FAZER LOGINDamon
Eu já vi de tudo. Homens ricos implorando, ajoelhados, oferecendo ações, propriedades, alianças, mulheres. Nada me surpreende mais. Ou pelo menos, nada me surpreendia, até aquele momento. Heitor Sanchez sentou-se diante de mim, um homem arruinado tentando parecer inteiro. Eu podia ver através dele. Cada fissura, cada mentira, cada centavo que ele não tinha. O suor escorria pela testa, a linguagem corporal de pura rendição. Esse tipo de homem é previsível. — Minha filha. — Ele repetiu, hesitando. — É tudo o que me resta. Eu fiquei sem dizer nada por alguns segundos, observando-o. Queria entender o que o fazia tão miserável a ponto de usar a própria filha como moeda. E, ao mesmo tempo, queria saber o que havia nela que justificasse a ousadia dele. Quando Heitor tirou o celular do paletó e deslizou a tela até mim, eu não esperava nada. Talvez um rosto qualquer, bonito o suficiente para satisfazer os gostos ordinários de homens decadentes. Mas não foi isso que vi. A imagem era simples. Uma garota no jardim, cabelos castanhos caindo sobre os ombros, sorriso aberto, despreocupado, genuíno. Sincero demais para o mundo em que eu vivo. Na foto seguinte, ela estava sozinha em uma varanda, com um livro nas mãos e o sol batendo em parte do rosto. — Angel Sanchez. Minha filha. Vinte e três anos. O coração me traiu por um segundo. Uma falha mínima de compasso, imperceptível para qualquer um, menos para mim. — Ela é... interessante. — falei, tomando o celular da mão dele. Heitor pareceu desconfortável, como se seu estômago se contraísse de vergonha e medo ao mesmo tempo. — É inocente, senhor Laurent. Bela, mas ingênua. Faz o que eu mando. — Ele parou por um momento. — Vai fazer o que for preciso. Inocente. A palavra ecoou de um jeito estranho dentro de mim. Normalmente, eu desprezo esse tipo de pureza. No meu mundo, inocência é fraqueza, uma sentença de morte disfarçada de virtude. Mas havia algo diferente nela. Talvez fosse justamente o contraste. O sorriso leve em meio a um inferno que nem ela sabia que existia. Devolvi o celular com um movimento lento. — Então, temos um acordo. — Falei. A expressão dele vacilou. Ele sabia o que aquilo significava, mas mesmo assim concordou. — Sim. — respondeu, quase sussurrando. Peguei o contrato sobre a mesa, já preparado. Era simples e direto, como tudo que eu faço. Nada de laços emocionais, nada de brechas. Heitor leu, ou fingiu ler, antes de assinar. As mãos trêmulas entregavam o tamanho do desespero. Assinei o mesmo documento com a calma de quem selava o destino de uma família, ou, talvez, o início de algo que eu ainda não entendia direito. — Prepare ela. — ordenei, sem levantar o olhar do papel. — Eu vou buscá-la em breve. Heitor apenas abaixou a cabeça, envergonhado, talvez consciente do peso do que acabou de fazer. Quando a porta se fechou atrás dele, fiquei sozinho na sala com o contrato e a imagem dela ainda presa na minha mente. Angel. O nome combinava com o rosto. Se eu acreditasse em ironias, diria que o universo acabava de brincar comigo, um demônio assinando um acordo para possuir um anjo. Nos dias seguintes, tentei me convencer de que aquilo era apenas mais um negócio. Um ajuste de contas. Uma forma de cobrar o que era meu. Mas a verdade é que não consegui afastar o pensamento dela. Era um problema que eu nunca tive antes. Com o passar dos anos, aprendi a dividir meu mundo em camadas frias e previsíveis: pessoas, poder, controle. Tudo sob ordem, sempre alinhado. Mulher alguma me tirava do eixo. Mas aquela foto, aquele sorriso, aquela ingenuidade estampada em um olhar… estavam começando a desestabilizar um sistema inteiro. Eu passava as noites no escritório, revisando relatórios, assinando contratos, fingindo que era apenas mais um nome em um documento. Mas toda vez que a mente relaxava por alguns segundos, o rosto dela voltava. Nítido. Real. Quase vivo. Peguei o celular de novo, busquei o número de Heitor e digitei uma mensagem curta: — “Quero mais informações sobre ela.” A resposta veio alguns minutos depois, acompanhada de várias fotos e arquivos. Angel sorrindo em um evento de caridade, Angel em um café com uma amiga, Angel vestindo roupas simples, olhando para longe. Havia algo de diferente em cada imagem, como se cada uma delas viesse de um mundo que não combinava com o outro. Era como observar alguém que ainda não tinha sido corrompida. Passei a madrugada olhando as fotos. — O que você tem, afinal? — perguntei para mim mesmo. — O que me faz não conseguir esquecer essa maldita expressão? Não era atração. Ou talvez fosse. Mas havia algo além do desejo, algo mais doentio, mais possessivo. Era como se o universo tivesse se retorcido um pouco para me mostrar que certas coisas não deveriam me pertencer, e por isso eu as queria ainda mais. No fundo, eu sabia qual era a verdade, eu gostava da ideia de possuir algo intocado, algo puro demais para o lugar onde eu existo. No meu mundo, tudo é sujo. As pessoas mentem, matam, traem. Pureza é um luxo de quem ainda não entendeu as regras. Talvez por isso eu a quisesse tanto. Abby percebeu antes de eu dizer qualquer coisa. Naquela manhã, ela entrou no meu escritório enquanto eu observava o skyline de Boston. O sol refletia nos prédios, e as pessoas lá embaixo pareciam pequenas demais para importar. — Você está diferente — comentou, cruzando os braços. — Pensando demais em algo que não tem nada a ver com a empresa. — Você imagina coisas. — respondi sem virar o rosto. — Damon, eu sou sua irmã, não uma funcionária. — Ela caminhou até mim, apoiando-se na beirada da mesa. — Eu conheço esse olhar. É o mesmo que você tinha antes de assinar aquelas parcerias arriscadas na Europa. Só que agora... parece pessoal. Suspirei, girando a cadeira para encará-la. Abby era a única capaz de falar comigo desse jeito e sair viva. Tinha o mesmo timbre de voz que minha mãe, calmo, mas firme o suficiente para me irritar. — Não é nada pessoal. — menti. — Apenas um acordo de negócios. — Certo. — Ela arqueou uma sobrancelha. — O tipo de acordo que te faz perder o sono. Não respondi. Ela me observou por mais alguns segundos antes de balançar a cabeça. — Seja lá o que for, espero que valha o que vai custar. — disse, antes de sair e bater a porta. Custar. Essa palavra ficou martelando em mim por horas. No final da tarde, Heitor voltou à minha empresa. O rosto mais pálido que antes, os olhos fundos. Disse que estava pronto para formalizar a entrega do “acordo”. Entregou-me uma pasta com todos os documentos legais, a prova da decadência dele e da submissão da filha. — Ela ainda não sabe. — Ele confessou, a voz arrastada. — Eu... pensei que fosse melhor assim. Eu o encarei longamente, avaliando a figura patética diante de mim. — Você é um homem sem honra. — falei. — Mas eficiente. Ele baixou o olhar, envergonhado, e eu assinei o resto do contrato. Ao colocar a caneta sobre o papel, eu senti, não o prazer do poder, mas algo mais profundo, mais perigoso. O contrato não era apenas a garantia de uma dívida paga. Era o registro de uma obsessão nascendo. Naquela noite, não consegui dormir. Fui para a varanda da mansão, o vento frio cortava o rosto enquanto a cidade lá embaixo seguia viva, indiferente. Eu, no entanto, me sentia outro. Peguei o celular, abri uma das fotos de Angel. A luz da lua refletia na tela. Ela sorria, os olhos brilhando de uma maneira que eu não via em ninguém há anos. Era um sorriso limpo, que não cabia no meu mundo. E talvez por isso mesmo, eu quisesse destruí-lo. Ali, na escuridão, percebi que não existia mais volta. Eu não sabia o som da voz dela, nem o cheiro do cabelo, mas já podia sentir como seria tê-la por perto. Queria ver o medo nos olhos dela ao entender quem realmente eu era, e ao mesmo tempo, queria que ela me olhasse como naquelas fotos, com a mesma pureza tola, aquela inocência que o tempo ainda não tinha corrompido. Eu queria ver quanto tempo levaria para ela quebrar. Ou se, por algum milagre insano, fosse capaz de quebrar a mim. Mas uma coisa era certa. Ela era minha agora. E o inferno estava prestes a descobrir o que acontece quando um homem como eu se apaixona pelo som de um nome e um sorriso inocente.Damon Voltar pra casa depois do hospital foi ganhar uma segunda vida. Uma vida com algumas limitações, segundo a minha adorável carcereira grávida.— Você não vai se esforçar. — Angel decretou, assim que pisamos de volta na mansão. — Nada de pegar peso, nada de dirigir por enquanto, nada de…— Nada de fazer amor com você também? — interrompi, indignado. — Porque isso, pra mim, é esforço necessário de sobrevivência.Ela tentou segurar o sorriso.Falhou.— Você precisa se abster de coisas que possam te mandar de volta pro hospital, grandão. — rebateu. — E eu não vou explicar pro médico que você abriu ponto porque não sabe se controlar na cama.Eu sabia que ela estava certa. Não quer dizer que eu gostei. Mas, pela primeira vez na vida, resolvi que valia mais a pena obedecer do que provocar enfarte coletivo na minha família.Alguns dias depois, a intimação chegou. Audiência do julgamento da Aimee. Eu ainda sentia dor nos lugares em que as balas tinham me atravessado, mas fiz questão de
Abby Eu já passei por muita coisa nessa vida. Já vi meu irmão voltar pra casa sujo de sangue que não era dele. Já esperei ligação de madrugada com o coração na mão.Já tive medo real de acordar órfã de irmão, pai, mãe, tudo de uma vez. Mas nenhuma daquelas vezes foi como agora.Damon acordou. Está fora de perigo. Logo vai voltar pra casa. Só essa frase já muda a cor do mundo pra mim.Nos dias seguintes à alta dele, eu praticamente me mudo pro ateliê menor da mansão. Pinto como se a tinta fosse a única coisa capaz de organizar o caos dentro de mim.Damon anda mais devagar pela casa, mas anda. O ombro ainda dói, o peito ainda reclama, mas ele está de pé.Angel sorri mais. Passa a mão na barriga o tempo todo. Hope. Nossa Hope. É como se a casa inteira tivesse respirado de novo.Eu estou no ateliê, concentrada em um quadro que insiste em não sair como eu quero, quando ouço a porta da frente bater diferente.Passos mais pesados. Vozerio rápido dos funcionários ajudando com alguma coisa.
Damon Eu sempre disse que, quando morresse, ia direto pro inferno. Faria sentido. Mas, quando tudo apaga, não é bem isso que acontece.Eu abro os olhos e estou na mansão. Ou numa versão dela. O lugar parece mais… leve. As paredes são as mesmas, a arquitetura é a mesma, mas as cores estão mais vivas, a luz mais clara, o ar menos pesado.Saio pela porta de entrada e vou pro jardim. Até as flores estão diferentes. Mais cheias, mais coloridas, como se alguém tivesse pego um filtro de foto e aumentado a saturação da vida.Eu ando devagar. Se estou morto, não tenho horário. Nenhum compromisso. Nenhum velho do conselho reclamando da minha ausência.Por um breve momento, sinto falta de tudo. Da voz da Angel me chamando de “insaciável”. Da risada da Abby ecoando pelo corredor. Do Pietro reclamando que eu sou imprudente.Mas eu não posso chamar por eles. Não se estou morto. O silêncio é estranho.Eu continuo andando até chegar no meio do jardim, onde a grama é mais baixa e tem um círculo de f
Angel Alguma coisa está errada. Eu sinto antes mesmo de ter prova. Damon disse mais cedo que precisava ir até a delegacia. Que tinha sido chamado pra “esclarecimentos” sobre onde estava na noite em que o Scott “se suicidou”.Antes de sair, ele fez o clássico Damon:— Você não sai da mansão. — decretou. — Nem você, nem a Abby. O tom não deixou espaço pra discussão. Eu até tentei:— Damon, eu…— Angel. — ele cortou. — Só… confia em mim dessa vez. Fica aqui.Ele me deu um beijo na testa, outro na boca, passou a mão na minha barriga, olhou fundo nos meus olhos e foi.A última mensagem que ele respondeu no celular veio menos de uma hora depois:— “Não posso falar agora. A polícia pediu meu celular pra averiguar o que eu disse.”Desde então… nada. Eu mandei:— “Está tudo bem?”Nada.— “Quanto tempo isso vai demorar?”Nada.— “Responde pelo menos um ponto pra eu saber que você está vivo.”Nada.A inquietação virou uma coisa física. Um nó preso no meio do peito. Levanto da cama, desço o c
Damon Eu sempre achei que a parte mais difícil de uma vingança era a espera. Hoje eu sei que não é. A parte mais difícil é continuar vivendo normalmente enquanto tudo se encaixa. Enquanto, por dentro, você está contando os minutos pra ver alguém pagar.A morte do Scott saiu exatamente como planejado, um “eventual suicídio acidental”, embalado em álcool e remédio pra dormir, uma banheira cheia e nenhum sinal de luta. Mesmo assim, a polícia fez o que eu já sabia que faria. Veio até mim. Eu recebi a intimação pra depor com uma calma que teria me assustado anos atrás.Hoje, é só terça-feira. Eles pediram o meu celular. O pessoal. Eu entreguei. Não havia nada ali. Mensagens com a Angel, com a Abby, reuniões de trabalho, fotos do ultrassom, lembretes de consulta.Nada com Leon, nada sobre Scott, nada sobre o plano. Essa parte eu fiz com o celular descartável, que já tinha virado cinza no incinerador há dias.Eu não sou amador.Sentado na sala de interrogatório, eu observo o delegado folh
Damon Tem gente que olha pra uma barriga de oito, nove semanas de gestação e diz que não vê diferença nenhuma.Eu vejo.Vejo a sútil mudança nos quadris da Angel, o jeito como o jeans começa a apertar num lugar que antes não apertava, o modo como a pele dela parece um pouco mais esticada. É devagar, quase imperceptível, mas está lá.Meu filho está crescendo. E eu estou vivendo um dos momentos mais importantes da minha vida.O que pra muita gente seria impossível, um homem como eu, com a ficha que eu tenho, com a cabeça que eu tenho, olhando pra uma barriga e sentindo o peito amolecer, está acontecendo.De um jeito doentio? Talvez. Mas real.Eu acordo e a primeira coisa que faço é olhar pra ela. Quando ela passa por mim, meu olhar desce instintivamente pra barriga.Quando ela está sentada trabalhando, eu arrumo uma desculpa qualquer pra passar a mão ali, como se estivesse ajeitando a camisa, quando, na verdade, estou checando, marcando, registrando.Um centímetro de cada vez.Enquant







