Home / Romance / Vendida Para o Ceo Dominante / Capítulo 4 – A Casa Estranha

Share

Capítulo 4 – A Casa Estranha

Author: Rosana Lyra
last update publish date: 2026-04-23 04:30:34

Angel

O ar daquela noite estava diferente. Pesado. Parado, como se o tempo tivesse esquecido de correr.

O relógio da parede marca quase nove horas quando ouço o som da porta da frente se abrir. Meu pai entra. O ruído de seus sapatos no piso ecoa vazio, medido, mas sem pressa. Sempre que ele chega nesse horário, quase posso adivinhar o cheiro antes de vê-lo, uísque caro misturado a algo forte e amargo, como culpa.

Mas hoje tem algo diferente no ar. Ele larga as chaves sobre a mesa de centro e tira o casaco com movimentos calculados. Os olhos dele passam por mim rápido demais, frios, sem me enxergar de verdade.

— Pai? — minha voz sai baixa, hesitante. — Tudo bem?

Ele me ignora. Enche um copo com uísque e se senta no sofá. O som do líquido caindo na borda do cristal é o único ruído que preenche a sala. Então, sem me olhar, ele chama:

— Alice. Esmeralda.

As duas funcionárias aparecem no mesmo instante, uma ao lado da outra. O rosto preocupado de Alice, o olhar incerto de Esmeralda. Ele não levanta o olhar, apenas dá uma ordem seca:

— Vão até o quarto da Angel, entrem no closet.

As duas se entreolham, confusas.

— Empacotem tudo. Agora. — ele diz, sem levantar a voz.

Minhas mãos gelam.

— O quê? — pergunto, sem acreditar que ouvi direito. — Pai… o que está acontecendo?

Nenhuma resposta. Ele vira o copo de uma só vez, como se cada gole apagasse mais um pedaço dele.

— Pai, olha pra mim! — insisto, dando um passo à frente. — Onde eu vou? Por quê está mandando empacotar minhas coisas?

Nada. Ele se serve de mais uísque, a testa brilhando sob a luz do lustre. O cheiro de bebida toma o ar, pesado, sufocante.

Alice e Esmeralda me olham, hesitantes.

— Senhor Heitor, tem certeza de que…

— Eu disse agora. — ele corta, a voz ríspida.

As duas desaparecem apressadas pelas escadas.

Minhas pernas tremem. Eu queria acreditar que é um mal-entendido, algum surto passageiro, algo que ele vai explicar em minutos. Mas ele continua ali, sentado, com o mesmo olhar vazio, como se eu nem existisse naquela sala.

Ouço o eco das gavetas sendo abertas lá em cima. O som dos cabides rangendo dentro do closet. Minhas roupas sendo arrancadas sem cuidado, o zíper das malas correndo. Cada barulho desses dói como se arrancassem um pedaço da minha pele.

— Pai... — sussurro, com a voz quase quebrando. — Por favor, me diz o que está acontecendo.

Ele continua olhando para o copo com tanto foco que parece ver o fundo dele como um abismo particular.

Eu me aproximo, ajoelho à frente dele, tentando forçar o contato com os olhos. Mas quando o rosto dele encontra o meu, tudo o que vejo é um deserto. Nenhum sentimento, nenhuma faísca do homem que um dia me ensinou a nadar, que ria das minhas histórias, que me chamava de “minha pequena”.

— Você está me assustando… — eu digo, tentando conter o choro.

Ele leva o copo à boca e bebe, ignorando completamente o que acabou de ouvir. Por dentro eu sinto o medo crescer, uma coisa viva que se espalha no peito. A sensação de que algo horrível está prestes a acontecer.

E então, a campainha toca. Um som grave, metálico, que corta o ar. Meu pai recosta no sofá, exala um suspiro profundo e fecha os olhos por um segundo, como quem esperava por esse momento.

— Pai, quem é? — pergunto, o coração acelerando.

Sem responder, ele estende o copo vazio, observa o brilho do cristal, e deixa o silêncio me torturar. O som dos passos ecoa do corredor. Alguém cruza a porta da frente antes mesmo que a funcionária possa pedir para esperar.

E, quando vejo aquele homem entrar, o chão parece fugir sob meus pés. Ele é mais alto do que qualquer um que eu já tenha visto. Alto, 1,96 talvez. O tipo de presença que faz o ambiente ceder.

O terno escuro parece moldado ao corpo dele, o relógio no pulso brilha sob a luz, o olhar é tão frio e calculado que me atravessa.

— Boa noite, senhor Sanchez. — ele diz, com a voz grave, controlada, porém cortante. Cada sílaba sai polida, mas carregada de poder. — Vim buscar o que é meu.

O som da voz dele é uma mistura de ferro e veludo. Um tom sereno que provoca arrepio. Meu corpo inteiro endurece. Meu pai se limita a balançar a cabeça, sem sequer levantar do sofá.

— Está tudo arrumado — diz meu pai, como se falasse de uma remessa de mercadoria.

O homem de terno volta o olhar para mim. E quando o faz, sinto o ar sumir dos meus pulmões. O nome dele cai na minha mente antes mesmo que ele o pronuncie. Eu o conheço das revistas, das notícias, dos boatos. O magnata. O homem que construiu um império. O mesmo que dizem que arrasa concorrentes com um sorriso.

Damon Laurent.

O Ceo que comprou a maior de Boston. O homem que não erra. E que, diante de mim, parece mais sombra do que carne.

Atrás dele, entram alguns seguranças. Homens uniformizados, expressão neutra, postura firme. Eles se espalham como se a casa fosse deles.

Meu instinto grita. Damon dá um passo em minha direção. O coração b**e tão alto que parece ecoar pelo salão.

Meu pai não olha pra mim, não diz uma palavra. Apenas leva o copo aos lábios novamente, como se quisesse apagar o som da minha voz com mais álcool.

Ele não se move. E é aí que eu percebo… aquele homem não me pertence mais. Ele está vazio. Morto por dentro.

A sala parece encolher. Damon continua ali, parado, observando tudo com a calma de quem já venceu. E eu não tenho ideia do que vai acontecer.

Continue to read this book for free
Scan code to download App

Latest chapter

  • Vendida Para o Ceo Dominante    Capítulo 102 – Contrato, Inferno e Paraíso

    Damon Voltar pra casa depois do hospital foi ganhar uma segunda vida. Uma vida com algumas limitações, segundo a minha adorável carcereira grávida.— Você não vai se esforçar. — Angel decretou, assim que pisamos de volta na mansão. — Nada de pegar peso, nada de dirigir por enquanto, nada de…— Nada de fazer amor com você também? — interrompi, indignado. — Porque isso, pra mim, é esforço necessário de sobrevivência.Ela tentou segurar o sorriso.Falhou.— Você precisa se abster de coisas que possam te mandar de volta pro hospital, grandão. — rebateu. — E eu não vou explicar pro médico que você abriu ponto porque não sabe se controlar na cama.Eu sabia que ela estava certa. Não quer dizer que eu gostei. Mas, pela primeira vez na vida, resolvi que valia mais a pena obedecer do que provocar enfarte coletivo na minha família.Alguns dias depois, a intimação chegou. Audiência do julgamento da Aimee. Eu ainda sentia dor nos lugares em que as balas tinham me atravessado, mas fiz questão de

  • Vendida Para o Ceo Dominante    Capítulo 101 – Até o Fim

    Abby Eu já passei por muita coisa nessa vida. Já vi meu irmão voltar pra casa sujo de sangue que não era dele. Já esperei ligação de madrugada com o coração na mão.Já tive medo real de acordar órfã de irmão, pai, mãe, tudo de uma vez. Mas nenhuma daquelas vezes foi como agora.Damon acordou. Está fora de perigo. Logo vai voltar pra casa. Só essa frase já muda a cor do mundo pra mim.Nos dias seguintes à alta dele, eu praticamente me mudo pro ateliê menor da mansão. Pinto como se a tinta fosse a única coisa capaz de organizar o caos dentro de mim.Damon anda mais devagar pela casa, mas anda. O ombro ainda dói, o peito ainda reclama, mas ele está de pé.Angel sorri mais. Passa a mão na barriga o tempo todo. Hope. Nossa Hope. É como se a casa inteira tivesse respirado de novo.Eu estou no ateliê, concentrada em um quadro que insiste em não sair como eu quero, quando ouço a porta da frente bater diferente.Passos mais pesados. Vozerio rápido dos funcionários ajudando com alguma coisa.

  • Vendida Para o Ceo Dominante    Capítulo 100 – Uma Segunda Chance

    Damon Eu sempre disse que, quando morresse, ia direto pro inferno. Faria sentido. Mas, quando tudo apaga, não é bem isso que acontece.Eu abro os olhos e estou na mansão. Ou numa versão dela. O lugar parece mais… leve. As paredes são as mesmas, a arquitetura é a mesma, mas as cores estão mais vivas, a luz mais clara, o ar menos pesado.Saio pela porta de entrada e vou pro jardim. Até as flores estão diferentes. Mais cheias, mais coloridas, como se alguém tivesse pego um filtro de foto e aumentado a saturação da vida.Eu ando devagar. Se estou morto, não tenho horário. Nenhum compromisso. Nenhum velho do conselho reclamando da minha ausência.Por um breve momento, sinto falta de tudo. Da voz da Angel me chamando de “insaciável”. Da risada da Abby ecoando pelo corredor. Do Pietro reclamando que eu sou imprudente.Mas eu não posso chamar por eles. Não se estou morto. O silêncio é estranho.Eu continuo andando até chegar no meio do jardim, onde a grama é mais baixa e tem um círculo de f

  • Vendida Para o Ceo Dominante    Capítulo 99 – Hope

    Angel Alguma coisa está errada. Eu sinto antes mesmo de ter prova. Damon disse mais cedo que precisava ir até a delegacia. Que tinha sido chamado pra “esclarecimentos” sobre onde estava na noite em que o Scott “se suicidou”.Antes de sair, ele fez o clássico Damon:— Você não sai da mansão. — decretou. — Nem você, nem a Abby. O tom não deixou espaço pra discussão. Eu até tentei:— Damon, eu…— Angel. — ele cortou. — Só… confia em mim dessa vez. Fica aqui.Ele me deu um beijo na testa, outro na boca, passou a mão na minha barriga, olhou fundo nos meus olhos e foi.A última mensagem que ele respondeu no celular veio menos de uma hora depois:— “Não posso falar agora. A polícia pediu meu celular pra averiguar o que eu disse.”Desde então… nada. Eu mandei:— “Está tudo bem?”Nada.— “Quanto tempo isso vai demorar?”Nada.— “Responde pelo menos um ponto pra eu saber que você está vivo.”Nada.A inquietação virou uma coisa física. Um nó preso no meio do peito. Levanto da cama, desço o c

  • Vendida Para o Ceo Dominante    Capítulo 98 – O Último Tiro

    Damon Eu sempre achei que a parte mais difícil de uma vingança era a espera. Hoje eu sei que não é. A parte mais difícil é continuar vivendo normalmente enquanto tudo se encaixa. Enquanto, por dentro, você está contando os minutos pra ver alguém pagar.A morte do Scott saiu exatamente como planejado, um “eventual suicídio acidental”, embalado em álcool e remédio pra dormir, uma banheira cheia e nenhum sinal de luta. Mesmo assim, a polícia fez o que eu já sabia que faria. Veio até mim. Eu recebi a intimação pra depor com uma calma que teria me assustado anos atrás.Hoje, é só terça-feira. Eles pediram o meu celular. O pessoal. Eu entreguei. Não havia nada ali. Mensagens com a Angel, com a Abby, reuniões de trabalho, fotos do ultrassom, lembretes de consulta.Nada com Leon, nada sobre Scott, nada sobre o plano. Essa parte eu fiz com o celular descartável, que já tinha virado cinza no incinerador há dias.Eu não sou amador.Sentado na sala de interrogatório, eu observo o delegado folh

  • Vendida Para o Ceo Dominante    Capítulo 97 – O Preço do Sossego

    Damon Tem gente que olha pra uma barriga de oito, nove semanas de gestação e diz que não vê diferença nenhuma.Eu vejo.Vejo a sútil mudança nos quadris da Angel, o jeito como o jeans começa a apertar num lugar que antes não apertava, o modo como a pele dela parece um pouco mais esticada. É devagar, quase imperceptível, mas está lá.Meu filho está crescendo. E eu estou vivendo um dos momentos mais importantes da minha vida.O que pra muita gente seria impossível, um homem como eu, com a ficha que eu tenho, com a cabeça que eu tenho, olhando pra uma barriga e sentindo o peito amolecer, está acontecendo.De um jeito doentio? Talvez. Mas real.Eu acordo e a primeira coisa que faço é olhar pra ela. Quando ela passa por mim, meu olhar desce instintivamente pra barriga.Quando ela está sentada trabalhando, eu arrumo uma desculpa qualquer pra passar a mão ali, como se estivesse ajeitando a camisa, quando, na verdade, estou checando, marcando, registrando.Um centímetro de cada vez.Enquant

More Chapters
Explore and read good novels for free
Free access to a vast number of good novels on GoodNovel app. Download the books you like and read anywhere & anytime.
Read books for free on the app
SCAN CODE TO READ ON APP
DMCA.com Protection Status