LOGINCapítulo 2
Isabella Romano / Lucia Bianchi Fugir é o que eu faço de melhor. Sempre foi. Principalmente agora, depois de um mês correndo de cidade em cidade, dormindo em lugares que nem dava pra chamar de cama, só para ficar longe dele. Do homem que um dia chamaram de meu marido. Porque eu... Ah! Nunca chamei. Fui obrigada a casar com ele quando tinha 19 anos. Com os Moretti não tem conversa. Mesmo ele sendo bem mais velho… e mesmo escondendo um segredo que transformava a vida de quem estivesse ao lado dele em um inferno. Ele não tinha o que um homem tem. Não tinha pênis. E não era apenas a frustração que o consumia — era a raiva, o ódio por não poder ser como os outros. Descontava isso em mim, todos os dias, de todas as formas possíveis. Principalmente com palavras e humilhações que não deixavam marcas visíveis, mas me corroíam por dentro. A ausência dele como homem não o tornava menos cruel. Pelo contrário. Ele parecia sentir prazer em lembrar que, no papel, eu era dele… mas, na prática, eu não passava de um troféu guardado para exibir poder, e um saco de pancadas emocional quando ninguém estava olhando. Mas, agora eu só conseguia pensar que estava presa de novo. E não suportaria outro homem decidindo quando e onde eu podia respirar. Ainda mais, um que acabou de matar a noiva no seu jardim e me tocar no próximo minuto. Já ouvi falar dessa família tantas vezes... os Strondda. Se eu soubesse que a casa deles era essa aqui, jamais teria pisado. Como vou fugir, agora? Ele me deixou numa sala grande demais, com janelas fechadas e uma porta trancada por fora. Comecei a andar em círculos, contando passos, observando cada canto. Aprendi rápido a medir distâncias e achar saídas com os Moretti. Eu sempre dei meu jeito para não morrer. E então vi uma brecha. Uma porta lateral, mal fechada. Talvez um descuido de algum dos seguranças. Eu já estava com a mão na maçaneta quando ouvi o som seco da arma sendo carregada. O mafioso arrogante estava na minha frente. — Vai a algum lugar, Bianca? — Ele enfatizou o nome errado como se estivesse provando o gosto dele. Fiquei parada. — Já disse que é Lucia. — mantive a voz firme. Ele entrou e fechou a porta. Encostou-se nela, levantando a pistola só o suficiente para me lembrar que eu estava sob sua mira. — Então começa a falar. Quem é você? — Já falei… — tentei, mas ele avançou dois passos, me empurrando de leve contra a parede. — Cazzo! Não me venha com mentiras. Eu conheço o sotaque de uma verdadeira italiana aqui de Roma. E você… não é daqui. Senti meu coração acelerar, mas deixei escapar um sorriso rápido, quase debochado. — E desde quando um homem como você se importa de onde uma mulher vêm? Ele inclinou a cabeça, como quem avalia uma presa que morde. — Desde que ela pule o muro da minha casa e ache que pode correr no meu jardim. — esticou o punho mexendo no meu cabelo com a arma. O coque despencou — Desde que ela se torne minha. Eu penso e faço o que quiser. O maledetto ergueu a outra mão. Passou o polegar nos meus lábios devagar e senti o ar sumindo por alguns segundos. Então era assim que um homem deveria tocar uma mulher? Seu dedo era áspero, mas o toque gentil. Respirei fundo, improvisando na hora. Então lembrei que uma arma ainda estava apontada para minha cabeça. Mesmo gostando de senti-la entre meus fios de cabelo. — Cresci no sul, perto de Taranto. — Ele passou a arma na minha bochecha. Eu não sabia se era uma ameaça ou uma carícia. — Continue ragazza. — Minha tia se mudava muito por causa do trabalho… mudei tanto de cidade, que até eu confundo o sotaque. O olhar dele estreitou, mas não disse nada. Eu continuei. — Vim para Roma para… começar de novo. Arrumar trabalho. E porque tinha alguém atrás de mim… — deixei a frase morrer. — Alguém? — Ele se aproximou, e agora estávamos bem perto. — Alguém como? — ergueu meu rosto com a arma, segurando meu queixo. — Um ex. — disse rápido, baixando o olhar. — Não era uma boa pessoa. Me seguiu, e eu fugi. É isso. O silêncio dele era pior do que gritar. Então do nada, me prendeu com o corpo, como se estivesse medindo cada reação minha. — Então, Lucia Bianchi… se você está fugindo, correu para o lugar errado. Encontrou o cara errado. — É simples. Me deixe ir — Olhei bem para seus olhos verdes, eram parecidos com os meus. Sua pele era bonita, com bastante barba, mas nenhum fio branco. — Qual o nome do cara? — perguntou me fazendo ficar assustada. Eu nunca poderia dizer quem era, então inventei: — Dino... Aliás, o chamam de dinamite. É explosivo. — foi a primeira coisa que pensei. Ele puxou uma cadeira, sentou. Bateu no seu colo. — Senta aqui. — Ele queria o quê? Dá última vez que fiz isso levei uma mordida no ombro que tenho a cicatriz até hoje. — Pra quê? — estremeci. — Vai sentar ou não, maledetta? Demorei alguns segundos, ele levantou com raiva e me obrigou a sentar. Já imaginei milhões de coisas. Ele me puniria como sempre fazem. Senti minha blusa ser erguida. Ele me fez tirar com o auxílio da arma na mão para que eu lembrasse quem ele era. As lágrimas escorreram no meu rosto, imaginando as chicotadas. Fechei os olhos e segurei firme na cadeira esperando o primeiro golpe. Não tinha adiantado nada tanta fuga. Acabei nas mãos de um monstro diferente. Apenas bonito. Mas diferente disso senti sua mão deslizar devagar pela minha pele. — Foi o maledetto, não foi? — sussurrou. — O que? — virei parcialmente o rosto pra ele. — Me disseram você poderia ser uma pessoa e que tinha uma marca aqui nas costas, mas... Te bateram... Quem quer que seja que fez isso vai pagar. — Está preocupado comigo? — perguntei incrédula. — Você é minha agora. Me pertence. E tudo que pertence a um Strondda, tem seu valor. — Senti ele se afastando. — Vou trazer esse figlio de puttana até aqui. — Não! Por favor! — levantei apressada, procurando pela blusa. Se ele fosse atrás descobriria que menti. Não existe nenhum Dino. — Tem tanto medo assim, piccola? Movi a cabeça confirmando. — A esposa do novo Don não deve temer. Terei que te ensinar algumas coisas. — Esposa? Ainda está com isso na cabeça? Eu não quero casar. Esquece essa possibilidade. — Tarde demais ragazza... Nosso casamento já foi marcado. Em breve te levarão para o seu quarto. Quis gritar, fazer um escândalo, mas como? Se eu contasse a verdade ele me entregaria para os Moretti... Merda! Eu preferia morrer a voltar para um Moretti.Epílogo (Narrado pela autora) Chegar até aqui… nunca é simples. Mais um livro da série Strondda chega ao fim… e, como sempre, não é só uma história que termina — é um pedaço de tudo que vivemos juntos ao longo desses capítulos. Se você está aqui, comigo, até o final…obrigada. Obrigada por cada leitura, por cada emoção, por cada mensagem. Vocês fazem essa história existir tanto quanto eu. Mas isso não é um adeus. Muito em breve — provavelmente já na próxima semana — começa a continuação: “Um Don para a dama da máfia.” E antes de irmos… vamos olhar para eles, pela última vez neste livro. ... Vinícius e Lucia. Eles não são mais apenas um casal. São estrutura. São força. São família. Vinícius continua sendo o Don que impõe respeito… mas agora carrega algo diferente no olhar. Lucia mudou tudo. E Dante… selou aquilo que já era inevitável. Hoje, eles não lideram apenas um império.Eles sustentam uma família inteira que gira ao redor deles. ...
Capítulo 268 João Miguel Prass Fernandes Estaria mentindo se dissesse que concordei com o casamento com Astrid só pelo cargo de Don. Eu gostei dela desde a primeira vez que a vi. Mas devo confessar que depois que viajei pra Suécia e senti um pouco do que era ter poder, gostei muito. Como não estaria feliz sabendo que vou juntar duas coisas que pensei que seria impossível? Casar com a mulher que procurei por um tempo e ainda ganhar um cargo que jamais passou pela minha cabeça que eu teria. Na máfia, na maioria das vezes não temos escolha, mas sinto que sou um cara de sorte. Há meses eu tenho noção que ela me escolheu, mas sentado aqui nesse restaurante agora, olhando pra ela, sei que é definitivo. — Então você realmente está de acordo com tudo o que conversamos? Vai viajar comigo amanhã pra Suécia para o casamento? — ela é tão séria. Não parece a mulher que conheci. E disse umas coisas que mal entendi sobre um acordo. — Sabe... Quando te conheci você chorava
Capítulo 267 Manuela Strondda Depois de um susto. Depois de gente demais circulando, verificando cada canto, reforçando segurança, trocando códigos, ajustando rotinas, pela primeira vez desde aquele dia do chá, eu realmente senti que tudo tinha voltado ao normal. Eu estava diante do espelho, terminando de me arrumar, passando as mãos pelo vestido para alinhar o tecido sobre o corpo. O movimento foi automático, mas a outra mão acabou indo direto para a barriga. Isso já fazia parte de mim. Já me vejo mãe da nossa pequena bonequinha. Foi quando senti a presença dele antes mesmo de ouvir a voz. — Tem certeza que está tudo bem? — Hugo perguntou. Olhei pelo reflexo do espelho. Ele estava parado perto da porta, postura firme como sempre, mas o olhar… o olhar ainda carregava aquela tensão que não tinha ido embora completamente. Virei de frente para ele, cruzando os braços com calma. — Hugo… já está tudo bem. — Ele não respondeu de imediato. Apenas me observou. Suspirei
"Você nasceu no meio de uma guerra… mas vai crescer no topo dela.”Capítulo 266 Vinícius Strondda Nessa madrugada, eu estava acordado antes mesmo de Dante começar a chorar. Não sei explicar o que era. Instinto, talvez. Ou simplesmente o fato de que meu corpo já tinha aprendido a prestar atenção nele mesmo dormindo pouco. Virei o rosto e encontrei Lucia adormecida. O cabelo espalhado no travesseiro, a respiração leve, o corpo ainda cansado do parto e dos dias intensos que vieram depois. Havia algo quase sagrado em vê-la assim, finalmente descansando. Depois de tudo o que o corpo dela enfrentou para trazer meu filho ao mundo, eu não queria acordá-la por nada. Foi então que o resmungo começou no berço ao lado. Baixo, pequeno, mas suficiente para me fazer levantar na mesma hora. Aproximei-me devagar e vi Dante se mexendo dentro do cobertor, a boquinha se contraindo, os olhos ainda fechados, como se estivesse prestes a decidir se chorava ou não. Apoiei uma mão na beirada do b
Capítulo 265 Vinícius Strondda Alguns dias se passaram, e pela primeira vez em muito tempo eu não estava sendo consumido por reuniões, conflitos ou decisões que envolviam sangue. Minha atenção esteve voltada para um único lugar: Lucia e Dante. Eu observei cada detalhe. Cada respiração, cada pequeno movimento do meu filho, cada vez que Lucia o segurava com aquele cuidado que parecia instintivo. Aquilo era novo para mim, mas ao mesmo tempo… parecia certo. Como se tudo tivesse finalmente se encaixado. Mas a Strondda não para, e eu também não podia parar. Naquela noite, o reduto estava preparado para a reunião que agendei com todos os membros. A construção antiga, cheia de história, continuava imponente como sempre, mas os detalhes em ouro adicionados ao longo dos anos reforçavam ainda mais o poder que a família havia construído. As portas pesadas estavam abertas, os seguranças posicionados nas sombras e o brasão da Strondda dominava o arco de entrada como um lembrete sil
Capítulo 264 Vinícius Strondda O mundo inteiro podia desmoronar lá fora e ainda assim não faria diferença nenhuma, porque naquele momento tudo o que existia era ela… e ele. Lucia estava ali, exausta, suada, com os olhos marejados e ainda assim mais linda do que em qualquer outro momento da minha vida. E nos braços do médico, enrolado naquele lençol, pequeno, quente e chorando com força, estava o meu filho. Meu filho, Dante. O futuro Don da Strondda. Por um segundo, eu simplesmente não consegui me mover. Era como se o meu corpo tivesse esquecido como reagir, como respirar, como pensar. Eu, que sempre tive controle sobre tudo, me vi completamente rendido àquele momento. — Saudável, Don. Forte — disse o médico, aproximando-se um pouco mais. Forte? Claro que era. Aproximei devagar, como se qualquer movimento brusco pudesse quebrar aquilo, e toquei o rosto pequeno de Dante com a ponta dos dedos. Ele era tão pequeno e, ao mesmo tempo, carregava um peso que nenhum homem