LOGINCapítulo 6
Vinícius Strondda Lucia caminhou até o banheiro em silêncio. O corpo ainda trêmulo, os pés descalços contra o mármore. Eu não disse nada, apenas encostei na parede do quarto, tirando devagar os sapatos. Puxei o cobre-leito da cama com um gesto impaciente, jogando-o de lado. A raiva ainda latejava nas têmporas, mas também havia um prazer doente em saber que ela não tinha saída. Abri um pouco a porta do banheiro para conferir. O som da água ecoava. O vapor subia pelo ar. Ela estava lá dentro, mas… estranhamente quieta. — Lucia… — chamei, com a voz baixa, carregada de autoridade. — Não me faça esperar. Seja rápida. Silêncio. Entrei de uma vez, os passos firmes no chão. Foi quando percebi: a janela lateral estava entreaberta, cortina balançando com o vento da noite. A banheira ainda cheia. Mas Lucia não estava lá. O sangue subiu como fogo. — Maledetta ragazza… — rosnei, correndo até a janela. E lá estava ela. Tentava descer pelo beiral, enrolada apenas na toalha, os cabelos vermelhos soltos como uma bandeira de guerra. O desespero fazia os dedos dela tremerem enquanto buscava apoio. — Maledetta do diavolo… Como ousa me desafiar assim? — rosnei, o sangue subindo. Saí do quarto feito louco, os passos ecoando pelo corredor. Logo ouvi gritos e barulho de luta vindos do jardim lateral. — DON VINÍCIUS! — um dos soldados gritou como se eu já fosse o Don. Maledettos puxa-sacos. Corri até lá. Dois dos meus homens tentavam segurar Lucia, que se debatia com a toalha presa ao corpo. Caralho! Se essa toalha cair eu mato essa ragazza. O cabelo vermelho se agitava, os pés chutavam o ar, os dentes cerrados. Ela mordeu o ombro de um deles com tanta força que o homem urrou, quase largando. — Figlio de puttana! Segurem direito! — rosnei, avançando. Um deles tentou justificar, ofegante: — Don, ela é uma selvagem… quase pulou pelo muro. Lucia aproveitou o vacilo e arranhou o rosto dele, deixando sangue escorrer. O outro teve que puxá-la pelo braço, mas ela girou o corpo e deu uma joelhada no estômago dele. — Cazzo! — o soldado gemeu, curvando o corpo. Foi quando cheguei perto. Agarrei Lucia pelo braço com tanta força que ouvi o estalo do ombro dela sendo puxado. — ME SOLTA! ME DEIXEM IR! ME SOLTA! Ela gritou, mas não larguei. Arranquei-a dos braços dos soldados com um puxão seco, como se fosse só minha. — Não preciso de incompetentes pra segurar uma ragazza! — gritei para os dois. — Se não conseguem cumprir nem isso, não servem pra nada. Quando eu assumir como Don, vou escolher minha equipe. Eles abaixaram a cabeça, envergonhados, enquanto eu puxava Lucia de volta para dentro da casa, ignorando os chutes e socos que ela tentava me dar. Arrastei-a até o quarto, o corpo dela tremendo de raiva, não de medo. Fechei a porta com força e, sem hesitar, arranquei a toalha de cima dela com um único movimento. O tecido escorregou das mãos dela e ficou no meu punho por um segundo, antes que eu o jogasse na banheira cheia, a água espirrando para fora. — Aqui quem manda sou eu, porra! — gritei, o peito arfando. — Nunca mais me desafie desse jeito. Nunca! — EU DISSE QUE QUERIA IR EMBORA! — VOCÊ SAIU PRATICAMENTE NUA PERANTE SOLDADOS! EU DEVERIA MATAR VOCÊ! Lucia não recuou, virou-se para mim com os olhos marejados e gritou: — Eu tenho medo! Entendeu? Eu não quero ficar presa de novo, não quero voltar pra uma maledetta gaiola! — a voz dela quebrou no fim, mas ainda assim era cortante. — Prefiro morrer a viver trancada desse jeito! Nua ou vestida... Eu já não me importo. Só não quero sofrer mais. Os gritos ecoaram pelo quarto, me atravessando como lâminas. Por um instante, fiquei em silêncio, olhando para ela. A respiração dela era rápida, o peito subindo e descendo, e as lágrimas agora escorriam de verdade. A água quente deixou claro o que antes eu não tinha visto direito. Cicatrizes. Pequenas, irregulares, espalhadas pelos ombros, braços, costas. Algumas pareciam cortes, outras queimaduras. Meu maxilar travou. O sangue latejava. O desejo de quebrar o pescoço de quem fez isso com ela só aumentava. Apoiei as mãos na borda da banheira, olhando fixo para ela. — Foi ele que fez isso com você? O maledetto que você não quer dizer o nome? Ela fechou os olhos, mergulhou o rosto na água e, ao voltar, apenas continuou esfregando o braço. Fingiu que eu não existia. Passei a mão pelo meu rosto, tentando controlar a fúria. — Quando eu descobrir quem foi, não vou só matar. Vou fazer ele implorar pela morte. E talvez eu nem dê. Ela estremeceu. Mas não me olhou. Aproximei-me devagar, sem brusquidão dessa vez. Apoiei uma mão firme em seu ombro, a outra erguendo o queixo dela para que me olhasse. — Lucia… aqui não é uma gaiola. — falei baixo, mas firme, deixando cada palavra pesar. — Você está num quarto. Um quarto meu. E ninguém vai te prender como antes. Só não me provoque, ragazza… porque eu posso perder a paciência, e não é isso que quero. Ela piscou rápido, tentando afastar o choro, mas não conseguiu. A raiva deu lugar a um medo vulnerável que ela não queria mostrar. — Eu não quero ter medo de você… — murmurou, quase num sussurro. Meu maxilar travou, e por dentro a raiva pelo passado dela queimou mais do que qualquer provocação. Respirei fundo, mantendo a mão no seu queixo, firme, mas não agressiva. — Então não tenha. Eu não sou ele. — minha voz saiu rouca, carregada. — E se eu descobrir quem te deixou com esse medo, juro que vou acabar com a vida dele. Os olhos dela encheram de lágrimas de novo, mas dessa vez ela não gritou. Apenas desviou o olhar, como se tentasse se proteger de acreditar em mim. Soltei devagar o rosto dela e caminhei até o armário. Peguei um roupão de tecido grosso e voltei até a beira da banheira. Estendi a mão. — Vem. Ela hesitou por um instante, depois saiu devagar da água. Peguei o roupão, vesti nela com calma, fechando o nó na cintura, as mãos firmes segurando os braços dela por alguns segundos a mais. — Apenas descansa. — falei perto de seu ouvido. — Amanhã a gente conversa. Mas lembre-se: você é a futura esposa do Don. Afastei um pouco o rosto, deixando meu olhar cravar no dela. — Só não ouse me afrontar de novo… porque aí eu não sei se consigo me segurar.Epílogo (Narrado pela autora) Chegar até aqui… nunca é simples. Mais um livro da série Strondda chega ao fim… e, como sempre, não é só uma história que termina — é um pedaço de tudo que vivemos juntos ao longo desses capítulos. Se você está aqui, comigo, até o final…obrigada. Obrigada por cada leitura, por cada emoção, por cada mensagem. Vocês fazem essa história existir tanto quanto eu. Mas isso não é um adeus. Muito em breve — provavelmente já na próxima semana — começa a continuação: “Um Don para a dama da máfia.” E antes de irmos… vamos olhar para eles, pela última vez neste livro. ... Vinícius e Lucia. Eles não são mais apenas um casal. São estrutura. São força. São família. Vinícius continua sendo o Don que impõe respeito… mas agora carrega algo diferente no olhar. Lucia mudou tudo. E Dante… selou aquilo que já era inevitável. Hoje, eles não lideram apenas um império.Eles sustentam uma família inteira que gira ao redor deles. ...
Capítulo 268 João Miguel Prass Fernandes Estaria mentindo se dissesse que concordei com o casamento com Astrid só pelo cargo de Don. Eu gostei dela desde a primeira vez que a vi. Mas devo confessar que depois que viajei pra Suécia e senti um pouco do que era ter poder, gostei muito. Como não estaria feliz sabendo que vou juntar duas coisas que pensei que seria impossível? Casar com a mulher que procurei por um tempo e ainda ganhar um cargo que jamais passou pela minha cabeça que eu teria. Na máfia, na maioria das vezes não temos escolha, mas sinto que sou um cara de sorte. Há meses eu tenho noção que ela me escolheu, mas sentado aqui nesse restaurante agora, olhando pra ela, sei que é definitivo. — Então você realmente está de acordo com tudo o que conversamos? Vai viajar comigo amanhã pra Suécia para o casamento? — ela é tão séria. Não parece a mulher que conheci. E disse umas coisas que mal entendi sobre um acordo. — Sabe... Quando te conheci você chorava
Capítulo 267 Manuela Strondda Depois de um susto. Depois de gente demais circulando, verificando cada canto, reforçando segurança, trocando códigos, ajustando rotinas, pela primeira vez desde aquele dia do chá, eu realmente senti que tudo tinha voltado ao normal. Eu estava diante do espelho, terminando de me arrumar, passando as mãos pelo vestido para alinhar o tecido sobre o corpo. O movimento foi automático, mas a outra mão acabou indo direto para a barriga. Isso já fazia parte de mim. Já me vejo mãe da nossa pequena bonequinha. Foi quando senti a presença dele antes mesmo de ouvir a voz. — Tem certeza que está tudo bem? — Hugo perguntou. Olhei pelo reflexo do espelho. Ele estava parado perto da porta, postura firme como sempre, mas o olhar… o olhar ainda carregava aquela tensão que não tinha ido embora completamente. Virei de frente para ele, cruzando os braços com calma. — Hugo… já está tudo bem. — Ele não respondeu de imediato. Apenas me observou. Suspirei
"Você nasceu no meio de uma guerra… mas vai crescer no topo dela.”Capítulo 266 Vinícius Strondda Nessa madrugada, eu estava acordado antes mesmo de Dante começar a chorar. Não sei explicar o que era. Instinto, talvez. Ou simplesmente o fato de que meu corpo já tinha aprendido a prestar atenção nele mesmo dormindo pouco. Virei o rosto e encontrei Lucia adormecida. O cabelo espalhado no travesseiro, a respiração leve, o corpo ainda cansado do parto e dos dias intensos que vieram depois. Havia algo quase sagrado em vê-la assim, finalmente descansando. Depois de tudo o que o corpo dela enfrentou para trazer meu filho ao mundo, eu não queria acordá-la por nada. Foi então que o resmungo começou no berço ao lado. Baixo, pequeno, mas suficiente para me fazer levantar na mesma hora. Aproximei-me devagar e vi Dante se mexendo dentro do cobertor, a boquinha se contraindo, os olhos ainda fechados, como se estivesse prestes a decidir se chorava ou não. Apoiei uma mão na beirada do b
Capítulo 265 Vinícius Strondda Alguns dias se passaram, e pela primeira vez em muito tempo eu não estava sendo consumido por reuniões, conflitos ou decisões que envolviam sangue. Minha atenção esteve voltada para um único lugar: Lucia e Dante. Eu observei cada detalhe. Cada respiração, cada pequeno movimento do meu filho, cada vez que Lucia o segurava com aquele cuidado que parecia instintivo. Aquilo era novo para mim, mas ao mesmo tempo… parecia certo. Como se tudo tivesse finalmente se encaixado. Mas a Strondda não para, e eu também não podia parar. Naquela noite, o reduto estava preparado para a reunião que agendei com todos os membros. A construção antiga, cheia de história, continuava imponente como sempre, mas os detalhes em ouro adicionados ao longo dos anos reforçavam ainda mais o poder que a família havia construído. As portas pesadas estavam abertas, os seguranças posicionados nas sombras e o brasão da Strondda dominava o arco de entrada como um lembrete sil
Capítulo 264 Vinícius Strondda O mundo inteiro podia desmoronar lá fora e ainda assim não faria diferença nenhuma, porque naquele momento tudo o que existia era ela… e ele. Lucia estava ali, exausta, suada, com os olhos marejados e ainda assim mais linda do que em qualquer outro momento da minha vida. E nos braços do médico, enrolado naquele lençol, pequeno, quente e chorando com força, estava o meu filho. Meu filho, Dante. O futuro Don da Strondda. Por um segundo, eu simplesmente não consegui me mover. Era como se o meu corpo tivesse esquecido como reagir, como respirar, como pensar. Eu, que sempre tive controle sobre tudo, me vi completamente rendido àquele momento. — Saudável, Don. Forte — disse o médico, aproximando-se um pouco mais. Forte? Claro que era. Aproximei devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar aquilo, e toquei o rosto pequeno de Dante com a ponta dos dedos. Ele era tão pequeno e, ao mesmo tempo, carregava um peso que nenhum homem