FAZER LOGINEsther Hawthorne.
O que o Don queria dizer sobre minha familia? Continuei olhando para ele, esperando que tirasse minha duvida.
Ele recostou levemente na cadeira, me observando com aquela calma insuportável de homem que sempre sabe mais do que diz.
— Quer dizer que você sabe muito pouco sobre a família que carrega no nome.
— Minha família está morta. — simplesmente disse.
— Não. — ele corrigiu com frieza. — Parte dela está morta. Outra parte apodreceu. E uma parte ainda assombra gente poderosa o suficiente para fazer homens se moverem quando ouvem o nome Hawthorne.
Fiquei imóvel.
Meu coração batia tão forte que eu podia ouvir.
— Isso não faz sentido.
— Faz mais sentido do que a história pobre e conveniente que contaram a você desde a infância.
Minha respiração falhou por um instante.
— Está mentindo.
Mas nem eu acreditei na firmeza da minha voz.
Ele inclinou um pouco a cabeça, me estudando, como se estivesse avaliando o exato ponto onde a verdade começava a me ferir.
— Seu pai não era apenas um homem tentando sobreviver. E sua mãe não morreu sendo ninguém. Os Hawthorne construíram poder. Influência. Alianças. Dívidas. Inimizades. Seu sobrenome abre portas, fecha bocas e ressuscita velhos interesses.
Balancei a cabeça devagar.
— Não. Não. Você deve estar me confundindo com outra pessoa.
— Eu sei exatamente quem você é.
As palavras vieram baixas, mas cortaram o ar como faca.
Ele se inclinou um pouco para mais perto, o suficiente para que eu sentisse a presença dele de forma sufocante.
— Sei quem foi seu pai. Sei com quem ele sentou. Sei o que ele assinou. Sei quem o temia. Sei quem ainda fala dele em voz baixa. Sei por que você foi escondida longe de tudo isso. E sei por que colocar você nesta casa muda mais coisas do que você consegue imaginar.
Fiquei em choque.
Não conseguia mexer os dedos. Nem respirar direito.
A imagem do meu pai na minha cabeça sempre fora simples. Distante. Dolorida. Um homem que eu amava e perdi cedo demais. Nada além disso. Nada de poder. Nada de homens perigosos. Nada de alianças sombrias. Eu não estava entendendo isso, era verdade mesmo?
— Por que eu? — sussurrei. — Se tudo isso fosse verdade... por que eu?
Damian sustentou meu olhar sem piedade.
— Porque você é a última Hawthorne que importa.
O silêncio depois daquilo pareceu expandir a sala.
Eu desci os olhos para o prato, mas não via mais nada. Minha mente corria, tropeçando em memórias velhas, pequenas coisas que nunca fizeram sentido, olhares do meu tio, portas fechadas, conversas interrompidas quando eu entrava no cômodo.
Tudo aquilo...
Tudo aquilo era sobre mim?
Ou sobre o nome que eu carregava sem entender?
— Você me trouxe aqui por causa disso? — perguntei, mais baixo. — Por poder?
Ele pegou o copo de novo, girando o líquido âmbar.
— Poder sempre cobra o preço mais alto.
— Isso não responde.
— Responde o suficiente.
A raiva subiu quente por baixo do medo.
— Então eu sou isso? Um negócio? Um sobrenome útil? Um pedaço de estratégia para você crescer ainda mais?
Ele me fitou por alguns segundos, impassível demais.
— Você é minha agora. Isso basta.
Meu peito queimou.
— Eu não pertenço a você. — afirmei, sentindo meu rosto quente demais...
Ele sorriu.
Não um sorriso bonito. Um sorriso perigoso. De homem acostumado a vencer.
— Pertence, sim. Legalmente, politicamente e, se continuar me desafiando desse jeito, de formas que você ainda não entende.
Prendi a respiração.
Havia ameaça ali. Mas também havia algo pior. Algo que eu não queria nomear. Uma atenção excessiva. Um interesse que não combinava com a frieza calculada das palavras dele.
Ele me queria pelo que eu representava.
Mas também me observava como se houvesse mais.
Como se eu o irritasse e o atraísse ao mesmo tempo.
Como se meu medo fosse apenas parte do jogo que ele pretendia dominar até o fim.
Baixei os olhos, tentando pensar.
Se ele sabia tanto... então também sabia coisas sobre meus pais. Sobre minha família. Sobre mim.
Eu precisava descobrir.
Mesmo que tivesse de engolir o medo. Mesmo que tivesse de suportar a presença dele. Mesmo que precisasse aprender a chamar a atenção daquele homem sem me destruir no processo.
Porque, pela primeira vez em anos, eu sentia que a verdade estava perto o bastante para ser tocada.
E talvez fosse terrível.
Mas era minha.
Damian se levantou.
O movimento foi simples, porém bastou para fazer o ar mudar. Ele veio até mim e parou ao lado da cadeira. Meu corpo inteiro enrijeceu.
— Venha. — disse.
— Para onde?
— Biblioteca.
Hesitei.
Ele pousou a mão no encosto da minha cadeira, os dedos longos apertando a madeira.
— Não me obrigue a repetir.
Levantei.
Fui atrás dele pelos corredores em silêncio, tentando ignorar o som dos próprios passos e a forma como ele parecia ocupar cada espaço por onde passava. A biblioteca ficava numa ala mais escura da mansão. As portas duplas de madeira maciça se abriram, revelando estantes altas, couro, cheiro de papel antigo, luz baixa, uma lareira acesa queimando em silêncio.
Era um lugar bonito.
Mas naquela casa, até a beleza parecia ameaçadora.
Entrei devagar.
Meus olhos correram pelas estantes, pelos objetos antigos, pelos quadros nas paredes. E então... parei.
O ar sumiu dos meus pulmões.
Na parede do fundo, parcialmente iluminado pela lareira, havia um retrato antigo em moldura escura.
Meu pai.
Meu pai estava ali.
Mais jovem do que eu lembrava. Elegante. Sério. Ao lado de três homens que eu nunca tinha visto, todos com a mesma presença dura, perigosa, predatória. Homens que não pareciam empresários, nem políticos, nem amigos comuns.
Pareciam homens capazes de mandar alguém desaparecer com uma única ordem.
Minha pele gelou.
Dei um passo à frente sem perceber.
— Não... — sussurrei.
Damian parou atrás de mim.
Perto demais.
— Agora você começa a entender. — a voz dele veio baixa, pesada, quase junto ao meu ouvido. — Seu pai não era um homem qualquer, Esther.
Fiquei olhando para o retrato, sem conseguir piscar.
Meu coração martelava. Minha garganta queimava.
Se aquilo era verdade... então tudo na minha vida tinha sido uma mentira.
E eu estava presa justamente no centro dela.
Virei o rosto só um pouco, sentindo a presença de Damian como uma ameaça viva nas minhas costas.
— Quem eram eles? — perguntei, quase sem voz.
Houve uma pausa.
Longa demais.
Perigosa demais.
Então ele respondeu:
— Homens que podem voltar a querer você.
E naquele instante, entendi que o pior não era estar na mansão do Don.
O pior era descobrir que talvez aquela prisão tivesse me salvado de algo ainda mais sombrio.
Damian Moretti.— Você vai me contar tudo.Inclinei um pouco mais o rosto.— A não ser… que prefira que eu coloque seus miolos para fora aqui mesmo.Mason ficou alguns segundos me encarando.O sangue escorria pelo rosto dele, manchando a camisa e pingando no chão de mármore. Mesmo machucado, ainda havia alguma coisa naquele olhar.Um sorriso. Pequeno. Sujo.Aquilo fez meu sangue ferver.— Você acha que eu tenho medo de você? — ele perguntou, cuspindo um pouco de sangue no chão.Fiquei em silêncio.A arma continuava encostada na testa dele.— Não. — respondi. — Acho que você já entendeu que deveria ter medo.O sorriso dele aumentou.— Então talvez devesse perguntar quem está por trás disso.Meu maxilar travou.— Estou perguntando.— Você não vai gostar da resposta.Apertei a arma contra a testa dele.— Fale.Mason respirou com dificuldade e soltou uma risada baixa.— Foi alguém que sabe que você está ficando poderoso demais, Damian. Alguém que sabe que seu império está crescendo rápido
Damian Moretti.A fumaça do cigarro subia devagar no meu escritório escuro, se espalhando pelo ar pesado enquanto eu encarava os relatórios sobre a mesa. Papéis, rotas, horários, movimentações.Nada ali parecia aleatório. Nada. O ataque no gramado não tinha sido sorte. O atirador sabia exatamente onde Esther estaria, em que momento, em qual parte da mansão. Ele tinha informação demais. Precisão demais. Isso significava uma coisa. Alguém estava falando. Alguém dentro da minha casa.Meu maxilar travou enquanto eu levava o copo de uísque aos lábios. O líquido desceu queimando, mas não o suficiente para apagar a irritação crescendo dentro de mim. Marcus morto. Esther sendo observada. Um atirador escondido nas colinas com uma foto recente dela.Aquilo não era só um ataque. Era infiltração. Era traição. E eu odiava duas coisas naquele mundo: fraqueza… e traição. Meu telefone tocou sobre a mesa. Peguei no segundo toque.— Fale.A voz do outro lado era de um dos meus homens. Um dos poucos em
Esther Hawthorne.O silêncio dentro do quarto estava me sufocando. Eu andava de um lado para o outro, os passos inquietos, descompassados, como se o movimento pudesse organizar o caos dentro da minha cabeça. Mas não organizava. Nada organizava.Tudo estava uma confusão, primeiro, pensava em Marcus, o que houve naquele dia foi estranho demais, rapido demais, depois, foi o tiro, o tal atirador, que estava escondido, eu não consegui o ver. O medo que ainda estava preso no meu peito como um nó apertado demais. Eu passei a mão pelo cabelo, respirando fundo, tentando me acalmar, mas era impossível. Estava acontecendo tudo rápido demais.Quem matou Marcus? Quem tentou atirar hoje? Era o mesmo inimigo? Era alguém diferente? E por quê? Por que tudo isso estava acontecendo… comigo?— Droga… — murmurei baixo, parando no meio do quarto.Eu não sabia de nada. Nada. E isso… Era o pior de tudo.Fechei os olhos por um segundo, tentando pensar com clareza, mas só vinha mais perguntas. Mais dúvidas. M
Damian Moretti.O som ainda ecoava na minha cabeça. O disparo... e estava próximo demais.Meu corpo reagiu antes da mente terminar de processar, puxando Esther contra mim, rolando com ela pelo gramado, protegendo, cobrindo, impedindo que qualquer outro tiro encontrasse o alvo que queriam atingir.Porque agora estava claro. Aquilo não era um aviso qualquer. Era um ataque direto.Minhas mãos ainda estavam firmes na cintura dela, sentindo o tremor leve do corpo sob o meu. Os olhos dela… estavam diferentes. Assustados. O pânico ali era real, cru, sem máscara. E aquilo… Me deixou furioso.— Respira. — murmurei, firme, autoritário, tentando manter o controle naquele caos que se formava ao nosso redor.Mas meus olhos… já estavam em outro lugar, procurando, calculando, caçando quem fez isso. E quando descobrisse, iria pagar com a vida. — Don! — um dos meus homens gritou, se aproximando com cautela. — Movimento na colina.Meu maxilar travou, claro, era um atirador à distância, covarde. Minha
Esther Hawthorne.O cheiro da grama ainda úmida invadiu meus sentidos assim que pisei no gramado, mas não foi isso que prendeu minha atenção.Foi ele. Damian. Ele estava de pé, no centro, cercado por homens armados, falando com firmeza, dando ordens com aquele tom que não aceitava questionamentos. Os seguranças estavam mais numerosos do que antes. Mais atentos. Mais tensos. Alguns com as mãos próximas às armas, outros analisando cada canto como se esperassem que algo acontecesse a qualquer segundo.E talvez esperassem mesmo. Não podíamos baixar a guarda, sei que Damian e seus olhos estão sempre alertas. Eu dei mais alguns passos, sentindo o peso daquele ambiente diferente. Mais fechado. Mais perigoso. Mais real. Eles estavam em alerta. Todos. Por causa do que tinha acontecido dias atrás.Por causa de Marcus.Meu peito apertou levemente com o pensamento, mas não parei. Continuei andando, firme, até que Damian virou o rosto na minha direção. Ele me viu. Claro que viu.Os olhos dele pas
Esther Hawthorne.O som da escova deslizando pelos meus cabelos era o único ruído dentro do quarto naquela manhã.Mas nem isso era suficiente para acalmar a confusão dentro da minha mente. Dias tinham se passado… e ainda assim, eu não conseguia esquecer.Sobre o Marcus. O jeito que ele falou comigo. O que ele disse… e principalmente… o que ele não disse.Ele iria me contar tanta coisa, estava nítido em seu olhar e agora, não iria saber de nada. Porque... Ele morreu, daquele jeito, tão rápido. Foi tudo tão silencioso, estranho demais. Meu estômago se apertou enquanto eu parava o movimento por um segundo, encarando meu reflexo no espelho.Quem tinha feito aquilo?Por quê?E… o mais importante… Ele morreu por minha causa?A ideia me atingiu com força. Se ele não tivesse falado comigo… Se não tivesse se aproximado…Ele ainda estaria vivo? Respirei fundo, tentando afastar aquele pensamento antes que ele se tornasse insuportável.Não. Aquilo não era coincidência. Era um aviso. E eu estava







