Deusa não falham, filho. Se a sua mente humana fez a escolha, o corpo humano suportou a quebra. Mas se você deixar a fera acordar e assumir o controle... o lobo vai cobrar a conta do vínculo que perdeu. E a dor que você não está sentindo agora vai te encontrar. O aviso dela desceu como chumbo pelo meu estômago. Eu estava vivendo um tempo emprestado. Um erro nas engrenagens do destino. A exaustão final me atingiu. Deitei a cabeça no encosto do sofá, observando os primeiros raios de sol invadirem a janela da sala através das frestas da cortina. O mundo começava a acordar, mas o meu parecia ter acabado para sempre. Juntei as mãos sobre o colo e fechei os olhos. “Deusa da Lua,” orei em silêncio, sentindo uma lágrima solitária traçar um caminho quente pela minha bochecha. “Tenha piedade da garota que eu amaldiçoei.” Eu só podia torcer. Torcer com todas as minhas forças para que a morte de Elise não recaísse sobre as minhas mãos. Foi então que um som cortou a calmaria da manhã. Não veio da rua, nem do rádio antigo da minha mãe. Veio de dentro da minha própria cabeça. Um choro baixo, animalesco e contínuo, que me fez prender a respiração, indicando que as correntes que prendiam o meu lado lobo estavam começando a ceder.*Elise*A noite estava silenciosa lá fora, banhando a Casa do Alpha com a luz pálida do inverno, mas o quarto estava preenchido por um calor denso e reverente.Não havia a urgência desesperada do passado, nem o caos de um instinto mágico fora de controle. Dessa vez, cada toque era uma descoberta e uma prece. Os sussurros roucos dele roçavam minha pele, perguntando se ele podia continuar, e eu respondia a todos com uma entrega sincera, despindo-nos não apenas das roupas, mas das últimas amarras que nos afastavam.O fogo consumia nossos corpos, e a nossa proximidade se tornava febril. Henry se inclinou sobre mim, seu rosto afundando na curva do meu pescoço, onde o meu pulso batia descompassado. Senti o hálito quente dele e, em seguida, o raspar letal de suas presas recém-descidas.Naquele exato milésimo de segundo, o ar travou em meus pulmões. Quando seus dentes encostaram no meu pescoço, a memória sombria e asfixiante do terror daquela noite inundou minha mente. S
*Henry*O brilho dourado havia sido engolido pela pedra maldita, deixando para trás um rastro de escuridão e um silêncio sepulcral. Caído de joelhos, paralisado pelo pó de prata lunar, eu observei o corpo inerte de Elise sobre a terra fria. O terror de tê-la perdido esmagou meus pulmões. O cheiro dela, a essência inconfundível de jasmim e chuva que o meu lobo reconhecia como lar, havia desaparecido completamente.A prata finalmente perdeu o efeito. Arrastei-me até ela, as mãos trêmulas alcançando seu rosto.Elise abriu os olhos lentamente, o rosto pálido iluminado pela luz fria da lua. Eu prendi a respiração, esperando o baque, a rejeição ou o desespero. Mas ela apenas piscou, respirou fundo e se sentou.O olhar dela encontrou o meu. A alma humana dela ainda estava ali. E, com um vazio devastador abrindo-se no meu peito, percebi que Elise passa pela mesma experiência. A minha fera se contorcia em confusão, olhando para a mulher que eu amava sem enxergar a predest
*Elise*A lua cheia pairava alta no céu noturno, banhando o refúgio do vale em uma luz prateada e fria. Silas desenhara o círculo de runas no chão de terra com pó de prata lunar, posicionando a pedra de medição que carregava a marca de Mara no centro exato. Henry e eu estávamos sentados frente a frente, as nossas mãos firmemente entrelaçadas sobre o desenho no chão.O ritual começou.Silas recitava um cântico baixo e gutural, cujas palavras eu não conseguia decifrar. Ele caminhava lentamente ao redor do círculo, e a energia mágica zumbiu no ar, densa e pesada, fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem.Aos poucos, o milagre que tanto buscávamos começou a acontecer.Senti o momento exato em que a ressonância caótica cedeu. O zumbido constante da ansiedade de Henry, que vinha se misturando à minha nas últimas semanas, começou a retroceder, escorrendo pelas bordas da minha consciência. Senti as dores e emoções se separando. O calor possessivo dele e a urgê
*Henry*Eu encarei a pedra nas mãos trêmulas de Elise. O fio de luz púrpura pulsava no centro do cristal, espremido de forma antinatural entre a prata da alma dela e o ouro do meu lobo. Uma quarta energia. Meu sangue ferveu, o instinto de proteção rugindo contra os meus tímpanos.A porta da cabana se abriu antes que eu pudesse gritar. Silas entrou, os passos serenos cessando imediatamente ao notar a nossa postura defensiva e a luz hostil iluminando o ambiente.— O que é isso? — rosnei, avançando um passo e apontando para a pedra. — Que energia é essa, Silas? Tem mais alguém dentro dessa conexão!Silas não recuou diante do rosnado do Alpha. Ele abaixou os olhos para o cristal brilhante, e a máscara clínica e controlada que ele vestia finalmente cedeu a uma melancolia profunda, pesada e inegavelmente antiga.— Sim, Henry. Há mais alguém — ele admitiu, a voz caindo para um sussurro áspero.Ele nos deu as costas lentamente e caminhou até uma prateleira isol
*Elise*O interior da cabana de Silas estava impregnado com o cheiro rústico de incenso de sálvia e terra úmida. Sobre a grande mesa de carvalho, ele havia disposto uma série de pequenas pedras pálidas e polidas, entalhadas com runas antigas que eu não conseguia decifrar.— O mapeamento exige que eu compreenda a velocidade e a intensidade com que a magia de vocês se cruza — explicou Silas, a voz assumindo uma cadência clínica e desapaixonada. — Para separar os canais, preciso primeiro forçá-los a se manifestarem de forma isolada.Henry continuava rígido ao meu lado, os braços cruzados e a desconfiança irradiando de cada músculo do seu corpo.Silas pegou um pequeno estilete de prata.— A mão, Alpha, por favor.Henry estreitou os olhos, mas estendeu a mão direita sobre a mesa. Sem hesitar, Silas fez um corte rápido e raso na palma dele. O sangue brotou imediatamente.No mesmo milésimo de segundo, uma linha de fogo invisível cortou a minha própria palma. Eu soltei um arquejo afiado
*Henry* A frase de Silas pairou no ar, densa e sufocante. Devorando a fronteira entre os dois. Meu lobo arranhou o interior da minha mente, os instintos de proteção em alerta máximo diante daquela constatação. Apertei a mão de Elise, sentindo o pulso dela ligeiramente acelerado contra os meus dedos. Silas suspirou, recostando-se na cadeira com a postura de alguém que já havia testemunhado aquele tipo de tragédia antes. — Agnes chama isso de anomalia, mas o termo técnico para o que estão vivenciando é laço cicatricial cruzado. O vínculo de vocês nasceu, mas foi rejeitado antes que pudesse se completar. Quando Elise finalmente escolheu você e permitiu que o laço voltasse, a conexão se reconstruiu sobre uma cicatriz mal fechada. Apertei o maxilar, a culpa que eu carregava há cinco anos voltando a queimar meu estômago. Fui eu quem rasgou aquela ferida. — Em vez de apenas unir as almas, o novo vínculo começou a confundir os limites entre elas. — Silas continuou, a voz assumindo u







