FAZER LOGIN*Elise*
O cheiro de asfalto molhado e poluição já não me causava náuseas. Quatro anos vivendo na cidade grande haviam anestesiado meus sentidos lupinos o suficiente para que eu me misturasse à multidão. Segurei as alças da mochila com mais força e apressei o passo em direção ao apartamento da minha tia, repassando mentalmente a matéria da aula de economia. O vazio no meu peito ainda estava lá. Uma cratera invisível e fria, onde outrora a corda dourada do vínculo de companheiros havia brilhado. Na maior parte dos dias, eu conseguia ignorar o buraco. O tempo não curou a ferida, mas me ensinou a conviver com a dor. Dentro da minha mente, meu lobo se aninhava no escuro. Ela era uma criatura traumatizada, que raramente tomava o controle, mas que roçava a cabeça na minha consciência de vez em quando, oferecendo uma companhia quase fraternal. Nós éramos duas sobreviventes. Abri a porta do apartamento e o silêncio pesado me atingiu antes mesmo que eu tirasse os sapatos. Minha tia estava parada no centro da sala miúda. O telefone sem fio pendia frouxo em sua mão esquerda. O rosto dela estava pálido como cera, os olhos arregalados, fixos em mim. — O que aconteceu? — perguntei, deixando a mochila escorregar para o chão. — Era o seu pai — a voz dela tremia. — A matilha sofreu uma emboscada perto da fronteira norte. Uma invasão de um grupo inimigo. O ar sumiu dos meus pulmões. O instinto de proteção rugiu fraco dentro de mim. — Meu pai está bem? E a minha mãe? — Eles estão bem. Mas... o Alpha foi morto na batalha. Ele e o filho. "O filho." As duas palavras bateram em mim com a força de um caminhão. Uma dor lancinante cortou meu estômago. Minhas pernas vacilaram, e precisei me apoiar na borda do sofá. "Henry está morto", meu cérebro gritou, o pânico me cegando por um milésimo de segundo. Mas a lógica interveio, fria e implacável. Henry não lutava mais na linha de frente. Henry não morava mais lá. O filho que cavalgava ao lado do pai para defender o território, o filho leal e herdeiro legítimo da Matilha Vento do Norte, era outro. — Harry — sussurrei, levando a mão à boca enquanto a primeira lágrima escorria. — Harry está morto. A viagem de volta às terras da matilha foi um borrão letárgico. A cada quilômetro que o ônibus avançava em direção às montanhas, o frio do norte parecia se infiltrar mais fundo nos meus ossos. As notícias, no entanto, haviam chegado tarde demais. A tradição exigia que os líderes tombados fossem devolvidos à terra na primeira luz do amanhecer. Eu havia perdido o enterro. Quando a tarde cinzenta começou a cair, eu finalmente alcancei o cemitério da matilha, no topo da colina. O local estava vazio, marcado apenas pelas coroas de flores frescas e pelo cheiro de terra remexida. Ajoelhei-me na neve rala diante da lápide de granito que carregava o nome dele. — Você prometeu que viria me visitar na cidade nas suas próximas férias — murmurei, a voz embargada, passando os dedos trêmulos sobre as letras cravadas na pedra. O vento sibilou por entre os pinheiros, parecendo carregar a ausência dele. — Eu senti tanto a sua falta, Harry. — Puxei o ar com dificuldade, tentando conter os soluços. — Aquelas mensagens que você me mandava de madrugada, quando o dever de futuro Alpha não te deixava dormir... elas foram a única coisa que me manteve inteira no começo do meu exílio. Saber que você estava do outro lado, torcendo por mim... como eu vou continuar agora? Chorei até meus olhos queimarem, despejando quatro anos de saudade contida sobre a terra fria. Despedir-me do garoto que eu considerava um irmão era como perder mais um pedaço da minha alma. Limpei o rosto nas costas das mãos e respirei fundo, absorvendo a realidade daquela perda. Apoiei as mãos nos joelhos e me levantei devagar. O som de passos esmagando a neve soou logo atrás de mim. Virei-me rapidamente. Meu pai estava parado a poucos metros de distância, vestido com roupas escuras de luto, o rosto envelhecido pela tragédia. — Eu sabia que você viria direto para cá — ele disse, a voz cansada, mas os olhos carregavam um alerta elétrico. — Eu precisava me despedir, pai. Ele encurtou a distância entre nós e segurou meus braços com força, olhando ao redor como se esperasse que fôssemos atacados a qualquer instante. — A sua despedida acabou, Elise. Você precisa dar meia-volta e deixar as terras da matilha agora mesmo. — O quê? Por quê? Eu acabei de chegar! — Meus olhos marejaram de novo, diante da perspectiva de que meu pai, meu tão amado pai estava me mandando embora mais uma vez. — Quero ver a minha mãe. A matilha está em guerra, vocês precisam de ajuda! — Você não entende — meu pai cortou, o tom de voz perigosamente baixo. — O sangue do Alpha chamou o último herdeiro vivo de volta para a linha de sucessão. Um arrepio subiu pela minha espinha. A ficha caiu. — Ele está chegando, Elise. Estávamos esperando ele na divisa — meu pai apertou meu braço, me puxando na direção da saída. — Henry está voltando para assumir o posto de Alpha. E ele não pode te encontrar aqui. O som de um motor potente rugindo pelas estradas de terra na base da colina ecoou pelo vale, calando os pássaros e anunciando que o nosso tempo havia acabado. E meu pai tinha razão. Se a matilha seria, mais uma vez, a casa de Henry... Então ela não poderia ser a minha casa.*Henry* A frase de Silas pairou no ar, densa e sufocante. Devorando a fronteira entre os dois. Meu lobo arranhou o interior da minha mente, os instintos de proteção em alerta máximo diante daquela constatação. Apertei a mão de Elise, sentindo o pulso dela ligeiramente acelerado contra os meus dedos. Silas suspirou, recostando-se na cadeira com a postura de alguém que já havia testemunhado aquele tipo de tragédia antes. — Agnes chama isso de anomalia, mas o termo técnico para o que estão vivenciando é laço cicatricial cruzado. O vínculo de vocês nasceu, mas foi rejeitado antes que pudesse se completar. Quando Elise finalmente escolheu você e permitiu que o laço voltasse, a conexão se reconstruiu sobre uma cicatriz mal fechada. Apertei o maxilar, a culpa que eu carregava há cinco anos voltando a queimar meu estômago. Fui eu quem rasgou aquela ferida. — Em vez de apenas unir as almas, o novo vínculo começou a confundir os limites entre elas. — Silas continuou, a voz assumindo u
*Elise* O interior da cabana de Silas estava impregnado com o cheiro rústico de incenso de sálvia e terra úmida. Sobre a grande mesa de carvalho, ele havia disposto uma série de pequenas pedras pálidas e polidas, entalhadas com runas antigas que eu não conseguia decifrar. — O mapeamento exige que eu compreenda a velocidade e a intensidade com que a magia de vocês se cruza — explicou Silas, a voz assumindo uma cadência clínica e desapaixonada. — Para separar os canais, preciso primeiro forçá-los a se manifestarem de forma isolada. Henry continuava rígido ao meu lado, os braços cruzados e a desconfiança irradiando de cada músculo do seu corpo. Silas pegou um pequeno estilete de prata. — A mão, Alpha, por favor. Henry estreitou os olhos, mas estendeu a mão direita sobre a mesa. Sem hesitar, Silas fez um corte rápido e raso na palma dele. O sangue brotou imediatamente. No mesmo milésimo de segundo, uma linha de fogo invisível cortou a minha própria palma. Eu soltei um arquej
*Elise*Corremos em silêncio durante a maior parte daquela manhã. O aviso sombrio que Henry recebera em seu sono ainda pairava sobre nós como uma nuvem pesada, mas recuar já não era uma opção. A agonia de nossas almas costuradas exigia uma resposta, e apenas um homem parecia tê-la.Quando finalmente chegamos ao refúgio de Silas Greymoor, a paisagem se transformou. Escondido no fundo de um vale sinuoso, protegido por montanhas de pedra escura, o lugar não se parecia em nada com a prisão sombria de um exilado que eu havia imaginado. Era um assentamento pacífico, composto por cabanas de madeira robustas, jardins bem cuidados e chaminés fumegantes.Enquanto entrávamos pela estrada de terra central, observei os moradores. O local abrigava lobos rejeitados, viúvos e sobreviventes de marcas forçadas. Eu esperava encontrar olhares opacos, posturas curvadas pela dor e o cheiro agridoce do desespero que geralmente acompanha corações partidos e lobos sem laço. Mas o que vi foi uma resiliência
*Henry*O amanhecer trouxe uma calmaria fria e cinzenta após a fúria da tempestade. Fiquei de pé perto da janela embaçada do nosso quarto na hospedaria, observando o pátio lamacento lá embaixo. Nossos guardas já estavam acordados.Enquanto eu observava os homens de confiança da nossa escolta, um pensamento sombrio e pegajoso se instalou na minha mente. Uma matilha é tão forte quanto seus líderes, mas a lealdade possui limites práticos quando o Alpha e a Luna compartilham uma fraqueza tão letal. Nós não éramos mais apenas companheiros, éramos um sistema falho, uma bomba-relógio caminhando. Se a notícia do nosso laço defeituoso se espalhasse, se nossos inimigos soubessem que bastava ferir Elise para derrubar o líder do Vento do Norte, seríamos os alvos mais fáceis do continente.Quanto mais pessoas soubessem o que estava acontecendo conosco, maiores seriam as chances de sermos traídos. A informação era o nosso calcanhar de Aquiles.Tomei minha decisão. Desci as escadas de madeira ran
*Elise*A dor nas minhas costelas foi tão súbita e brutal que me fez dobrar meu corpo, arfando em busca de um ar que de repente parecia escasso. A tempestade rugia ao nosso redor, a chuva transformando o mundo em um borrão cinzento e caótico, mas o som do meu próprio coração martelando nos ouvidos era ainda mais alto.Henry havia caído. Eu não precisava ver para saber, a agonia esmagadora que irradiava do nosso laço defeituoso era a prova inegável.— Luna! — um dos guardas falou através da ligação de mentes. — Precisamos recuar! — Encontrem um lugar seguro! — eu disse de volta, a água escorrendo pelo meu rosto enquanto eu me virava. — Eu vou atrás do Alpha!Ignorando os protestos, caminhei até a beira do caminho lamacento. O vínculo pulsava com um eco de dor, mas estava confuso, abafado pela tempestade e pela distância. Ele não me dava uma localização exata, apenas uma direção vaga e um sentimento de pânico cego. Fechei os olhos por um segundo, bloqueando a magia caótica, e force
*Henry*Deixamos a Matilha Vento do Norte antes do amanhecer. O ar estava gelado, cortando a pele, mas nada se comparava ao frio persistente que se instalara no meu peito. Olhei para Elise correndo ao meu lado em sua forma lupina, ladeada por nossa pequena escolta de guardas de confiança. Sua postura era tensa, os olhos cobertos por uma determinação inabalável. Eu odiava a ideia de levá-la para além das nossas fronteiras, rumo ao desconhecido, mas eu sabia que tentar deixá-la para trás seria inútil. Nossa sobrevivência agora era uma equação que só funcionava com os dois juntos.Durante os primeiros dias de viagem, decidimos usar o trajeto para entender os limites da nossa maldição. Precisávamos testar o alcance do laço. Propus um experimento: deixei Elise sob a proteção da retaguarda e corri adiante, avançando quase dois quilômetros à frente com os batedores.Conforme a distância física entre nós aumentava, percebi uma mudança sutil. O zumbido constante das emoções dela — a preocupa







